20 anos antes
- Você não pode pedir figa quando eu estou quase te pegando.
Isso não vale. – Tiago diz, enquanto faz cara de frustrado.
- Posso sim. Você não falou nada
sobre isso, quando conversamos sobre as regras da brincadeira. – Respondi, como
sempre, bancando a engraçadinha e colocando as regras ao meu favor. – Além do
que, combinado é combinado. Se não é combinado, está ralado.
Meu nome é Annelise Pimenta, tenho
oito anos e estou brincando com meu vizinho Tiago. Além de meu vizinho, ele é
meu colega de classe, apesar de ser um ano mais velho que eu. Ele sempre diz
que a dona Neide, mãe dele, não queria que ele fosse para a escola, até que um
dia o pai dele obrigou-a a deixá-lo ir, como um garoto normal.
Parece que ele era doente quando era
bebê e por isso dona Neide ainda o trata como se tivesse dois anos.
Tiago é um garoto magrinho, sardento
e de cabelo loiro. Ele possui olhos verdes, que sempre ficam vermelhos quando ficamos
correndo no sol. As nossas mães sempre brigam quando passamos muito tempo
brincando pelo nosso Bosque do Segredo, mas é mais forte que nós. O Bosque do
Segredo é nosso lugar favorito no mundo. Ele fica no final da nossa rua e não é
muito grande, mas tem muitas arvores e é bem isolado dos olhos curiosos e
controladores de nossos pais. Aqui podemos fazer tudo o que nossas famílias não
deixam, como por exemplo, correr descalço e no meu caso, soltar meus cabelos ao
vento.
Assim como a mãe do Tiago, a minha
também não é nada fácil. Ela não gosta de ver meu cabelo solto. Como ele é
comprido e cacheado, acaba embaraçando e depois dá um trabalho enorme para
penteá-lo, por isso minha mãe insiste em fazer um coque, no estilo bailarina,
sempre que venho brincar. Coque que sempre desfaço quando chego ao Bosque dos
Segredos.
Apesar de eu ser muito magra, feia e
desengonçada, consigo correr e subir em arvores com facilidade, mas uma coisa
me tira do sério, enroscar meu cabelo em galhos e folhas.
Foi por isso que pedi ‘figa’, que é
uma espécie de intervalo, na nossa brincadeira de policia e ladrão. Enrosquei
meu cabelo em um galho enquanto corria e preciso tirar as folhas que estão
presas na minha cabeça.
- Ti, só espera um minutinho.
Preciso tirar essas folhas e vou ser obrigada a prender meu cabelo, ou vai
ficar sempre enroscando.
Tentei explicar o motivo, mas como
ele é um menino, não entende.
-Você poderia amarrar ele depois que
eu pegasse você. Porque eu estava quase pegando. – Diz ele, ainda chateado por
ter que ficar parado onde está, enquanto eu termino de amarrar meu cabelo.
Como não sou boba, aproveitei que
ele estava distraído, terminei de amarrar o cabelo e corri o mais rápido que
pude. Vi minha salvação a poucos metros. Uma arvore onde poderia subir e não
seria alcançada pelo Tiago, porque ele não sobe em arvores. Acho que ele tem
medo de altura.
Quando estava subindo, ele me
alcançou resmungando e xingando, dizendo que eu era uma trapaceira. Enquanto eu
tentava subir mais alto, ele segurou minhas pernas e me puxou para baixo,
soltei uma das mãos para empurrar a cabeça dele, mas nesse momento me
desequilibrei e cai em cima dele, o fazendo cair de costas no chão.
Foi muito rápido. Só consegui ouvir
os nossos gritos assustados e depois senti a dor e a ardência no meu braço.
Na queda, Tiago e eu cortamos o
braço em um galho que estava no chão. Meu braço esquerdo e o braço direito dele
estavam cortados como se tivessem passado uma espada. Era uma linha reta que
começava no braço dele e terminava no meu, ou vice versa.
Nossas roupas além de sujas, estavam
rasgadas. Meu vestido amarelo favorito estava com um rasgo enorme na manga e a
camiseta azul dele também.
- Droga. Estamos ferrados. – Disse
Tiago enquanto levantava debaixo de mim. – Olha o estado da nossa roupa. Minha
mãe vai me matar.
- Nosso enterro vai ser junto,
porque a minha também vai me matar. – Eu concordei, falando lentamente,
enquanto olhava com calma o tecido rasgado da camiseta dele ficar com uma cor
mais escura
– Ti, o que é isso? – Perguntei enquanto virava meu rosto
para olhar o meu próprio braço e ver o liquido vermelho escorrendo.
Enquanto eu me sentia fraca e com a visão turva, eu
consegui ouvi-lo dizer:
- É sangue, Anne.



2 comentários:
Estou começando a ler agora e já estou louca para saber mais sobre esse casal que já ganhou meu coração!!.
Que bom que está gostando. Fique a vontade para comentar sempre que quiser e aproveite para fazer parte do meu grupo no facebook.
https://www.facebook.com/groups/MariaAliceBianchini/
Beijos.
Postar um comentário