Diego
Não gostei dele!
Simples assim.
Meu alerta soou. Há algo de errado com esse primo da Deb.
Além do fato dele estar me encarando e visivelmente me avaliando, há algo na
forma como ele olha pra ela que me faz ter vontade de bater nele. Bater muito.
Já Deb está calma, um pouco pálida, mas calma.
Depois das apresentações feitas, onde me apresentei como
namorado, pois vi que Deb ficou sem saber como me apresentar, já que nunca
demos rotulo ao nosso relacionamento, o clima fica um pouco estranho. Um
silêncio constrangedor permanece entre nós três.
- Di, você já vai? – Deb me pergunta meio sem jeito.
Quebrando o silêncio.
Pode ser impressão minha, mas ela parece estar tentando me
dispensar de uma maneira muito delicada.
- Na verdade estou pensando em subir e tomar um chá com
você. Por que não chama seu primo e subimos todos?
- Na verdade, eu ia marcar de conversar com o Léo em outro
dia. Tenho cliente mais tarde. – Ela virou totalmente para mim, dando as costas
ao tal Léo e me olhou nos olhos e deu um leve levantar de sobrancelha, enquanto
falava. Depois se virou para o primo. - O que você acha Léo, podemos marcar um
café amanhã nesse horário?
Meu alarme soou novamente. Deb estava claramente mentindo.
Agora minha dúvida era saber por quê.
- Claro, boneca. – Ele sorriu pra ela e senti vontade de
estrangulá-lo. – Amanhã eu te ligo.
- Mas você não tem...
- Seu irmão me deu o número do teu celular quando disse que
viria pra cá. – Ele falou e senti Deb ficar tensa pela primeira vez. Quando ele
deu um passo para frente, ela automaticamente deu um passo para trás e bateu
contra meu corpo, aproveitei a deixa para abraçá-la possessivamente. Ao ver o
gesto, o primo dela deu um passo para trás novamente. – Como eu disse, eu te
ligo pra gente marcar. Tchau boneca.
Quando ele dobrou a esquina e saiu do nosso campo de visão,
soltei a Deb e a virei pra mim.
- Posso dizer que não gostei dele? – Perguntei.
- Pode, porque você não é o único que não gosta dele. – Ela
me respondeu e colou seu rosto em meu peito.
- Algo que eu precise saber sobre ele?
- Só precisa saber que ele é um idiota e que não é nada
confiável. Nunca cometa a burrice de acreditar em qualquer coisa que ele diga.
Algo no que ela disse chamou minha atenção. Imediatamente,
peguei seu rosto entre minhas mãos e a fiz me olhar.
- No que você confiou nele?
Ela ficou em silêncio e me encarou por um instante. Seus
olhos me mostravam a batalha que ela travava dentro de si. Se abrir comigo ou
não. Desejei que a confiança em mim vencesse, mas não foi dessa vez.
- Desculpa Di, mas é uma longa história e que há muito tempo
enterrei. Não me faça falar sobre isso agora.
- Tudo bem. – Mesmo frustrado, não insisti.
- Posso te pedir uma coisa? – Ela perguntou baixinho e
voltou a colar o rosto em meu peito.
- Claro. – Respondi dando um beijo em seu cabelo.
- Fica comigo essa noite?
- Fico. – Respondi simplesmente, mas ao vê-la daquela forma
em meus braços, tive vontade de dizer que ficaria todas as noites, se ela me
pedisse.
***
Deb
Tudo que eu não queria nesse momento era ficar sozinha.
Assim que chegamos ao apartamento o Di se ofereceu para esquentar o nosso
jantar, um arroz com feijão, salada e frango grelado que já estavam
semi-prontos. – Sente no sofá e relaxe, vou esquentar nosso jantar e fazer um
chá. – O Diego falou com um tom firme porém carinhoso.
- Só vou pegar as coisas no congelador e na geladeira para
facilitar pra você. – Eu falei e foi o que fiz. Peguei as vasilhas com a comida
congelada e coloquei tudo em cima da mesa juntamente com as coisas para
preparar a salada e o chá. –Tem certeza que não quer ajuda? – Perguntei
enquanto voltava para a sala.
- Não, Deb. Pode
sentar hoje sou eu quem vai “cozinhar” para você. – Ele fez as aspas com as
mãos e eu sorrir, beijei os lábios dele em um pedido silencioso de obrigada e
sentei no sofá ligando a tv em um canal qualquer e me afundando em lembranças.
Por mais que eu soubesse que
reencontrar Léo seria inevitável, já que ele é meu primo, eu não esperava que
ele tivesse a cara de pau de aparecer no meu apartamento. Ainda mais que
estivesse me procurando. Depois de todos esses anos e de todas as mentiras que
ele me contou, a ultima pessoa que ele deveria querer ver era eu.
Léo e eu crescemos juntos e nossos
cinco anos de diferença de idade não nos impediram de sermos muito próximos.
Desde pequeno ele sempre foi lindo. O típico alemão, loiro dos olhos azuis,
alto e forte. Aos dezesseis anos ele era a cara do Alex Pettyfer no filme A
Fera. Como se já não bastasse sua beleza, ele sempre foi comunicativo e
extremamente extrovertido. Conquistava a todos com sua simpatia e carisma. Eu
não fui uma exceção.
A partir do meu aniversário de
quinze anos, Léo começou a investi fortemente em me conquistar. Eram
galanteios, conversas de duplo sentido, carinhos, presentes e muitos sorrisos
encantadores. Eu como uma menina do interior, ingênua e romântica, lutei contra
meus sentimentos. Não queria me envolver com ele, principalmente por ele ser
meu primo de segundo grau, mas quando ele disse que estava apaixonado, me
entreguei ao meu primeiro amor.
Lembro-me até hoje do meu primeiro
beijo, foi na primeira vez que ele disse que estava apaixonado por mim. Eu já
tinha dezesseis anos e era encantada por ele, ele tinha vinte e um anos e sabia
como me enrolar.
Eu estava de férias da escola e
aproveitava o dia para andar a cavalo pelo sitio que meu pai tem em Pomerode. A
liberdade de cavalgar pelos pastos sem ninguém me controlando era imensa, então
eu aproveitava para fazer isso todos os dias no final do dia. Dentro do sitio
passava um pequeno riacho, onde eu levava meu cavalo para beber água. Nesse
dia, amarrei as rédeas do cavalo em uma árvore e me sentei sob a árvore para
poder ler um romance infanto-juvenil.
Não lembro muito da história do
livro, mas lembro que eu estava entretida com o livro, quando Léo chegou em
outro cavalo e parou e sentou-se ao meu lado. Começamos a conversar e ele então
ficou em silêncio.
- O que foi? – Perguntei.
- É que eu queria fazer uma coisa,
mas tenho medo da sua reação. – Ele disse, olhando para o pequeno capim que
estava em suas mãos.
- Por que você teria medo da minha
reação? – Eu fiquei curiosa.
- Deb, você sabe o quanto é linda?
Você parece uma boneca de tão linda. Eu simplesmente não estou conseguindo
controlar o que sinto por você. – Ele falava baixinho e se aproximava ainda
mais de mim. – Faz muito tempo que espero você crescer para que possa te dizer
isso, mas te vendo vestida assim percebo que você está se tornando uma mulher
deslumbrante.
Ao ouvi-lo falar, olhei brevemente
para minhas roupas que nada mais eram que um tênis simples, um short jeans e
uma blusinha rosa. Não havia nada demais na minha roupa, mas naquela época eu
não sabia que ele estava muito mais interessado nas minhas pernas longas e em
meus seios fartos.
- Léo, eu... Eu não sei o que dizer.
– Eu estava encabulada e completamente encantada pelos elogios dele.
- Deb, eu estou apaixonado por você.
É isso que quero dizer. – Ele estava com o rosto tão próximo do meu, que eu
podia ver todos os detalhes de seus olhos azuis e as pequenas sardas que ele
tinha nas maçãs do rosto. – Estou apaixonado por você há muito tempo e eu quero
lhe dar um beijo. Me dê um beijo, Deb. Apenas um, e se você não gostar, prometo
não me aproximar mais de você.
Ao dizer isso, ele acariciou meu
rosto com tanta ternura que meu coração saltitou em meu peito juvenil. O
romance dos livros que eu tanto gostava estava acontecendo comigo. O garoto
mais velho, lindo e inteligente estava apaixonado por mim, a garota simples,
boba e infantil.
- Apenas um... – Sussurrei e fechei
meus olhos.
O problema foi que eu gostei. Gostei
do beijo, gostei dele, gostei de namorar escondido e gostei principalmente
porque ele era incrivelmente sedutor.
No começo eram apenas beijinhos e
carinho. Isso durou uns seis meses assim, apenas um namoro as escondidas de
forma respeitosa, porém chegou em um ponto onde os beijos começaram a se tornar
mais intensos e as mãos dele começaram a ganhar vida. No inicio era uma caricia
em meus seios por cima da blusa, depois ele começou a passar a mão nas minhas
costas por baixo da blusa. Eu ficava apreensiva, mas ele agia de maneira
natural e em meio aos tórridos beijos que faziam meus hormônios adolescentes
ferverem, suas mãos iam explorando meu corpo. Nunca o deixei passar sua mão
além do meu umbigo, mesmo com todos os pedidos dele, mas isso não o impedia de
esfregar sua perna entre minhas pernas e me deixar excitada.
Esse esfrega-esfrega, as caricias e
os beijos tórridos foram minando minha resistência, e como estava completamente
apaixonada, no meu aniversário de dezessete anos marcamos de nos encontrar durante
a madrugada ao lado do riacho.
Eu tinha amigas da escola que já
haviam perdido a virgindade e me contaram como era e todas as cenas quentes dos
livros de banca que eu lia, me fizeram desejar ter minha primeira vez. Seria
uma noite especial. Era a noite do meu aniversário, seria com o namorado que eu
amava e seria sob a luz da lua. Nada poderia ser melhor.
Doce ilusão.
Quando cheguei ao nosso encontro
encontrei Léo alterado. Ele havia bebido. No inicio ele tentou ser delicado e
carinhoso. Como eu estava com medo de sentir dor, pedi para ele ir com calma.
Depois de alguns beijos e amassos, nossas roupas foram sendo tiradas
lentamente. Quando ambos estávamos nus, toda a delicadeza de Léo foi para o
espaço.
- Quanto mais rápido for, menos dor
você vai sentir. – Ele me disse, ao se deitar por cima de mim depois de por a
camisinha.
Eu acreditei nele e vi que o que
estava nos livros não era o que acontecia na vida real. Sexo pra mim era
doloroso e sem nenhum prazer.
Depois de consumado o ato, ele
apenas rolou para o lado e me entregou minha roupa.
- Acho melhor você se limpar pois há
sangue. – Ele disse sem olhar pra mim.
Não respondi nada. Eu sabia que
sangraria. Minhas amigas haviam me contado e eu estava prevenida, dentro da
minha bolsa havia uma pequena toalha. Depois de me limpar e me vestir, montei
em meu cavalo a muito custo, por causa da dor, e voltei para casa.
Depois disso Léo e eu voltamos a nos
encontrar algumas vezes, porém meu pai comprou uma casa mais próxima ao centro
de Pomerode e nosso namoro as escondidas ficou cada vez mais difícil. Certa
noite, Léo me pegou em casa de carro e fomos dar uma volta. Eu disse aos meus
pais que iríamos tomar um sorvete, mas ele me levou para uma rua deserta para
transarmos dentro do carro.
Só que nesse dia, ele me pediu para
fazer uma loucura. Ele queria transar em cima do capô do carro.
- Vamos boneca. A rua está escura e
ninguém vai ver. – Ele pediu de maneira carinhosa.
Eu não vi problema e deixei que ele
me convencesse. Chegando a tal rua escura, ele estacionou o carro e me pediu
para descer. Apesar da rua não ter iluminação, a lua cheia clareava tudo e
tornava minha pele branca visível a metros de distância.
Começamos a nos beijar e em pouco
tempo eu estava nua e sentada sobre o capô do carro. Ele havia tirado a camisa,
mas ainda conservava sua calça. No inicio achei estranho, mas não me importei
muito. Logo ele abriu o botão e baixou o zíper apenas o suficiente para que seu
membro saltasse e ele pudesse penetrá-lo entre minhas pernas.
Estávamos no meio da transa quando
começo a ouvir assobios e risadas. Eu congelei na hora. Havia alguém nos vendo.
- Léo, pare. – Pedi. – Pare, tem
alguém nos olhando.
- Não é nada Boneca. Fique calma.
Porém não pude ficar calma, as
risadas e assobios se juntaram a imitações de gemidos e fiquei muito
incomodada. Empurrei Léo e corri para pegar minhas roupas que estavam
penduradas na porta do carro. Antes que eu pudesse começar a me vestir, três
rapazes saíram de trás de um matagal onde eles estavam escondidos.
- Porra galera, eu tava quase
gozando. – Léo disse frustrado.
Olhei pra ele por instante sem
entender, mas quando percebi o que estava acontecendo eu não quis acreditar.
- Léo? – Chamei-o. Eu ainda estava
com as minhas roupas na mão tentando cobrir minhas partes.
- Se eu fosse você me vestiria de
uma vez antes que eles fiquem animados demais.
Eu nunca tinha me sentido mais
humilhada na vida. Entrei no banco de trás do carro, tentando me vestir o mais
rápido possível, eu chorava. Chorei enquanto me vesti, chorei quando percebi
que os amigos de Léo me olhavam pela janela, chorei pela vergonha e chorei
principalmente por perceber que o meu príncipe encantado não passava de um
babaca, arrogante e mentiroso. Tudo que ele quis era me usar e me expor para
seus amiguinhos.
Naquela noite voltei pra casa e com
todo o orgulho que eu tinha, passei a fingir que Léo não existia na minha vida.
Não me dei ao trabalho de voltar a falar com ele, apenas o ignorei. Por dentro
meu coração estava partido, mas por fora adotei cara de paisagem e tentei
seguir minha vida em frente.
Tudo correu muito bem por cerca de
um mês depois daquela noite, porém Léo não aceitou bem o fato de eu não falar
com ele e não querer mais ficar com ele. Foi então que comecei a perceber que
por onde eu andava as pessoas ficavam me olhando. Algumas riam, outras
cochichavam. Certa vez uma senhora veio até mim e disse com todas as letras que
eu deveria ter vergonha de ser uma perdida. Na hora não entendi e quando
comentei com minha amiga Evellin ela muito sem jeito me contou o que estava
acontecendo.
Quando percebeu que eu não iria mais
voltar para ele, Léo começou a contar tudo o que fizemos. Como a cidade é
pequena, a história logo se espalhou. Uma jovem namorando escondido e tendo
relações com o namorado era uma fofoca quente em uma cidade pequena, só que não
satisfeito, Léo depois de beber muito começou a contar sobre a noite em que os
amigos dele nos viram transando, porém na versão dele eu havia transado com
todos.
Quando eu soube disso, fiquei
horrorizada. Como o cara por quem eu me apaixonei e entreguei meu coração e meu
corpo poderia fazer isso comigo? As semanas seguintes foram terríveis. Era
chacota dos alunos da escola, nas ruas as pessoas me olhavam torto, e tudo isso
fazia eu me sentir horrível, mas nada foi pior do que a reação do meu pai
quando ouviu esse boato.
Lembro do dia que ele chegou em casa
mais cedo e eu estava no meu quarto. Ele entrou sem bater e foi logo gritando
comigo.
- Como você pode ter feito uma coisa
dessas Deborah? Como posso ter te criado tão errado ao ponto de você virar uma
prostituta? – Ele gritava.
- Calma, pai. É mentira. É tudo
mentira. – Eu chorava e implorava para que ele me ouvisse.
- É mentira? Você está querendo
dizer que você ainda é virgem? Porque se for isso, eu vou pessoalmente tirar
satisfação com quem começou essa fofoca. – Ele baixou o tom e vi que havia
esperança em seus olhos.
- Não, pai. Eu não sou mais virgem,
mas nunca fiz o que estão dizendo por ai... Com vários ... – Chorei ainda mais.
- Com quem, Deborah? Com quem você
dormiu?
Eu não respondi. Não tinha coragem.
Minha mãe que ao ouvir a gritaria,
interveio tentando acalmar os ânimos.
- Calma, Ambrosius. Deixa que eu
converso com ela. Você está muito nervoso.
- Nada disso. Eu só quero um nome.
- Léo. – Eu sussurrei.
Meu pai pareceu não ouvir, mas então
vi o ódio surgindo em seus olhos. Seu tom baixou e ele sussurrou: - Como você
pode fazer isso? Ele é seu primo. Seu primo Deborah. Você não respeita nem a
família? Que tipo de mulher você se tornou? Uma vagabunda? Minha filhinha se
tornou uma mulher que se deita com qualquer um. – E ele saiu do meu quarto
resmungando em alemão.
A decepção que vi nos olhos do meu
pai e da minha mãe, me rasgou por dentro e naquele momento eu realmente soube o
que era me sentir um lixo.
As semanas seguintes não ajudaram a
melhorar minha situação. Passei a não me importar com o que os outros falavam
ou faziam, mas me importava muito com as reações do meu pai. Ele simplesmente
parou de falar comigo. Passamos quase três meses apenas falando o necessário.
No dia da minha formatura no
terceiro ano, minha mãe veio até o meu quarto.
- Você não vai mesmo para a
formatura? – Ela perguntou.
- Para quê? Para ouvir risadinhas
quando chamarem o meu nome para a entrega do canudo? – Respondi irritada. – Não
obrigada.
- Uma hora ou outra, esse povo vai
esquecer. Você não pode ficar se escondendo pra sempre.
- De que me adianta o povo esquecer,
se meu próprio pai não esquece.
- Ele vai passar por cima disso
também, você vai ver.
- Não mãe, eu não vou ver. – Falei e
ela me olhou sem entender. – Eu não vou ver porque resolvi que assim que fizer
dezoito anos eu vou me mudar daqui.
- Como assim você vai se mudar
daqui?
- A única coisa que venho fazendo
nos últimos meses é estudar e vou prestar o vestibular na capital. Isso eu já
tinha comentado com a Senhora. Se eu passar, vou morar lá. Inclusive a Evellin
também está estudando para isso e Seu Lineu e dona Goret já estão morando lá,
eles falaram que posso ficar com eles.
- Deb...
- Mãe, entenda. Eu não posso sair na
rua sem ouvir uma piada ou coisa pior. Eu não posso sentar na sala sem que eu
veja o olhar de desgosto do meu pai. O que mais eu posso fazer? No final das
contas eu sou a culpa pelos meus atos, mesmo que tenha sido enganada.
- Eu sei que não tem sido fácil pra
você, meu bem, mas dê tempo ao tempo. Daqui a pouco tudo volta a ser como
antes.
- Desculpa, mãe, mas estou
enlouquecendo. Eu preciso respirar. Preciso de liberdade pra ser e fazer o que
eu quiser. Você sabe que não sou esse tipo de pessoa que todos falam.
- Eu sei meu bem. Eu acredito em
você. Só acho que você se mudando vai acabar fugindo do problema ao invés de
enfrentá-lo.
- Ou eu posso estar dando espaço e saindo de
cena para que as pessoas esqueçam de mim.
- Você tem certeza que é isso que
você quer?
- Tenho mãe. Eu preciso poder viver
sem a sombra dos meus erros e sem ter que correr o risco de olhar para a cara
do Léo novamente.
- Ok então. Eu vou ver o que eu
posso fazer para te ajudar. Vou falar com o seu pai.
- Mãe... – Eu sabia que precisaria
de ajuda, mas não queria ter que pedir para meu pai.
- Filha, ele está magoado, mas você
é filha dele e ele te ama.
Depois daquela conversa, vi meus
pais discutindo e brigando algumas vezes, mas minha mãe não tocou mais no
assunto.
Faltando duas semanas para o
vestibular, juntei toda a mesada que eu vinha guardando durante muito tempo e
comprei a passagem de ida e volta até Florianópolis. Cheguei em casa e mostrei
para minha mãe.
- Já combinei com seu pai e com a
Goret. Se você passar no vestibular, vamos bancar as suas despesas iniciais e
você vai ficar lá na Goret.
Eu não podia acreditar. Pela
primeira vez em meses eu senti felicidade de verdade. Eu estava tão alegre que
abracei e beijei minha mãe. Eu tinha um motivo para ter esperança de ser feliz.
Eu me dediquei ainda mais aos estudos. Eu tinha uma meta e precisava alcançar.
Minha meta era ser feliz, mesmo que pra isso eu tivesse que deixar tudo o que
conhecia para trás.
Continua na terça feira...




