quarta-feira, 23 de abril de 2014

Capítulo 10

Três semanas se passaram desde que eu vi o Tiago pela ultima vez. Ele não me procurou e não ligou. Fico aliviada e ao mesmo tempo, chateada. Não quero vê-lo, mas esperava que ele ao menos tentasse falar comigo. Estou parecendo uma adolescente idiota.
Depois que sai do seu escritório, dirigi diretamente para casa. Quando cheguei, liguei para a Deb que estava preocupada comigo e expliquei pra ela o que tinha acontecido. Ela foi a melhor amiga que alguém pode ter, me ouviu e depois do trabalho, chegou na minha casa com um pote de sorvete, filmes de mulherzinha e um ombro amigo. Nunca pensei que pudesse amar tanto ela, quanto naquele dia. Em nenhum momento me pressionou para contar detalhes, e mesmo eu dizendo que estava tudo bem ela ficou ao meu lado e me fez rir com histórias sobre seus alunos e do seu tempo de faculdade.
Depois de ter ligado pra Deb, liguei para meu chefe, expliquei que surgiram problemas importantes que tive que resolver, mas que iria repor àquelas horas e daria aulas extras para os alunos que ficaram sem aula naquele dia. E foi o que fiz. Durante essas ultimas duas semanas eu dei aulas extras de graça para os alunos que perderam aquele dia de aula. Minha carga horária de doze horas, passou para quinze horas, mas mesmo assim, não foi o suficiente para que eu conseguisse chegar em casa tão exausta ao ponto de dormir e não ter pesadelos.
Fazia algum tempo que eu não precisava dos meus remédios para dormir, mas depois da minha conversa com o Tiago, meus pesadelos voltaram com força total. Agora eles alem de me mostrar toda aquela cena novamente, muitas noites eu via o Tiago dentro do carro também. Apesar de odiar tomar os remédios, na segunda noite que acordei com meu pai me sacudindo e dizendo que era um sonho, decidi que tinha que tomar o remédio e apagar em cima da cama. Sem sonhos bons e nem ruins. Apenas um corpo inerte.
Mesmo estando um pouco grogue no dia seguinte, eu consegui trabalhar, dar minhas aulas extras, organizar minha viagem e de quebra fazer mais algumas apresentações com o Diego.
Nossa amizade mesmo estremecida, ainda é forte o suficiente para que ele se preocupasse comigo. Depois de uma das nossas apresentações, quando ele me levava para casa, ele não resistiu e perguntou:
- O que aconteceu, Anne? Você anda tão abatida.
- Nada demais, eu só ando trabalhando demais. – Respondi sem olhar em seus olhos.
- Porque será que não acreditei nisso. Você brigou com ele, né? – Ele não precisava dizer o nome, eu sabia quem era o ele.
- Eu não quero falar sobre isso Digu. – Respondi olhando pela janela.
- Você não quer falar, mas ouça pelo menos. – Ele disse sério. – Quando tivemos aquela conversa na sua casa, nós dois dissemos muitas coisas e eu posso dizer que realmente acreditei que você era a mulher certa pra mim, mas agora comecei a perceber que eu quero alguém que me ame como você ama o Tiago...
- Eu não... – Tentei interromper, mas ele não deixou.
- Não adianta negar. Você mudou depois que ele chegou Anne. Você era uma garota livre, alegre e sem medo de se jogar, agora você vive introspectiva, com um olhar de quem está em outro mundo.
Eu não podia contestar. Depois que o Tiago chegou, minha vida e meu humor mudaram mesmo.
- Você não entenderia, Digu.
- Anne, você não tem que me contar nada. Eu só quero que entenda que aceitei e entendi que o que há entre nós é uma bela amizade e nada mais. Por isso que quero deixar claro que me importo com você. Quero o seu bem e a sua felicidade, tanto quanto quero a minha. Até andei pensando no que você me falou sobre estar na hora de eu encontrar uma mulher que me ame. Acho que está na hora de encontrar a mulher que vai ser minha esposa e mãe dos meus filhos. – Ele disse com um sorriso tímido, de quem tem vergonha de dizer que está em busca do verdadeiro amor.
- Que bom que você pensou nisso. Já tem alguma candidata? – Perguntei, um pouco mais animada. Meu amigo estava começando a pensar no amor e no futuro.
- Ainda não evolui tanto, apenas estou amadurecendo a ideia. – Ele me deu um olhar de relance, como que para avaliar minha reação ao que disse, eu não perdi tempo e dei um pequeno sorriso.
- Porque você não chama a Deb para sair, quem sabe um jantar. – Eu vou insistir nisso até ele pelo menos sair com a Deb uma vez. Algo me diz que eles vão se dar muito bem.
- Quem sabe outro dia. – Ele disse pensativo.
Pelo menos ele não descartou a ideia. Já era um avanço.


***


Minha viagem era no dia seguinte e eu estava uma pilha de nervos. Já estou com todos os documentos e as malas prontas, mas eu não me sinto pronta. A sensação que tenho é que essa ida para Madri vai mudar minha vida. Só espero que seja para melhor.
Meu dia começou muito bem. Dei minhas ultimas aulas e ganhei uma festinha de despedida dos meus alunos. A partir de amanhã quem assume é o Diego. As alunas já estão animadíssimas em ter ele como professor. Estou rezando para ele não ter problemas com nenhuma delas e nem com nenhum marido ou namorado ciumento.
Quando já passava das nove horas da noite, cheguei em casa. Cansada, ansiosa e com fome. Abri a porta da sala, joguei a chave no aparador próximo a porta e fui direto para a cozinha. Ao chegar na porta, quase cai para trás com o susto de encontrar meu pai e Tiago, sentados à mesa, tomando um café.
- Oi. – Ele me disse timidamente.
- Oi querida. Está com fome? – Meu pai me perguntou com um sorriso no rosto e cara de quem estava falando de mim.
- Oi. – Eu disse e caminhei em direção a geladeira. – Só vou tomar um iogurte e já vou subir.
Aproveitei que estava de costas para eles e respirei fundo para acalmar meu coração.
- Anne, sente e coma alguma coisa. Aproveita para conversar com o Tiago, que está aqui te esperando faz algum tempo.
Eu não precisei me virar para saber que meu pai tinha deixado a cozinha só para nós dois. Eu senti no ar. Eu podia sentir seus olhos sobre mim e por mais que eu quisesse evitar seus olhos, eu não poderia ficar encarando a geladeira aberta pelo resto da vida. Respirei fundo, uma segunda vez e fui me sentar na sua frente.
- Você quer falar comigo? Estou aqui. – Disse, friamente.
- Eu queria te ver. Saber como você está. – Ele disse, olhando em meus olhos.
- Você já viu e deve estar vendo que estou muito bem. Agora se me der licença, estou cansada. – Respondi e comecei a me levantar, mas ele segurou minha mão e uma descarga de adrenalina percorreu meu corpo.
- Não Anne. Fique. Eu vim te pedir um favor.
Eu não respondi, apenas puxei minha mão e cruzei meus braços sobre meu peito.
- Depois de tudo que você me falou naquele dia, eu levei algum tempo pensando e digerindo todas as informações e emoções. Agora que o impacto já passou, queria te pedir para conhecer um pouco da filha que tivemos.
Eu esperava qualquer coisa dele, mas nunca imaginei que ele quisesse saber mais sobre a Clara. Não quero acreditar que ele se importe tanto assim com ela, com a criança que ela era. A imagem dela sorrindo feliz, correndo e brincando vem a minha mente com a força de um soco. Meu estomago se contorce e lágrimas surgem em meus olhos. Luto contra as lágrimas, não vou chorar na frente dele novamente.
- Falar sobre ela não é coisa mais agradável do mundo, mas posso te dizer algumas coisas. O que você quer saber? - Perguntei pra ele, sem encará-lo.
- Quero saber tudo. Você tem alguma foto dela? Seu pai me disse que você guardou todas as fotos dela que tinha pela casa.
- Guardei. – Respondi baixinho. – Estão todas no meu quarto, vou buscar e te mostro.
Quando levantei para ir buscar, ele levantou também e me seguiu. A minha ideia era eu ir sozinha buscar as fotos enquanto ele aguardava. Passei pela sala e vi que meu pai não estava lá, ele devia ter ido para seu próprio quarto.
Depois de subir as escadas, paramos em frente a minha porta e já fui avisando:
- Não repara a bagunça, mas estou arrumando minhas malas.
- Você vai viajar? – Ele pergunta interessado.
- Vou. – Respondi, sem dar mais informações e ele percebeu que eu não queria falar sobre isso. - Senta em algum lugar, que vou pegar a caixa com as fotos.
Virei-me para o guarda roupa para pegar a caixa com as fotos. Ela estava no maleiro do guarda roupa, em cima de outra caixa. Estiquei-me toda para alcançar, mas meus dedos apenas raspavam na caixa. Dei um pulinho, na tentativa de puxar a caixa. Não consegui. Sem perder a oportunidade, Tiago se aproximou e com seus centímetros a mais, pegou a caixa. Porém eu não vi nada disso, eu estava de olhos fechados, tentando controlar minha respiração ao sentir seu corpo de encontro ao meu. Ele colou seu peitoral em minhas costas e pude sentir seu perfume, os músculos de seus braços roçando os meus braços ao baixar a caixa na minha frente, mas nada me preparou para senti-lo aproximar a boca do meu pescoço, inalar meu cheiro e dar um beijo de leve. Senti um arrepio percorrer todo meu corpo, minha respiração ficou presa na garganta e minha cabeça se inclinou levemente, lhe dando mais acesso. Meu corpo estava me traindo e entregando toda a saudade e a vontade que eu sentia dele.
Quando o segundo beijo veio, minha respiração saiu junto com um gemido, pois era um beijo molhado dado no alto do pescoço, perto da minha orelha. Um lugar que me faz ronronar. Eu estava cedendo sem que fosse preciso praticamente nenhuma pressão. Ele estava me seduzindo lentamente com beijos lentos e meu corpo estava buscando o corpo dele. Aos poucos, senti meu corpo virar e ficar de frente com ele. Quando nossos lábios se tocaram, meu cérebro não passava de uma gelatina, mas outras partes do meu corpo estavam acordando e ganhando vida. Minhas mãos se apoiaram em sua barriga e subiam para seu peito, seu pescoço, até parar na sua nuca. Minhas pernas me fizeram inclinar até ajustar meu corpo ao seu e senti como se meu sangue estivesse sendo bombeado totalmente entre minhas pernas. Eu suspirei em sua boca.
Nosso tórrido beijo se quebrou quando a caixa de fotos que estava em sua mão caiu, fazendo barulho e batendo na minha perna, espalhando as fotos pelo chão.
- Merda. Deixa que eu faço isso – Resmunguei ríspida, mais pelo fato de ter beijado ele, do que por ter que me abaixar para juntar todas as fotos.
- Você ainda tem isso? – Ele falou baixinho.
Como eu estava abaixada juntando as fotos da Clara, não vi sobre o que ele estava falando, mas quando ele passou por mim e se esticou novamente para pegar outra caixa de dentro do maleiro do guarda-roupa, eu soube do que ele estava falando.
- Não... - Eu comecei a dizer, mas não deu tempo. Ele já havia pego a caixa e a tirado a tampa.
- Você tem guardado isso por todos esses anos?
- Não. Joguei fora, mas os lixeiros devolveram. – Respondi mal humorada, terminando de juntar as fotos do chão e sentando na beirada da cama. – Você veio até aqui para ver as fotos da Clara ou pra ver as tranqueiras que guardo?
Vi ele sorrir de leve ao tocar as coisas que estavam na caixa no colo dele.
- Porque você guardou todos os presentes que te dei? – Ele perguntou. Não respondi. – Meu soldadinho. Esse foi o primeiro presente que te dei, não foi?
- Sim, foi. - Falei baixinho e tratei de mudar de assunto.
Sentei do outro lado da cama, cruzando meus pés embaixo das pernas e colocando a caixa na minha frente para escolher e arrumar as fotos. Fazia muito tempo que eu havia guardado elas, algumas estavam amarelando com o tempo e outras eu nem lembrava que estavam lá, como as minhas fotos grávida. Tentei organizar as fotos em ordem cronológica para que ele visse a Clara desde que ela nasceu, mas como meus pais eram muito corujas com ela, havia milhares de foto. Vários momentos diferentes. Fotos na maternidade, primeiro banho, primeira papinha, primeira ida à praia, primeira vez que engatinhou, primeira vez que ficou em pé sozinha e sem se segurar. Tudo era motivo para fotos lá em casa. Agora revendo todas elas, sinto tanta saudade da Clara que me falta o ar.
Pego uma das fotos, uma foto do primeiro dia dela na creche, com a camiseta branca e o short-saia azul que era uniforme da creche. Ela mal caminhava nessa época. Tinha nove meses. Nunca vou esquecer que quando a deixamos na porta de sua salinha, ela sorriu de orelha a orelha por ter outras crianças junto com ela. Ela adorava crianças. Queria abraçar, beijar, apertar e muitas vezes, apertava demais. Naquele primeiro dia foi uma alegria imensa pra ela e um dia incrivelmente angustiante para mim. Sai da creche chorando por ter que deixar minha filhinha com pessoas que ela não conhecia, fiquei com medo que ela estranhasse e chorasse, mas eu tinha que ir a aula. Tinha vários meses de aulas para recuperar.
- Não precisa fazer isso, se não quiser. – Tiago sussurrou, me tirando do transe em que estava e me fazendo reparar que ele estava ao meu lado com algumas fotos na mão e um olhar estranho em seu rosto. – Ela era linda.
- Sim. Ela era linda, inteligente, encantadora e tinha os seus olhos.
Olhei pra ele de relance e vi um vinco se formar em sua testa. Ele parecia tenso antes de falar novamente.
- Como você aguentou? Eu digo... Ela era tão parecida comigo. Chega a ser impressionante como os olhos eram verdes iguais aos meus, mesmo que o cabelo fosse igual ao seu.
- No começo foi mais difícil. Ela tinha até os teus trejeitos, enrugava a testa como você está fazendo, sempre que estava concentrada. Ela era canhota. Tinha seus olhos, seu sorriso.. – Eu disse, entregando uma foto onde a Clara estava com dois anos e sorrindo com um ovo de páscoa na mão. – Ela sempre fazia alguma coisa que me lembrava você, mas acho que é esse o vinculo que une o pai e a mãe de uma criança pra sempre. É ver na criança semelhanças do outro.
Nós não falamos por um tempo, apenas olhamos as fotos da Clara. O silêncio era confortável. Senti que o Tiago estava apreciando ver as fotos, mas ele não parava de se mexer na cama. Ele parecia estar tentando relaxar ao meu lado. Quando chegamos na parte das minhas fotos grávida, eu parei e comecei a guardar as fotos que estavam espalhadas pela cama. Ele tinha uma foto minha com a Clara em sua mão.
- Posso ficar com essa foto? – Ele perguntou.
Eu não queria dizer sim, mas não tinha argumento nenhum para negar.
- Pode. Essa foi uma das ultimas fotos que batemos juntas. - Eu disse, olhando para uma foto que eu mesma bati com ela sentada no meu colo e o rosto colado ao meu. Nós duas sorriamos na foto. – Foi um final de semana antes do acidente.
Tentei devolver a foto, mas ele não a pegou. Ele me olhou nos olhos e segurou minha mão antes de dizer:
- Me perdoa?
Eu fiquei alguns instantes presa em seu olhar, sem saber o que responder. Eu poderia apenas dizer que perdoo, mas não seria de coração. Ao mesmo tempo, o que eu estaria perdoando? Por ele ter preferido casar a voltar pra mim, por ele não ter conhecido ela ou por ele não ter estado ao meu lado quando ela faleceu?
- Tiago, eu...
- Anne, se você soubesse o quanto eu tenho me arrependido das minhas escolhas. Se eu pudesse voltar no tempo...
- Mas você não pode. – Respondi secamente, levantando e começando a guardar as fotos.
- Anne, desculpa por não ter te contado antes que eu era casado, mas meu casamento não era um casamento convencional. Era apenas no papel.
- Isso não tem importância. Eu gostaria sim, que você tivesse me dito isso desde o inicio. Porém tem uma coisa que eu não entendi, se você é casado, porque me procurar agora, porque me contratar, dar o celular, fazer toda aquela palhaçada? – Essa questão estava me deixando maluca há dias. Eu precisava de uma resposta.
- Durante todos esses anos, eu não te esqueci nenhum dia e quando tive a oportunidade de te ver, eu fiz tudo ao meu alcance para te encontrar. Só me arrependo de não ter sido honesto com você desde o inicio, desde o nosso reencontro, mas não me arrependo de nenhum dos nossos beijos ou do amor que fizemos no meu tapete.
- Você não se arrepende? – Perguntei incrédula, encarando-o enquanto ele levantava da cama com a caixa dos presentes na mão. – Pois eu me arrependo. Não sei o que você pensa de mim, mas não me envolvo com homens casados. Não sou santa, mas algumas coisas eu respeito. Uma delas, é o casamentos alheio. Agora se você já viu as fotos, eu gostaria que você fosse embora.
- Minha presença te incomoda? Será que você não pode nem ao menos ser minha amiga novamente?
- Eu simplesmente não consigo ser sua amiga depois de tudo o que aconteceu. – Respondi, olhando fundo nos seus olhos. Olhos que se aproximavam cada vez mais de mim. Olhos que pareciam ver toda a verdade na minha alma. Eu precisava ser honesta com ele, mas principalmente comigo. – Não consigo ficar perto de você sem que meu coração dispare e as recordações dos momentos que passamos juntos não voltem a minha mente, mas não quero e não vou me envolver com um cara casado, nem que ele seja você.
- Você não vai se envolver com um cara casado. – Ele disse parando a poucos centímetros de mim, depois de alguns segundo apenas me olhando. – Você não vai fazer isso, porque eu esperei todos esses dias pra te procurar, pois eu estava em processo de divorcio e assinei os últimos documentos hoje. Assinei, e vim te ver. Como um homem legalmente livre e desimpedido. Agora vou te perguntar de novo, Você não pode nem ser minha amiga novamente?
Eu não respondi, apenas me perdi na imensidão de seus olhos verdes. Eu havia sido capturada e não havia volta. Pela segunda vez na minha vida, eu não sabia o que sentia por ele, na primeira vez foi o garoto, meu melhor amigo quem confundiu minha cabeça, agora se tornou um homem lindo, encantador e extremamente sexy e faz meu cérebro e o restante do meu corpo virar uma geléia.
Fico olhando para ele, ainda sem responder, mas ele espera. Ele me conhece e sabe que estou confusa com o que sinto. Vejo sua boca se abrir levemente. Seu queixo quadrado está relaxado. Olho para todo seu rosto. Tão lindo. Seus cabelos estão bagunçados como sempre ficavam quando ele estava nervoso e passava as mãos por eles. Porém, nada é mais lindo que as duas esmeraldas que ele tem no lugar dos olhos.
Quando sua mão acariciou meu rosto, fechei meus olhos e me perdi ainda mais nele.
- É definitivo? – Perguntei ainda com os olhos fechados e os dedos dele em meu rosto. Não sei se era referente ao fim do casamento, ou a nós, mas não podia ter dar uma resposta melhor para as duas questões.
- Sim. Definitivo e eterno. Sou seu, sempre fui.
Como da primeira vez, ele me ganhou com suas palavras, mas dessa vez ele está mais experiente. Junto com as palavras certas, veio a atitude de homem. Veio a pegada. Sem que eu tivesse tempo para tomar fôlego, ele me puxou de encontro ao seu corpo e cravou seus lábios aos meus. Amor, desejo e esperança, tudo em um beijo só.
Minhas mãos rapidamente foram parar em sua camisa, puxando-o para mais perto. Ele era minha maldição e minha benção. Eu o odiava por não me controlar quando estava com ele. Tiago me tira do prumo, me transforma em uma louca, cheia de amor e desejo. Desejo que nesse momento estava explodindo pelos nossos poros e exalando nos quatro cantos do quarto.
- Anne, eu estou saindo... É... Desculpa. – Meu pai colocou a cabeça para dentro do meu quarto.
Tiago e eu demos um pulo para trás, como se tivéssemos dezesseis anos de idade ainda e acabássemos se ser pegos em flagra.
- Eu... Aham... Estou saindo. Vou para a casa de um dos rapazes da madeireira assistir um jogo de futebol e devo demorar. – Meu pai disse meio sem jeito e logo fechou a porta.
Quando olhei novamente para o Tiago, nos encaramos por cerca de trinta segundos antes de cair na gargalhada. Eu não aguentei e sentei na minha cama, ainda rindo. Tiago guardou a caixa no lugar e sentou-se ao meu lado.
- Agora que estou separado, você não tem mais motivo pra fugir de mim. - Tiago me disse, com um leve sorriso no rosto.
- Tenho um motivo para fugir de você. – Eu disse, tentando ficar séria.
- Aé? Qual? – Ele perguntou, inclinando o corpo em minha direção.
- Você tem o dom... – Comecei a falar e a me aproximar de sua orelha. – Tem o dom de me deixar excitada com apenas um olhar.
- É mesmo? E se eu fizer isso? – Ele beijou meu pescoço.
- O que você fez? Não senti nada. Vai ter que repetir, acho que estou com problema de sensibilidade.
- Então vou me esforçar mais.
Ele não disse mais nada, mas seu corpo falou muito. Ele se inclinou sobre mim, me fazendo tombar na cama. Colocando uma perna em cada lado do meu quadril, ele se abaixou e começou a beijar meu pescoço, ombros, orelha, queixo, mas nunca a minha boca. Havia muita roupa nos separando, por isso comecei a retirar seu terno, porem ele segurou minhas mãos.
- Posso realizar uma fantasia com você? – Ele perguntou, sussurrando na minha orelha.
- Qual fantasia? – Perguntei ofegante.
- Sim ou não?
- Depende do que você vai fazer?
- Quero te amarrar e te lamber todinha. Como se você fosse um sorvete.
- Amarras e sorvete? Isso está parecendo 50 tons de cinza. – Brinquei
- Posso ou não posso? – Ele falou e mordeu minha orelha de leve.
- Tem um rolo de faixa de gaze na primeira gaveta do criado mudo. – Eu respondi. Estava nervosa e excitada. Todas as vezes que transamos, foi mais fazer amor do que sexo selvagem. Agora ele me propõe amarras e submissão?
Ele levantou rapidamente, enquanto eu me ajeitava no centro da cama. Quando voltou com o rolo de faixa, uma tesoura e seu olhar sexy, prendi minha respiração. Ele soltou tudo ao meu lado no colchão e foi para os pés da cama. Com delicadeza ele retirou meus tênis, as meias. Como as mãos espalmadas sobre minhas pernas, ele foi subindo-as até chegar no botão da minha calça, não sem antes passar a mão entre minhas pernas apenas para me atiçar mais ainda. Quando ele abriu o botão da calça e começou a baixar o zíper, dei um pulo pra longe das suas mãos.
- Espera Ti, deixa levantar e... e...
- E o que? – Ele perguntou com um pequeno sorriso.
- E colocar uma calcinha que não seja bege. – Falei com uma pontada de vergonha, quando o ouvi dar risada. Eu estava com uma calcinha bege e larga. Nada sexy. Ela é super confortável, mas extremamente broxante. Ainda bem que pelo menos eu já tinha tomado um banho na academia, antes de vir pra casa.
- Você acha que me importo com a calcinha que você está? Eu não me importo nem um pouco. Além do mais, essa calcinha vai sair junto com a calça. Quero você completamente nua nessa cama.
- Mas...
- Mas nada. Cala boca e deita.
Meu coração foi na boca e voltou. Eu nunca tinha ouvido esse tom autoritário nele e posso dizer que adorei. Seu olhar estava quente como o inferno e suas mãos estavam mais firmes do que antes. O Tiago amoroso tinha ido dar uma volta, agora era o Tiago mandão que estava em seu lugar, e isso me deixava molhada como nunca antes.
Em questão de segundo, minha calça jeans e minha calcinha bege já estavam no chão. Suas mãos voltaram a percorrer minhas pernas, minha virilha e com uma dolorosa calma ele as levou por entre as minhas pernas, pressionou e seguiu em direção a barra da minha camiseta. Lentamente ele começa a subir minha camiseta e a tirá-la de mim. Quando me levanto levemente para passar minha camiseta pela cabeça, sinto suas mãos irem para minhas costas e abrirem meu sutiã. Mais duas peças voando para o chão.
- Pronto. Estou nua. O que você vai fazer agora? – Perguntei.
Era estranho saber que eu estava completamente nua e ele ainda de terno e gravata. Tão lindo. Tão sério. Tão sensual.
- Agora vou te amarrar e só depois, vou te fazer gemer. - Ele respondeu. – Entrelace seus dedos e me dê suas mãos.
Eu fiz o que ele pediu. Entreguei minhas mãos unidas e rapidamente ele passou a faixa de gaze algumas vezes em volta dos meus pulsos e deu um nó, deixando um pedaço longo o suficiente para que ele amarrasse na cabeceira da minha cama. Como adoro enfeites e decoração, a cabeceira da minha cama box é de madeira com pequenos entalhes em formato de flor. Feito especialmente pelo meu pai. Mas nesse momento eu não estava vendo os detalhes da cama, eu estava vendo Tiago colocar a outra ponta da gaze por entre as pétalas da flor e dar um nó, sem nenhuma dificuldade.
Depois de por um travesseiro embaixo da minha cabeça e me amarrar os braços para cima, Tiago desceu da cama e me olhou. Olhou cada pedacinho do meu corpo.
- Você é tão linda. É perfeita. – Ele disse de onde estava. – Mas acho que vai ficar ainda melhor se terminarmos de te amarrar.
- Terminar de me amarrar? Você não está pensando em...
- Sim. Eu estou pensando exatamente nisto.
Ele pegou o rolo de gaze cortou mais dois pedaços grandes e virou-se em direção aos pés da cama. Eu automaticamente, encolhi minhas pernas, tirando do alcance de suas mãos, mas ele sorriu e se abaixou para amarrar as faixas primeiro nos pés da cama. Quando as duas faixas já estavam amarradas nos pés da cama, ele pegou as pontas, subiu e se ajoelho na beirada da cama.
- Dá o pé Anne. – Ele falou delicadamente.
- Eu não sei se não quero ter os movimentos das pernas. Já brinquei com os braços amarrados, mas tudo amarrado eu nunca deixei. Porque eu deixaria agora?
- Porque eu te amo e vou te dar o maior prazer que você pode imaginar. Eu te prometo. Você confia em mim?
- Não confio, mas estou com muito tesão pra parar agora. – Eu disse, arrancando um sorriso de seus lábios, enquanto entregava meus pés a ele.
- Você sempre foi esperta. – Ele respondeu, terminando de amarrar um dos meus pés, e partindo para amarrar o outro pé. Minhas pernas estavam extremamente abertas. De onde ele estava, acho que era capaz de ver até minhas amídalas.
- E você sempre teve uma lábia incrível. Sempre conseguiu me convencer de fazer todas as bagunças com você
- Eu era convincente quando pequeno, - Ele falou, levantando-se da cama e olhando cada pedacinho do meu corpo novamente. Quando sua língua passou em seus lábios, eu engoli em seco. - mas lábia, você vai perceber que tenho agora.
Seu tom era rouco e sua voz me tirava o ar. Quando levante o rosto para ver o que ele ainda estava fazendo nos pés da cama, pude ver enquanto ele retirava a gravata, o terno, desabotoava botão por botão de sua camisa.
- Você vai esperar eu dormir? – Perguntei, quando não aguentei mais sua lentidão em tirar a própria roupa e fui recompensada por um belo sorriso. – E eu não tivesse com as mãos amarradas você já estaria pelado.
- Por isso que você está amarrada. Assim você pode aproveitar mais e deixar de ser tão ansiosa. - Ele falou, caminhando para o lado da cama e me dando uma visão melhor dele. Quando ele retirou sua camisa, pude me maravilhar com a visão de seus ombros largos, seu tórax firme com leves gominhos, tudo isso ali, a poucos centímetros de mim e eu com as mãos amarradas. Como parecia ser o modo dele de me torturar, ele lentamente começou a abrir o cinto e o botão da calça. Com os próprios pés ele retirou os sapatos e logo em seguida, baixou as calças, ficando só de cueca preta.
- Minha nossa senhora! - Eu gemi. – Cueca preta é covardia.
- Covardia? Então vou tirá-la. – E sem dizer mais nada, ele retirou a cueca, deixando sua ereção à mostra, sem a menor vergonha. – Melhorou?
- Melhorou, mas não muito. Ainda está muito longe de mim.
Ele sorriu e caminhou para os pés da cama. Quando sentou entre minhas pernas, sorriu e começou a beijar minha coxa direita e sua mão apertava minha coxa esquerda. Beijos que ia em direção a minha virilha, enquanto eu começava a gemer. Ele beijou, lambeu e deu leves mordidas até chegar a minha virilha.
- Olhe pra mim. – Ele pediu e eu obedeci. – Você gosta se sexo em silêncio ou com muita sacanagem ao pé do ouvido?
- Adoro ouvir sacanagem. – Respondi ofegante.
- Que bom. Então aproveita e me olha enquanto te chupo.
Só tive tempo de prender a respiração antes de sentir sua boa entre minhas pernas. Suas mãos estavam abrindo meus grandes lábios para que tivesse um acesso melhor ao meu clitóris e quando sua língua permaneceu ali, massageando, lambendo e estimulando, todo o meu corpo se contorceu de prazer. Instintivamente tentei puxar meus braços e minhas pernas, mas elas estavam muito bem amarradas. Eu estava toda aberta e entregue a ele, e em troca eu estava sendo chupada de uma forma enlouquecedora.
Quanto mais ele me lambia, mais eu tentava me contorcer e não conseguia. Não tinha como controlar a intensidade com que ele me saboreava. Suas mãos em minhas coxas, me apertavam com tanta força que pareciam querer se integrar ao meu corpo e quando essas mesmas mãos iam em direção a minha bunda para me erguer mais, era sua língua, dentes e lábios que pareciam querer fazer parte permanente de mim. Não me lembro de ter sido tão bem chupada assim na vida. Eu queria poder retribuir, eu queria poder segurar seus cabelos, passar minhas pernas sobre seus ombros, mas nada disso eu podia.
- Não lute contra as cordas Anne. Se entregue. Goze na minha boca. Eu quero sentir o seu gosto. – Ele pareceu adivinhar o que eu estava sentindo e fazendo.
Eu ainda lutei contra as amarras durante algum tempo, mas quando Tiago juntou dois dedos à língua... Ah, isso me levou ao céu. Ele lambia toda a minha buceta e ao mesmo tempo enfiava os dois dedos em mim.
- Sua buceta é tão deliciosa que eu passaria dias te chupando. - Ele disse isso em meio a gemidos e lambidas.
Eu estava à beira de um orgasmo com tudo o que ele estava fazendo.
- Ti... Eu também quero, por favor. – Gemi para ele.
- O que você quer Anne. Diz...
- Eu quero te chupar.
Ouvi ele gemer antes de responder.
- Hoje não delicia. Hoje sou eu quem vai te fuder, você só vai aproveitar.
Dito isso, ele aumentou a rapidez dos movimentos dentro de mim e concentrou sua língua em meu clitóris, me fazendo gritar de prazer, até que gozei e todo o meu corpo estava mole como gelatina.
- Agora você pode me soltar? - Perguntei alguns segundos depois, quando minha respiração estava mais estabilizada.
- Não, eu ainda não terminei.
Seus dedos ainda estavam dentro de mim. Ele os rodou, entrou até o fundo e logo em seguida retirou, passando-os por toda minha buceta e se encaminhando para meu anus.
- Eu adoraria te por de quatro e comer teu rabo. – Ele disse, colocando lentamente um dedo em meu buraquinho, me fazendo gemer. – Você gosta, Anne? Gosta de dar o cu?
- Eu... – Eu não consegui responder, pois ele estava introduzindo dois dedos em mim. Inconscientemente mexi meu quadril para ajudar a entrar sem dor. Depois de ter seus dois dedos totalmente introduzidos, seu polegar voou para meu clitóris e começou seu ataque. Para complementar todas as sensações enlouquecedoras que eu estava sentindo, Tiago se movimentou até ficar com a boca em meu seio e a mão entre minhas pernas. Eu não podia lutar contra e nem a favor. Não podia me segurar ou contorcer muito, só me restava gemer, gritar e gozar. Quando eu estava prestes a gozar, Tiago chegou até minha boca.
- Por favor... – Eu implorei baixinho.
- Por favor o que Anne? Quero ouvir alto o que você quer.
- Me come, por favor. Quero sentir seu pau dentro de mim. Agora. – Eu gritei. 
- Seu pedido é uma ordem.
Ele rapidamente, retirou os dedos de dentro do meu anus e se colocou entre minhas pernas. Com apenas uma estocada, ele entrou em mim e com força e rapidez começou a se movimentar, me fazendo gritar e implorar para que ele me soltasse para que eu pudesse passar minhas pernas em suas costas, mas ele só respondia “daqui a pouco”.
Sua boca estava em minha orelha, enquanto ele falava sacanagens ao mesmo tempo em que me chamava de amor. Era uma mistura atordoante, vê-lo me fuder daquele jeito que me tirava do eixo, enquanto me chamava de amor, dizia que me amava, enaltecia minha beleza e depois voltava a falar sacanagens. Quando seus lábios chegavam até os meus, era uma mistura de amor com selvageria. Nossas bocas se devoravam. Eu o mordia, lambia e beijava, ele devolvia da mesma forma. Tiago tinha a vantagem de ter suas mãos livres sobre mim e ele não poupava essa vantagem. Seus dedos vagavam livres entre apertar meus seios, minhas coxas ou minha bunda. Algumas vezes iam até minha boca e a fechavam, para abafar os sons que eu, enlouquecidamente emitia.
Desta vez meu orgasmo veio de forma estratosférica e acompanhada do orgasmo incrível do Tiago, fazendo o corpo dele cair sobre o meu.
- Isso foi tipo... Uau. – Eu disse, fazendo-nos lembrar do nosso primeiro beijo.
- Espero que tenha sido melhor que nosso primeiro beijo. – Ele sorriu.
- Não. Isso foi muito melhor. Agora se voe puder me soltar, eu agradeço.
Ele ainda sorria quando rolou e pegou a tesoura para cortar as amarras. No mesmo instante em que ele cortou todas as amarras e soltou a tesoura, eu o empurrei para cima da cama e o montei.
- Agora, você vai me pagar caro por ter me feito tudo isso.
- É mesmo? E como você vai me fazer pagar? – Ele perguntou, interessado.
- Você vai virar meu escravo até amanhã.
- Até amanhã? Só?
- Até amanhã, porque vou viajar, lembra?
Vi seu rosto se entristecer. Fiquei com dó, mas não havia nada que eu pudesse fazer.
- Você tem mesmo que viajar?
- Tenho.
- Pra onde?
- Madri. Vou fazer um curso de dança Flamenca e se eu tiver sorte, quero fazer de dança do ventre também.
- Quanto tempo você vai ficar lá?
- Três meses com possibilidade de estender por mais dois meses.
- Eu vou passar cinco meses longe de você? – Ele resmungou enquanto me puxava de encontro ao seu peito. – Justo agora que a gente se acertou?
- Serão três meses apenas, e sim, justo agora. Deixa de reclamar escravo e vamos a sua primeira ordem. – Eu disse, levantando-me de seu peito e ficando montada sobre ele.
- Qual sua ordem mestra.
- Eu quero um banho completo. Quero que você me lave da cabeça aos pés. – Eu disse, rebolando um pouco para provocá-lo e já sentindo sua ereção dar sinal de vida novamente.
- Um banho? Sim senhora. –Ele respondeu, antes de me pegar desprevenida e me virar. Colocando minhas costas sobre a cama e montando sobre mim. - Um banho de gato, senhora? Posso te lamber todinha, novamente.
- Nada de banho de gato. – Eu disse, puxando-o pelos cabelos até ele estar deitado sobre mim. – Agora é minha vez, lembra?
- Sim senhora, mas se você não soltar meu cabelo, vou te fuder novamente, antes do banho. – Tiago disse com a voz rouca.
- Você gosta de um puxão de cabelo? – Perguntei toda dengosa, mas dando um bom puxão de cabelo nele.
- Eu te avisei. Agora não reclame. – Ele disse, antes de assaltar minha boca novamente.


O banho ficou para depois. Bem depois.



Continua na Quarta Feira...


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Capítulo 09

Fiquei paralisada no lugar, sem conseguir nem ao menos ir embora.
- Anne... - Ele parou de falar quando olhei pra ele. – O que aconteceu, você está pálida.
Não consegui responder. Vendo-o ali fez meu corpo voltar a ter movimento e agora era hora de ir embora.
- Não aconteceu nada. – Menti e ele percebeu.
- Onde você vai?
- Tenho que voltar ao trabalho, já estou atrasada e você tem um reunião também. – Ao ouvir isso, seu rosto se contraiu visivelmente.
- Anne, espere. – Ele segurou meu braço quando passei por ele para ir até o tapete pegar a chave da porta. – Nós realmente precisamos conversar.
- Eu sei Tiago, mas agora eu tenho realmente que trabalhar e você têm uma reunião com sua mulher. – Dei ênfase na palavra mulher e vi seu rosto se retorcer.
- Anne, não é o que você está pensando... – Ele calou-se quando olhei pra ele. – Deixa eu explicar, por favor.
Seu tom era de tristeza, mas eu evitei olhá-lo enquanto pegava a chave e me dirigia até a porta.
- Outro dia. Hoje eu preciso ir.
Não consegui chegar até a porta, ele se colocou na minha frente.
- Amor, não vai assim. Meu casamento é só no papel e essa reunião é para acertar o divorcio. - Sua urgência em me explicar sobre seu casamento me deixa com uma sensação estranha. Sinto que ele não está mentindo, mas tenho a sensação que tem mais coisas por trás do que ele está dizendo.
- Eu acredito em você, Tiago. De verdade. – Eu disse, tentando tranquilizá-lo. – Mas eu preciso digerir essa informação. Nós acabamos de transar e então eu descubro que você é casado. Eu não esperava por isso, mas eu sei que fui eu que não te deixei falar quando você pediu.
- Nós não transamos Anne, nós fizemos amor. Entre eu e você é amor e não sexo. 
- Tiago, não..
- Não o que? Não posso dizer o que eu vi naquele tapete? Eu vi amor e você não pode negar. - Ele deu um passo pra frente e eu dei um passo pra trás, encostando-me na parede. – Olhe nos meus olhos e diga que foi apenas sexo Anne. Diga que o que aconteceu naquele tapete e naquela cadeira, foi apenas uma transa sem importância.
Quando fixei meus olhos nos dele, fiquei com medo que ele visse minha alma e todos os meus sentimentos. Porque no final das contas, eu não podia negar que o que ocorreu nessa sala era mais que apenas uma transa. Eu me entreguei de corpo, alma e coração. Me permiti sentir mais que desejo. Me permiti ser amada novamente. Com ele não era sexo duro e rápido, com ele teve mais sentimento do que eu imaginei e agora, descobrir que ele era casado, que dividia a cama com outra mulher e podia ter filhos com ela, me deixou fraca. Não dou santa, mas se tem uma coisa que eu não faço é me envolver com homens que possuem família. Família é sagrada e é por isso que preciso me afastar dele.
- Não foi só uma transa. Foi um tira-teima. Eu precisava saber o que sentiria. – Eu disse, olhando para qualquer lugar, menos para seus olhos. – Agora já sei e preciso ir.
- Para de mentir Anne. Você está falando comigo, lembra? – Ele disse, segurando meu rosto com as duas mãos e me fazendo olhar em seus olhos. – Porque você sempre dá um jeito de fugir?
- Porque sou covarde demais para te contar coisas que você já deveria saber muito tempo. - Eu disse, sem pensar enquanto as primeiras lágrimas caiam.
- Você quer que eu te amarre aqui até que você me conte?
- Você não entende... – Eu disse retirando suas mãos de meu rosto e caminhando pra longe dele. – Eu não consigo te falar porque simplesmente dói demais falar sobre isso.
- Você não pode fugir dessa conversa e de mim por muito tempo. Nós precisamos...
- Eu sei do que precisamos. Precisamos é esquecer isso e seguir nossa vida. Você com sua mulher e eu com meu trabalho.
- Não. - Ele gritou, passando as mãos nos cabelos. Visivelmente irritado. – Chega de fugir Anne, eu não quero ter que ficar correndo atrás de você a vida toda.
- Então não corra. – Eu gritei de volta, também irritada. - Não estou te pedindo isso.
- Você está me pedindo para abrir mão de você novamente e isso eu não vou fazer. Não é o que eu quero e não é o que você quer. Por mais que você negue.
- Não fale por mim. Você não sabe nada sobre mim.
- Eu sei tudo sobre você. – Ele disse olhando nos meus olhos.
- Você conheceu a Annelise idiota e mimada. Você não sabe nada sobre o que eu me tornei e muito menos sobre como eu me transformei no que sou hoje.
- Você acha que não sei sobre o quanto você sofreu com a perda da sua mãe? Eu sei tudo sobre isso, eu soube que você passou meses fazendo tratamento contra depressão, que você abandonou a faculdade, os amigos, que se isolou do mundo até que foi parar no hospital por ter tentado se matar, tomando um frasco de remédio pra dormir... - Ele disse tudo isso caminhando em minha direção e parando bem na minha frente.
Ouvir que ele sabia sobre tudo isso, não me irritou tanto quando o fato dele não ter mencionado a nossa filha. Se ele sabia sobre todas essas coisas, era impossível ele não saber sobre a Clara e não tocar no nome dela foi o que me deixou fora de mim.
- Você não está esquecendo de nada? – Perguntei em um tom baixo, olhando diretamente em seus olhos. - Seus informantes devem ter dito que além da minha mãe, eu perdi ... Eu perdi a nossa filha naquele maldito acidente. – Eu disse, agora berrando.
Quando ele não se moveu e ficou mudo, olhando para mim com cara de susto, percebi que ele não sabia sobre essa parte da história.
- Falaram sobre uma criança, mas eu não... – Ele ficou pálido e cambaleou até sentar na parede novamente. – Era nossa....
- Sim, nossa filha. – Falei baixinho. - Ela se chamava Clara.
- Como... Porque você não me contou? – Ele gaguejou.
- Eu tentei, mas não tinha nenhum contato seu. Não sabia nem ao menos em que cidade de Portugal procurar. Durante meses depois que você foi embora, eu tentei te encontrar pra te contar, mas nunca consegui nem sequer um telefone para que pudesse deixar um recado para que você entrasse em contato. Quando a Clara nasceu, minha mãe e meu pai me apoiaram e me ajudaram a cuidar dela. Eu comecei a trabalhar em meio período para ajudar nas despesas dela e consegui a muito custo terminar a escola. - Relembrar tudo o que passei sempre me fazia chorar, e agora não era diferente, por isso eu me sentei no sofá e continuei a contar para ele sobre a nossa filha. – Quando aconteceu o acidente, ela estava com três anos. Nós estávamos voltando de uma festa de aniversário de uma amiguinha de creche da Clara. Minha mãe estava dirigindo e a Clara estava na cadeirinha atrás do banco dela, para que eu pudesse olhá-la. Eu e minha mãe estávamos discutindo por algum motivo que não lembro, quando o um caminhão cruzou o semáforo vermelho e pegou em cheio no nosso carro.
Minhas lágrimas embaçavam minha visão, mas pude ver quando Tiago deixou seu corpo cair e sentou no chão, encostando sua cabeça na parede, de olhos fechados. Quando eu continuei a contar sobre o acidente, minha voz estava grossa pelas lágrimas e soluços.
- Eu vi o caminhão batendo contra o nosso carro. Vi a lataria se amassando e ferindo as duas pessoas que eu mais amava na vida. Eu ouvi o grito da Clara misturado com o meu e o da minha mãe quando o caminhão vinha se aproximava. Isso está gravado aqui, na minha cabeça, e não sai. Não importa o quanto de remédio eu tome e de quanta terapia eu faça, simplesmente não sai, e quando estou sozinha eu ainda posso ver e ouvir tudo isso. Noite após noite, ano após ano. É uma cena que não se apaga e não esmaece. Não sei como, mas eu soltei meu cinto e fui tentar ajudar minha mãe a se soltar e sair do carro, mas ela tinha as pernas presas pelas ferragens e tinha uma perfuração feia na barriga. Ela só teve tempo de me dizer para salvar a Clara e que nos amava e que queria que fossemos felizes, sem pensar nas consequências e então morreu. Quando virei para tirar a Clara da cadeirinha, eu vi... vi seu corpinho... eu vi....
Não consegui terminar. Eu não conseguia lembrar daquela cena. Durante alguns instantes eu chorei compulsivamente, até que senti os braços do Tiago a minha volta. Ele também chorava.
Nós não falamos por algum tempo, quando já consegui controlar meus soluços e meu choro, tentei me levantar. Eu precisava de espaço, mas espaço era o que o Tiago não queria me dar. Ele se agarrou a mim com ainda mais firmeza.
- Me perdoa. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Me perdoa por não estar aqui com você. Eu só... Só pensei... Que estava fazendo o melhor para nós dois. Eu nunca...
- Isso é passado. – Respondi, secamente. – Durante meses depois do teu aniversário de dezoito anos, eu esperei você voltar. Quando aconteceu o acidente, eu rezei e implorei a Deus que você viesse ficar ao meu lado, mas nunca fui atendida no meu pedido. Eu precisei passar por tudo isso para entender que a única pessoa com quem podemos contar e com nós mesmos. Quando tentei me matar, eu realmente acreditei que era mais fácil morrer do que conviver todos os dias com as pessoas me olhando com cara de pena e durante as noites, ter pesadelos e acordar gritando e chorando. Comecei a não dormir para não ter que ver aquelas cenas. Quando não conseguia ficar acordada, eu bebia até não ter consciência do que estava fazendo. Bebia tanto que em meio um porre eu resolvi acabar de uma vez por todas com o meu sofrimento, com a minha solidão. Eu não pensei na minha vida, não pensei na dor do meu pai e não pensei em mais nada, eu só queria parar de sofrer tanto. Eu tomei um frasco inteiro do calmante que o psiquiatra me deu. Toda aquela medicação misturada com bebida alcoólica me deixou em coma por uma semana. Quando acordei, a primeira coisa que vi foi meu pai em um estado deplorável. Ele estava chorando ao lado da minha cama, dizendo que não agüentaria viver se me perdesse também, porque não sobraria mais ninguém na vida dele.
Eu não sei dizer se eu tinha voltado a chorar ou se minhas lágrimas simplesmente não pararam de cair desde o momento em que comecei a contar sobre o acidente para o Tiago. Ele ouvia tudo em um silêncio sepulcral.
- Quando sai do coma e fui para o quarto, uma das enfermeiras me contou que meu pai passou mal várias vezes durante o tempo que fiquei na UTI, mas se recusou a sair do meu lado, foi nessa hora que percebi que não podia fazer isso com ele. Ele precisava de mim. Ele era a minha família. Era o que restava da minha família. A partir daquele dia eu passei a fazer tudo para que meu pai me visse bem, feliz e realizada. No inicio não foi fácil, porém foi preciso.
- Quando isso aconteceu? – Tiago perguntou baixinho.
- 17 de dezembro de 2004. - Respondi.
- 17 de dezembro? – Ele perguntou estranhamente.
- Sim. Porquê? - Perguntei olhando pra ele.
Ele não me respondeu imediatamente. Levantou-se e começou a caminhar pela sala sem me olhar. Quando ele parou, com as duas mãos apoiadas na sua mesa e a cabeça tombada para frente, tive certeza que não iria gostar de ouvir o que ele ia me dizer, mas não pude evitar.
- O que aconteceu no dia 17 de dezembro, Tiago? – Perguntei, agora me levantando, com minha bolsa em uma mão e a chave da porta em outra.
- Meu casamento. Me casei no dia 17 de dezembro de 2004. – Ele disse baixinho.
- Seu... Casamento? – Eu não acreditei imediatamente, mas então a ficha caiu. -  Você se casou há quase 10 anos atrás?
- Anne...
- Nada de Anne. Você vai fazer 10 anos de casado? Foi por isso que você não voltou. Claro. – Eu explodi. Gritava em fúria. Como ele podia estar casando no mesmo dia em que nossa filha morria. Não era justo. – Você casando e eu querendo ter morrido no lugar da Clara. Quer saber de uma coisa, Tiago. Foi muito bom ter essa conversa com você. Foi bom exorcizar esse fantasma da minha vida. Agora sim, posso por uma pedra em cima do que você um dia representou pra mim, do que um dia eu senti por você.
Sem dar tempo dele falar absolutamente nada, marchei em direção a porta e a destranquei, quando a abri, uma bela mulher estava com o braço levantado para bater.
- Oh, desculpe. Eu ia bater, já que o Tiago não responde aos recados da Brenda e ele me deixou plantada na nossa reunião. – Ela disse, me olhando de cima a baixo e parando seus olhos azuis em meu rosto.
Eu, sem lhe dispensar nem um olhar, respondi.
- Não precisa se dar ao trabalho de bater, eu já estou de saída. Ele é todo seu.
- Anne, por favor. Não vá, eu ainda tenho muitas coisas pra conversar com você. – Tiago disse de onde ele estava.
Eu virei para dar um ultimo olhar para ele e encontrei seu olhar quando ele virou-se em direção a porta. Vi tristeza, desespero e dor em seus olhos, mas isso não me comoveu.
- Como eu te disse, isso é passado e acabei de colocar uma pedra sobre todo o meu passado. Adeus Tiago.
- Então você é a famosa Anne. Prazer, sou a Rebeca. – Ela disse com um sorriso.
- Prazer Rebeca. Sou a Anne, amiga do Tiago, você deve ser a esposa dele. Certo?
- Legalmente falando, sim, mas... – Ela começou a falar, mas eu a interrompi.
- Então Rebeca. Que bom que você chegou para fazer companhia a ele, porque eu estou de partida. – Eu disse antes de me virar e sair, porém olhei novamente para ela e não pude deixar de acrescentar. – É uma pena que seja uma reunião de divorcio, um casamento de dez anos não se joga fora assim. Se eu fosse você pensaria melhor antes de se divorciar.
Virei-me novamente e segui a passos largos para a porta. Quando cheguei lá, a prestativa Brenda já estava me aguardando com a porta aberta. Não me dei nem ao trabalho de responder seu ‘até breve’.

Segui até meu carro, o mais rápido que consegui sem precisar correr, entrei, encostei minha cabeça no volante e chorei. Chorei até sentir que meus ombros balançavam com meus soluços. Depois de derramar todas as lágrimas ao ponto de ficar exausta, liguei meu carro e engatei a marcha ré para sair do estacionamento, mas cometi o erro de dar uma ultima olhada para o prédio do Tiago e o vi, parado na janela, me olhando. Nossos olhos se encontraram. Senti meu coração sangrar mais um pouco quando sua boca se moveu e pude ver com clareza as palavras que eu não queria ver e muito menos ouvir. Mesmo de longe eu soube que ele estava dizendo, eu te amo. 


Continua na Quarta-Feira....




sexta-feira, 18 de abril de 2014

Capítulo Especial - Casamento do Tiago


Existem momentos na vida de um homem que ele precisa escolher entre a coisa certa a fazer ou a sua felicidade. Muitas vezes essas duas coisas são as mesmas. O que não é o caso neste momento. Esse é o momento em que estou tendo que escolher entre a coisa certa a fazer ou a minha felicidade. Estou parado em frente ao um juiz de paz pronto para me casar e a única coisa em que eu consigo pensar é na minha Anne.
Meu coração está apertado e sinto um embrulho no estomago. Se bem que esse embrulho no estomago pode ser por conta da ressaca, já que ontem eu bebi tudo o que encontrei pela frente e tive uma verdadeira despedida de solteiro com alguns colegas de faculdade. Eu queria beber tanto que tivesse entrado em coma e assim estaria internado em um hospital e não aqui, esperando a Rebeca entrar pela porta do cartório com a mesma vontade de se casar que eu.
Ambos estamos casando por motivos que em nada tem a ver com amor. Eu estou casando por dois motivos, e nenhum deles é amor, paixão ou desejo.
Meu amor ficou no Brasil. Meu amor e meu coração ficaram com a única garota que amei. Annelise Pimenta. Nesse momento sou apenas a casca de um homem. Apenas uma marionete sendo controlada por cordas invisíveis, mas muito fortes. Estou casando para salvar meu pai de ser preso.
Quando viemos do Brasil para Portugal, meu pai conseguiu um cargo de médico no Hospital Pediátrico de Coimbra. Em pouco tempo, foi ganhando responsabilidades e notoriedade entre a diretoria do hospital. Não se passou mais de seis meses até que ele conseguisse um cargo de chefia dentro do hospital. Passou de um mero pediatra para diretor do departamento de neuropediatria do hospital. Junto com o cargo, veio a ganância que se juntou ao mal caratismo que eu não sabia que ele tinha. Cerca de dois meses após ser nomeado diretor, meu pai já havia trocado de carro, comprado uma casa e mudado radicalmente o estilo de vida, passando a gastar mais e comprar coisas que até então não teríamos condições de ter se ele fosse um diretor comum. Meu pai estava roubando o hospital.
Como a parte de licitações do setor neuropediatrico era de sua responsabilidade, ele passou a receber propina para que escolhesse uma determinada empresa, recebia uma porcentagem do valor total da compra por superfaturar os produtos comprados, cobrava do governo por atendimentos feitos a pacientes que tinham plano de saúde, então nesse caso ele recebia dos planos de saúde e do governo. Resumindo, ele deu um desfalque de milhões de euros no hospital. É obvio que dentro de pouco tempo, foi descoberto. Quando faltava cerca de três meses para eu completar dezoito anos, a bomba explodiu.
Muitas lágrimas da minha mãe, desespero do meu pai e reuniões intermináveis depois, meu pai conseguiu um acordo com o diretor geral do hospital, o doutor Luis Henrique Mota, pai da Rebeca.
Numa noite, assim que voltei do emprego de officeboy que havia arrumado em uma pequena imobiliária, meu pai e minha mãe estava me aguardando na sala. Eles não se olhavam, mas dava para sentir a tensão no ar.
- Tiago, por favor sente-se. Precisamos conversar com você. – Meu pai disse de maneira formal.
Não questionei, estava escrito na cara deles que a conversa era séria. Quando me sentei, meu pai começou a me contar tudo o que havia acontecido e tudo o que ele havia feito, desde puxar o tapete de colegas para ser promovido, até a parte da roubalheira. Ouvi tudo calado. Depois de alguns minutos que ficamos em silêncio, repassei na minha mente tudo o que ouvi, tentando assimilar o quando isso iria mudar na minha vida e simplesmente não consegui imaginar o que iria acontecer a partir dali. Porém meu pai deixou para o final a parte que me cabia.
- Meu filho, você não vai dizer nada? – Ele perguntou tenso.
- Quanto tempo você tem até ser preso? – Perguntei encarando-o. Não era isso que eu queria dizer, queria dizer que sentia vergonha de ser seu filho, que tinha nojo do homem que ele era e que não ligava a mínima para o que iria acontecer com ele, mas ver minha mãe as lágrimas me impediu de agredi-lo com palavras como eu gostaria.
- Na verdade... – Ele disse lentamente e deu uma olhada rápida para minha mãe. – Existe uma forma de eu não ser preso.
- Você está pensando em fugir? – Perguntei me exaltando.
- Não. Nada disso. – Ele baixou os olhos antes de acrescentar. – Eu preciso que você se case com a filha do doutor Luis, assim ele vai acobertar o meu desfalque.
- Você quer o que? – Perguntei incrédulo. Eu só podia ter ouvido errado.
- Tiago, entenda. O doutor Luis possui uma filha que está dando muito trabalho e ele acha que casá-la pode ser a solução dos problemas dele, então como ele sabe que eu tenho um filho solteiro e com a mesma idade da filha dele... Ele propôs perdoar o desfalque em troca do casamento de vocês.
- Você só pode estar ficando maluco se acha que vou me casar com uma garota que nem conheço apenas para salvar a sua pele. – Explodi. – Estou contando os dias para voltar para o Brasil e casar com quem eu realmente amo e você acha que vou abrir mão disso pra salvar a sua pele? Você não quis ganhar dinheiro na mão grande? Então aguente as consequências. Enfrente os seus problemas sozinho. Já que na hora de roubar você fez sem perguntar a minha opinião, não serei eu a socorrê-lo agora. Seja preso e pague pelo seu crime.
- Tiago... – Minha mãe gritou comigo para que eu parasse de falar.
Depois de cuspir tudo na cara do meu pai, vi seu rosto ficar pálido e lentamente ele cair desmaiado. Horas mais tarde eu estava sentado em um corredor de hospital, esperando alguma notícia sobre o cateterismo que meu pai teve que fazer as pressas. Uma mistura de culpa e ressentimento me corroía. Após o procedimento, o médico aconselhou a minha mãe e eu, que evitássemos ao máximo deixar meu pai passar por estresse ou qualquer tipo de preocupação que pudesse elevar a pressão arterial dele.
Depois das recomendações médicas, minha mãe implorou para que eu aceitasse casar com a tal filha do doutor Luis. Ela estava tão desesperada para que eu aceitasse, que me propôs casar e depois de algum tempo separar e ai eu teria toda a sua benção para procurar a Anne. O que ela não entendia era que eu havia prometido a Anne que voltaria quando completasse dezoito anos. Eu sentia que precisava voltar o quanto antes, mas ao mesmo tempo em que eu pensava em voltar, eu tinha medo de voltar e encontrar a Anne com outro. Isso seria demais pra mim.
Porém como eu poderia voltar para o Brasil e largar minha mãe e meu pai a própria sorte? Que tipo de pessoa eu seria se não ficasse ao lado da minha mãe, pelo menos? Ela já havia sofrido muito com o motivo que nos trouxe para Portugal, eu não suportaria vê-la sofrer ainda mais. Mesmo a contra gosto, aceitei participar daquela farsa, mas seria nos meus termos.
Dias depois, consegui marcar um encontro com a tal filha problemática em um café perto do hospital. Ela chegou com quase meia hora de atraso. Quando entrou no café, seu rosto não precisava de legenda, estava claro que ela não gostava daquela situação tanto quanto eu. Sendo assim preferi ser franco com ela, já logo de início.
- Oi. Eu sou o Tiago. – Disse ao estender a mão para cumprimentá-la.
- Rebeca. – Ela disse simplesmente.
Ninguém poderia acusá-la de ser simpática.
- Rebeca, sente-se por favor. Vamos conversar sobre essa palhaçada de casamento de modo civilizado e entre nós dois. Sem interferências.
A mudança na sua postura foi automática.
- Uau, pelo visto não sou a única aqui que está sendo empurrada para um casamento. – Ela comentou sorrindo e sentando-se mais relaxadamente.
- Você deve saber por que estou sendo obrigado a casar. – Ela balançou a cabeça concordando. – Agora quero saber onde estou me metendo. Porque você está sendo obrigada a casar?
- Porque ou eu caso, ou serei deserdada. – Ela respondeu sem me olhar.
- Você vai casar para não ser deserdada? Por dinheiro? – Perguntei chocado.
- Não é só por isso. - Ela pareceu ofendida. – Meu pai está ameaçando a pessoa que eu amo...
- Entendo... – Depois de algum tempo de constrangimento entre nós dois, consegui acrescentar. – Você acha que podemos fazer um acordo entre nós?
- Estou torcendo por isso...
Aquela foi a primeira de muitas conversas francas que tive com a Rebeca. Depois desse dia, nós decidimos que iríamos nos casar e passar algum tempo casados e logo que possível iríamos nos separar. O que eu não esperava era que meu futuro sogro fosse mais filho da puta do que eu imaginasse. Ele me fez assinar um contrato completamente sem fundamento, onde continham todas as cláusulas que regeria o meu ‘relacionamento’ com Rebeca. Deveria haver pelo menos dois anos entre o namoro e o casamento, mais três anos de casados antes que quaisquer um dos dois pudessem pedir o divorcio e se a Rebeca engravidasse, poderia ser abatido um ano a menos no tempo obrigatório após o casamento. Em troca ele se propunha em camuflar o desfalque feito por meu pai, porém iria guardar provas que me seriam entregues depois do prazo mínimo do casamento. Era uma loucura total, mas eu já havia aceito e não poderia voltar atrás. Havia apenas algumas questões a serem esclarecidas e uma delas era muito importante. Tanto que em um dos nossos encontros, Rebeca engoliu a vergonha e trouxe à tona um assunto que a algum tempo me perturbava.
- Tiago, precisamos conversar sobre isso. – Rebeca começou a falar um pouco hesitante. – Não me entenda mal, mas quero deixar uma coisa bem clara. Sexo não está no nosso acordo, certo? Assim... Como cada um de nós é apaixonado por outras pessoas, acho que não teria sentido...
- Eu te entendo e concordo, Rebeca. Você é linda, mas te vejo apenas como minha amiga. Por mim, podemos deixar claro que no nosso acordo, não haverá relação sexual e acho que seu pai não precisa saber disso, né?
- Claro que não. – Ela concordou feliz. - Provavelmente teremos que trocar selinhos e tudo o que os casais fazem na frente dos outros, mas nada além disso. Combinado?
- Combinado. – Sorri de volta, mais aliviado de ter esclarecido isso, porém restou uma dúvida que eu precisava esclarecer. – Rebeca, nós não teremos sexo entre nós, mas isso quer dizer que vamos nos manter castos por quase cinco anos?
Ela gaguejou antes de conseguir me responder.
- Acho que podemos tomar cuidado para não sermos pegos e o outro ficar como corno. – Ela falou olhando para todos os lados, menos pra mim.
- Você está me avisando que vai me trair? É isso? – Falei brincando
- Mais ou menos isso. – Ela sorriu. – Você acha que somos loucos?
- Acho que somos loucos por termos sidos criados por pessoas sem caráter. – Respondi honestamente, mas me arrependi quando vi que Rebeca havia ficado triste.
- Se minha mãe estivesse viva, ela jamais deixaria que isso acontecesse. Aquele tirano ainda me paga...
Com o tempo, Rebeca e eu nos tornamos grandes amigos que iriam se casar. Contei a ela sobre o meu desejo de voltar para o Brasil e meu medo de que a Anne tivesse me esquecido. Ela me contou sobre suas aventuras amorosas e todos os transtornos que causou de propósito ao seu pai. Encontrei nela uma verdadeira companheira, mas minha mente, meu coração e meu desejo tinham outro nome.

Agora que estou ao lado da Rebeca e à beira de assinar o documento que me tornará legalmente o marido dela, a coisa que a Rebeca quer é que acabe de uma vez, sei disso por seu bufar e revirar de olhos a cada frase que o juiz de paz pronuncia. E posso garantir que ela percebe que sinto o mesmo. Minha vontade de fugir daqui é quase insuportável, mas não posso. Estou preso por no mínimo mais dois anos em um casamento de fachada.



Continua na Segunda Feira....