José
Meu faturamento na madeireira
triplicava no fim do ano, mas meu trabalho multiplicava por seis. Era muita
gente querendo madeira para reformas, construções, decoração e outras mil
utilidades. Sempre nessa época do ano, passava mais tempo no escritório do que
em casa. Meu trabalho sempre me absorveu completamente, mas não sei se era a
idade que já estava pesando sobre os ombros, pois em plena segunda feira,
véspera de natal, sai do escritório no horário de almoço e dispensei todos os
funcionários que não estão desenvolvendo algum tipo de trabalho urgente.
Tudo o que podia pensar, era que
precisava comprar um maldito presente para a Rebeca. Fui ao shopping, andei
igual a uma barata tonta e não encontrava nada que pudesse ser dado para ela.
Tudo o que gostaria de dar de presente tinha uma conotação romântica ou sexual
e isso não era algo que eu queria.
Rebeca é uma pimenta. Linda, mas
ardente quando provada. Por mais que eu a desejasse, não podia provar de sua
ardência. Não era homem para ela.
Foi pensando nisso que me afastei
da vitrine de uma loja de lingerie onde passei aproximadamente cinco minutos
imaginando Rebeca usando um conjuntinho preto de renda e com um tamanho tão
pequeno que eu poderia guardar as duas peças em meu bolso.
Discretamente ajeitei o volume em
minha calça e segui caminhando pelo shopping. Pensei em comprar maquiagem,
afinal toda mulher gosta de maquiagem e Rebeca não era diferente. Ela vivia
arrumada e perfeitamente maquiada.
Entrei na loja e caminhei entre
as prateleiras de maquiagens e perfumes. Dar um perfume de presente para ela
não era uma opção, já que eu gostava tanto do cheiro dela e nenhum outro
poderia se comparar. Andei até parar em frente ao mostruário de batons. Eram
tantas cores que fiquei meio tonto. Eu tinha certeza que deveria ter cores
repetidas expostas ali, não poderia existir tantos tons de uma mesma cor.
- Posso ajudá-lo? – Uma vendedora
me perguntou ao ver que eu olhava e não me decidia.
- Acho que sim. Estou procurando
um presente para dar para uma amiga. Ela é ruiva e tem a pele clara. O que você
me recomenda? – Perguntei.
- Bom, as ruivas costumam gostar
muito de batons em tons de vermelho.
- Tons de vermelho? – Eu já tinha
visto Rebeca de batom vermelho no jantar de noivado da Anne e minha noite não
foi nada agradável, pois a cada vez que ela lambia os lábios, eu sentia vontade
de atacá-la e beijar sua boca até que não tivesse mais batom nenhum. – Não.
Acho melhor uma cor mais discreta.
- Quem sabe um tom de rosa. Temos
esse modelo aqui, por exemplo. – A vendedora pegou um tom de rosa bem clarinho.
– Esse aqui chamasse romance e é um dos mais vendidos. As mulheres estão amando
ele.
Romance, amando, boca da
Rebeca... Isso não estava indo muito bem.
- Desculpa, acho que não é
exatamente isso que estou procurando. Vou tentar olhar outras coisas.
- Tudo bem. Se quiser, basta
voltar e me procurar. – A vendedora respondeu e virou-se para atender outro
cliente.
Já fora da loja, pensei em tudo o
que eu sabia sobre a Rebeca que poderia colaborar para comprar o presente de
amigo secreto.
Ideia de jerico essa da Anne.
Sorteio online de amigo secreto na véspera do Natal só serve para dar dor de
cabeça. Mesmo assim, segui pensando em tudo que eu sabia sobre ela e elaborei
uma pequena lista.
A Rebeca é linda e vaidosa. Divertida e brincalhona. Ela tem um
lado sensível que tenta esconder de todo mundo, mas que eu já vi algumas vezes.
Ela é valente e muito leal aos amigos. É atrevida e abusada. Inteligente e
sagaz. Mais sexy do que deveria e mais nova do que eu gostaria. Ela é muitas
coisas em uma mulher só e isso me confundi ainda mais.
Enquanto seguia rodando pelo
shopping, lembrei do nosso último encontro. Ela foi levar Anne em casa depois
do passeio delas. Com a desculpa de usar o banheiro, Rebeca entrou e passou por
mim e João Pedro, a quem chamamos de JP, que é um amigo e funcionário da
madeireira. Vi quando ela me viu sentado jogando baralho com JP, um sorriso
lento se espalhou por seu rosto.
- Essa é uma amiga da sua filha?
– Perguntou JP ao ver Rebeca caminhar em suas botas de salto alto, mini saia
jeans e camiseta branca. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo alto e
deixava aparecer uma tatuagem de ideograma em japonês em sua nuca.
- Sim, ela é uma amiga de Anne e
minha. – Respondi mais irritado do que eu gostaria pelo interesse de JP em
Rebeca.
- Ela é solteira?
- Ela não é para o seu bico.
- Casada então?
- Se estão falando de mim, sou
solteira. – Rebeca apareceu rapidamente, me pegando de surpresa.
- Bonita desse jeito e solteira?
Duvido. – JP fez graça.
- Acredite. Isso é devido ao
clássico, quem me quer eu não quero e quem eu quero não me quer.
- Quem é o maluco que dispensa
uma beldade como você? Ele deve ser gay ou é como o nosso querido José que tem
idade para ser seu pai.
Levantei furioso e caminhei para
a geladeira, a fim de pegar outra cerveja e acalmar minha ira. Quem JP achava
que era para dizer que eu tinha idade para ser o pai da Rebeca?
Enquanto abria a garrafa longneck
de cerveja e jogava a tampa no lixo, ouvi Rebeca responder JP.
- Desculpa, mas não sei seu nome.
O meu é Rebeca.
- Eu sou o JP.
- Bom, JP. Sabe uma das minhas
teorias por estar solteira até hoje? A minha principal teoria é a que eu não
nasci para me envolver com moleques. Gosto de homens maduros e admiro a
experiência que os anos trazem a um homem. Um homem qualquer, pensa no seu
prazer em primeiro lugar, um homem maduro sabe que se a sua mulher estiver
satisfeita, a retribuição será muito mais prazerosa. Agora se me dão licença,
vou me despedir da Anne e vou para casa dormir sozinha, enquanto não encontro
meu homem maduro.
Dito isso, ela me encarou por
alguns instantes e sem dar adeus a JP, saiu da cozinha e subiu as escadas em
busca da Anne. Um sorriso convencido deslizou vagarosamente em meus lábios.
- Além de linda, inteligente.
Deve ter um temperamento dos infernos. E o que dizer daquele sotaque?
- O banheiro é ali, caso queira
terminar sua descrição completa da Rebeca enquanto se masturba. – Falei com mau
humor.
- Por que será que acho que tem
alguma coisa entre vocês dois?
- Porque você é um idiota?
JP apenas sorriu e não falou mais
nada.
Depois que Rebeca saiu, Anne
desceu as escadas com seu notebook nas mãos e veio nos cumprimentar. Sentou-se
ao meu lado e colocou o notebook na mesa, ao lado das minhas cartas.
- Pai, preciso confirmar algumas
informações suas.
- E por que você precisaria? –
Perguntei curioso.
- Porque vou fazer seu cadastro
em um site para participar do nosso amigo secreto.
- Anne, faltam dois dias para o
Natal. Como você acha que vai conseguir organizar um amigo secreto, sortear os
nomes, comprar os presentes e tudo mais?
- Esse site vai me ajudar. Vamos
nos cadastrar e o site sorteia e manda para o seu e-mail o nome do seu amigo
secreto. Então temos amanhã para comprar os presentes e terça-feira tocamos os
presentes.
- Quem vai participar?
- Eu, você, Tiago, Deb, Diego e
Beca.
- Anne, não sei se quero
participar. Façam entre vocês apenas.
- Não. Nada disso. Eu preciso que
você participe, ou vou ter minha pele arrancada. Prometi que te convenceria a
participar a qualquer custo. Por favor, pai.
- Prometeu? Pra quem? – Na mesma
hora em que perguntei, me arrependi.
- A Beca, é claro. Quem mais você
acha que está louca para te pegar... No amigo secreto.
JP não conseguiu segurar a risada
e ouvi um “eu sabia” sendo disfarçado por uma tosse falsa. Anne me olhava e
sorria. Merda! Isso não ia dar nada certo.
- Pode tirar meu nome da lista
Anne. Não vou participar e ponto final.
- Agora é tarde. Já te inscrevi.
Agora não dá para cancelar. – Anne falou olhando para o notebook. Eu sabia que
ela estava mentindo. – Hoje à noite você vai receber um e-mail com o nome do
teu amigo secreto e o link para o perfil dele, onde poderá ter algumas
sugestões de presentes.
- Tudo bem então. Porém com a sorte
que tenho, vou pegar alguém sem nenhuma sugestão de presente.
Foi exatamente assim. Minha amiga
secreta era a Rebeca e ela não tinha deixado nenhuma sugestão, apenas uma frase
dizendo: “Faça o seu melhor e surpreenda-me!”
Era por isso que em plena segunda-feira,
véspera de natal, eu estava rodando em um shopping sem saber o que comprar para
ela. Até que parei em frente a uma floricultura. Resolvi entrar.
- Olá, posso lhe ajudar?
- Oi, preciso de um presente para
uma amiga. Uma flor que não sejam rosas vermelhas, mas que não sejam simples
violetas também.
- Eu tenho prímulas. Elas são
conhecidas por serem símbolos de amizade.
A vendedora me entregou um
pequeno vaso com umas flores em tons de rosa. Pareciam simples demais.
- Estou achando que não é isso. Queria
algo um pouco mais diferente. A Rebeca não é uma mulher de flores simples.
- Uma mulher bonita e exótica?
- Podemos dizer que sim. Porém
não quero dar nenhuma flor que possa dar alguma indicação errada.
- Entendi. Quem sabe ela combina
com lírios ou tulipas.
Olhei os dois tipos de flores. Os
lírios eram uma mistura de rosa, roxo claro e branco. Eram bonitos, porém
exalavam um perfume muito forte. Já as tulipas eram de um tom de vermelho que
lembravam muito os cabelos de Rebeca. Era uma flor elegante, linda e totalmente
delicada. Sim, tulipa era a flor ideal para Rebeca.
- Infelizmente só tenho as
tulipas vermelhas no momento e se você não quer que tenham um significado
romântico, acho melhor escolher os lírios.
Depois de ver as tulipas, os
lírios perderam totalmente o encanto.
- Você não tem alguma outra
opção?
- Quem sabe uma cesta de produtos
bem recheada com tudo que uma mulher gosta?
- Acho que será bem melhor mesmo.
Vários presentes diferentes, é melhor do que nenhum ou um presente errado.
Alguns minutos depois eu sai do
shopping com uma cesta enorme, embrulhada em um plástico brilhante e com um
enorme laço. Dentro havia uma infinidade de coisas, champanhe, bombons, frutas
cristalizadas, biscoitos, chocolates de todos os tipos e mais outras coisas.
Provavelmente ela me acusaria de estar tentando engordá-la, mas arrisquei mesmo
assim.
~*~*~
Na noite seguinte, nossa casa
estava arrumada e decorada. A árvore de natal estava posta na sala com todos os
presentes embaixo e enquanto jantávamos, todos pareciam se divertir. Assim que
todos comemos, era chegada a hora de revelar o amigo secreto.
Por algum mistério que eu não
conseguia entender, Rebeca ficou afastada de mim durante todo tempo e apesar de
nos encararmos em alguns momentos, ela não falou comigo nenhuma vez. Isso
estava me deixando preocupado.
Quando chegamos na sala, para
revelar o amigo secreto, fiquei do lado contrário ao de Rebeca, com medo de que
se ficássemos muito próximos, eu fosse puxar papo com ela só para quebrar
aquele gelo que ela estava me dando. Isso sem falar que ela estava usando um
vestido preto de cetim que ia até suas coxas e que realçava todas as curvas do
seu corpo.
– Certo, quem começa? – Anne perguntou.
– Pode ser eu? – Rebeca se prontificou. Senti
meu coração acelerar.
Como todos concordaram, apenas balancei a
cabeça dando o meu ok. Ela então foi até embaixo da árvore e pegou uma caixa
branca com um laço vermelho em cima.
– Bom, o que posso dizer sobre essa pessoa.
Conheci há pouco tempo, no início me pareceu uma pessoa um pouco retraída, mas
sei que aos poucos estou conquistando com minha simpatia, carisma e lindos
olhos azuis...
Suei frio. Um misto de expectativa e medo se
apossaram de mim.
– Acho que sei quem é... – Anne respondeu e
todos me olharam. Tentei fingir que não era comigo.
– Infelizmente acho que todos erraram o
palpite. – Ela respondeu sorrindo e me lançou um olhar como quem diz: “você
também achou que era você”. Eu não poderia negar, também tive a suspeita que
fosse eu. – Meu amigo secreto é na verdade uma amiga. É você Deb.
Eu deveria ter ficado aliviado,
mas tive que lutar para controlar a decepção que senti. Não era uma sensação
normal, afinal eu não queria que ela tivesse me pego no amigo secreto. Como poderia estar decepcionado?
Seguimos com o amigo secreto e
tive que ouvi mais algumas piadinhas sobre a Rebeca e eu. O clima estava
animado e todos se divertiam. Tiago e Diego estavam mais relaxados um com o
outro e Anne e Deb pareciam reluzir de tamanha felicidade. Rebeca era a única
que continuava tensa. Apesar de sorrir e brincar com os demais, eu conseguia
ver pela sua postura o quanto ela estava nervosa.
Assim que Tiago recebeu o
presente que ganhou de Diego, ele olhou de mim para Rebeca.
– Bom, quem ainda falta para ser pego?
– Eu e o José. – Rebeca respondeu.
– Então vou poupar seu pobre coração Beca. –
Tiago falou, olhando para ela. - Meu amigo secreto é o meu sogro favorito e
único. O cara que fez a coisa mais linda do mundo. Estava inspirado quando fez
a Anne, heim sogrão?
Sorri ao receber o presente e o abraço
apertado do meu genro. Eu ainda sorria quando abri o pacote de presente e
encontrei uma maleta de madeira lapidada com um equipamento completo para
churrasco. O presente ideal pra mim. Adorei.
– Digamos que sou bom no que faço. – Respondi
a provocação de estar inspirado quando fiz a Anne e pude ouvir Rebeca murmurar
um “Duvido” tão baixo que pareceu quase um gemido. Todos na sala sorriram,
menos eu. Eu a olhava diretamente. – Bom só sobrou entregar o meu presente e
como não há mais mistério. Minha amiga secreta é você Rebeca.
– E não é que ele te pegou mesmo, Rebeca? –
Tiago provocou. – Uma pena que seja como amiga
secreta.
– Hoje amiga, amanhã... – Ela não terminou de
falar ao ver o tamanho da cesta que estava nos meus braços. – Diz pra mim que
isso é uma cesta de café da manhã e que é parte de um convite do qual eu já
digo que aceito.
Não tive como ficar sério. Ela é encantadora
demais. Seus olhos brilhavam ao olhar para a cesta. Parecia criança em noite de
natal.
– Na verdade, é uma cesta com presentes
variados, não exatamente uma cesta de café da manhã.
– Certo, já entendi, mas amei mesmo assim.
Principalmente pela quantidade de chocolate que tem. Obrigada José. – Rebeca
soltou a cesta sobre o sofá e me abraçou.
Suas mãos rodearam meu pescoço e senti seu
corpo completamente colado ao meu. Estremeci com o contato tão íntimo e com seu
perfume. Rebeca me apertou ainda mais contra ela e murmurou em meu ouvido:
- Isso é só o começo.
Então se afastou um pouco e beijou o canto da
minha boca, tocando rapidamente meu lábio com sua língua. Senti seu gosto e me
perdi. Aquela mulher estava me enlouquecendo aos poucos.
Antes que eu cometesse uma
loucura, fugi. Caminhei em passos decididos até o meu quarto e planejei ficar
lá até conseguir me controlar e diminuir minha ereção. Não tive tempo para
isso.
Eu estava de costas para a porta,
mas senti a presença e o perfume dela. Virei e a vi abrir a porta do meu
quarto.
– Oi. – Ela disse simplesmente.
– Oi. – Respondi.
– Eu quero falar com você.
– Rebeca, não...
– Só quero trocar duas palavras José, não vou
te estuprar.
Ela não sabia que meu medo era eu estuprá-la e
não o contrário. Com todas as minhas forças, lutei para ficar afastado dela.
– Sei que não, mas não quero te dar esperanças
e nem ideias erradas pros meninos lá embaixo.
– Para falar a verdade eu quero te fazer um
pedido para que possamos parar com essa brincadeira de gato e rato.
– Eu... – Ela não me deixou responder. Parecia
decidida.
– Nós dois sabemos que eu estou sendo bem
direta na minha investida e você está sendo bem direto em me ignorar, mas as
últimas vezes que estive aqui percebi que você começou a me olhar,
principalmente quando acha que não estou te olhando. – Ela começou a caminhar
na minha direção. – José, não somos mais crianças. Eu estou atraída por você e
pelo que meu instinto feminino me diz, você também está atraído por mim. O que
te impede de ficar comigo?
O que me impedia de ficar com ela? Com certeza
não era a distância, já que ela estava a centímetros de mim.
– Olhe para nós dois, Rebeca. Tenho idade para
ser seu pai.
– Meu pai teria setenta e dois anos hoje. Você
tem essa idade? Acho que não. Então não me venha com essa que poderia ser meu
pai. Você não é, e o que desejo fazer com você não é nada bonito de se pensar
em fazer com o próprio pai.
– Rebeca, não insista.
Ela não sabia aceitar um não e os meus nãos
estavam se esgotando. Precisava que ela parasse de me atormentar. Seus olhos
vinham me perseguindo nos meus sonhos. Seu corpo estava em meus pensamentos
mais impróprios e sua boca... Oh aquela boca! Aquela boca fazia e falava em
minha mente tudo o que podia para me levar do céu ao inferno.
Aquela boca que estava sem batom, me excitava
mais do que qualquer outra coisa. Ainda mais quando ela passava a língua sobre
o lábio inferior da maneira como ela fez. Seu perfume, sua língua, sua boca,
seu corpo tão próximo de mim, era muita coisa para suportar. Fechei meus olhos
e tentei imaginar qualquer outra cena que aqueles cabelos vermelhos não
estivessem presentes e foi nesse momento que eu conheci o céu.
Os lábios de Rebeca colaram-se aos meus. Seus
seios esmagaram meu peito e suas mãos voaram para meu pescoço. Me recusei a
retribuir sua investida, até que ela passou sua língua em meu lábio e percorreu
toda a minha boca. Não pude resistir. Ataquei sua boca, puxei seu corpo ainda
mais contra o meu e provei todo o sabor daquela pequena pimenta. Me sentir
arder com seu gosto. Se eu iria para o inferno, que fosse após ter cometidos
todos os pecados possíveis.
Rebeca retribuiu meu beijo com tanta entrega
que eu estava cogitando possuí-la ali, em pé, no meio do meu quarto, eu sabia
que ela se entregaria e deixaria eu fazer o que quisesse com ela. Isso estava
errado. Ela estava sendo movida pelo desejo e não estava vendo o erro que
estávamos cometendo. Eu era o cara maduro dentre os dois. Eu precisava refrear
isso. Eu não podia seguir a diante.
De onde tirei forças para interromper nosso
beijo, eu não sei. Porém, foi necessário. Após interromper o beijo, dei-lhe as
costas e evitei qualquer tipo de contato visual. Eu achei que ao beijá-la eu
estaria perdido, mas simplesmente olhá-la já me fazia ter que lutar para não
sucumbir ao seu encanto. Ela era uma maldita sereia e seu canto e encanto me
seduziam e faziam desejar me afogar, só para estar ao lado dela.
– Rebeca, por favor, vá lá para baixo.
– José, quantas vezes vou ter que dizer que
não somos mais crianças. Só me dê uma justificativa plausível e juro por tudo
que é mais sagrado que não volto a te perturbar ou a dar em cima de você.
Eu queria dizer muita coisa, mas sabia que ela
teria uma resposta para cada uma das minhas desculpas. Eu não podia contar a verdade,
e as desculpas não seriam eficazes com ela.
– Rebeca, apenas não haverá nada entre nós,
aceite isso.
– Pode me chamar de mimada se quiser, mas eu
não costumo abrir mão do que quero. E eu quero você, tanto quanto você me quer,
então é apenas uma questão de tempo para eu conseguir fazer você entender isso.
– Esse dia não vai existir. – Respondi na
intenção de convencer a nós dois.
– Desculpa, mas não me assusto tão fácil. –
Ela fechou o espaço entre nós. Passando suas mãos em minha cintura, colou seu
corpo ao meu e voltou a falar, agora baixinho, bem próximo a minha orelha. – Eu
aprendi a correr atrás do que eu quero. Eu quero você, quero transar com você.
Quero beijar seu corpo inteiro e sentir você beijando meu corpo todo. José, faz
muito tempo que não sei o que é estar com um homem de verdade.
Nesse momento eu conheci o inferno. Sua voz em
meu ouvido, combinada com suas mãos que passeavam pelo meu peito, barriga e
desciam ainda mais me fizeram fechar os olhos e implorar por uma morte rápida.
Teria que ser uma morte quase instantânea para que evitasse que eu sucumbisse a
tanto desejo que me corroía naquele momento.
Quando sua mão parou em cima da minha ereção,
Rebeca acariciou lentamente.
– Pelo visto não sou a única que quer ter uma
noite de sexo quente e forte. – Ela disse de encontro a minha orelha.
Gemi com seu sotaque em meu ouvido, combinado
com sua mão me acariciando. Eu estava a ponto de virar e terminar o que
começamos minutos antes, quando ouvi risadas vindas do andar de baixo.
Segurei a mão de Rebeca e por
míseros segundos, me deixei levar pelo desejo ao pressionar a mão dela com mais
firmeza sobre a minha calça e minha ereção. Suspirei de prazer, fechei os olhos
e a contragosto, afastei as mãos de Rebeca de mim. Quando virei para olhá-la,
respirei fundo e tentei soar o mais convincente possível.
– Por favor, Rebeca. Eu não posso e não vou
pra cama com você. Você é linda, sexy e atrevida. Qualquer cara da tua idade
teria o imenso prazer em te dar prazer, mas não sou da tua idade, você é
ex-mulher do meu genro e futura madrinha do meu neto. Não quero que uma
aventura atrapalhe ou cause constrangimento na relação que você tem com a minha
filha.
Não contei o motivo verdadeiro, mas falei
honestamente.
– Certo. Entendi seus motivos, porém não
concordo. – Ela não ia facilitar a minha vida. - Você acha que Anne e eu nunca
conversamos sobre o que sinto por você? Todos lá embaixo sabem que te desejo e
que você foge de mim como se eu fosse o lobo mal e você a chapeuzinho vermelho.
Ela caminhou para longe de mim e
parecia irritada quando arrumou os cabelos.
– Você não quer que ninguém saiba que nos
beijamos? Você não quer que ninguém saiba que desejamos um ao outro, José? É
isso?
Sim, ela estava furiosa. Não havia como negar
isso ao ver suas sobrancelhas erguidas e a mão na cintura. Seu temperamento
estava a ponto de explodir.
– Não quero que a amizade entre você e a minha
família tenha qualquer danos por minha causa. Não quero que o meu desejo me
cegue e depois que esse desejo passar, as coisas fiquem estranhas entre você, a
Anne e o Tiago.
– Você não acha que as coisas podem ficar
estranhas entre nós dois, ao invés de que entre a Anne e eu?
– Não foi você mesma que disse que não somos
mais crianças? Acho que somos maduros o suficiente para não deixar um
envolvimento atrapalhar nossas vidas.
Ela pareceu repensar. Suspirou e me encarou.
– Então vou te propor uma coisa. – Caminhou
até estar novamente quase colada a mim. – Essa noite vou dormir aqui. Podemos
esperar todos dormirem. Assim acabamos com isso de uma vez. Ambos sairemos
satisfeitos e ninguém precisa saber. Antes do sol nascer saio da tua cama e
volto para a minha.
A proposta era tentadora, mas alarmes soavam
em minha cabeça, alertando para o perigo desse plano.
– Rebeca...
– Vou esperar por uma decisão sua. Você vai
ter que dar o próximo passo. Vou estar na cama, acordada e esperando por você.
Não me deixe esperando.
Sem dizer mais nada, ela virou-se e saiu do
meu quarto. Deixando-me seu perfume e uma enorme ereção.
Caminhei pelo quarto um pouco e
fiquei repetindo suas palavras em minha cabeça.
“Ambos
sairemos satisfeitos e ninguém precisa saber.”
Qual era o meu problema com a Rebeca? Por que
ela não era como as outras mulheres? Por que ela mexia tanto comigo? Será que
eu conseguiria levar Rebeca para cama sem correr o risco de morrer em seus
braços? Essas eram perguntas que não saiam da minha cabeça.
“Todos
lá embaixo sabem que te desejo...” Ela disse.
Então se todos sabiam, porque eu
não poderia simplesmente aproveitar? Porque eu tinha que pensar tanto? Quem
sabe por que eu era mais de vinte anos mais velho do que ela? Porque ela tinha
a idade da minha filha? Não era só isso, mas eu tinha que pensar na questão da
nossa diferença de idade também
Eu pensei tanto, que cheguei em
um ponto de não conseguir pensar em outra coisa e me irritei tanto comigo mesmo
que desci as escadas para a cozinha, totalmente irritado.
Encontrei todos em volta da mesa
jogando baralho e me juntei a eles. Era pra ser uma distração, mas os braços
cruzados de Rebeca levantavam seus seios e o decote daquele vestido pecaminoso
deixava pouco para a minha imaginação. Quanto mais eu via, mais eu queria ver e
mais eu salivava por provar.
Em algum momento, Anne anunciou
que ia dormir. Vi ela e Rebeca discutirem sobre onde Rebeca ia dormi e descobri
que ela iria dormir na sala. Ela não ia facilitar minha vida. Se eu iria tê-la,
teria que descer as escadas e vir buscá-la. Ela não estaria me esperando em
minha cama.
Vi quando ela caminhou em direção
ao quarto da Anne e voltou de lá quase uma hora depois, com os cabelos
molhados, sem maquiagem, um travesseiro e um pijama cor de rosa tão curto que
me deu um bom vislumbre de suas coxas.
- Boa noite meninos. – Ela disse
ao passar pela porta da cozinha e seguir em direção ao sofá-cama que ficava na
sala.
Estava na hora. Eu tinha que
decidir. Algo me dizia que essa era a última vez que eu iria rejeitar Rebeca.
Ela não é mulher de ficar rastejando por um homem. Deve ter milhares deles aos
seus pés, mas por algum motivo oculto, ela queria a mim. Então eu sabia o que
tinha que fazer. Se ela não fosse parar em meus lençóis naquela noite, algo me
dizia que nunca mais a teria em minha cama.
Depois que todos foram para suas
camas, fiquei rodando em meu quarto. Andando de um lado para outro sem saber o
que fazer. Eu queria ficar com ela, tê-la em meus braços e então esclarecer
esse mistério sobre como é estar dentro dela. Quem sabe depois que fizéssemos
amor, ela perderia o interesse e pararia de me perseguir com seus olhos claros,
seus cabelos vermelhos, sua pele sedosa, sorriso brincalhão, lábios carnudos...
Oh Deus! Eu estava enlouquecendo
de tesão.
No banheiro do meu quarto, tomei
um banho e tratei de resolver sozinho parte do meu tesão, mas mesmo enquanto me
masturbava como um adolescente, meus pensamentos estavam nela e emm tudo que eu
sonhava em fazer. Sentir aquela linda boca devorando meu mastro era o que mais
me excitava. Imaginar ela lambendo-o e olhando para mim com aqueles olhos
claros e olhar sacana já me deixa a ponto de explodir. Eu não podia seguir
assim, me masturbando no chuveiro e mesmo assim ficando insatisfeito. Precisava
de um corpo de mulher. Precisava estar dentro de uma mulher. Eu precisava estar
dentro de uma certa ruiva.
Pensando nisso, sai do banho,
vesti uma bermuda confortável e arrumei minha cama. Era chegada a hora de
cometer o meu pior pecado, aquele que iria me levar diretamente para o inferno
e sem escalas no purgatório.
Caminhei até as escadas e a cada
passo que eu dava, um barulho diferente e parecendo cada vez mais alto ressoava
pelo corredor. Parecia que a casa toda iria acordar e me pegar indo em direção
ao pecado em forma de mulher. Caminhei tão lentamente e com tanto cuidado que
pareceu levar horas até que eu estivesse terminando de descer as escadas.
Chegando a sala, vi que Rebeca estava deitada de bruços. Uma de suas pernas
estava descoberta e ela parecia dormir.
Fiquei paralisado com aquela
visão. Ela parecia uma fada celta com seus cabelos vermelhos esparramados sobre
o travesseiro branco. Havia algo de vulnerável nela que enterneceu meu coração
e por um minuto, tudo o que desejei foi me deitar ao lado dela e abraça-la.
Lembrei então, que alguém poderia descer e me ver deitado ali com ela. Achei
melhor leva-la para meu quarto, nem que fosse apenas para dormir ao seu lado
essa noite e no primeiro raio de sol que apontasse no horizonte, eu a levaria
de volta para o sofá cama.
A levantei do sofá cama e a
acomodei em meu peito. Rebeca se remexeu e apoio sua cabeça em meu ombro.
– Achei que você não vinha. – Ela murmurou com
a voz sonolenta e passou os braços em meu pescoço.
– Eu também achei. – Respondi e fiz algo que
vinha querendo fazer a bastante tempo, dei um beijinho em seus lábios. Foi
instantâneo, me senti bem. Me senti tão bem que tive que lembrar a mim mesmo
que era apenas por uma noite. – Só por uma noite.
Quando voltei para meu quarto,
não me importei com o barulho ou com qualquer outra coisa. Rebeca estava nos
meus braços e tudo o que eu podia fazer era sentir seu corpo leve em meu colo.
Por essa mulher, por essa noite, eu iria para o inferno de bom grado e com um
sorriso no rosto.
*~*~*
Beijinhos!
Carol Paim & Sheila Bomfim