quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Capítulo 02

A construtora que Tiago e eu criamos, cresceu e prosperou muito. Quando chegou a oportunidade certa, resolvemos expandir os negócios para além de Portugal. Qual o segundo melhor país para fazermos negócio, do que o país natal de Tiago?
Depois de muito trabalho, muitas negociações e especulações; resolvemos implantar a filial internacional da nossa empresa em Florianópolis. Confesso que saber que muitos artistas mundiais elegeram Jurerê Internacional como um lugar bom o suficiente para se ter uma residência, foi um fator que contou muito para a nossa escolha de local.
Durante todo o desenvolvimento do projeto de implantar a filial em Floripa, Tiago esteve ao meu lado, dando dicas, dando ideias e muito interessado no caminhar do projeto. Por mais que quem estivesse à frente da questão fosse eu, estive sempre atenta ao que ele dizia e indicava, já que ele conhecia a região melhor do que ninguém. Estive atenta também a vontade louca que ele tinha de voltar e reencontrar sua Anne.
Quando finalmente chegamos ao Brasil, Tiago e eu nos divorciamos. Coisa que já deveria ter acontecido muitos anos antes, mas a burocracia para separar nossos bens e o medo de que nosso divorcio interferisse no bom desempenho da nossa empresa, nos fez protelar. Nunca parecia o momento ideal para o divórcio dos donos de uma construtora tão grande quanto a nossa. Entretanto, assim que o projeto Floripa foi concluído e chegou a etapa de nos mudarmos para o Brasil e participar da implementação completa do empreendimento, demos entrada na papelada do divórcio.
Minha chegada ao Brasil foi calma e tranquila. Sem nenhum tipo de confusão, uma vez que a empresa organizou toda a viagem, a minha estadia em um apartamento mobiliado e completamente equipado, além de instruções para meu transporte, já que foi contratado um motorista particular até que a validação da minha habilitação portuguesa estivesse pronta, para que eu pudesse dirigir no Brasil. Só me restou fazer as malas e entrar no avião.
Cheguei em Floripa uma semana antes da festa de inauguração do empreendimento, e ainda havia muito o que ser feito e algumas questões a serem finalizadas antes da inauguração. Mais um motivo pela vinda dos dois sócios da empresa, já que sempre apenas um de nós vai pôr a filial em andamento, mas dessa vez teve questões pessoais envolvidas e isso fez com que Tiago e eu viéssemos. Enquanto eu mantinha o foco total na empresa, Tiago resolvia as questões do seu passado e do seu coração.
Graças à vinda do Tiago que conheci José e Anne, assim como a Deb e o Diego. Minha estadia que era de apenas dois meses se transformou em uma estadia por tempo indeterminado e pela primeira vez na minha vida, não tive problemas em passar tanto tempo longe da minha casa.
Logo depois do meu divórcio é que minha vida começou a mudar. Eu nem imaginava que o Brasil iria me trazer tantas mudanças e tantas novidades. A principal novidade foi meu interesse avassalador por certo grisalho cabeça dura.
José, o homem por quem eu senti um desejo quase imediato e tomei a maior quantidade de nãos que eu jamais imaginei. Porém o que ele não sabia, era que eu sempre fui muito teimosa. Não desisto tão fácil. Se eu quero, eu luto e conquisto. Mesmo que eu tenha que lutar contra quem eu mais desejo conquistar.
Depois de conhecer José no meu escritório, tive a primeira oportunidade de conversar direito com a Anne, já que na primeira vez que a vi, ela estava em meio a uma briga com Tiago, acreditando que ele não tinha voltado pra ela anos antes, por ter se casado comigo. O que não era mentira, mas também não era totalmente verdade.
Entre a minha chegada e todos os acontecimentos na minha vida, algumas coisas foram uma constante; desejar José, malhar todos os dias, desejar o José, sair ao menos três vezes por semana para me divertir, desejar o José e desejar o José. A cada oportunidade que eu tive, fui à casa dele encontrar a Anne. Todas às vezes eu ia para conversar com ela, mas minha mente e meus olhos estavam sempre voltados para ele.
Havia algo de diferente no jeito como ele me olhava quando achava que eu não estava olhando. Havia algo de diferente no meu corpo ao estar ao lado dele. Eu simplesmente não conseguia disfarçar ou me concentrar em outra coisa que não fosse ele.
De início tentei me aproximar dele de maneira discreta, sempre disfarçando para que a Anne não percebesse, já que eu não conseguia imaginar a reação dela ao ter a ex-mulher do Tiago, mesmo sendo sua amiga, dando em cima do seu pai.
Certo dia, eu sabia que a Anne tinha saído com Tiago, apareci a noite na casa da Anne e do José. Era apenas uma desculpa para ver José.
- Oi José, a Anne está? – Perguntei para ele, na maior cara de pau.
José estava sem camisa, e usava um avental de cozinha. O cheiro que chegava de dentro da casa até a porta onde eu estava, era maravilhoso.
- Não está. Ela saiu para jantar com o Tiago. – Ele respondeu. – Era alguma coisa importante?
Como eu vim ensaiando o que ia dizer, eu tinha na ponta da língua a desculpa que ia usar.
- Na verdade não é nada muito importante. É que ela tinha ficado de deixar separado um sapato que emprestei para ela. Por um acaso ela te disse alguma coisa?
- Não, ela não falou nada. Faça o seguinte, entre e vá até o quarto dela ver. Se ela não estiver usando, deve estar lá em cima. Pode ficar à vontade.
Sorri por dentro. Até aquele momento, o plano estava correndo bem.
- Tudo bem, é rapidinho. Só vou pegar o sapato e já vou embora para te deixar jantar sozinho. – Me arrisquei para ver se ele me convidava para jantar, mas ele não convidou.
- Tudo bem, não precisa ter pressa. – Ele me respondeu antes que eu começasse a subir as escadas até o quarto da Anne.
Como eu não tinha emprestado nenhum calçado para ela, escrevi um bilhetinho e deixei sobre um dos seus sapatos dentro do armário. Como Anne ia passar um bom tempo fora, pelo menos até o dia seguinte, eu corria o risco de José ver o bilhete se eu colocasse em outro lugar.
Rapidamente peguei um par qualquer de sandálias e seguia em direção a escada, quando passei em frente à porta do quarto que do José, não resisti, entrei.
Seu quarto era simples, com uma cama de casal feita de madeira boa, uma cômoda, um criado mudo e um guarda roupa feitos com a mesma madeira da cama. Seu lençol era azul marinho e sem estampas. Nada estava fora do lugar. Nem mesmo os itens em cima da cômoda estavam bagunçados. Seus perfumes, relógios e alguns porta-retratos estavam perfeitamente organizados. Alcancei um de seus livros de cabeceira que estavam sobre o criado mudo e me deparei com A Arte da Guerra de Sun Tzu. Em sua cômoda seus perfumes e colônias eram todos muito masculinos e com notas amadeiradas. Cheirei um, fechei o frasco e quando estava quase colocando o perfume no lugar, senti que era observada e me virei para a porta, José estava encostado no batente da porta me olhando. Nos encaramos.
- Se eu disser que achei que era o banheiro, você vai acreditar? – Perguntei, depois de algum tempo nos encarando sem nos mexer.
José não respondeu imediatamente. Caminhou até ficar bem próximo a mim e com suas mãos ásperas e enormes, retirou o perfume da minha e se inclinou ainda mais até mim, para pôr o perfume em seu lugar. Quando ele estava tão próximo que eu podia sentir o perfume em sua pele, ele me respondeu.
- Não, eu não iria acreditar. Eu iria dizer que você estava bisbilhotando meu quarto. Só não sei o porquê.
- Porque sou curiosa, seria uma boa resposta? – Sorri e estremeci ao sentir que José passava seu rosto em meus cabelos que estavam soltos.
- Seria, mas eu gosto da verdade. Quer mais uma chance de me dizer a verdade? Porque você veio aqui hoje?
Me aproximei e colei meu corpo ao seu.
- A verdade? Então se prepare. – Murmurei próxima a sua orelha e foi a vez dele estremecer. – Vim te ver e vim pegar uma sandália emprestada.
- Achei que você tivesse vindo buscar uma sandália sua e não pegar uma emprestada. – Ele sorriu ao acrescentar. – Era só uma desculpa para me ver? Bastava ter me ligado ou apenas aparecido. Sabe Rebeca, eu não mordo.
- Mesmo se eu pedir para que morda? – Perguntei, agora levando minhas mãos até seu avental e tocando com a ponta dos dedos na pele de seu peito. Senti meu corpo todo esquentar ao tocar sua pele nua.
- Só faço o que quero. Só mordo quando quero.
- E você quer morder agora?
Minha voz saiu rouca. Foi quase um gemido. Com o corpo de José tão próximo do meu, senti cada batimento cardíaco dele e senti também o tamanho do seu desejo. Levemente pressionei meu quadril em sua direção. Senti quando ele tomou uma respiração profunda em meu pescoço, deu um beijo com os lábios abertos em meu ombro e levemente passou a língua em minha pele. Tremi e inclinei a cabeça para que ele tivesse um acesso melhor. Foi então que ele deu dois passos para trás.
- Não Rebeca. Isso não vai acontecer nem agora, nem nunca. Você é incrivelmente desejável, mas não vai rolar.
Senti um balde de água fria ser jogado sobre mim, mas eu não desistiria tão fácil.
- Isso é o que veremos. – Suspirei e mudei de assunto. – Acho que agora que você já descobriu minha pequena artimanha, só me resta ir embora e tentar me sentir envergonhada. Se bem que acho que não se consegue fingir vergonha.
José sorriu de leve e ficou em silêncio. Passei por ele e coloquei em sua mão o par de sandálias que eu ia pegar emprestado.
- Você não precisa ir embora. – Ele falou quando eu estava caminhando em direção a porta. – Eu fiz comida o suficiente para um batalhão, você não quer jantar?
Sorri e ainda de costas para ele respondi.
- Você está me convidando para jantar com você? Seria um encontro?
- Não Rebeca, não é um encontro. – O sorriso estava em sua voz. – Estou apenas te convidando para jantar comigo porque fiz muita comida e além disso, odeio jantar sozinho.
- Tudo bem, eu faço essa caridade. – Olhei por cima do ombro e José me encarava. – Tem sobremesa?
- Não.
- Posso pensar em uma sobremesa maravilhosa, mas já que você acha que nunca vai rolar nada entre nós, então ela fica um pouco inviável no momento.
- Rebeca... – Ele me repreendeu, mas o canto de sua boca erguida denunciava a diversão.
- O que foi? Não posso nem imaginar nada com você? – Sorri e pisquei para ele.
- Pode, mas guarde sua imaginação só para você. Não preciso saber o que você imagina fazer comigo.
A conversa passou a ficar interessante de verdade. Parei no batente da porta e me apoiei, olhando para ele, com os braços cruzados abaixo dos seios.
- Porque não posso falar que estou imaginando te arrancar dessa roupa e te jogar nessa cama e montá-lo...
- Chega Rebeca. – José falou rígido e fechou os olhos, suspirando.
- Tudo bem, não vou te provocar mais.
Era evidente que ele estava excitado. Era apenas questão de saber como derrubar suas barreiras e eu o teria na minha mão... No meu corpo... Na minha cama ou na dele, ou no sofá, ou em qualquer lugar. Balancei a cabeça tentando me concentrar no momento e não no que eu um dia iria fazer com ele entre os lençóis.
- Rebeca?
- Oi? – Pisquei. – Desculpa. Minha imaginação é muito fértil e às vezes é difícil de controlá-la. O que você disse?
- Fiz caldo verde para o jantar. Você gosta?
- Amo caldo verde.
- Então vamos comer. Estou faminto. – Ele sorriu passando por mim e raspando a lateral do corpo em mim.
- Eu também estou faminta, mas não tenho certeza que seja apenas de comida.
- Rebeca...
- Tudo bem. Tudo bem. Parei. – Ergui minhas mãos em sinal de rendição. – Não vou mais falar sobre isso. Por hoje.
Jantamos e conversamos amenidades. Depois de terminar de comer, levantei e juntei os pratos, colocando tudo na pia.
- Rebeca, não precisa lavar a louça. Deixa que eu faço isso. – José pediu.
- Tudo bem, eu não ia lavar mesmo. Só ia pôr na pia. – Sorri. – Uma coisa que você precisa aprender sobre mim, não espere que eu seja uma mulher prendada. Não sei fazer nada em uma cozinha, mas sei fazer várias outras coisas.
Olhei em seus olhos e vi o momento exato em que sua pupila escureceu.
- Achei que tínhamos combinado de parar com a provocação.
- Opa. Calma. Agora foi você quem pensou besteira. – Gargalhei.
- E tem como não pensar besteira quando você está por perto?
A voz de José era tão rouca que minha gargalhada morreu no mesmo instante.
- Porque só pensar? – Questionei, ainda buscando uma explicação para todo aquele autocontrole.
- Porque isso não vai funcionar. Simples assim.
- Você também prevê o futuro no trabalho e na saúde ou só no amor? – Brinquei.
- Não é uma previsão. É um fato.
José estava em pé de um lado da mesa e eu do outro. Nos encaramos e vi em seus olhos o brilho do desafio. Ele estava pronto para fixar seu ponto de vista e não iria desistir assim tão fácil. Eu também não.
Repensei minha estratégia e tentei uma abordagem diferente.
- Tudo bem, então. Não há argumentos contra fatos, não é mesmo? – Dei de ombros e peguei minha bolsa que estava pendurada na cadeira. – Não sou do tipo que desiste antes de pelo menos tentar, mas também não sou do tipo de rastejar por um homem. Deixei claro que estou interessada e você deixou claro que não está. Eu aceito isso e tiro meu time de campo.
Coloquei minha bolsa no ombro e caminhei até ele para me despedir e ir embora antes que eu desmentisse o que tinha acabado de dizer e rastejasse por ele. Senti seus olhos me acompanhando. Assim que dei o segundo passo, meu celular começou a tocar na bolsa. Parei e peguei o aparelho de dentro da minha bolsa. Era minha irmã.
- Oi delicia. – Cumprimentei.
- Oi mana. Tentei te ligar mais cedo, mas sua secretária me disse que você estava ocupada.
- Sim. Eu estava ocupada, mas agora estou livre para tudo que você quiser. – Falei sorrindo, então olhei para José. Ele parecia um tanto quanto tenso.
- Não era nada demais. Só queria te avisar que resolvi que vou pra Floripa daqui a alguns dias ver o Carlos. Ele anda todo nervoso e ciumento por causa de um funcionário novo do hospital que comentou uma foto minha no facebook. – Jessica riu. – Nós tivemos uma briga horrível por telefone ontem por causa do ciúme dele e...
Não consegui ouvir mais nada. José me encarava com tanta intensidade que me perdi em seus olhos.
- Beca, você está me ouvindo? – Jessica berrou no meu ouvido.
- Desculpa amor, o que você estava dizendo? – Fechei os olhos para me concentrar.
- Onde você está?
- Estou saindo da casa da Anne agora. Por quê?
- Você está distraída. O que você estava fazendo ai?
- Só vim pegar uma sandália dela e já estou voltando para o meu apartamento. Acho que vou para a balada hoje.
- Vê se não vai dirigir depois de beber.
- Vai tomar conta da minha vida até por telefone? Quem sabe você pode me levar para casa, o que acha? – Sorri por saber que ela estava do outro lado do Atlântico e nada podia fazer para me controlar.
- Me provoque e pego um avião hoje.
- Estou pagando para ver.
- Me provoque e não se cuide para você ver se não apareço na sua porta para te puxar a orelha. Você é minha única família, faça o favor de se manter bem.
- Tudo bem. Agora me deixa desligar. Tenho que ir para casa me arrumar antes de sair.
- Certo. Juízo, mana. Te amo.
- Também te amo.
Desliguei e guardei o celular na bolsa.
- José, a conversa foi ótima, a janta estava maravilhosa, mas já que não tenho mais nada o que fazer aqui, vou cair na gandaia. Vejo você por aí. Me acompanha até a porta? – Perguntei encarando-o.
Ele não me respondeu, apenas virou e caminhou até a porta. Quando abriu a porta e parou, segurando-se nela, achei que minha noite com José estava definitivamente acabada, até que então ele me surpreendeu.
Parei do lado de fora da porta e olhei José. Em um impulso me inclinei para dar um beijo em seu rosto. Apenas um beijo de despedida, mas José me segurou e colou seu corpo no meu.
- Hoje à noite, quando estiver nos braços de outro homem qualquer, tente não pensar em mim. – José sussurrou em meu ouvido.
- E você, quando for se masturbar sozinho hoje à noite, pense em mim e em tudo que vou estar fazendo com um qualquer, enquanto poderia estar fazendo com você. – Respondi assim que me recuperei do que José havia dito.
Ficamos parados, com os corpos colados, por mais tempo do que o necessário. Sem pensar, deixei meu nariz percorrer seu pescoço e senti quando José estremeceu. Era hora de ir embora de vez ou de me agarrar aquele homem. Virei meu rosto em sua direção e esperei. Ele me olhou de volta. Ficamos nos encarando, até que movidos por magnetismo sexual, nossos lábios começaram a se aproximar um do outro. Fechei meus olhos no último instante e não vi quando José desviou seus lábios e plantou um beijo casto no canto da minha boca.
Fiquei parada e de olhos fechados por uma eternidade, até que senti uma brisa leve roçar minha barriga e percebi que José tinha se afastado. Estávamos ofegantes e irritados. Eu por um desejo não satisfeito e ele por quase ter perdido o controle. Não falei mais nada.
Com passos decididos e completamente furiosa, marchei até meu carro rezando para que eu não encontrasse nenhuma blitz, fui embora cantando pneu e acima da velocidade permitida.
Naquela mesma noite, enquanto eu estava nos braços de um qualquer que encontrei na balada, me recriminei por não conseguir tirar um certo grisalho da cabeça. Então resolvi fechar os olhos e imaginar que era com ele que eu estava no motel, mas as mãos suaves e que tocavam com delicadeza não combinavam em nada com José. José seria firme e duro na medida certa. José iria me pegar com vontade e desejo, sem medo de que fosse me machucar ou quebrar. José me pegaria como um homem de verdade pega uma mulher. Esse qualquer, que apesar de bonito, não era José, ele tentou. Fez tudo o que pode e deu o melhor de si. Porém no final da noite, quando cheguei sozinha ao meu apartamento, me senti duplamente frustrada. José não só me rejeitou, como se infiltrou em meus pensamentos e me impediu de gozar. Eu precisava resolver essa situação, ou estaria louca em pouco tempo.

 *~*~*

Algumas semanas depois, Anne marcou um jantar em sua casa e me convidou. Na verdade, quando nos falamos por telefone, ela deixou claro que era fundamental minha presença. Como sou curiosa demais para não ir, acabei indo.
José assava a carne do churrasco. Anne, Deb e eu cuidávamos da arrumação da mesa e do preparo de outras comidas, enquanto Diego e Tiago cuidavam das bebidas. Passei a maior parte do tempo apenas olhando José de longe. Não nos falamos.
Vi algumas vezes a forma como me olhava e a careta que fazia quando desviava os olhos do meu mini vestido vermelho. Ele parecia se recriminar por me olhar. Quem sabe até me desejar. Quando nos encarávamos, eu me perdia em seus olhos. Meus sentimentos eram confusos. Um misto de desejo e raiva.
O jantar seguiu como o esperado. Todos comemos, bebemos e conversamos. Tudo estava muito bom, mas algo estava me incomodando. Eu não conseguia me sentir completamente feliz. Quando eu via Anne e Tiago juntos, tão apaixonados, algo se remexia no meu estomago. Eu sabia que o que eu estava sentindo era vontade de ter aquele tipo de amor que os dois tinham. Eu queria ser amada como Tiago amava a Anne. Queria que um homem olhasse pra mim com aquela admiração e devoção. Ao desviar meus olhos de Tiago e Anne, olhei para Diego e Deb. Gemi baixinho.
- Está se arrependendo de ter se separado do Tiago? – José perguntou atrás de mim.
- Nem por um minuto. Desejo que ele seja muito feliz e sei que ao lado da Anne, ele vai ser. – Respondi com sinceridade.
Lutando com todas as minhas forças, me afastei de José e caminhei para dentro da casa dele. Não queria que ele visse o quão solitária eu me sentia naquele momento.
Caminhei até o banheiro e ao chegar lá, entrei e tranquei a porta. Eu precisava de algum tempo para me recompor e colocar todos os meus sentimentos no lugar. Assim que abri a porta para sair, vi José parado na parede em frente a porta do banheiro.
- Veio fugir dos sentimentos? – Ele me perguntou.
- Vim usar o banheiro e mesmo que tivesse vindo para qualquer outra coisa, acho que não seria da sua conta. – Respondi irritada por ele poder ler tão claramente os meus sentimentos.
Minha irritação atiçou algo em José e antes que eu pudesse entender o que ele estava fazendo, José me pegou pelo braço e praticamente me arrastou para dentro do banheiro, trancou a porta e me prensou contra a parede.
- Se você sente alguma coisa por ele, eu vou te pedir educadamente para que suma daqui e nunca mais volte.
- Por ele? Ele quem? – Perguntei sem entender.
- Como quem? O Tiago. Se sente alguma coisa por ele, guarde para você. Não interfira na felicidade dele com a Anne.
Olhei para ele ainda incrédula.
- José, eu não gosto do Tiago dessa forma. Nunca gostei. Você realmente acredita que eu estaria aqui ou que eu teria assinado o divórcio se amasse ele?
- Eu só não quero ver a minha filha sofrer novamente. Ela está tão feliz.
- E o meu amigo também está muito feliz. Eu também não quero que nada de mal aconteça com os dois. – Respondi dando ênfase a palavra amigo.
- É que eu vi a forma como você olhou para os dois. Eu vi como você ficou triste...
- Você já amou daquele jeito José? – Perguntei olhando em seus olhos. Sem esperar uma resposta, continuei a falar. – Eu nunca amei ou fui amada daquela forma. Isso responde o que você viu quando me olhou?
Assim que terminei de falar, abri a porta do banheiro e sai. Não queria ouvir mais nenhuma palavra dele, muito menos se ela viesse carregada de pena.
Um dia eu amei, sim. Um dia eu sorria como uma boba só de pensar no meu amor, mas agora, olhando para o amor de Anne e Tiago, não tenho tanta certeza de que o amor que eu sentia era o tipo de amor certo. Que ele não era amor para durar uma vida inteira, disso eu tinha certeza. O que eu não sabia e nem nunca tinha experimentado, era outro tipo de amor. Um amor forte o suficiente, capaz de superar todos os obstáculos.
Horas depois, tive que passar por uma nova provação. Eu estava percebendo que estar rodeada por pessoas apaixonadas era uma prova de fogo para meu controle emocional.
Assim que terminamos de jantar e de arrumar a bagunça, Tiago nos surpreendeu ao pedir Anne em casamento de joelhos. Ele entregou a ela um anel e um colar onde tinham cinco bonequinhos como pingente. Um casal e três filhos, duas meninas e um menino. Foi então que Anne anunciou que estava grávida de gêmeos e contou sobre a sua primeira filha que faleceu quando ainda era pequena, vítima de um acidente de carro.
Até aquele momento eu consegui controlar minhas emoções, mas quando Anne me convidou para ser madrinha de um dos bebês, eu quase desmoronei.
- Anne e eu escolhemos você Beca e meu sogro favorito como padrinhos de um dos gêmeos. – Tiago falou sorrindo.
– Jura? Eu? – Perguntei a beira das lágrimas. – Vocês não acham que é um pouco estranho a ex-mulher do Tiago ser madrinha de um filho dele?
– Você nunca foi minha mulher. Você sempre foi minha amiga e nada mais justo do que escolher uma amiga para madrinha do meu filho. – Ao me responder, Tiago me deu um abraço forte.
Olhei para Anne e assim como eu, ela estava com lágrima nos olhos.
– Beca, não existe maneira melhor de te agradecer pelo que fez por nós, do que te dar um filho meu para que você batize. Ser madrinha é ser a segunda mãe. Sem a sua intervenção, uma hora dessas eu estaria sozinha e sem o meu Ti. – Anne me falou, quando a abracei.
– Filha. – José estava atrás de mim chamando a Anne. – Eu me sinto emocionado por ser escolhido para ser padrinho, mas sou obrigado a recusar. Já sou avô e isso é muito mais do que qualquer outra coisa. Escolha outra pessoa para também fazer parte da vida do bebê. Eu já estarei presente sempre, sem ter a necessidade de ser padrinho.
– Pai... – Anne ainda tentou argumentar, mas foi em vão
– Está resolvido. – José foi firme.
– Está bem. – Anne respondeu e abraçou seu pai com carinho.
Para dar espaço para pai e filha conversarem, caminhei e parei ao lado da Deb.
– Droga, já podia me ver na igreja com o José. – Disse. Tentando fazer graça e esconder o quanto estava nervosa. – Eu adoraria ficar de braço dado com ele na igreja. Eu adoraria ficar com ele e ponto.
Deb sorri.
– Você está dando em cima do Seu José a noite toda ou é impressão minha?
– Estou tentando, mas o homem é mais escorregadio que sabonete na banheira. – Sorri e na mesma hora imaginei José comigo em uma banheira.
– Você já parou para pensar que ele pode não querer se envolver com uma mulher mais nova?
Eu já tinha pensado em mil desculpas diferentes, mas nenhuma delas era forte o suficiente para que ele se mantivesse afastado de mim.
– Já pensei e mesmo assim não vou desistir.
– Só me resta te desejar boa sorte, mas já te aviso que Seu José é mais cabeça dura que a Anne.
– Seu José... – Sorri com a forma como Deb o chamou. – Quem dera ele fosse meu.
Ambas rimos e continuamos a conversa.
– O que minhas comadres tanto conversam e riem? – Anne se aproximou e perguntou.
– Estamos falando de tudo um pouco. – Deb respondeu rapidamente e vi que ficou um pouco nervosa.
Eu sabia que podia estar estragando aquela noite ao contar do meu interesse por José, mas eu queria ser honesta com Anne desde o início. Afinal, ela logo, logo seria minha comadre. Se meus planos dessem certo, dentro de pouco tempo ela seria também minha enteada. Esse pensamento me fez sorrir.
– Estamos falando de tudo um pouco e falando muito do gelo que seu pai está me dando.
– Se quiser alguma coisa com aquele teimoso, vai ter que ser muito insistente. – Anne respondeu sorrindo e me deu uma piscadinha. Aquele era todo o aval que precisava.
– Insistente e persistente são minhas melhores qualidades, além de um par de seios, uma bunda empinada e meus lindos olhos azuis. - Caímos na gargalhada.

Mais tarde naquela noite, já em meu apartamento, relembrei tudo o que ocorreu. Tiago pedindo Anne em casamento. Os dois anunciando que irão ter gêmeos. José me puxando para o banheiro. Anne, Deb e eu marcando de ir ao shopping. Tudo isso foi muito bom, mas nada se compara ao que senti por ser convidada para ser madrinha de uma criança. Eu seria parte da vida de uma criança. Eu seria como uma segunda mãe. Saber disso era o suficiente para me fazer dormir com um sorriso nos lábios.

*~*~*

Continua na próxima quarta...

Beijos,

Carol & Sheila


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Capítulo 01

Anos antes do Casamento

Beca

Minha vida sempre foi movida por impulsos, muitos erros e alguns acertos. Começando pelo fato de que sou fruto de um flashback entre meus pais. Pelo que eu soube, meus pais estavam separados quando em um dia de chuva, brigaram tanto que acabaram na cama e nove meses depois nasci. Um impulso, que era um erro, acertou em cheio ao gerar uma nova criança.
Eu quebrei meu braço aos dez anos quando, por impulso. Aceitei uma aposta de pular de um balaço em movimento. Errei ao cair e apoiar a mão no chão, mas acertei ao não deixar minha cara se esfregar na areia, ou poderia ter quebrado o pescoço.
O que estou querendo dizer é que não faço nada calculado. Tudo na minha vida é a consequência de uma atitude tomada, na maioria das vezes, sem pensar.
Minha relação com meu pai por exemplo, sempre foi péssima devido a minha impulsividade. Nunca concordei com a maneira como ele comandava a família e isso só piorou quando perdi minha mãe aos quatorze anos.
Minha irmã Jéssica, que tinha dezessete anos na época, tentou me consolar e me ajudar a passar pela perda da nossa mãe, mas tudo o que eu queria era me vingar do meu pai por trabalhar tanto e não estar lá quando minha mãe morreu afogada em nossa piscina.
Aos dezesseis anos descobri a liberdade, as festas e os garotos. Perdi minha virgindade nesse mesmo ano, com Luiz, um garoto dois anos mais velho. Minha primeira vez não teve nada de especial, nós fomos a uma festa, eu bebi um pouco de vinho a mais e ele me beijou o suficiente para que eu pedisse pra ele não parar. Fomos para um carro e no banco de trás eu perdi minha virgindade. Tive que ouvir resmungos por possivelmente ter manchado o banco de sangue.
Realmente, minha primeira vez não teve nada demais. Não doeu tanto quanto eu achei que doeria, mas também não me deu tanto prazer quanto eu achei que daria. Foi só uma inauguração do meu corpo de mulher.
Eu só fui saber o que era um orgasmo depois de algum tempo, quando conheci Luca. Meu primeiro e único namorado. O único que eu levei até a minha casa e apresentei ao meu pai. Antes não tivesse feito isso, mas fiz, pois achava que Luca era o homem da minha vida.
No dia em que o convidei para ir a minha casa, Luca ficou relutante, dizendo que não iria se sentir bem, que seu nível social era outro, que meu pai poderia não gostar de ver a filhinha dele namorando um pé-rapado e mais mil desculpas. Insisti. Nessa época nós já namorávamos há vários meses e eu estava para fazer dezoito anos.
Como Luca previu, meu pai não nos dispensou nem um olhar sequer durante o jantar que providenciei para apresentar meu namorado. Meu pai não trocou uma palavra sequer comigo ou com Luca, falava apenas com Jessica. Uma fúria assassina foi tomando conta de mim ao ver o quão sem jeito Luca estava ao ser visivelmente ignorado. Pouco antes de ser servida a sobremesa não aguentei e questione meu pai:
- Posso saber por que Luca e eu estamos sendo ignorados durante toda a noite?
Meu pai não se dignou nem a me olhar, muito menos a me responder. Jess vendo minha raiva, tentou intervir, chamando a atenção do nosso pai, mas ele não se deu ao trabalho de ouvi-la. Assim que as taças de sorvete foram servidas e nós dois seguíamos sendo ignorados, levantei, olhei para Luca e pedi que me acompanhasse até meu quarto. Assim que Luca levantou, vi meu pai nos olhando.
- O senhor pode continuar com sua sobremesa que nós dois vamos nos divertir no meu quarto. – Falei com raiva e num impulso, ergui a toalha da mesa, fazendo com que as taças de sorvete caíssem e sujasse tudo. – Desculpa maninha.
Me desculpei com Jess e dando a mão para Luca, corri para meu quarto, tranquei a porta e liguei o som alto o suficiente para que os vidros das janelas balançassem. Ainda sorrindo da minha peraltice, dancei um pouco com Luca no meio do meu quarto e quando meu pai começou a esmurrar a porta, fugimos pela janela e atravessando os jardins correndo, seguimos até a moto de Luca e pilotamos até sua casa.
- Por que você fez aquilo? – Luca me perguntou quando entramos em seu quarto, que ficava acima do bar de sua família.
- Pra ele aprender a nunca ignorar ninguém. Muito menos nós. – Respondi irritada, sentando em sua cama bagunçada.
- E nós precisamos da atenção dele? Você precisa da aprovação dele?
- Não, mas é falta de educação fazer o que ele fez. – Aquele assunto estava me irritando ainda mais. – Vamos mudar de assunto. Já que estamos sozinhos aqui, acho que podemos falar de coisas bem mais interessantes, você não acha?
Luca sorriu ao ouvir o meu tom e entendeu perfeitamente sobre o que eu estava falando.
- Tenho muitas coisas em mente que podemos conversar. – Ele sorriu ainda mais ao se sentar ao meu lado e puxar meu rosto pra nos beijarmos.
Sempre amei o jeito dele me beijar. Uma mão em meu pescoço e a outra nos meus cabelos, possessivo, como se tivesse segurando algo que lhe pertence.
Na manhã seguinte, quando voltei para casa, encontrei a porta do meu quarto arrombada e um bilhete do meu pai.
Você vai se arrepender.” Era o que dizia.
Foi quase um ano depois que meu pai finalmente conseguiu me provar que era mais poderoso que eu. Ele usou de toda a sua influência e lábia, para me separar de Luca, me obrigando a casar com um estranho, logo em seguida.
Eu podia ter negado me casar. Podia ter fugido e ido morar sozinha, mas com que dinheiro se eu não trabalhava e dependia do dinheiro do meu pai? A herança que minha mãe deixou só seria efetivamente minha aos vinte e um anos, até lá eu tinha que viver à custa do meu pai. Foi por isso que aceitei me casar. Foi por isso e por medo de passar necessidade.
Para minha sorte, o noivo arranjado em questão era outro garoto sendo obrigado a se casar. Eu para evitar a miséria e ele para evitar do pai ser preso. Dois jovens apaixonados por outras pessoas e afastados dos seus amores por famílias distorcidas. Tiago e eu nos tornamos mais do que marido e mulher, nos tornamos sócios, amigos e principalmente, nos tornamos o apoio um do outro.
Mesmo Tiago sendo um cara bonito, nunca senti nenhum tipo de atração física por ele. Acredito que por tê-lo conhecido em uma fase complicada da minha vida, eu via nele mais um amigo irmão, do que um homem para estar na minha cama.
Nosso contrato de casamento já estava pronto quando descobri a traição de Luca. Tiago foi quem me apoiou e ajudou a dar a volta por cima. Quando me vinguei em grande estilo, Tiago me recriminou por ser tão impulsiva, mas mesmo assim se manteve ao meu lado.
Durante algum tempo depois do casamento, eu me mantive na minha, fingindo ser uma boa esposa. Tiago e eu tínhamos um acordo de liberdade total, desde que tudo que fosse ilegal, imoral ou que pudesse prejudicar o outro, fosse feito no mais completo sigilo. E assim foi.
Sempre que eu queria arrumar alguém, eu me disfarçava e saia em locais dos quais ninguém da classe social do meu pai pudesse me reconhecer. Frequentei os mais variados tipos de lugar. De puteiros até restaurantes em hotéis simples. Minha predileção eram os botecos. Homens rústicos, bebidas fortes e música animada. Era isso que eu buscava nesses lugares sem nenhuma classe.
Vários anos onde eu passava mais tempo viajando do que em Lisboa. Tiago e eu nos falávamos todas as semanas por telefone, mas nos víamos no máximo uma vez por mês, então cada um seguia com sua vida extraconjugal e aproveitava suas aventuras da melhor maneira que conseguia.
Dentre todas as aventuras, poucas foram as que duraram tempo o suficiente para ficar para se tornar inesquecível. De algumas aventuras guardo os rostos, outras, apenas o que foi feito de bom, outras guardo o que deu errado, e algumas simplesmente não marcaram tanto ao ponto de minha memória dar importância.
Lembro-me de um grego que tinha o maior membro que eu já vi em minha vida, mas que infelizmente não soube como usar direito e gozou assim que consegui contar até três. Outro que me recordo foi um francês, o querido François. Juro que na primeira vez que vi o François não dei muita bola para ele. Eu estava em uma mesa de uma confeitaria comendo um Pastel de Belém e ele sentou-se ao meu lado.
- Desculpa, mas posso me sentar ao seu lado? – Ele perguntou enquanto já se sentava. Levantei meus olhos e o encarei, apenas assenti concordando. Seu sorriso era imenso e rivalizava em tamanho com sua iminente calvície. – Desculpe por isso, mas você me faria um favor?
Olhei para ele de má vontade.
- Depende. – Respondi desconfiada.
Fazia poucas horas que eu estava na França, mais especificamente em Nice na Riviera Francesa. Nessas poucas horas, eu recebi uma ligação do meu pai querendo saber onde eu estava e uma ligação da minha irmã dizendo que eu não deveria brigar e xingar meu pai por telefone. Ou seja, meu humor não estava muito bom.
- Você está vendo aquela mulher parada naquele carro? – François me indicou o carro com um olhar. – Não, não olhe agora. Espere.... Pronto, pode olhar.
Eu estava de costas para onde ele apontava discretamente. Muito discretamente virei e vi uma mulher encostada no carro, meio disfarçada. Olhei para ele novamente, agora curiosa com a situação.
- Sim, estou vendo a mulher. O que tem ela? Vai me dizer que ela está te ameaçando? – Zombei dele.
Vi quando ficou vermelho e sorriu tímido. 
Me encantei. É muito difícil encontrar um homem tímido. Achei fofo. Apesar de não ser do tipo bonitão, de ter seu problema de calvície, ele era de alguma maneira, engraçadinho.
- Na verdade, ela é minha ex-mulher e não está aceitando bem a nossa separação. Para ela sair do meu pé, disse que estava saindo com outra pessoa...
Ele me olhou e parecia esperançoso.
- E o que? Você quer que eu te faça o que? Finja que estou saindo com você?  - Sorri, verdadeiramente divertida.
- Sim. Na verdade eu queria te pedir... Um beijo... – Ele baixou os olhos e esperou minha resposta sem olhar para mim.
Eu gargalhei.
- Se isso foi algum tipo de cantada, vai ganhar o beijo só pela criatividade e pela interpretação.
Vi quando ele entendeu minhas palavras e me olhou feliz.
- Jura que você vai fazer isso por mim?
- Juro.
- Nossa, nem sei o que dizer.
- Me diga, você quer um beijo apaixonado ou um beijo do tipo cheio de desejo? Porque tem diferença...
- Eu quero um beijo. Qualquer tipo. – François parecia um pouco nervoso.
- Certo. Então vamos facilitar a pergunta. Você quer que sua ex fique conformada de ter te perdido ou com ódio por você estar com outra?
- Ela que pediu o divórcio. Disse que não me amava mais e queria um tempo. Eu implorei para que ela repensasse antes de me por pra fora de casa, porque se eu saísse, não voltaria mais. Ela não quis nem me ouvir. Acho que nesse caso ela merece ficar com raiva por ter me perdido.
- Você tem certeza? Ela pode ficar com raiva e arrumar outro também. – Perguntei querendo ter certeza de que ele não iria se arrepender.
- Tenho certeza. Quero ter alguma aventura na minha vida. Sou muito novo para ficar amarrado a uma mulher amargurada como ela.
- Então você não pretende voltar com ela, mesmo?
- Não. – Ele respondeu decidido.
- Então tudo bem. Vamos fazer isso direito. Primeiro, chame o garçom e pague nossa conta. – Instrui. Enquanto François pagava a nossa conta, expliquei alguns detalhes do que iriamos fazer. Minha mente pecaminosa e perigosa, funcionando a todo vapor. – Mulher odeia quando o cara age com a outra da mesma forma como agia com ela, então pense na forma como você beijava sua mulher quando você estava com muito tesão. No jeito que deixava ela louca.
- Certo, já sei o que você está falando.
- Ok! Eu vou falando besteiras no seu ouvido até que estejamos perto do carro onde ela está. Eu gostaria que você demonstrasse que está excitado. Se é que me entende... – Falei e ergui uma sobrancelha indicando suas calças.
- Isso não será nenhum problema. É para deixar visível ou posso dar uma disfarçada aqui embaixo?
- Deixa visível até chegarmos perto do carro, ai você tenta dar uma arrumada. Isso vai chamar a atenção dela. Outra coisa, não olhe para ela nem para o carro. De maneira nenhuma, nem que ela arranque com o carro e passe por cima de você.
- Mas ela me viu olhar para ela quando cheguei aqui...
- Isso vai ser melhor. Vai mostrar que você consegue ignora-la quando está comigo.
- Tudo bem. – François parecia realmente nervoso.
- Vamos começar agora?
- Vamos. – Ele concordou e levantou do seu lugar lentamente.
Ao pegar na minha mão, senti que tremia e estava um pouco fria. Eu tinha que acalma-lo.
- Eu vou te dar um beijo daqueles e nem sei seu nome. – Sussurrei em seu ouvido. Ele sorriu
- Sou François e você? – Ele sussurrou no meu ouvido.
- Beca. – Sorri para ele lhe dei um selinho. – Agora vamos ao plano.
Ainda sorrindo, colei meu corpo no seu e deslizei minha mão pelo seu peito, antes de me aproximar de seu ouvido novamente.
- Agora preciso que você pense na sua fantasia sexual que mais te dá tesão. Está pensando François? – Ele confirmou com um balançar de cabeça. – Posso saber qual é?
- Uma certa ruiva que está falando em meu ouvido.
Não consegui resistir e gargalhei.
- Vou fingir que acredito, mas não importa. Pense nessa ruiva e em tudo que gostaria de fazer com ela. Está pensando François?
Dessa vez ele não respondeu, ele agiu. Com uma pegada que me surpreendeu, François colocou as duas mãos na minha bunda e me puxou forte, colando ainda mais nossos corpos. Senti que ele estava realmente excitado.
- Estou pensando em fazer muita coisa com essa ruiva em questão, mas como ela está me ajudando, não vou expor tudo o que estou fazendo com ela nos meus pensamentos.
- Hummm... Isso está ficando interessante. – Comentei ao sentir François cheirando meu pescoço e dando pequenos beijos. – Acho que temos que seguir o plano, não?
- Temos sim. Desculpa. É que não estou pensando com muita clareza nesse momento.
Sorri com seu comentário e baixei meus olhos para ver o tamanho da sua “distração” e meu sorriso sumiu. Era um tamanho bem interessante.
Caminhamos pela calçada contrária à onde estava o carro e quando chegamos próximos o suficiente para que pudéssemos ser vistos com clareza, segurei François pela camisa e o encostei no poste. Quando colei minha boca na sua, senti que ele ficou sem saber como agir por cerca de quinze segundos, antes que sua mão fosse para meu cabelo e me segurasse com firmeza. Senti um arrepio percorrer meu corpo.
Seus lábios eram macios e sua língua era ávida. Uma de suas mãos estava sobre minha bunda e a outra segurava meu cabelo, próximo a raiz. Quem diria que aquele homem tímido e que fugia da ex-mulher, pudesse beijar tão bem. Sua mão começou a percorrer meu corpo e senti que cada parte que ele tocava, respondia ao seu toque. Ele estava me excitando.
Depois de algum tempo, eu precisei me afastar. Precisei respirar e lembrar que aquilo ali não era de verdade, era apenas uma atuação.
- Se você pegava sua esposa dessa forma e ela quis se separar de você mesmo assim, ela não deve gostar de homem. – Comentei.
Ele riu e pegando na minha mão, seguimos caminhando. Ao dobrarmos a rua, François me pegou desprevenida e com um movimento rápido, me empurrou contra a um muro.
- Aquele beijo foi encenação. Esse é de verdade
Sem dizer mais nada, me devorou com lábios, língua e dentes. Um beijo que me acendeu e atiçou ao extremo.
- Meu hotel fica a duas quadras daqui. – Eu disse entre um beijo e outro. Era um convite claro e François não perdeu a oportunidade.
Pegando em minha mão novamente, nós dois quase corremos até meu hotel. Ao chegar no meu quarto, foi uma briga para ver quem tirava a roupa primeiro.
- Agora você pode dizer o que estava pensando em fazer com aquela ruiva.
- Agora eu não quero falar. Eu quero fazer.
Duas horas depois, estávamos os dois exaustos em cima da cama. Cada um em seu travesseiro, quando François me surpreendeu.
- Ela não era minha ex-mulher.
- Como assim não era? – Perguntei ao me apoiar nos cotovelos e olhar para ele. – Era tudo fingimento seu?
Ele gargalhou e levantou as mãos em rendição.
- Só não me bate, tá.
- Desembucha. – Falei, mas senti meus lábios querendo sorrir.
- Olhe para mim e olhe para você. Eu precisava de uma boa desculpa para que pudesse ter uma chance. Você estava toda séria e linda. Eu sabia que uma cantada simples não ia colar com você. Então foi ai que vi a mulher no carro e vi que você estava quase de costas para ela. Foi só uma questão de sorte você não ter me chutado para fora da sua mesa.
- Então você me enganou e ainda tem a cara de pau de me dizer isso agora. Você é inacreditável.
- Inacreditável foi o que fizemos nessa cama. Acho que vou ter que repetir a dose antes de você me mandar embora daqui. – François falou ao se colocar entre as minhas pernas novamente. Nesse momento meus lábios sorriram ao concordar com François.
Passei dez dias em Nice. Noventa por cento do tempo eu estive com François, que também estava tirando umas férias na cidade. Nosso sexo era incrível e as coisas em comum eram muitas. Porém quando minha estadia chegou ao fim, eu fui para um lado e François para outro. Nunca mais ouvi falar sobre ele.
François foi apenas um dos vários casos que tive durante os anos do meu casamento de fachada. Aproveitei todos por algum tempo, mas nenhum fez mais do que se aproveitar do meu corpo. Mantendo meu coração longe dos meus romances passageiros, segui minha vida.

*~*~*


Amores, por hoje é só!



Espero que vocês estejam gostando e preparem-se para conhecer a espevitada da Beca e todas as suas facetas!


Beijos e até quarta!


Carol