quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Capítulo 03

José

Meu faturamento na madeireira triplicava no fim do ano, mas meu trabalho multiplicava por seis. Era muita gente querendo madeira para reformas, construções, decoração e outras mil utilidades. Sempre nessa época do ano, passava mais tempo no escritório do que em casa. Meu trabalho sempre me absorveu completamente, mas não sei se era a idade que já estava pesando sobre os ombros, pois em plena segunda feira, véspera de natal, sai do escritório no horário de almoço e dispensei todos os funcionários que não estão desenvolvendo algum tipo de trabalho urgente.
Tudo o que podia pensar, era que precisava comprar um maldito presente para a Rebeca. Fui ao shopping, andei igual a uma barata tonta e não encontrava nada que pudesse ser dado para ela. Tudo o que gostaria de dar de presente tinha uma conotação romântica ou sexual e isso não era algo que eu queria.
Rebeca é uma pimenta. Linda, mas ardente quando provada. Por mais que eu a desejasse, não podia provar de sua ardência. Não era homem para ela.
Foi pensando nisso que me afastei da vitrine de uma loja de lingerie onde passei aproximadamente cinco minutos imaginando Rebeca usando um conjuntinho preto de renda e com um tamanho tão pequeno que eu poderia guardar as duas peças em meu bolso.
Discretamente ajeitei o volume em minha calça e segui caminhando pelo shopping. Pensei em comprar maquiagem, afinal toda mulher gosta de maquiagem e Rebeca não era diferente. Ela vivia arrumada e perfeitamente maquiada.
Entrei na loja e caminhei entre as prateleiras de maquiagens e perfumes. Dar um perfume de presente para ela não era uma opção, já que eu gostava tanto do cheiro dela e nenhum outro poderia se comparar. Andei até parar em frente ao mostruário de batons. Eram tantas cores que fiquei meio tonto. Eu tinha certeza que deveria ter cores repetidas expostas ali, não poderia existir tantos tons de uma mesma cor.
- Posso ajudá-lo? – Uma vendedora me perguntou ao ver que eu olhava e não me decidia.
- Acho que sim. Estou procurando um presente para dar para uma amiga. Ela é ruiva e tem a pele clara. O que você me recomenda? – Perguntei.
- Bom, as ruivas costumam gostar muito de batons em tons de vermelho.
- Tons de vermelho? – Eu já tinha visto Rebeca de batom vermelho no jantar de noivado da Anne e minha noite não foi nada agradável, pois a cada vez que ela lambia os lábios, eu sentia vontade de atacá-la e beijar sua boca até que não tivesse mais batom nenhum. – Não. Acho melhor uma cor mais discreta.
- Quem sabe um tom de rosa. Temos esse modelo aqui, por exemplo. – A vendedora pegou um tom de rosa bem clarinho. – Esse aqui chamasse romance e é um dos mais vendidos. As mulheres estão amando ele.
Romance, amando, boca da Rebeca... Isso não estava indo muito bem.
- Desculpa, acho que não é exatamente isso que estou procurando. Vou tentar olhar outras coisas.
- Tudo bem. Se quiser, basta voltar e me procurar. – A vendedora respondeu e virou-se para atender outro cliente.
Já fora da loja, pensei em tudo o que eu sabia sobre a Rebeca que poderia colaborar para comprar o presente de amigo secreto.
Ideia de jerico essa da Anne. Sorteio online de amigo secreto na véspera do Natal só serve para dar dor de cabeça. Mesmo assim, segui pensando em tudo que eu sabia sobre ela e elaborei uma pequena lista.
A Rebeca é linda e vaidosa. Divertida e brincalhona. Ela tem um lado sensível que tenta esconder de todo mundo, mas que eu já vi algumas vezes. Ela é valente e muito leal aos amigos. É atrevida e abusada. Inteligente e sagaz. Mais sexy do que deveria e mais nova do que eu gostaria. Ela é muitas coisas em uma mulher só e isso me confundi ainda mais.
Enquanto seguia rodando pelo shopping, lembrei do nosso último encontro. Ela foi levar Anne em casa depois do passeio delas. Com a desculpa de usar o banheiro, Rebeca entrou e passou por mim e João Pedro, a quem chamamos de JP, que é um amigo e funcionário da madeireira. Vi quando ela me viu sentado jogando baralho com JP, um sorriso lento se espalhou por seu rosto.
- Essa é uma amiga da sua filha? – Perguntou JP ao ver Rebeca caminhar em suas botas de salto alto, mini saia jeans e camiseta branca. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo alto e deixava aparecer uma tatuagem de ideograma em japonês em sua nuca.
- Sim, ela é uma amiga de Anne e minha. – Respondi mais irritado do que eu gostaria pelo interesse de JP em Rebeca.
- Ela é solteira?
- Ela não é para o seu bico.
- Casada então?
- Se estão falando de mim, sou solteira. – Rebeca apareceu rapidamente, me pegando de surpresa.
- Bonita desse jeito e solteira? Duvido. – JP fez graça.
- Acredite. Isso é devido ao clássico, quem me quer eu não quero e quem eu quero não me quer.
- Quem é o maluco que dispensa uma beldade como você? Ele deve ser gay ou é como o nosso querido José que tem idade para ser seu pai.
Levantei furioso e caminhei para a geladeira, a fim de pegar outra cerveja e acalmar minha ira. Quem JP achava que era para dizer que eu tinha idade para ser o pai da Rebeca?
Enquanto abria a garrafa longneck de cerveja e jogava a tampa no lixo, ouvi Rebeca responder JP.
- Desculpa, mas não sei seu nome. O meu é Rebeca.
- Eu sou o JP.
- Bom, JP. Sabe uma das minhas teorias por estar solteira até hoje? A minha principal teoria é a que eu não nasci para me envolver com moleques. Gosto de homens maduros e admiro a experiência que os anos trazem a um homem. Um homem qualquer, pensa no seu prazer em primeiro lugar, um homem maduro sabe que se a sua mulher estiver satisfeita, a retribuição será muito mais prazerosa. Agora se me dão licença, vou me despedir da Anne e vou para casa dormir sozinha, enquanto não encontro meu homem maduro.
Dito isso, ela me encarou por alguns instantes e sem dar adeus a JP, saiu da cozinha e subiu as escadas em busca da Anne. Um sorriso convencido deslizou vagarosamente em meus lábios.
- Além de linda, inteligente. Deve ter um temperamento dos infernos. E o que dizer daquele sotaque?
- O banheiro é ali, caso queira terminar sua descrição completa da Rebeca enquanto se masturba. – Falei com mau humor.
- Por que será que acho que tem alguma coisa entre vocês dois?
- Porque você é um idiota?
JP apenas sorriu e não falou mais nada.
Depois que Rebeca saiu, Anne desceu as escadas com seu notebook nas mãos e veio nos cumprimentar. Sentou-se ao meu lado e colocou o notebook na mesa, ao lado das minhas cartas.
- Pai, preciso confirmar algumas informações suas.
- E por que você precisaria? – Perguntei curioso.
- Porque vou fazer seu cadastro em um site para participar do nosso amigo secreto.
- Anne, faltam dois dias para o Natal. Como você acha que vai conseguir organizar um amigo secreto, sortear os nomes, comprar os presentes e tudo mais?
- Esse site vai me ajudar. Vamos nos cadastrar e o site sorteia e manda para o seu e-mail o nome do seu amigo secreto. Então temos amanhã para comprar os presentes e terça-feira tocamos os presentes.
- Quem vai participar?
- Eu, você, Tiago, Deb, Diego e Beca.
- Anne, não sei se quero participar. Façam entre vocês apenas.
- Não. Nada disso. Eu preciso que você participe, ou vou ter minha pele arrancada. Prometi que te convenceria a participar a qualquer custo. Por favor, pai.
- Prometeu? Pra quem? – Na mesma hora em que perguntei, me arrependi.
- A Beca, é claro. Quem mais você acha que está louca para te pegar... No amigo secreto.
JP não conseguiu segurar a risada e ouvi um “eu sabia” sendo disfarçado por uma tosse falsa. Anne me olhava e sorria. Merda! Isso não ia dar nada certo.
- Pode tirar meu nome da lista Anne. Não vou participar e ponto final.
- Agora é tarde. Já te inscrevi. Agora não dá para cancelar. – Anne falou olhando para o notebook. Eu sabia que ela estava mentindo. – Hoje à noite você vai receber um e-mail com o nome do teu amigo secreto e o link para o perfil dele, onde poderá ter algumas sugestões de presentes.
- Tudo bem então. Porém com a sorte que tenho, vou pegar alguém sem nenhuma sugestão de presente.
Foi exatamente assim. Minha amiga secreta era a Rebeca e ela não tinha deixado nenhuma sugestão, apenas uma frase dizendo: “Faça o seu melhor e surpreenda-me!”
Era por isso que em plena segunda-feira, véspera de natal, eu estava rodando em um shopping sem saber o que comprar para ela. Até que parei em frente a uma floricultura. Resolvi entrar.
- Olá, posso lhe ajudar?
- Oi, preciso de um presente para uma amiga. Uma flor que não sejam rosas vermelhas, mas que não sejam simples violetas também.
- Eu tenho prímulas. Elas são conhecidas por serem símbolos de amizade.
A vendedora me entregou um pequeno vaso com umas flores em tons de rosa. Pareciam simples demais.
- Estou achando que não é isso. Queria algo um pouco mais diferente. A Rebeca não é uma mulher de flores simples.
- Uma mulher bonita e exótica?
- Podemos dizer que sim. Porém não quero dar nenhuma flor que possa dar alguma indicação errada.
- Entendi. Quem sabe ela combina com lírios ou tulipas.
Olhei os dois tipos de flores. Os lírios eram uma mistura de rosa, roxo claro e branco. Eram bonitos, porém exalavam um perfume muito forte. Já as tulipas eram de um tom de vermelho que lembravam muito os cabelos de Rebeca. Era uma flor elegante, linda e totalmente delicada. Sim, tulipa era a flor ideal para Rebeca.
- Infelizmente só tenho as tulipas vermelhas no momento e se você não quer que tenham um significado romântico, acho melhor escolher os lírios.
Depois de ver as tulipas, os lírios perderam totalmente o encanto.
- Você não tem alguma outra opção?
- Quem sabe uma cesta de produtos bem recheada com tudo que uma mulher gosta?
- Acho que será bem melhor mesmo. Vários presentes diferentes, é melhor do que nenhum ou um presente errado.
Alguns minutos depois eu sai do shopping com uma cesta enorme, embrulhada em um plástico brilhante e com um enorme laço. Dentro havia uma infinidade de coisas, champanhe, bombons, frutas cristalizadas, biscoitos, chocolates de todos os tipos e mais outras coisas. Provavelmente ela me acusaria de estar tentando engordá-la, mas arrisquei mesmo assim.

~*~*~

Na noite seguinte, nossa casa estava arrumada e decorada. A árvore de natal estava posta na sala com todos os presentes embaixo e enquanto jantávamos, todos pareciam se divertir. Assim que todos comemos, era chegada a hora de revelar o amigo secreto.
Por algum mistério que eu não conseguia entender, Rebeca ficou afastada de mim durante todo tempo e apesar de nos encararmos em alguns momentos, ela não falou comigo nenhuma vez. Isso estava me deixando preocupado.
Quando chegamos na sala, para revelar o amigo secreto, fiquei do lado contrário ao de Rebeca, com medo de que se ficássemos muito próximos, eu fosse puxar papo com ela só para quebrar aquele gelo que ela estava me dando. Isso sem falar que ela estava usando um vestido preto de cetim que ia até suas coxas e que realçava todas as curvas do seu corpo.
– Certo, quem começa? – Anne perguntou.
– Pode ser eu? – Rebeca se prontificou. Senti meu coração acelerar. 
Como todos concordaram, apenas balancei a cabeça dando o meu ok. Ela então foi até embaixo da árvore e pegou uma caixa branca com um laço vermelho em cima.
– Bom, o que posso dizer sobre essa pessoa. Conheci há pouco tempo, no início me pareceu uma pessoa um pouco retraída, mas sei que aos poucos estou conquistando com minha simpatia, carisma e lindos olhos azuis...
Suei frio. Um misto de expectativa e medo se apossaram de mim.
– Acho que sei quem é... – Anne respondeu e todos me olharam. Tentei fingir que não era comigo.
– Infelizmente acho que todos erraram o palpite. – Ela respondeu sorrindo e me lançou um olhar como quem diz: “você também achou que era você”. Eu não poderia negar, também tive a suspeita que fosse eu. – Meu amigo secreto é na verdade uma amiga. É você Deb.
Eu deveria ter ficado aliviado, mas tive que lutar para controlar a decepção que senti. Não era uma sensação normal, afinal eu não queria que ela tivesse me pego no amigo secreto.  Como poderia estar decepcionado?
Seguimos com o amigo secreto e tive que ouvi mais algumas piadinhas sobre a Rebeca e eu. O clima estava animado e todos se divertiam. Tiago e Diego estavam mais relaxados um com o outro e Anne e Deb pareciam reluzir de tamanha felicidade. Rebeca era a única que continuava tensa. Apesar de sorrir e brincar com os demais, eu conseguia ver pela sua postura o quanto ela estava nervosa.
Assim que Tiago recebeu o presente que ganhou de Diego, ele olhou de mim para Rebeca.
– Bom, quem ainda falta para ser pego?
– Eu e o José. – Rebeca respondeu.
– Então vou poupar seu pobre coração Beca. – Tiago falou, olhando para ela. - Meu amigo secreto é o meu sogro favorito e único. O cara que fez a coisa mais linda do mundo. Estava inspirado quando fez a Anne, heim sogrão?
Sorri ao receber o presente e o abraço apertado do meu genro. Eu ainda sorria quando abri o pacote de presente e encontrei uma maleta de madeira lapidada com um equipamento completo para churrasco. O presente ideal pra mim. Adorei.
– Digamos que sou bom no que faço. – Respondi a provocação de estar inspirado quando fiz a Anne e pude ouvir Rebeca murmurar um “Duvido” tão baixo que pareceu quase um gemido. Todos na sala sorriram, menos eu. Eu a olhava diretamente. – Bom só sobrou entregar o meu presente e como não há mais mistério. Minha amiga secreta é você Rebeca.
– E não é que ele te pegou mesmo, Rebeca? – Tiago provocou. – Uma pena que seja como amiga secreta.
– Hoje amiga, amanhã... – Ela não terminou de falar ao ver o tamanho da cesta que estava nos meus braços. – Diz pra mim que isso é uma cesta de café da manhã e que é parte de um convite do qual eu já digo que aceito.
Não tive como ficar sério. Ela é encantadora demais. Seus olhos brilhavam ao olhar para a cesta. Parecia criança em noite de natal.
– Na verdade, é uma cesta com presentes variados, não exatamente uma cesta de café da manhã.
– Certo, já entendi, mas amei mesmo assim. Principalmente pela quantidade de chocolate que tem. Obrigada José. – Rebeca soltou a cesta sobre o sofá e me abraçou.
Suas mãos rodearam meu pescoço e senti seu corpo completamente colado ao meu. Estremeci com o contato tão íntimo e com seu perfume. Rebeca me apertou ainda mais contra ela e murmurou em meu ouvido:
- Isso é só o começo.
Então se afastou um pouco e beijou o canto da minha boca, tocando rapidamente meu lábio com sua língua. Senti seu gosto e me perdi. Aquela mulher estava me enlouquecendo aos poucos.
Antes que eu cometesse uma loucura, fugi. Caminhei em passos decididos até o meu quarto e planejei ficar lá até conseguir me controlar e diminuir minha ereção. Não tive tempo para isso.
Eu estava de costas para a porta, mas senti a presença e o perfume dela. Virei e a vi abrir a porta do meu quarto.
– Oi. – Ela disse simplesmente.
– Oi. – Respondi.
– Eu quero falar com você.
– Rebeca, não...
– Só quero trocar duas palavras José, não vou te estuprar.
Ela não sabia que meu medo era eu estuprá-la e não o contrário. Com todas as minhas forças, lutei para ficar afastado dela.
– Sei que não, mas não quero te dar esperanças e nem ideias erradas pros meninos lá embaixo.
– Para falar a verdade eu quero te fazer um pedido para que possamos parar com essa brincadeira de gato e rato.
– Eu... – Ela não me deixou responder. Parecia decidida.
– Nós dois sabemos que eu estou sendo bem direta na minha investida e você está sendo bem direto em me ignorar, mas as últimas vezes que estive aqui percebi que você começou a me olhar, principalmente quando acha que não estou te olhando. – Ela começou a caminhar na minha direção. – José, não somos mais crianças. Eu estou atraída por você e pelo que meu instinto feminino me diz, você também está atraído por mim. O que te impede de ficar comigo?
O que me impedia de ficar com ela? Com certeza não era a distância, já que ela estava a centímetros de mim.
– Olhe para nós dois, Rebeca. Tenho idade para ser seu pai.
– Meu pai teria setenta e dois anos hoje. Você tem essa idade? Acho que não. Então não me venha com essa que poderia ser meu pai. Você não é, e o que desejo fazer com você não é nada bonito de se pensar em fazer com o próprio pai.
– Rebeca, não insista.
Ela não sabia aceitar um não e os meus nãos estavam se esgotando. Precisava que ela parasse de me atormentar. Seus olhos vinham me perseguindo nos meus sonhos. Seu corpo estava em meus pensamentos mais impróprios e sua boca... Oh aquela boca! Aquela boca fazia e falava em minha mente tudo o que podia para me levar do céu ao inferno.
Aquela boca que estava sem batom, me excitava mais do que qualquer outra coisa. Ainda mais quando ela passava a língua sobre o lábio inferior da maneira como ela fez. Seu perfume, sua língua, sua boca, seu corpo tão próximo de mim, era muita coisa para suportar. Fechei meus olhos e tentei imaginar qualquer outra cena que aqueles cabelos vermelhos não estivessem presentes e foi nesse momento que eu conheci o céu.
Os lábios de Rebeca colaram-se aos meus. Seus seios esmagaram meu peito e suas mãos voaram para meu pescoço. Me recusei a retribuir sua investida, até que ela passou sua língua em meu lábio e percorreu toda a minha boca. Não pude resistir. Ataquei sua boca, puxei seu corpo ainda mais contra o meu e provei todo o sabor daquela pequena pimenta. Me sentir arder com seu gosto. Se eu iria para o inferno, que fosse após ter cometidos todos os pecados possíveis.
Rebeca retribuiu meu beijo com tanta entrega que eu estava cogitando possuí-la ali, em pé, no meio do meu quarto, eu sabia que ela se entregaria e deixaria eu fazer o que quisesse com ela. Isso estava errado. Ela estava sendo movida pelo desejo e não estava vendo o erro que estávamos cometendo. Eu era o cara maduro dentre os dois. Eu precisava refrear isso. Eu não podia seguir a diante.
De onde tirei forças para interromper nosso beijo, eu não sei. Porém, foi necessário. Após interromper o beijo, dei-lhe as costas e evitei qualquer tipo de contato visual. Eu achei que ao beijá-la eu estaria perdido, mas simplesmente olhá-la já me fazia ter que lutar para não sucumbir ao seu encanto. Ela era uma maldita sereia e seu canto e encanto me seduziam e faziam desejar me afogar, só para estar ao lado dela.
– Rebeca, por favor, vá lá para baixo.
– José, quantas vezes vou ter que dizer que não somos mais crianças. Só me dê uma justificativa plausível e juro por tudo que é mais sagrado que não volto a te perturbar ou a dar em cima de você.
Eu queria dizer muita coisa, mas sabia que ela teria uma resposta para cada uma das minhas desculpas. Eu não podia contar a verdade, e as desculpas não seriam eficazes com ela.
– Rebeca, apenas não haverá nada entre nós, aceite isso.
– Pode me chamar de mimada se quiser, mas eu não costumo abrir mão do que quero. E eu quero você, tanto quanto você me quer, então é apenas uma questão de tempo para eu conseguir fazer você entender isso.
– Esse dia não vai existir. – Respondi na intenção de convencer a nós dois.
– Desculpa, mas não me assusto tão fácil. – Ela fechou o espaço entre nós. Passando suas mãos em minha cintura, colou seu corpo ao meu e voltou a falar, agora baixinho, bem próximo a minha orelha. – Eu aprendi a correr atrás do que eu quero. Eu quero você, quero transar com você. Quero beijar seu corpo inteiro e sentir você beijando meu corpo todo. José, faz muito tempo que não sei o que é estar com um homem de verdade.
Nesse momento eu conheci o inferno. Sua voz em meu ouvido, combinada com suas mãos que passeavam pelo meu peito, barriga e desciam ainda mais me fizeram fechar os olhos e implorar por uma morte rápida. Teria que ser uma morte quase instantânea para que evitasse que eu sucumbisse a tanto desejo que me corroía naquele momento.
Quando sua mão parou em cima da minha ereção, Rebeca acariciou lentamente.
– Pelo visto não sou a única que quer ter uma noite de sexo quente e forte. – Ela disse de encontro a minha orelha.
Gemi com seu sotaque em meu ouvido, combinado com sua mão me acariciando. Eu estava a ponto de virar e terminar o que começamos minutos antes, quando ouvi risadas vindas do andar de baixo.
Segurei a mão de Rebeca e por míseros segundos, me deixei levar pelo desejo ao pressionar a mão dela com mais firmeza sobre a minha calça e minha ereção. Suspirei de prazer, fechei os olhos e a contragosto, afastei as mãos de Rebeca de mim. Quando virei para olhá-la, respirei fundo e tentei soar o mais convincente possível.
– Por favor, Rebeca. Eu não posso e não vou pra cama com você. Você é linda, sexy e atrevida. Qualquer cara da tua idade teria o imenso prazer em te dar prazer, mas não sou da tua idade, você é ex-mulher do meu genro e futura madrinha do meu neto. Não quero que uma aventura atrapalhe ou cause constrangimento na relação que você tem com a minha filha.
Não contei o motivo verdadeiro, mas falei honestamente.
– Certo. Entendi seus motivos, porém não concordo. – Ela não ia facilitar a minha vida. - Você acha que Anne e eu nunca conversamos sobre o que sinto por você? Todos lá embaixo sabem que te desejo e que você foge de mim como se eu fosse o lobo mal e você a chapeuzinho vermelho.
Ela caminhou para longe de mim e parecia irritada quando arrumou os cabelos.
– Você não quer que ninguém saiba que nos beijamos? Você não quer que ninguém saiba que desejamos um ao outro, José? É isso?
Sim, ela estava furiosa. Não havia como negar isso ao ver suas sobrancelhas erguidas e a mão na cintura. Seu temperamento estava a ponto de explodir.
– Não quero que a amizade entre você e a minha família tenha qualquer danos por minha causa. Não quero que o meu desejo me cegue e depois que esse desejo passar, as coisas fiquem estranhas entre você, a Anne e o Tiago.
– Você não acha que as coisas podem ficar estranhas entre nós dois, ao invés de que entre a Anne e eu?
– Não foi você mesma que disse que não somos mais crianças? Acho que somos maduros o suficiente para não deixar um envolvimento atrapalhar nossas vidas.
Ela pareceu repensar. Suspirou e me encarou.
– Então vou te propor uma coisa. – Caminhou até estar novamente quase colada a mim. – Essa noite vou dormir aqui. Podemos esperar todos dormirem. Assim acabamos com isso de uma vez. Ambos sairemos satisfeitos e ninguém precisa saber. Antes do sol nascer saio da tua cama e volto para a minha.
A proposta era tentadora, mas alarmes soavam em minha cabeça, alertando para o perigo desse plano.
– Rebeca...
– Vou esperar por uma decisão sua. Você vai ter que dar o próximo passo. Vou estar na cama, acordada e esperando por você. Não me deixe esperando.
Sem dizer mais nada, ela virou-se e saiu do meu quarto. Deixando-me seu perfume e uma enorme ereção.
Caminhei pelo quarto um pouco e fiquei repetindo suas palavras em minha cabeça.
Ambos sairemos satisfeitos e ninguém precisa saber.”
Qual era o meu problema com a Rebeca? Por que ela não era como as outras mulheres? Por que ela mexia tanto comigo? Será que eu conseguiria levar Rebeca para cama sem correr o risco de morrer em seus braços? Essas eram perguntas que não saiam da minha cabeça.
“Todos lá embaixo sabem que te desejo...” Ela disse.
Então se todos sabiam, porque eu não poderia simplesmente aproveitar? Porque eu tinha que pensar tanto? Quem sabe por que eu era mais de vinte anos mais velho do que ela? Porque ela tinha a idade da minha filha? Não era só isso, mas eu tinha que pensar na questão da nossa diferença de idade também
Eu pensei tanto, que cheguei em um ponto de não conseguir pensar em outra coisa e me irritei tanto comigo mesmo que desci as escadas para a cozinha, totalmente irritado.
Encontrei todos em volta da mesa jogando baralho e me juntei a eles. Era pra ser uma distração, mas os braços cruzados de Rebeca levantavam seus seios e o decote daquele vestido pecaminoso deixava pouco para a minha imaginação. Quanto mais eu via, mais eu queria ver e mais eu salivava por provar.
Em algum momento, Anne anunciou que ia dormir. Vi ela e Rebeca discutirem sobre onde Rebeca ia dormi e descobri que ela iria dormir na sala. Ela não ia facilitar minha vida. Se eu iria tê-la, teria que descer as escadas e vir buscá-la. Ela não estaria me esperando em minha cama.
Vi quando ela caminhou em direção ao quarto da Anne e voltou de lá quase uma hora depois, com os cabelos molhados, sem maquiagem, um travesseiro e um pijama cor de rosa tão curto que me deu um bom vislumbre de suas coxas.
- Boa noite meninos. – Ela disse ao passar pela porta da cozinha e seguir em direção ao sofá-cama que ficava na sala.
Estava na hora. Eu tinha que decidir. Algo me dizia que essa era a última vez que eu iria rejeitar Rebeca. Ela não é mulher de ficar rastejando por um homem. Deve ter milhares deles aos seus pés, mas por algum motivo oculto, ela queria a mim. Então eu sabia o que tinha que fazer. Se ela não fosse parar em meus lençóis naquela noite, algo me dizia que nunca mais a teria em minha cama.
Depois que todos foram para suas camas, fiquei rodando em meu quarto. Andando de um lado para outro sem saber o que fazer. Eu queria ficar com ela, tê-la em meus braços e então esclarecer esse mistério sobre como é estar dentro dela. Quem sabe depois que fizéssemos amor, ela perderia o interesse e pararia de me perseguir com seus olhos claros, seus cabelos vermelhos, sua pele sedosa, sorriso brincalhão, lábios carnudos...
Oh Deus! Eu estava enlouquecendo de tesão.
No banheiro do meu quarto, tomei um banho e tratei de resolver sozinho parte do meu tesão, mas mesmo enquanto me masturbava como um adolescente, meus pensamentos estavam nela e emm tudo que eu sonhava em fazer. Sentir aquela linda boca devorando meu mastro era o que mais me excitava. Imaginar ela lambendo-o e olhando para mim com aqueles olhos claros e olhar sacana já me deixa a ponto de explodir. Eu não podia seguir assim, me masturbando no chuveiro e mesmo assim ficando insatisfeito. Precisava de um corpo de mulher. Precisava estar dentro de uma mulher. Eu precisava estar dentro de uma certa ruiva.
Pensando nisso, sai do banho, vesti uma bermuda confortável e arrumei minha cama. Era chegada a hora de cometer o meu pior pecado, aquele que iria me levar diretamente para o inferno e sem escalas no purgatório.
Caminhei até as escadas e a cada passo que eu dava, um barulho diferente e parecendo cada vez mais alto ressoava pelo corredor. Parecia que a casa toda iria acordar e me pegar indo em direção ao pecado em forma de mulher. Caminhei tão lentamente e com tanto cuidado que pareceu levar horas até que eu estivesse terminando de descer as escadas. Chegando a sala, vi que Rebeca estava deitada de bruços. Uma de suas pernas estava descoberta e ela parecia dormir.
Fiquei paralisado com aquela visão. Ela parecia uma fada celta com seus cabelos vermelhos esparramados sobre o travesseiro branco. Havia algo de vulnerável nela que enterneceu meu coração e por um minuto, tudo o que desejei foi me deitar ao lado dela e abraça-la. Lembrei então, que alguém poderia descer e me ver deitado ali com ela. Achei melhor leva-la para meu quarto, nem que fosse apenas para dormir ao seu lado essa noite e no primeiro raio de sol que apontasse no horizonte, eu a levaria de volta para o sofá cama.
A levantei do sofá cama e a acomodei em meu peito. Rebeca se remexeu e apoio sua cabeça em meu ombro.
– Achei que você não vinha. – Ela murmurou com a voz sonolenta e passou os braços em meu pescoço.
– Eu também achei. – Respondi e fiz algo que vinha querendo fazer a bastante tempo, dei um beijinho em seus lábios. Foi instantâneo, me senti bem. Me senti tão bem que tive que lembrar a mim mesmo que era apenas por uma noite. – Só por uma noite.

Quando voltei para meu quarto, não me importei com o barulho ou com qualquer outra coisa. Rebeca estava nos meus braços e tudo o que eu podia fazer era sentir seu corpo leve em meu colo. Por essa mulher, por essa noite, eu iria para o inferno de bom grado e com um sorriso no rosto. 

*~*~*

Beijinhos!

Carol Paim & Sheila Bomfim

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