Diego
Há algo preocupando a Deb. Sei disso. Sinto isso. Não só
pelo fato de que na noite passada, após encontrar o primo dela, Deb ficou
completamente aérea e perdida em pensamento. Não foi só isso. Foi o fato de ela
ter deitado ao meu lado em sua cama e olhado no fundo dos meus olhos. Era como
se ela estivesse tentando me contar algo sem que precisasse dizer as palavras.
Ficamos nos olhando pelo que pareceram horas. Sem nos tocar.
Apenas nos olhando. Eu não sabia como fazer ela se abrir e deixar as palavras
fluírem, mas ao mesmo tempo senti como se não tivesse preparado para saber
todos os segredos dela. Saber os segredos de alguém é um fardo que temos que
ser estáveis para podermos carregar. Como eu poderia carregar os segredos dela,
se não tinha estabilidade nos meus sentimentos?
Parece mentira que essa garota, que se mostrou ser uma
mulher, pudesse me fazer sentir o que estou sentindo. Estou confuso e ao mesmo
tempo tenho certeza sobre o que sinto. Sei que meus sentimentos por ela são
muito mais que mero desejo e amizade. Tenho sentimentos mais profundos por ela.
Ver seus olhos me encarando faz coisas estranhas com meu
estomago. Nada é tão bonito quando vê-la se contorcendo de prazer embaixo de
mim. Nenhuma palavra do dicionário descreve com perfeição a felicidade que
sinto ao ver que ela sorri pra mim. E o que falar do ciúme doentio que sinto
quando algum homem se aproxima dela? Se isso não é paixão, eu não sei que
sentimento é esse.
Enquanto estávamos deitados, esperei ela dizer alguma coisa.
Quando vi que ela ainda não estava preparada, fiz o que estava ao meu alcance
para acalmar seu coração e mente. Dei-lhe um beijo na testa e a puxei para
deitar com a cabeça em meu ombro. Ela se aconchegou de tal forma que pareceu
ser moldada para se encaixar ali, e entre os carinhos que fiquei lhe fazendo
nas costas e sua mão acariciando meu peito, ambos dormimos. Foi a noite sem
sexo mais prazerosa da minha vida.
***
Deb
Hoje é domingo e a semana passou sem novidades, exceto por
Léo que me ligou todos os dias tentando marcar para conversar comigo e eu venho
me esquivando dele a uma semana. Não quero e não tenho nada para conversar com
ele.
Já o meu relacionamento com o Di está cada dia mais forte.
Estamos cada dia mais próximos e acho que estou realmente me apaixonando por
ele. O Diego além de um namorado carinhoso, um amante maravilhoso, é um amigo
prestativo, aquele tipo que está ao seu lado sempre mesmo sem saber o que está
acontecendo. Ele está ali ao seu lado segurando a sua mão.
Estou voltando do mercadinho onde fui comprar a sobremesa
para um jantar romântico que estou preparando para o Diego, quando dou de cara
com o Léo encostado no muro do prédio onde moro. Penso seriamente em dar meia
volta e me esconder em algum lugar, por fim opto por enfrentar ele de uma vez.
- Boa tarde, Boneca. Estava aqui a sua espera, ainda bem que
chegou sozinha. – Ele fala, e tenho certeza que para ele essa é uma cara
sedutora, porém em mim tem o efeito oposto.
- O que você quer, Léo? – Digo sem me aproximar muito.
- Eu só quero conversar com você. Podemos subir?
- Melhor não, Léo. Fala de uma vez, o que você quer comigo
depois de todos esses anos? – Falei me esquivando dele e abrindo o portão para
apoiar minhas compras na escada em frente à porta principal do prédio.
- Eu posso te ajudar com as compras até o seu apartamento e
depois nós podemos relembrar os velhos tempos. Você era linda quando criança,
mas como mulher você realmente está uma delicia. – Eu já ouvir isso antes, da
primeira vez me sentir lisonjeada e dessa sentir nojo. Léo diz isso e vem
andando em minha direção tentando me abraçar. Desvio dele e falo:
- Pode tirar o cavalo da chuva, Léo. Você nunca mais vai
colocar suas mãos em mim.
- Sabe, Deborah. Eu sempre te amei, nunca te esqueci mesmo
com toda a distância e os anos. Eu era um moleque irresponsável, eu mudei
boneca. Mudei para melhor e estou aqui para ficar contigo.
- Não quero saber das suas mudanças, Léo. Não sei se você
reparou, mas estou comprometida. – Digo duramente.
- Você não pode estar realmente com aquele... Não vai ser
por causa daquele... Daquele negro que você não vai me querer, né!?
A forma como ele falou do Diego me irritou e tive que me
controlar. Enquanto o Léo falava fui subindo as escadas e quando eu abrir a
porta do prédio, a forma como Léo tentava impor sua proximidade fez meu
autocontrole ir para o espaço.
- O nome dele é
Diego. Nunca mais fale dele dessa forma. Ele é negro sim, é lindo e tem muito
mais caráter que você. Além de ser um amante muito melhor... – Agora eu já
estava dentro do prédio e Léo empurrava a porta pelo lado de fora. - Saia daqui
Léo. Ou eu vou começar a gritar.
- Está bem, Deborah. Eu vou, só que isso ainda não acabou.
- Acabou há muito tempo, Léo. Acabou no dia em que você me
expôs para seus amiguinhos. Eu confiava em você.
- Deixe eu me desculpar direito, Boneca. – Ele pediu,
fazendo o mesmo olhar que um dia eu achei lindo, mas que agora não tinha
qualquer efeito sobre mim.
- Não há nada que você diga que possa apagar o que aconteceu.
Eu enterrei esse assunto e não quero voltar a falar sobre isso ou com você. Vá
embora Léo.
- Por favor, Boneca.
- Pare de me chamar de boneca. – Berrei com ele. – Vá
embora. Não quero falar com você e não quero mais olhar na sua cara. Deixe-me
em paz.
- Essa sua reação só reforça o que eu acho. Acho que você
ainda se sente atraída por mim e é orgulhosa demais para admitir. Além do que,
esse seu rolo com aquele sujeito provavelmente é pura diversão, já que você não
pode ter esquecido que fui o seu primeiro. O cara que tirou sua virgindade e o
cara pra quem você disse aquelas três palavrinhas.
Levei um instante olhando para ele antes de responder. Vi
toda a beleza externa dele, sua aparência após todos esses anos ainda era
incrível, mas além da beleza, vi também arrogância e muita prepotência naquele
homem que um dia eu julguei amar. Ele continuava lindo como quando jovem, porém
agora o efeito que ele tinha sobre mim era repulsa. Como posso ter amado uma
criatura tão ridícula quanto ele?
- Você pode pensar o que você quiser, eu não me interesso.
Eu estou namorando o Diego e não é apenas diversão. Eu gosto dele. Quando ao
que sinto por você eu posso resumir em uma palavra apenas. Nojo. Sinto nojo de
um dia ter acreditado que amava você. Sinto nojo de lembrar que aquele
acasalamento de coelho que você fazia comigo possa um dia ser considerado como
sexo. – Eu ri amargamente. – Você nunca foi capaz nem sequer de me fazer ter um
orgasmo. Aquilo não era sexo, aquilo era servir de boneca inflável para você.
Sabe com quem eu tenho os melhores orgasmos da minha vida? Sim, o Diego. Ele
sim saber o que é fazer amor com uma mulher.
- Palavras interessantes, mas posso te garantir que o tempo
me fez aperfeiçoar meus dotes na cama. Basta você me dar uma chance e vou te
mostrar o que é um orgasmo de verdade.
Não me controlei e cai na gargalhada. Léo aproveitou e
tentou empurrar a porta novamente, mas eu estava com o pé muito bem apoiado.
- Ah Léo! Sinto em lhe informar, mas você perdeu a sua
oportunidade e não haverá outra. Agora se me der licença, tenho que me arrumar
para o meu namorado. Ele deve estar chegando. – Falei forçando a porta.
- Tudo bem, Boneca. Vou embora. Apenas me responda uma coisa. – Ele me olhou
nos olhos. – Você o ama o suficiente para enfrentar sua família por ele?
Sua pergunta me causou arrepios, mas mesmo assim respondi
com toda a convicção do mundo.
- Não vou precisar enfrentar ninguém, porque o que faço da
minha vida e com quem namoro não é da conta de ninguém. Agora suma daqui e da
minha vida, Léo. Faça isso de uma vez por todas.
- Eu vou, mas não será pra sempre. Eu realmente ainda te
quero. – Ele olhou a parte do meu corpo que estava exposta pela fresta da porta
de cima a baixo, e sorriu. – Vai ser prazeroso ver você admitir que ainda sente
algo por mim. E depois de não ouvir que você o ama, minhas esperanças estão
renovadas.
- Pense o que você quiser, Léo. Eu não me importo com a sua
opinião. Só quero que você saia daqui e nunca mais volte.
Ele parou de empurrar a porta e eu a fechei em sua cara, encostando-me
nela, cansada e sem fôlego. Tomei algumas respirações e depois subi, lutando
para que o Léo não estragasse o meu desejo de preparar uma noite romântica para
Di e eu.
***
Diego
Estou dobrando a esquina do prédio da Deb quando vejo o
primo dela saindo pelo portão. Ele vai em direção contrária a minha e não me
vê. Só por vê-lo ali já me irrita, mas o que me perturbou mais foi o sorriso
dele, foi ver a cara de convencido dele. Algo estava deixando ele muito feliz,
e eu não queria que o motivo fosse a minha Deb.
Pode parecer muita possessividade da minha parte, mas saber
que aquele sorrisinho no rosto dele foi causado por ela, me deixa com vontade
de ir lá e bater nele até que ele não tenha nenhum dente. Ela é minha. Hoje eu
sei disso. Sinto isso. Sinto que é ela a mulher que eu tanto procurei.
É por saber que ela é a mulher certa para mim, que liguei
pra ela hoje pela manhã e a convidei para jantar, disse que era uma ocasião
especial. Ela preferiu preparar alguma coisa pra nós, o que vai tornar a
ocasião ainda mais especial. Gostei da ideia de ter ela cozinhando alguma coisa
especialmente pra mim. Ainda mais para essa ocasião.
Vou pedi-la em namoro oficialmente.
Estou mais nervoso do que quando dei meu primeiro beijo aos
treze anos. Comprei até um par de aliança. É de prata, simples e lindas. As
duas são foscas, a dela tem quatro pedrinhas de brilhante e as duas possuem
nossos nomes e a data que nos beijamos pela primeira vez. Sim, eu sei ser
romântico. Nem eu sabia disso, mas com a Deb eu descobri que quero ser
romântico para ela. Espero que ela goste das alianças, pois levei mais de uma
hora para escolher na loja.
Ok! Confesso que só lembrei da data porque foi no mesmo dia
da festa da academia, mas já é um avanço pra mim fazer uma coisa dessas. Nunca
me imaginei, aos trinta e um anos de idade, pedindo uma garota em namoro.
Imaginei que nesta idade eu já estivesse casado, mas pra minha Deb esse é
apenas o primeiro pedido. Com ela vou fazer tudo como manda o figurino e dar
orgulho à minha mãe.
Deb e eu nunca falamos sobre nossos sentimentos. Não sei se
ela sente o mesmo que eu. Isso é o que está me deixando nervoso. Isso e ter
visto o primo sair do prédio dela com aquela cara de feliz.
Depois que interfonei pra Deb, subi as escadas e estou
parado na frente da porta dela. Minhas mãos tremem levemente quando toco sua
campainha. Ela abre a porta e minha respiração trava. Deb está usando um micro
vestido preto que tem uma lateral toda de couro. O vestido, os sapatos de salto
alto, os cabelos presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça e seu sorriso
radiante, deram vida ao meu pau instantaneamente.
- Oi, você chegou cedo. Nem terminei o jantar ainda. Está no
forno. – Ela disse sorrindo e dando um passo pra trás para que eu entrasse.
Quando passei por ela, seu perfume cítrico foi quase que um
imã para mim. Colei meu corpo ao dela, prensando-a contra a parede ao lado da
porta.
- Vim mais cedo na expectativa de te ver só de avental. –
Respondo, enquanto vejo seus olhos percorrer meu rosto e pararem em meus
lábios, então lhe dou um pequeno sorriso e ouço ela suspirar.
- É... Então... Essa parte do evento já foi. – Ela consegue
falar após retirar seus lindos olhos azuis dos meus lábios e cravá-los em meus
olhos. – Estava me arrumando enquanto a comida está no forno. Eu estava me
maquiando, estava escolhendo um batom.
Quando ela diz isso, é minha vez de correr o rosto dela com
os olhos e parar em seus lábios. Ela está com os olhos maquiados, mas sua boa
está sem cor. Ela passa a língua nos lábios e eles ganham brilho, causando uma
pontada de dor em meu pau. Antes que eu consiga respirar, colo minha boca na
dela. Nossos lábios se moldam à perfeição. Passo minha língua em seus lábios,
provando-a. Deb tem gosto de pasta de dente. Lentamente sinto ela repetir meu gesto
e passar a língua em meus lábios. É mais do que posso resistir e aprofundo
nosso beijo, transformando-o em algo desesperado e avassalador. Minhas mãos
correm de sua cintura para suas coxas e percebo o quão curto é seu vestido e
quão fácil seria erguê-lo e a tomar bem aqui, parados ao lado da porta. É nessa
hora que me lembro que estamos com a porta aberta.
- Pra mim você está
perfeita como está. Não precisa de batom nenhum. – Eu digo baixinho quando
interrompo o beijo.- Agora seus lábios estão corados e brilhantes.
Eu passo meu dedo indicador sobre eles e no mesmo instante Deb
passa a língua por onde meus dedos percorreram. Ela parece saber o que fazer
para me deixar subindo pelas paredes.
- Acho melhor fechar a porta, ou vamos dar um belo
espetáculo. – Digo, me distanciando dela para acalmar o membro ereto que está
querendo sair da minha calça antes do combinado.
- Já que você prefere sem batom, vou ficar assim. – Deb diz
sorrindo. – Vem, vamos sentar aqui na sala.
Ela segura minha mão e me leva até a sala. No curto trajeto
de menos de cinco passos largos eu percebo duas coisas: a flores espalhadas
pelo apartamento e a bunda da Deb fica incrível nesse vestido. Tento retirar o
segundo pensamento da minha mente e me concentrar no primeiro pensamento.
- Flores? – Pergunto quando ela senta e cruza as pernas,
dando um bom vislumbre de suas coxas torneadas. É, a noite vai ser longa. Penso
- Você disse que era uma ocasião especial, então resolvi
caprichar. Você vai me contar agora qual é a ocasião? – Ela perguntou,
perecendo um pouco apreensiva.
- Não, só depois do jantar. Por falar nisso, o que temos no
menu?
- Peixe. – Ela responde sorrindo. – Fiz uma tainha recheada,
arroz e salada. Minha especialidade. Espero que você goste.
Será que ela adivinhou ou perguntou para alguém se eu gosto
de peixe? Por que ela conseguiu acertar em cheio um dos pratos que mais amo.
- Eu adoro tainha. – Digo e me sendo no sofá, puxando ela
para meu colo. – E como foi o seu dia? – Pergunto tentando disfarçar o quanto
essa resposta é importante para mim. E sinto o corpo dela tenso sobre o meu.
- Normal, passei o dia sozinha em casa, a tarde fui no
mercadinho da esquina comprar nossa sobremesa e... – Ela faz uma pausa, como se
estivesse pensando o que vai falar. E eu faço uma prece interna pedindo que ela
fale a verdade. - ... Voltei. – Ela completa.
Sinto uma dor forte no peito. O pior não é o fato dela não
contar que ele esteve aqui. O que dói de verdade são as coisas que minha mente
imagina que aconteceu entre eles. Nos abraçamos e ficamos cada um imerso nos
seus próprios pensamentos. Depois de um tempo ela lembra do nosso jantar e
levanta para tirá-lo do forno.
Jantamos em um silêncio um pouco desconfortável por causas
das coisas não ditas entre nós, após terminarmos, lavamos os pratos e voltamos
para o sofá, Deb liga o som e senta de lado no meu colo, me abraça com paixão e
beija meu pescoço, sobe para o meu queixo e por fim beija meu lábio com
vontade. Entrego-me ao beijo, quando ela está assim agarrada a mim esqueço de
tudo até mesmo o meu nome.
Quando dos afastamos um pouco, tento fazê-la me contar sobre
seu primo. Eu preciso saber a verdade. Preciso que ela confie em mim, para que
eu possa confiar nela e ter certeza que não estou apostando todas as minhas
fichas na mulher errada.
- E como vai seu primo? Vocês foram tomar aquele café? –
Pergunto tentando soar o mais corriqueiro possível.
Ela não me olhou. Apenas encostou o rosto em meu pescoço e
suspirou. Seu corpo que até pouco estava relaxado, ficou tenso novamente.
Aquele era definitivamente um assunto que ela não queria discutir, mas eu
queria saber mais e não iria dar descanso.
Quando achei que ela não iria mais falar nada, ela respondeu
minha pergunta.
- Não. Nós não tomamos nenhum café. – Ela falou baixinho e
depois deu um beijo no meu pescoço. – Vamos mudar de assunto. Nós já jantamos e
estou curiosa sobre a surpresa. Porque não falamos sobre esse mistério todo?
Ela desconversou e não me respondeu. Doeu. Doeu ver ela
omitir uma informação de mim. O que mais ela está me escondendo? Porque ela não
me contou que viu o primo dela hoje? Qual o motivo que ela tem para não poder
me contar? De repente aquela caixinha no bolso interno do meu casaco começou a
pesar uma tonelada. Como posso me envolver sério com a Deb sem ter cem por
cento de confiança nela? A resposta é que eu não posso. Vou ter que arrumar
outro motivo para ter feito esse jantar, pelo menos até que eu tenha certeza
que ela não está me enganando, e se ela estiver, não sei o que vou fazer com os
sentimentos que estão crescendo em mim.
***
Deb
Eu não quero mentir para o Di, mas também não quero falar
sobre meu primo com ele. Não quero que ele saiba o quão burra eu fui. Não quero
que meu passado se interponha entre nós dois, mas parece que quando mais eu
quero fugir desse assunto, mais Diego quer saber.
Tentei mudar de assunto quando ele me perguntou se eu havia
tomado café com Léo e pude sentir como ele pareceu ainda mais estranho do que
antes. Ou será que sou eu que estou estranha?
Passei o dia entre uma ansiedade imensa, uma curiosidade
monstruosa e um medo avassalador. Homem nenhum convida para um jantar especial
se não for para fazer O pedido. Eu
preferi fazer o jantar justamente por isso, se ele realmente fosse me pedir em
casamento, eu não queria estar em público. Eu nem sei o que vou dizer se ele
realmente fizer esse pedido. Como posso me casar com ele, nós estamos ficando
há pouco tempo. Ele não pode estar pensando em me pedir em casamento. Ou pode?
Já não sei mais o que pensar. Só sei que preciso que ele acabe com a minha
angustia e me faça esquecer que tenho um passado.
- Então... – Diego parece distante quando começa a falar. –
Na verdade não é nada demais.
- Ok, não é nada demais, mas mesmo assim eu quero saber.
Estou curiosa.- Falei dando mais um beijo em seu pescoço.
Senti em meus lábios o leve estremecimento de seu corpo e
logo em seguida ele se levantou e caminhou até a janela. De costas pra mim, vi
que ele estava nervoso. Porém quando virou-se novamente para mim, seu rosto
exibia um sorriso.
- Na verdade é uma noticia muito legal. Eu fui convidado
para fazer dupla com uma amiga minha. Agora que a Anne vai ter que se afastar
das apresentações por causa da gravidez, eu voltei a conversar com a Lê e nós
nos acertamos. Ela tem até uma apresentação marcada para daqui a alguns meses
no festival de dança do Balé Bolshoi de Joinville e me convidou para dançar com
ela. Vamos começar a ensaiar nos próximos meses.
Depois que ele disse o motivo pelo qual eu fiquei horas
preparando um jantar, outras tantas horas arrumando e enfeitando a casa,
escolhendo a roupa mais bonita, escolhendo a sobremesa e todos os outros
detalhes, como os produtinhos eróticos que comprei para usar com ele hoje, a
única coisa que eu poderia pensar era “QUEM
É ESSA TAL DE LÊ?”
Ele queria um jantar especial para comemorar que havia
arrumado uma parceira nova? É isso mesmo? Como se fosse motivo de comemoração
pra mim o fato dele ter que ficar horas ensaiando com uma estranha que
provavelmente já foi pra cama com ele. Saber que ele dançava e que outras
mulheres se esfregavam nele já não era animador, mas saber que ele está
comemorando o fato de que vai ser partner de uma amiguinha dele me deixou em
fúria.
Como não sei disfarçar, não me dei o trabalho de responder ao
que ele disse. Eu estava surtando de raiva. Ele
quer comemorar por causa dessa tal de Lê? Então deveria ter ido jantar com ela.
Penso enquanto vou em direção a cozinha.
Lágrimas de decepção tentam brotar, mas me controlo e
respirando fundo faço a primeira coisa que me vem à cabeça. Vou para a
geladeira em busca da sobremesa. Quando estou abaixada com praticamente metade
do corpo dentro da geladeira para pegar a sobremesa e tentar esfriar os meus
ânimos, Diego se aproxima de mim como quem não quer nada e faz carinho nas
minhas costas. Sinto um arrepio percorrer minha coluna. Ainda estou irritada,
mas meu corpo reconhece seu toque e se entrega.
Tento relaxar e analisar pelo ângulo do Diego. Se ele pediu
esse jantar é porque o motivo, mesmo que eu não goste, é importante para ele.
Tento sorrir quando levanto com a torta de morango que fiz especialmente para
Diego.
- Uau. Adoro torta de morango – Ele fala me olhando de uma
forma estranha.
- Eu também. – Respondo simplesmente e depois de um suspiro,
tento soar menos irritada. – A massa de base é de bolacha triturada com
chocolate derretido, o recheio é mousse de chocolate meio amargo e pedaços de
morango. Vou servi com uma bola de sorvete de creme.
- Parece incrível. – Ele fala baixinho e me abraça por trás
quando solto a torta na mesa. – Deb...
Quando o sinto sussurrar em meu ouvido, parte da minha
irritação vai embora e inconscientemente moldo meu corpo ao dele, encostando-me
mais em seu peito.
- Oi... – Gemo em resposta.
- Eu preciso ir. – Ele fala baixinho e se afasta. – Amanhã
preciso acordar ainda mais cedo.
- O quê? E a sobremesa? E o resto da noite? E nós? –
Pergunto incrédula.
Ele não me olha nos olhos quando responde.
- Eu vou comer a sobremesa e vou precisar ir. Desculpa, mas
não posso ficar hoje à noite.
- Tudo bem. – Respondo chateada demais para discutir com
ele.
Sem falar mais nada, sirvo a sobremesa e lhe entrego. Pego
meu prato e vou para o sofá sem chamá-lo para me acompanhar. Estou irritada,
frustrada e acima de tudo me sentindo triste e sozinha. Nada melhor do que essa
dose de chocolate para acalmar meus ânimos, porém nem mesmo a sobremesa que fiz
com tanta dedicação me faz sentir melhor. A única coisa que me faria melhor
hoje era dormir agarradinha com Diego.
Eu quero os braços dele ao meu redor pela manhã, quero ver
seu rosto amassado e seus olhos sonolentos. Quero passar a noite fazendo amor
com ele e sentindo seu corpo, beijando-o, acariciando e dando prazer. Quero ter
a companhia dele para o café da manhã e quero não me sentir tão sozinha.
- Deb... – Diego diz e sentasse ao meu lado.
- Pode ir Diego. Não tem problema. – Eu digo sem olhar para
ele.
- Olha pra mim. – Ele pede, mas finjo que não escuto e levanto
para levar meu prato para a pia.
Começo a lavar a louça, mas Diego segura meus pulsos e me
vira de frente para ele.
- Olha pra mim. – Ele fala firme.
- Pronto está satisfeito? – Digo quando levanto meu rosto e
encaro seus olhos.
Seu olhar percorre todo o meu rosto e se concentra em meus
olhos. Nos encaramos e vejo que ele me avalia.
- Deb eu preciso...- Ele começa a falar mais eu o
interrompo.
- Não precisa me dizer novamente. Eu já entendi da primeira
vez que você falou. – Minha raiva começa a borbulhar dentro de mim e está muito
próxima de explodir, e isso acontece quando ele se aproxima tentando me
abraçar. Não quero sua piedade, não quero que ele fique por pena de mim. Quero
que ele fique porque quer ficar. Eu quero que ele fique.
Me afasto e evito seu toque. Ao dar um passo para trás fico
com as costas contra a geladeira, não há como recuar mais. A única forma de
sair daqui é passando por ele. Quando me movimento para passar pelo seu lado,
ele se põe na minha frente.
- Espere. Porque você está assim? Qual o problema? Você tem
alguma coisa pra falar e não consegue? – Ele pergunta também irritado.
- O que você quer que eu fale? Que eu fiz esse maldito
jantar pensando que seria por um motivo importante para NÓS e não pelo fato de que você reencontrou uma amiguinha? Ou que eu diga que me arrumei
e fiz tudo isso pra você e agora você vai embora? Ou quem sabe você quer que eu
te implore para que passe a noite comigo? É isso que você quer que eu diga
Diego? – Berro com ele e mando todo o meu autocontrole para o espaço.
Diego me encara com o maxilar travado e completamente tenso.
- Não. Não é isso que eu quero que você diga. – Ele fala
baixo e com a voz rouca. Com um movimento só, ele me pressiona contra a
geladeira, ergue meu corpo para que fiquemos da mesma altura e aproxima seu
rosto do meu. Não quero que ele me beije agora. Estou com raiva e frustrada, se
ele me beijar sei que vou derreter e ceder a ele. Por isso viro meu rosto e
tento me afastar dele.
- Então o que você quer que eu diga Diego. – Pergunto um
pouco mais branda, mas ainda tentando me afastar.
Sem que eu espere, ele segura meu rabo de cavalo com força e
vira meu rosto em sua direção. Olhando nos meus olhos e com o rosto tão próximo
ao meu, vejo seus olhos cheio de um sentimento que não sei descrever, porém
quando ele fala, sua voz é só desejo.
- Eu quero que você diga que é minha. Só minha e de mais
ninguém. – Ele diz antes de colar nossos lábios em um beijo cheio de raiva,
frustração e o mais cru dos desejos.
Não é um beijo amoroso. É uma luta de línguas, lábios e
dentes. Sua mão puxa meus cabelos com força e em retribuição eu mordo seu
lábio. Não há carinho. É uma guerra e se alguém vai vencer eu não sei, só sei
que essa força toda está fazendo meu tesão chegar a níveis inimagináveis. Eu
não quero desejá-lo. Estou com raiva, mas como não querer um homem como
esse?
Como ainda estou encostada na geladeira e Diego usou sua mão
livre para me erguer, aproveito para passar minhas pernas em sua cintura e me
esfrego nele. Em contra partida, as mãos que até então seguravam minhas costas,
descem e vão parar em minha bunda e me seguram com força. Tenho certeza que vou
ficar com marcas dos dedos dele, mas isso não importa agora. Agora só preciso
aliviar meu tesão e frustração.
Minhas unhas se cravam nas costas de Diego sem dó. Eu
preciso dele. Em meio aos beijos, apertões e puxões de cabelo começo a arrancar
sua roupa e ele a minha. Ajudo-o a abrir o zíper do meu vestido e em questão de
segundos estou com a lingerie azul turquesa de cetim e renda que comprei
especialmente para a ocasião. Tenho o prazer de ver os olhos dele quase
saltarem.
- Você ia perder isso. – Sussurro em seu ouvido e sorrio ao
ouvir o gemido rouco que ele dá ao abrir meu sutiã com brutalidade.
Tenho certeza que ouvi o tecido se rasgando, mas não me
importo, pois ele está com a boca em meu seio. Ele não é carinhoso. Meu seio
está sendo mordido, lambido e sugado com tanta força que a mistura de dor e
prazer me inebria. Estou gemendo e implorando.
- Di, por favor. – Gemo e me esfrego ainda mais nele.
- Só depois que você falar o que quero ouvir. – Ele fala com
o rosto próximo do meu pescoço.
- O que você quer ouvir?
- Me diz que você é toda minha.
Sua voz tem um toque de desespero e não penso duas vezes
antes de dizer o que ele quer.
- Eu sou sua. Só sua. Toda sua.
Quando termino de falar, antes que o peso dessas palavras
caiam sobre mim, Diego me pega no colo e leva-me para minha cama onde nossa
noite termina com os dois exaustos e completamente satisfeitos.
Continua na quinta feira...



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