Beca
Maldita ressaca.
Quando penso em tudo o que bebi e em tudo o que
fiz, minha vontade é deitar na BR 101 e esperar um caminhão carregado me
atropelar. Como pude ser tão burra? Como pude me humilhar tanto por um homem
que já disse mais de uma vez que não me quer?
Se ele não fosse tão charmoso, sexy e eu nunca
tivesse provado do seu beijo, das suas caricias e de todo o seu corpo, quem
sabe eu fosse capaz de não ter me humilhado tanto. Eu posso culpar a bebida
também, ou o incentivo das meninas, ou esse desejo que me queima por dentro. Eu
posso culpar o que ou quem eu quiser, afinal, a culpa é minha e eu faço com ela
o que me der na telha.
Com culpa ou sem culpa, ontem eu bebi como se
não houvesse amanhã, só que houve e agora estou me sentindo a pior das pessoas,
em pleno dia do meu casamento.
Já estou usando meu vestido, o véu e a
grinalda, mas o enjoou ainda é forte o suficiente para não me dar coragem de ir
para a igreja. Enjoou tão forte que me faz ficar no quarto do hotel onde estou
me arrumando. Não quero correr o risco de vomitar no meu vestido exclusivo, que
custou uma pequena fortuna e na verdade nem é um vestido. O que era pra ser o
meu vestido de noiva é na verdade um corpete tomara que caia branco com rendas
prateadas, com uma saia branca, lisa, de cintura alta, calda e uma fenda que
vem quase até a minha coxa. Para fechar o modelito, uso uma sandália branca com
uma meia pata prateada. Estou sexy e ser sexy no próprio casamento me parece
errado.
Tudo nesse casamento está errado. Começando por
mim.
Era para eu estar em um hospital tomando
glicose na veia, ou pelo menos em casa, dormindo e não aqui, as vésperas de
subir ao altar parecendo uma zumbi. Minha consciência também grita que eu não
devo estar aqui, não depois da noite passada. Não depois de ir rastejar aos pés
do homem que não é meu noivo. Não depois de ter beijado e ter transado com um
homem que não é o meu noivo faltando menos de vinte e quatro horas para o meu
casamento.
Eu sou uma vagabunda. Eu sou fraca perante ele.
Eu sou incontrolável quando estou ao seu redor. Eu queria que fosse ele no
altar.
José.
Esse homem é minha perdição, minha tentação,
minha serpente do paraíso.
José é o pai da Anne, atual esposa do meu
ex-marido e minha melhor amiga. Complicado, não? Na verdade não.
Eu fui casada com Tiago por quase dez anos. Um
casamento totalmente de fachada e sem nenhum tipo de contato físico. Tiago e eu
fomos forçados a nos casar, cada um por seus motivos, mas no final, nos
tornamos amigos. Quando trouxemos nossa empresa de Lisboa, minha cidade natal,
para o Brasil, Tiago reencontrou Anne, seu amor de infância. Então resumindo,
nos divorciamos e ele conseguiu se acertar com a Anne e agora tem dois filhos
lindos.
O que eu ganhei com isso? Uma fixação
insuportável pelo pai da Anne.
Conheci José um dia por acaso.
Ele foi até a empresa onde sou sócia junto com
o Tiago, justamente em busca do que viria a ser seu genro. Por uma força do
destino, eu acabei esbarrando nele. Esbarrando, mesmo.
Eu estava saindo da minha sala, com uma pilha
de papeis nas mãos, sem perceber caminhei em linha reta até ele e acabei
deixando todos os papeis caírem ao me assustar por ter pisado no pé dele.
Tentei me ajoelhar para juntar os papéis, mas a
saia lápis que eu usava não facilitou, então José se abaixou e juntou todos os
documentos pra mim e de quebra, vi ele dando um confere de baixo pra cima no
meu corpo. Sorri, quando ele ficou em pé novamente e quando colou seus olhos
nos meus, meu sorriso morreu.
Deus!!!
Ele era tão lindo que me fez ofegar e piscar
várias vezes. Ele não era lindo como esses modelos de revista. José é lindo
como um homem de verdade deve ser. Ele é charmoso, tem um sex appel que faz
qualquer mulher enlouquecer. Seus cabelos grisalhos nas têmporas e seu rosto curtido
do sol só aumentam ainda mais seu charme e encantamento. Isso sem falar no seu
cheiro. Nossa, que perfume divino.
José cheira a madeira e especiarias, a homem
macho de verdade, a sexo com pegada, e isso me deixou de anteninhas ligadas
sobre quem era aquele pedaço de homem experiente que estava na sala de espera
da minha empresa.
- Obrigada. – Respondi assim que encontrei
minha língua. – Posso te ajudar em alguma coisa?
Ele piscou algumas vezes e vi uma ruga de
preocupação se formar em sua testa.
- Acredito que não. Eu já estou de saída. – Ele
respondeu e já ia embora.
- Me diga o que você gostaria e vou fazer o
possível para... – Senti uma vontade imensa de dizer “satisfazer sua vontade”
com toda a minha luxuria impregnada nas palavras, mas me controlei. – Vou fazer
o possível para te ajudar. – Completei.
- Eu preciso falar com o Tiago, mas já fui
informado de que ele não está.
Sorri, eu podia ajudar pelo menos em partes.
- Desculpa, não sei seu nome. – Falei ainda
sorrindo pra ele e estendi minha mão.
- Sou o José. – Ele segurou minha mão, me
cumprimentando.
Por um instante fiquei imóvel. Seu toque era
firme, quase rude. Sua mão era áspera e parecia possuir calos. Um calafrio me
percorreu.
- Eu sou a Rebeca. – Respondi com um fio de voz
e olhei para as nossas mãos unidas. Engoli em seco tentando disfarçar a
sensação que me correu. – Sou sócia e ex-mulher do Tiago.
- Ex-mulher? – Ele me perguntou e então pareceu
confuso.
- É uma longa história. – Sorri pra ele. – Seu
assunto com ele é particular ou profissional?
- Particular. Sou o pai da Anne. – Ele parecia
me avaliar.
- Pai da Anne? Da famosa Anne? – Sorri ainda
mais. – Acho que posso te ajudar de verdade. Venha até a minha sala.
Senti que ele pensava e me avaliava novamente.
- Tudo bem. – Cedeu.
- Brenda, segure todas as minhas ligações e
caso o Tiago chegue, o que duvido, mande ele diretamente para minha sala ou me
avise imediatamente. – Falei com Brenda, a secretária. – Só me interrompa se o
Tiago chegar ou se o mundo estiver acabando. Certo?
- Sim senhora.
- Por aqui, por favor, José. – Caminhei na
frente para dar a chance dele olhar minha bunda.
Eu sempre tive consciência da minha aparência.
Sei como fico em uma saia lápis de cintura alta com uma blusinha branca
soltinha, mas posta por dentro da saia. Isso tudo reforçado por um salto de
doze centímetros e um corpo que frequenta a academia diariamente podem chamar
atenção de um homem. Inclusive de um homem maduro como José.
Abri a porta da minha sala e parei para que ele
passasse. Revejo esse momento em câmera lenta milhares de vezes em minha mente
e não me canso de lembrar como ele parou na minha frente e a centímetros de
mim, sussurrou:
- Qual o seu interesse em me trazer para o seu
escritório, quando o meu assunto é com o seu ex-marido?
Sua presença era tão forte e a pouca distância
que nos separava fez com que seu cheiro chegasse a mim com mais força. Fiquei
excitada no mesmo instante. Meus lábios ficaram secos e senti meus mamilos
enrijecerem. Como podia responder tão prontamente a um homem que mal conhecia?
Sem pensar muito, dei um pequeno passo pra
frente e diminui ainda mais a pouca distância.
Não, eu não sou uma mulher de agir
discretamente. Uma mulher de joguinhos. Se eu quero, eu parto pra cima e aposto
minhas fichas. Naquele momento eu queria José. Queria aquele homem maduro e de
mãos ásperas.
- Meu interesse? – Perguntei olhando em seus
olhos e vi o momento em que ele olhou para minha boca, enquanto eu mordia o
lábio inferior rapidamente. Senti vontade de ser honesta e dizer que meu
interesse nada tinha a ver com Tiago e muito haver com ele, mas pela ruga que
apareceu em sua testa ao notar minha língua umedecendo meu lábio, achei que não
estava na hora de ser tão clara ou poderia assustá-lo. – Bom. Thiago foi meu
marido, mas ele foi também meu amigo e quase um irmão pra mim. Eu, mais do que
ninguém, quero a felicidade dele e acho que existem coisas que se eu lhe
contar, podem ajudar aquele cabeça dura a se acertar com a mulher que ele
sempre amou. Entre por favor, e sente-se.
Apontei para uma cadeira em frente à minha
mesa. Antes de virar para caminhar até a poltrona que eu indiquei, vi quando
José baixou os olhos para meus peitos e sorri triunfante.
Então
você não é imune a um bom par de peitos. Pensei.
Ainda sorrindo caminhei e me encostei em frente
à mesa, cruzando minhas pernas na altura dos tornozelos e cruzando meus braços
abaixo dos seios, dando um up neles.
Percebi seus olhos percorrendo meu corpo. Havia interesse dele por mim, eu
podia sentir.
Depois daquela constatação, passei as próximas
duas horas em minha sala conversando com José sobre Anne e Tiago, mas minha
mente ficava voltando para tudo o que eu queria fazer com aquele homem, na
primeira oportunidade que eu tivesse. Foram as duas horas mais excitantes e que
me mantive mais alerta a um homem na minha vida.
- Becaaaaaa. – Ouço minha irmã me chamar e me
tirar das recordações que eu tanto gosto de reviver.
- O que é Jessica?
- Está quase na hora. Você está pronta?
Olhei para o espelho de corpo inteiro onde eu
estava praticamente plantada em frente. Não tinha como negar que eu estava
linda vestida de noiva.
- Sim. Estou pronta.
- Pra quem está se casando, você não me parece
muito feliz. Tem certeza que está fazendo a coisa certa, mana?
Não, não tenho certeza. Quis dizer, mas já
estar muito em cima da hora para desistir agora e eu tenho motivos para seguir
em frente.
- Sim, eu tenho certeza. – A falta de convicção
ficou evidente no meu tom monótono de voz.
- Beca, você sabe que pode jogar tudo pro alto
na hora que você quiser, certo? -Balancei a cabeça concordando.
- Eu sei, mana. Está tudo bem. Acho que é
nervosismo, ou medo de estar casando e deixando de aproveitar mais a vida.
- Você tem certeza disso? Não tem nada a ver
com o fato de eu achar que você não ama o Luca?
Eu não soube o que responder. Eu não o amava,
mas queria e precisava me casar com ele. Seria meu segundo casamento por
conveniência, eu estava quase me tornando uma profissional nisso. Mas esse
casamento eu tinha um motivo especial que foi reforçado pelo pedido de
casamento de Luca, onde ele havia me dito as palavras certas e dado o anel de
noivado mais lindo do mundo. Um diamante solitário imenso, mais várias
pedrinhas de diamantes incrustados no anel. Simplesmente lindo.
Se eu pudesse avaliar meu primeiro encontro com
Luca, diria que foi uma primeira impressão terrível. Eu devia ter uns dezesseis
anos quando o vi pela primeira vez. Eu estudava em uma escola muito chata e um
dia, eu e minha turma de amigos, resolvemos matar aula para jogar sinuca. Eram
oito da manhã e paramos em um boteco não muito distante da escola particular
onde deveríamos estar estudando e honrando o dinheiro imenso gasto pelos nossos
pais, mas a galera queria se divertir, então resolvemos jogar algumas partidas
de sinuca com direito a consequências para os perdedores.
Eu não conhecia aquele boteco e logo que
coloquei meus pés lá, descobri que viraria cliente assídua. No balcão estava um
dos garotos mais bonitos que eu já tinha visto. Mesmo por baixo do seu boné do
Chicago Bulls e de algumas espinhas, Luca com seu sorriso faceiro e seus olhos
cor de mel, me encantou ao me encarar com a mesma intensidade com a qual eu o
encarava. Naquele dia eu perdi a partida de sinuca por prestar muita atenção
nele e não nas bolas e caçapas.
Minha consequência? Ficar de sutiã em cima da
mesa de sinuca.
Nunca tive problema em ficar de sutiã na frente
de ninguém, sempre encarei como se fosse um biquíni que eu uso na praia, porém
naquele dia eu estava sem saber qual seria a reação do garoto. Eu queria tirar
a blusa e chamar a atenção daquele garoto para meus peitos fazendo ele me
desejar, mas podia também tirar minha blusa e acabar passando uma visão de
garota vulgar pra ele.
Com um sorriso nos lábios, me aproximei do
balcão e o chamei.
- Oi. Preciso te fazer uma pergunta. – Falei da
maneira mais sensual que pude. – Eu perdi uma aposta com meus amigos e o
pagamento é subir na mesa de sinuca e tirar minha blusa. Quero saber o que você
acha sobre isso?
Ele primeiro me olhou como se eu tivesse duas
cabeças, depois ele deu um sorriso aberto e ofuscou o sol, antes de se
aproximar muito de mim e me responder:
- Eu adoraria te ver sem blusa, mas
infelizmente não vou poder permitir, já que não pode subir nas mesas de sinuca.
Sorri para ele ao ouvir que ele queria me ver
sem blusa.
- Não pode em cima da mesa. Certo. Você me
indica outro lugar onde eu possa pagar essa aposta? – Fale, me debruçando sobre
o balcão e chegando bem perto dele.
Não satisfeito, ele se aproximou ainda mais,
deixando menos de dez centímetros de distância entre nós.
- Eu recomendaria fazer isso no quarto que eu
tenho aqui em cima do bar, mas infelizmente ele é muito pequeno e só cabem duas
pessoas.
Seu sorriso era deslumbrante, combinado com o
brilho pecaminoso em seus olhos foi a minha perdição.
- Galera, vou dar uma volta e não sei se volto.
– Berrei sobre o ombro e então voltei minha atenção para ele. – Você pode me
mostrar o quarto? Sabe como é, né? Não posso deixar de pagar uma aposta.
Seu irmão mais velho ficou em seu lugar para
que pudéssemos subir e ao subirmos, fomos conversando. Ele me contou seu nome,
disse que o bar era do seu pai e que ele dormia no andar de cima, enquanto a
família morava na casa nos fundos. A tensão entre nós era palpável.
- Você sempre faz apostas desse tipo? – Ele me
perguntou assim que entramos no seu quarto.
Era um quarto pequeno, com algumas roupas e
calçados jogados e a cama desfeita. Típico quarto de menino.
- Nem sempre, mas é a primeira vez que eu
perco.
- É mesmo? E perdeu por quê? Não sabe jogar
sinuca?
- Na verdade sei, mas eu não estava prestando
atenção o suficiente na mesa para pode ganhar.
- É mesmo? – Ele sorriu daquela maneira
pecaminosa que me fez suspirar, enquanto caminhava e ficava na minha frente. –
E porque você não estava se concentrando no jogo?
Encarei seus olhos cor de mel e dei um passo em
sua direção. Ele era mais alto do que eu o que me obrigava a erguer o rosto
para encará-lo.
- Porque eu estava te olhando.
- É mesmo? Engraçado, porque eu tive que somar
cinco vezes o caixa antes de desistir e ficar só te olhando.
Foi minha vez de sorrir e perguntar:
- É mesmo?
- Sim, eu estava doido para fazer isso...
Luca passou a mão pelo meu rosto e a colocou na
base do meu pescoço. Sua mão me segurou com firmeza e sua outra mão correu para
minhas costas, se alojando acima da minha bunda e me trazendo para frente,
pressionando firmemente nossos corpos. Ele me olhou por um instante, me dando a
chance de recuar, mas quem iria recuar ao ter um garoto lindo e há segundos de
te dar um beijo que prometia ser O
beijo?
Fechei meus olhos e fiquei na ponta dos pés.
Quando os lábios dele se colaram nos meus, senti toda a maciez e o gosto de
chiclete de menta. Foi um beijo maravilhoso, que me acendeu e me deixou
ofegante quando finalmente nos separamos. Dei um passo pra trás e tracei meus
lábios com meus dedos. Eles estavam levemente inchados e havia uma sensação de
formigamento. Sorri feito boba.
- Bom, isso foi muito bom. Podemos repetir? –
Perguntei.
- Só se for agora.
Passei o resto do dia no quarto de Luca,
trocando beijos, carinhos e conversando imensamente, sem nunca ser pressionada
a pagar a aposta ou ir a algo mais. Aquele não era o momento para algo mais,
aquele era o momento de conhecer o garoto que iria se transformar no amor da
minha vida. Meu amor puro e verdadeiro, até que ele, anos depois, destruísse
meu coração com a pior das traições. Ele trocou o meu amor pelo emprego dos
sonhos.
- Beca. O carro chegou para te levar para a
Igreja. Vamos? – Minha irmã novamente chegou para me tirar dos devaneios.
Olhei pra ela e sorri.
Afastei a dor pela traição do passado causada
pelo meu atual noivo. Afastei da minha mente o homem que desejei, me humilhei e
fui rechaçada. Naquele momento eu estava uma confusão de sentimentos, mas
independentemente do que se passava dentro de mim, por fora eu estava vestida
de noiva, me sentindo lindamente sexy e com um belo sorriso no rosto. Afinal,
essa sou eu. Rebeca Lopes, aquela que esconde seus sentimentos e demonstra
apenas o que quer.
*~*~*
Luca
Estou no altar à espera da única mulher que
achei que jamais iria querer me ver. Quem dirá aceitar casar-se comigo.
Depois do nosso reencontro há alguns meses,
minha vida mudou consideravelmente e eu a fiz mudar para estar ao lado da Beca.
Minha Beca. Minha noiva e em breve, minha esposa.
Nossa história juntos é tão longa e tão complicada,
que o dia do meu casamento parece um sonho. Rebeca é tudo o que eu quero. Ela é
tudo o que eu preciso. Ela é simplesmente a mulher perfeita para a minha vida.
Não posso esperar o momento de me tornar oficialmente seu marido.
Se muita coisa mudou nesses últimos anos,
depois que nos casarmos, mudará ainda mais. Só ela pode transformar minha vida
em uma vida feliz e livre.
As primeiras notas da marcha nupcial começam a
tocar. Viro-me para a porta da igreja e vejo Beca entrando logo atrás das
crianças que são daminhas e pajens. Ela está sozinha, não há um pai ao seu lado
e acredito que se o pai dela estivesse aqui, ela simplesmente não estaria
entrando nessa igreja para casar-se comigo.
Ela está simplesmente deslumbrante com seu
vestido sexy, seus cabelos vermelhos soltos sobre os ombros e o véu que se
estende por suas costas. Ela olha para o chão, respira algumas vezes e então
ergue o queixo e caminha decidida até mim.
A igreja que até momentos atrás parecia me
sufocar de tão pequena e abarrotada de gente, agora parece ter quilômetros de
tapete vermelho. Quando finalmente ela chega até mim, seus olhos parecem estar
perdidos. Ela me olha, mas não me vê.
- Você está maravilhosa. – Sorrio ao pegar sua
mão.
Ela sorri de volta, mas seu sorriso não é
verdadeiro. Eu conheço seu sorriso verdadeiro.
- Você também está lindo vestido de pinguim. –
Ela brinca.
- Está nervosa? – Pergunto, quando ficamos de
frente para o padre.
- Muito. – Ela responde simplesmente.
Respiro um pouco mais aliviado. Quem sabe esse
sorriso estranho dela seja apenas nervosismo.
O padre segue todos os rituais e abençoa nossas
alianças, chegando então a parte tão clichê de novelas brasileiras.
- Se alguém souber de algo que impeça esse
casamento, fale agora ou cale-se para sempre.
Imediatamente vi Beca olhar em volta. Seu rosto
parecia ansioso e após um momento, vi quando ela ficou triste, olhou para o
chão e suspirou.
- O que foi? – Perguntei baixinho.
- Nada. – Ela me respondeu sem levantar os
olhos, porém quando fez, era evidente que seus olhos estavam marejados.
Ela não me olhava nos olhos quando uma única
lágrima teimou em cair de seus olhos. Ela não olhava para mim quando olhei em
volta e vi no canto da igreja o único homem que eu sabia que poderia por meu
casamento a perder e roubar minha noiva. Ela não viu, mas eu vi que José estava
escondido no canto da igreja a vendo casar comigo.
*~*~*
José
Ela está mesmo casando!
Olho para ela no altar e não consigo acreditar.
Mas o que eu poderia esperar?
Nós passamos a noite juntos, fizemos amor até
que eu achasse que podia morrer dentro dela e assim que o primeiro raio de sol
apontou na janela, eu a destruí.
Minha pequena sereia. Ela nunca mais será
minha. Nunca mais.
Saber que ela está no altar com outro homem
deveria estar me deixando aliviado, afinal foi isso que eu pedi, implorei e a
obriguei a fazer, no momento em que a rejeitei esta manhã. Porém vê-la no altar
com outro homem e saber que assim que saírem da igreja serão marido e mulher,
está me estrangulando. Um ódio corrói meu peito e me faz ter que morder a
língua para não gritar e acabar com esse casamento.
Ontem, quando ela veio até minha casa, eu
estava sozinho, bebendo minha cerveja e pensando nela, enquanto fingia assistir
televisão.
- Oi delicia. – Ela falou e sorriu, quando abri
a porta.
Ela tinha bebido e pelo visto estava vindo de
uma festa. Usava um vestido vermelho todo de lantejoulas e parecia saber que na
minha cabeça ela era a minha versão humana da Jessica Rabbit. Seu vestido era
tão justo e tinha uma fenda que ia até quase sua virilha. Não havia nada mais
sexy do que Rebeca naquele maldito vestido.
- Oi. – Respondi a contragosto e me encostei na
porta, tanto para me apoiar, quanto para me impedir de pular em cima dela e a
arrastar para minha cama.
- Já que não vai me convidar para entrar, vou
entrar assim mesmo. – Ela falou e já foi se aproximando de mim.
Mesmo tendo espaço suficiente para que ela
passasse sem se encostar, ela virou de costas e passou esfregando sua bunda em
mim. Não resisti a cheirar seus cabelos.
- Você não deveria estar em casa ou em algum
outro lugar descansando para o seu casamento? É amanhã, não? – Perguntei ao
fechar a porta.
- Está marcado para amanhã, se vai acontecer
amanhã, só Deus sabe. – Ela dá de ombros.
Caminhando até o sofá onde antes eu estava
tentando assistir ao jogo de futebol. Ela senta e cruza as pernas, mostrando
ainda mais da sua coxa através da fenda. Meu controle estava por um fio.
- Você não está certa se vai casar? Ou está com
medo que o noivo fuja? – Falei com ela, mas não me sentei ao seu lado.
- Acho que um pouco dos dois. – Ela sorri.
Seu sorriso iluminou seus olhos e como sempre
me fez lembrar o quanto ela é jovem. Mesmo que por fora ela seja um furacão em
forma de mulher, que na cama seja simplesmente perfeita, ela permanece sendo
uma jovem cheia de sonhos que não podem se realizar ao meu lado. Ela merece ser
feliz com um cara bacana, da sua idade, alguém que a ame como ela merece. Não o
engomadinho que a pediu em casamento. Ela precisa de alguém que tire aquela solidão
que ela esconde, mas que eu já vi mais de uma vez em seus olhos.
- Não vai me oferecer nada para beber, José? –
Ela pergunta e passa a língua em seus lábios. Sinto todo o meu sangue se
redirecionar ao sul do meu corpo.
- Acho que você já bebeu demais por uma noite.
Porque você não vai para seu apartamento descansar para o grande dia?
Vejo ela se levantar e caminhar na minha
direção. Meu coração diz que é melhor me afastar, meu cérebro diz que é melhor
ficar e não deixar ela saber o quanto me afeta, mas uma parte não muito honrada
da minha anatomia me diz para caminhar em sua direção, arrancar sua roupa e
fazer amor com ela tanto quanto eu puder. Opto por ouvir meu cérebro.
Vejo como ela caminha e como seus seios de
movimentam com a respiração. Se ela erguer os braços, seus mamilos ficarão
expostos devido a seu decote pecaminosamente baixo.
- Sabe onde eu estava José? - Ela pergunta
quando para a poucos centímetros de mim.
- Não.
- Eu estava na minha despedida de solteira.
Tinha muita mulher, muita bebida, muitos gogoboys, stripetease masculino e tudo
que você possa sonhar. Sabe a única coisa que não tinha e que me fez largar
tudo para trás?
- Não. Não sei. – Respondi sem fôlego ao sentir
seu cheiro de morango. Eu nunca mais fui capaz de ver, comer ou sentir o cheiro
de morango sem lembrar dela.
- Faltava você. Eu queria que você estivesse
lá. Queria que fosse você dançando e tirando a roupa pra mim. Como hoje é minha
última noite como solteira, vim aqui te pedir para passar ela com você. Fazendo
amor com você. Considere esse o último pedido de uma moribunda. Já que a partir
de amanhã, morro para todos os homens e vou me concentrar apenas em um.
Ao terminar seu discurso tão sedutor, ela pegou
minha mão e colocou justamente sobre o seio que eu encarava e imaginava
escapando daquele decote.
- Sinta José. Sinta como meu coração bate
devagar. Esses são meus últimos minutos de vida livre. Por favor, passe comigo.
Preciso sentir você dentro de mim novamente, pela última vez.
O fio que segurava meu controle se partiu.
Minha mão que estava em seu seio correu até sua nuca e segurando-a firme,
trouxe sua boca até a minha. Não a beijei imediatamente, primeiro deixei minha
outra mão passear por seu corpo e minha boca fez o que tanto gosto, roçou sobre
seus lábios, pescoço, orelhas ombros e só depois de roçar por todos esses
lugares, finalmente colei minha boca na sua e nos beijamos com abandono.
Como sempre que provei da delicia de seus
lábios, eu me perdi. Perdi o controle, a concentração e o poder de pensar em
outra coisa que não fosse em fazer Rebeca gritar meu nome. Como das outras
vezes em que me permiti estar dentro dela, ouvi também minha voz gemendo seu
nome, meu corpo buscando o seu, minha mente querendo estar conectada com a
mente desta garota que me encanta, fascina e me tira do eixo. A mulher que luta
pelo que quer, a garota que tem caprichos e a mistura das duas que me faz ter
sonhos molhados como se fosse um adolescente.
Essa mulher que se veste como Jessica Rabbit,
mas que por dentro não passa de uma pequena sereia, e é simplesmente minha
perdição. E o que dizer de seu sotaque? A cada palavra dita naquele sotaque, eu
tinha um nível de ereção diferente. Quando ela falava comigo e dizia meu nome
enquanto fazíamos amor, eu me sentia com dezoito anos e no auge da minha vida
sexual.
Depois da noite anterior ao seu casamento, onde
fizemos amor na minha cama por mais vezes do que achei que conseguiria na minha
idade e nas minhas condições, fiquei olhando Rebeca dormir. De pé eu vi como
ela estava plácida deitada de bruços, abraçando o travesseiro, com seus cabelos
espalhados pela minha cama e uma perna dobrada. Seu sono era tranquilo e seus
traços suaves.
Durante horas fiquei ali, sentado na poltrona
do meu quarto, apenas zelando seu sono e avaliando o que eu sentia por ela.
Rebeca é uma mulher e tanto. Forte, determinada, divertida, sexy, carinhosa e
mais mil adjetivos. Ela é a mulher ideal para um cara de sorte, não pra mim. Um
homem com a minha idade não pode fazer uma mulher de trinta e um anos, feliz.
Um homem da minha idade já se preocupa com a morte, enquanto ela preocupa-se em
se divertir.
Foi pensando nisso e em outras coisas que me
impediam de ter aquela mulher eternamente nos meus braços, que quando o dia
começou a amanhecer e Rebeca começou a acordar, eu tive que trancar todos os
meus pensamentos e sentimentos para que pudesse fazer o que era o certo. Eu
precisava que ela desistisse de mim.
- Bom dia. – Rebeca me disse e sorriu. Ao
sentar-se, o lençol que a cobria, escorregou e deixou seus seios expostos.
Olhei para tudo, menos para eles.
- Bom dia, Rebeca. – Respondi sério. – Acho que
é melhor você se vestir e ir para o seu apartamento.
- Me vestir? – Ela pareceu confusa, mas então
se deu conta do que eu estava fazendo. Por um instante vi dor em seus olhos
antes que ela conseguisse esconder e por sua máscara de garota forte. – Mesmo
depois dessa noite, de tudo que falamos enquanto fazíamos amor, você acha que
vou ser capaz de me casar com o Luca?
Virei-me e fiquei de costas para ela. Não
respondi imediatamente. Precisava me recuperar das imagens da noite anterior.
Imagens que me assaltavam e faziam minha vontade de afastá-la se enfraquecer.
Lembrar dela dizendo que era sou o homem da vida dela, que ela estava
apaixonada por mim e lembrar o quanto ouvir aquilo me deixou exultante, fez meu
coração se apertar frente ao que precisava fazer.
- Acho que você tem idade o suficiente para
saber que as coisas ditas entre os lençóis não devem ser levadas tão a sério.
No calor do momento, nós falamos qualquer coisa.
- Você acha que eu disse que estava apaixonada
por você por estar no calor do momento?
Eu podia ouvir em sua voz o quanto ela estava
lutando para se manter calma. Rebeca não é uma mulher de se controlar, ela é um
furação. Uma mulher movida pelas emoções e o controle de tais emoções só revelavam
o quanto ela estava confusa.
- Eu acho que você disse o que quis, movida
pelo calor do momento, pelo álcool e principalmente por uma falsa impressão de
que o que temos virá um dia a ser algo mais do que um caso. Desde o início eu
te avisei que não...
- Eu sei o que você avisou, não precisa me
lembrar. Eu sou apenas uma boa transa, mas não sou madura o suficiente para ser
mais do que isso.
Ouvi o barulho da cama, quando ela se levantou
e começou a se vestir.
- Eu nunca menti para você Rebeca. Você sempre
soube o que eu podia te oferecer.
Ela não respondeu imediatamente. Quando
respondeu, havia mais do que raiva em sua voz. Havia dor, mágoa e algo que não
soube identificar.
- Não José, você nunca mentiu pra mim. Você
sempre foi honesto ao me dizer que não teríamos um futuro juntos. Porém eu fui
burra o suficiente para me apaixonar por você, por seus toques e seu jeito de
fazer amor comigo. Me apaixonei pelo homem que você é quando estamos entre os
lençóis. Burra eu, não? – Ela suspirou. – A cada vez em que eu tinha que me
vestir e ir embora no meio da noite, eu lutava bravamente para não me sentir
usada, não me sentir uma puta, afinal, eu busquei isso. Eu corri atrás de você.
Agora, depois de abrir meu coração e pôr pra fora tudo o que sinto por você,
não só me sinto burra por correr atrás de satisfazer um desejo sem intenção de
um futuro juntos, como me sinto suja por ter traído meu noivo. Tenho que te parabenizar, José. Você é a
segunda coisa da qual eu vou me arrepender pelo resto da vida. Vou me
arrepender de ter dado meu corpo e meu coração a um homem que tem medo de se
entregar. Um homem incapaz de amar. Um homem cujo tempo secou seu coração.
As lágrimas que eu não via por estar de costas,
ficavam visíveis em seu tom de voz. Eu a deixei falar por achar que ela merecia
falar tudo o que queria, mas também por não conseguir me imaginar dizendo mais
nada que pudesse magoá-la.
- Eu sou burra. Sou uma traidora. Eu reconheço
isso. Eu me ofereci, me joguei em cima de você. Agi como uma mulher vulgar, mas
eu pelo menos lutei pelo que eu quis. Fiz o que queria. O que eu não contava
era que você seria um covarde. O cara maduro, mais velho e sábio, não passa de
um covarde. Você tem medo do que acontece entre nós, você tem medo da reação
das pessoas com a nossa diferença de idade... Você é um covarde... – Ela
chorava sem se importar em fingir ou em controlar. – Você é um covarde e eu não
me envolvo com covardes. Eu busquei em você o homem de verdade que eu via, mas
agora, ao ser dispensada como uma peça descartável, eu posso ver que na
verdade, você é um velho covarde. E da mesma maneira como eu me dediquei a
entrar em seus lençóis, eu vou me dedicar para arranca você de dentro de mim,
nem que isso seja a última coisa que eu faça na minha vida. Você é tão covarde
que nem consegue olhar pra mim.
Sim, ela estava certa. Eu não conseguia olhar
para ela. Quando ela caminhou até mim e me fez virar e encará-la, meu coração
se partiu em mil pedaços. Seus olhos vermelhos e borrados me imploravam para
que eu fizesse alguma coisa. Sua mão no meu ombro queimava minha pele e
derretia minha vontade de afastá-la. Eu precisava me manter calmo, mesmo que
meu coração estivesse apertado e minha cabeça latejasse de dor.
- Diga alguma coisa... – Ela sussurrou com
lágrimas caindo pelo seu rosto. – Por favor...
- Rebeca... – Parei de falar.
O que eu iria falar? Para ela não se casar?
Para continuarmos sendo amantes? Eu não poderia fazer isso com ela. Ela não
merecia continuar sendo tratada daquela forma. Ela merecia ser feliz. Eu
simplesmente não podia oferecer a felicidade que ela merecia, então eu precisei
deixá-la livre para ser feliz com outra pessoa, e pra isso, eu precisei fazer
as palavras passarem pela minha boca. Eu tive que escolher entre fazê-la sofrer
agora, ou fazê-la sofrer ainda mais depois.
–
Desculpa, Rebeca. Sinto muito se de alguma forma eu dei a entender que
poderíamos ter algo além de noites de... – Minha vontade foi de dizer que eram
noites de amor. Noites onde fazíamos amor
e não sexo. – Noites de sexo casual. Me perdoe, mas nós simplesmente não temos
um futuro juntos.
Eu vi o momento exato em que quebrei seu
coração. Se eu tivesse prestado atenção, eu poderia ter ouvido os cacos de seu
coração caindo no chão do meu quarto. Eu poderia ter ouvido se eu tivesse
prestando atenção, mas os barulhos dos meus próprios cacos eram altos demais
para que eu conseguisse ouvir qualquer outra coisa.
Com seu vestido vermelho de Jessica Rabbit,
Rebeca saiu do meu quarto. Tentei juntar o que sobrou de mim e rezei para que
um coração velho pudesse se colar e refazer tão rápido quanto um coração jovem.
Rezei para que minha cabeça não explodisse. Rezei mais ainda para que Rebeca
percebesse um dia que a melhor coisa que eu fiz por ela, foi afastá-la de mim.
Agora só me restava seguir em frente e implorar para que eu não me quebrasse a
cada vez que a visse com seu futuro marido, implorar para que eu não desejasse
morrer quando ela finalmente casasse, tivesse filhos e seguisse sua vida ao
lado de um homem que não serei eu.
Saindo das minhas lembranças e olhando-a
naquele momento, na igreja e vestida de noiva, tive dúvidas quanto a minha
decisão. Mas já era tarde demais, ela estava casando. Por não conseguir vê-la
aceitar outro homem como seu esposo, fui embora. Eu ainda conseguia ouvir os
pedaços do meu coração batendo uns contra os outros enquanto sai da igreja sem
ver Rebeca dizendo o Sim.
*~*~*
E para embalar a noite de vocês, uma das músicas que ouvi enquanto escrevia.
Bom, acho que por hoje é só!
Quarta que vem volto!
Beijos,
Carol



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