A construtora que Tiago e eu criamos, cresceu
e prosperou muito. Quando chegou a oportunidade certa, resolvemos expandir os
negócios para além de Portugal. Qual o segundo melhor país para fazermos
negócio, do que o país natal de Tiago?
Depois de muito trabalho, muitas negociações
e especulações; resolvemos implantar a filial internacional da nossa empresa em
Florianópolis. Confesso que saber que muitos artistas mundiais elegeram Jurerê
Internacional como um lugar bom o suficiente para se ter uma residência, foi um
fator que contou muito para a nossa escolha de local.
Durante todo o desenvolvimento do projeto de
implantar a filial em Floripa, Tiago esteve ao meu lado, dando dicas, dando
ideias e muito interessado no caminhar do projeto. Por mais que quem estivesse
à frente da questão fosse eu, estive sempre atenta ao que ele dizia e indicava,
já que ele conhecia a região melhor do que ninguém. Estive atenta também a
vontade louca que ele tinha de voltar e reencontrar sua Anne.
Quando finalmente chegamos ao Brasil, Tiago e
eu nos divorciamos. Coisa que já deveria ter acontecido muitos anos antes, mas
a burocracia para separar nossos bens e o medo de que nosso divorcio
interferisse no bom desempenho da nossa empresa, nos fez protelar. Nunca parecia
o momento ideal para o divórcio dos donos de uma construtora tão grande quanto
a nossa. Entretanto, assim que o projeto Floripa foi concluído e chegou a etapa
de nos mudarmos para o Brasil e participar da implementação completa do
empreendimento, demos entrada na papelada do divórcio.
Minha chegada ao Brasil foi calma e
tranquila. Sem nenhum tipo de confusão, uma vez que a empresa organizou toda a
viagem, a minha estadia em um apartamento mobiliado e completamente equipado,
além de instruções para meu transporte, já que foi contratado um motorista
particular até que a validação da minha habilitação portuguesa estivesse
pronta, para que eu pudesse dirigir no Brasil. Só me restou fazer as malas e
entrar no avião.
Cheguei em Floripa uma semana antes da festa
de inauguração do empreendimento, e ainda havia muito o que ser feito e algumas
questões a serem finalizadas antes da inauguração. Mais um motivo pela vinda
dos dois sócios da empresa, já que sempre apenas um de nós vai pôr a filial em
andamento, mas dessa vez teve questões pessoais envolvidas e isso fez com que
Tiago e eu viéssemos. Enquanto eu mantinha o foco total na empresa, Tiago
resolvia as questões do seu passado e do seu coração.
Graças à vinda do Tiago que conheci José e
Anne, assim como a Deb e o Diego. Minha estadia que era de apenas dois meses se
transformou em uma estadia por tempo indeterminado e pela primeira vez na minha
vida, não tive problemas em passar tanto tempo longe da minha casa.
Logo depois do meu divórcio é que minha vida
começou a mudar. Eu nem imaginava que o Brasil iria me trazer tantas mudanças e
tantas novidades. A principal novidade foi meu interesse avassalador por certo
grisalho cabeça dura.
José, o homem por quem eu senti um desejo
quase imediato e tomei a maior quantidade de nãos que eu jamais imaginei. Porém
o que ele não sabia, era que eu sempre fui muito teimosa. Não desisto tão
fácil. Se eu quero, eu luto e conquisto. Mesmo que eu tenha que lutar contra
quem eu mais desejo conquistar.
Depois de conhecer José no meu escritório,
tive a primeira oportunidade de conversar direito com a Anne, já que na
primeira vez que a vi, ela estava em meio a uma briga com Tiago, acreditando
que ele não tinha voltado pra ela anos antes, por ter se casado comigo. O que
não era mentira, mas também não era totalmente verdade.
Entre a minha chegada e todos os
acontecimentos na minha vida, algumas coisas foram uma constante; desejar José,
malhar todos os dias, desejar o José, sair ao menos três vezes por semana para
me divertir, desejar o José e desejar o José. A cada oportunidade que eu tive,
fui à casa dele encontrar a Anne. Todas às vezes eu ia para conversar com ela,
mas minha mente e meus olhos estavam sempre voltados para ele.
Havia algo de diferente no jeito como ele me
olhava quando achava que eu não estava olhando. Havia algo de diferente no meu
corpo ao estar ao lado dele. Eu simplesmente não conseguia disfarçar ou me
concentrar em outra coisa que não fosse ele.
De início tentei me aproximar dele de maneira
discreta, sempre disfarçando para que a Anne não percebesse, já que eu não
conseguia imaginar a reação dela ao ter a ex-mulher do Tiago, mesmo sendo sua
amiga, dando em cima do seu pai.
Certo dia, eu sabia que a Anne tinha saído
com Tiago, apareci a noite na casa da Anne e do José. Era apenas uma desculpa
para ver José.
- Oi José, a Anne está? – Perguntei para ele,
na maior cara de pau.
José estava sem camisa, e usava um avental de
cozinha. O cheiro que chegava de dentro da casa até a porta onde eu estava, era
maravilhoso.
- Não está. Ela saiu para jantar com o Tiago.
– Ele respondeu. – Era alguma coisa importante?
Como eu vim ensaiando o que ia dizer, eu
tinha na ponta da língua a desculpa que ia usar.
- Na verdade não é nada muito importante. É
que ela tinha ficado de deixar separado um sapato que emprestei para ela. Por
um acaso ela te disse alguma coisa?
- Não, ela não falou nada. Faça o seguinte,
entre e vá até o quarto dela ver. Se ela não estiver usando, deve estar lá em
cima. Pode ficar à vontade.
Sorri por dentro. Até aquele momento, o plano
estava correndo bem.
- Tudo bem, é rapidinho. Só vou pegar o
sapato e já vou embora para te deixar jantar sozinho. – Me arrisquei para ver
se ele me convidava para jantar, mas ele não convidou.
- Tudo bem, não precisa ter pressa. – Ele me
respondeu antes que eu começasse a subir as escadas até o quarto da Anne.
Como eu não tinha emprestado nenhum calçado
para ela, escrevi um bilhetinho e deixei sobre um dos seus sapatos dentro do
armário. Como Anne ia passar um bom tempo fora, pelo menos até o dia seguinte,
eu corria o risco de José ver o bilhete se eu colocasse em outro lugar.
Rapidamente peguei um par qualquer de
sandálias e seguia em direção a escada, quando passei em frente à porta do
quarto que do José, não resisti, entrei.
Seu quarto era simples, com uma cama de casal
feita de madeira boa, uma cômoda, um criado mudo e um guarda roupa feitos com a
mesma madeira da cama. Seu lençol era azul marinho e sem estampas. Nada estava
fora do lugar. Nem mesmo os itens em cima da cômoda estavam bagunçados. Seus
perfumes, relógios e alguns porta-retratos estavam perfeitamente organizados.
Alcancei um de seus livros de cabeceira que estavam sobre o criado mudo e me
deparei com A Arte da Guerra de Sun Tzu. Em sua cômoda seus perfumes e colônias
eram todos muito masculinos e com notas amadeiradas. Cheirei um, fechei o
frasco e quando estava quase colocando o perfume no lugar, senti que era
observada e me virei para a porta, José estava encostado no batente da porta me
olhando. Nos encaramos.
- Se eu disser que achei que era o banheiro,
você vai acreditar? – Perguntei, depois de algum tempo nos encarando sem nos
mexer.
José não respondeu imediatamente. Caminhou
até ficar bem próximo a mim e com suas mãos ásperas e enormes, retirou o
perfume da minha e se inclinou ainda mais até mim, para pôr o perfume em seu
lugar. Quando ele estava tão próximo que eu podia sentir o perfume em sua pele,
ele me respondeu.
- Não, eu não iria acreditar. Eu iria dizer
que você estava bisbilhotando meu quarto. Só não sei o porquê.
- Porque sou curiosa, seria uma boa resposta?
– Sorri e estremeci ao sentir que José passava seu rosto em meus cabelos que
estavam soltos.
- Seria, mas eu gosto da verdade. Quer mais
uma chance de me dizer a verdade? Porque você veio aqui hoje?
Me aproximei e colei meu corpo ao seu.
- A verdade? Então se prepare. – Murmurei
próxima a sua orelha e foi a vez dele estremecer. – Vim te ver e vim pegar uma
sandália emprestada.
- Achei que você tivesse vindo buscar uma
sandália sua e não pegar uma emprestada. – Ele sorriu ao acrescentar. – Era só
uma desculpa para me ver? Bastava ter me ligado ou apenas aparecido. Sabe
Rebeca, eu não mordo.
- Mesmo se eu pedir para que morda? –
Perguntei, agora levando minhas mãos até seu avental e tocando com a ponta dos
dedos na pele de seu peito. Senti meu corpo todo esquentar ao tocar sua pele
nua.
- Só faço o que quero. Só mordo quando quero.
- E você quer morder agora?
Minha voz saiu rouca. Foi quase um gemido.
Com o corpo de José tão próximo do meu, senti cada batimento cardíaco dele e
senti também o tamanho do seu desejo. Levemente pressionei meu quadril em sua
direção. Senti quando ele tomou uma respiração profunda em meu pescoço, deu um
beijo com os lábios abertos em meu ombro e levemente passou a língua em minha pele.
Tremi e inclinei a cabeça para que ele tivesse um acesso melhor. Foi então que
ele deu dois passos para trás.
- Não Rebeca. Isso não vai acontecer nem
agora, nem nunca. Você é incrivelmente desejável, mas não vai rolar.
Senti um balde de água fria ser jogado sobre
mim, mas eu não desistiria tão fácil.
- Isso é o que veremos. – Suspirei e mudei de
assunto. – Acho que agora que você já descobriu minha pequena artimanha, só me
resta ir embora e tentar me sentir envergonhada. Se bem que acho que não se consegue
fingir vergonha.
José sorriu de leve e ficou em silêncio.
Passei por ele e coloquei em sua mão o par de sandálias que eu ia pegar
emprestado.
- Você não precisa ir embora. – Ele falou
quando eu estava caminhando em direção a porta. – Eu fiz comida o suficiente
para um batalhão, você não quer jantar?
Sorri e ainda de costas para ele respondi.
- Você está me convidando para jantar com
você? Seria um encontro?
- Não Rebeca, não é um encontro. – O sorriso
estava em sua voz. – Estou apenas te convidando para jantar comigo porque fiz
muita comida e além disso, odeio jantar sozinho.
- Tudo bem, eu faço essa caridade. – Olhei
por cima do ombro e José me encarava. – Tem sobremesa?
- Não.
- Posso pensar em uma sobremesa maravilhosa,
mas já que você acha que nunca vai rolar nada entre nós, então ela fica um
pouco inviável no momento.
- Rebeca... – Ele me repreendeu, mas o canto
de sua boca erguida denunciava a diversão.
- O que foi? Não posso nem imaginar nada com
você? – Sorri e pisquei para ele.
- Pode, mas guarde sua imaginação só para
você. Não preciso saber o que você imagina fazer comigo.
A conversa passou a ficar interessante de
verdade. Parei no batente da porta e me apoiei, olhando para ele, com os braços
cruzados abaixo dos seios.
- Porque não posso falar que estou imaginando
te arrancar dessa roupa e te jogar nessa cama e montá-lo...
- Chega Rebeca. – José falou rígido e fechou
os olhos, suspirando.
- Tudo bem, não vou te provocar mais.
Era evidente que ele estava excitado. Era
apenas questão de saber como derrubar suas barreiras e eu o teria na minha
mão... No meu corpo... Na minha cama ou na dele, ou no sofá, ou em qualquer
lugar. Balancei a cabeça tentando me concentrar no momento e não no que eu um
dia iria fazer com ele entre os lençóis.
- Rebeca?
- Oi? – Pisquei. – Desculpa. Minha imaginação
é muito fértil e às vezes é difícil de controlá-la. O que você disse?
- Fiz caldo verde para o jantar. Você gosta?
- Amo caldo verde.
- Então vamos comer. Estou faminto. – Ele
sorriu passando por mim e raspando a lateral do corpo em mim.
- Eu também estou faminta, mas não tenho
certeza que seja apenas de comida.
- Rebeca...
- Tudo bem. Tudo bem. Parei. – Ergui minhas
mãos em sinal de rendição. – Não vou mais falar sobre isso. Por hoje.
Jantamos e conversamos amenidades. Depois de
terminar de comer, levantei e juntei os pratos, colocando tudo na pia.
- Rebeca, não precisa lavar a louça. Deixa
que eu faço isso. – José pediu.
- Tudo bem, eu não ia lavar mesmo. Só ia pôr
na pia. – Sorri. – Uma coisa que você precisa aprender sobre mim, não espere
que eu seja uma mulher prendada. Não sei fazer nada em uma cozinha, mas sei
fazer várias outras coisas.
Olhei em seus olhos e vi o momento exato em
que sua pupila escureceu.
- Achei que tínhamos combinado de parar com a
provocação.
- Opa. Calma. Agora foi você quem pensou
besteira. – Gargalhei.
- E tem como não pensar besteira quando você
está por perto?
A voz de José era tão rouca que minha
gargalhada morreu no mesmo instante.
- Porque só pensar? – Questionei, ainda
buscando uma explicação para todo aquele autocontrole.
- Porque isso não vai funcionar. Simples
assim.
- Você também prevê o futuro no trabalho e na
saúde ou só no amor? – Brinquei.
- Não é uma previsão. É um fato.
José estava em pé de um lado da mesa e eu do
outro. Nos encaramos e vi em seus olhos o brilho do desafio. Ele estava pronto
para fixar seu ponto de vista e não iria desistir assim tão fácil. Eu também
não.
Repensei minha estratégia e tentei uma
abordagem diferente.
- Tudo bem, então. Não há argumentos contra
fatos, não é mesmo? – Dei de ombros e peguei minha bolsa que estava pendurada
na cadeira. – Não sou do tipo que desiste antes de pelo menos tentar, mas
também não sou do tipo de rastejar por um homem. Deixei claro que estou
interessada e você deixou claro que não está. Eu aceito isso e tiro meu time de
campo.
Coloquei minha bolsa no ombro e caminhei até
ele para me despedir e ir embora antes que eu desmentisse o que tinha acabado
de dizer e rastejasse por ele. Senti seus olhos me acompanhando. Assim que dei
o segundo passo, meu celular começou a tocar na bolsa. Parei e peguei o
aparelho de dentro da minha bolsa. Era minha irmã.
- Oi delicia. – Cumprimentei.
- Oi mana. Tentei te ligar mais cedo, mas sua
secretária me disse que você estava ocupada.
- Sim. Eu estava ocupada, mas agora estou
livre para tudo que você quiser. – Falei sorrindo, então olhei para José. Ele
parecia um tanto quanto tenso.
- Não era nada demais. Só queria te avisar
que resolvi que vou pra Floripa daqui a alguns dias ver o Carlos. Ele anda todo
nervoso e ciumento por causa de um funcionário novo do hospital que comentou
uma foto minha no facebook. – Jessica riu. – Nós tivemos uma briga horrível por
telefone ontem por causa do ciúme dele e...
Não consegui ouvir mais nada. José me
encarava com tanta intensidade que me perdi em seus olhos.
- Beca, você está me ouvindo? – Jessica
berrou no meu ouvido.
- Desculpa amor, o que você estava dizendo? –
Fechei os olhos para me concentrar.
- Onde você está?
- Estou saindo da casa da Anne agora. Por
quê?
- Você está distraída. O que você estava
fazendo ai?
- Só vim pegar uma sandália dela e já estou
voltando para o meu apartamento. Acho que vou para a balada hoje.
- Vê se não vai dirigir depois de beber.
- Vai tomar conta da minha vida até por
telefone? Quem sabe você pode me levar para casa, o que acha? – Sorri por saber
que ela estava do outro lado do Atlântico e nada podia fazer para me controlar.
- Me provoque e pego um avião hoje.
- Estou pagando para ver.
- Me provoque e não se cuide para você ver se
não apareço na sua porta para te puxar a orelha. Você é minha única família,
faça o favor de se manter bem.
- Tudo bem. Agora me deixa desligar. Tenho
que ir para casa me arrumar antes de sair.
- Certo. Juízo, mana. Te amo.
- Também te amo.
Desliguei e guardei o celular na bolsa.
- José, a conversa foi ótima, a janta estava
maravilhosa, mas já que não tenho mais nada o que fazer aqui, vou cair na
gandaia. Vejo você por aí. Me acompanha até a porta? – Perguntei encarando-o.
Ele não me respondeu, apenas virou e caminhou
até a porta. Quando abriu a porta e parou, segurando-se nela, achei que minha
noite com José estava definitivamente acabada, até que então ele me
surpreendeu.
Parei do lado de fora da porta e olhei José.
Em um impulso me inclinei para dar um beijo em seu rosto. Apenas um beijo de
despedida, mas José me segurou e colou seu corpo no meu.
- Hoje à noite, quando estiver nos braços de
outro homem qualquer, tente não pensar em mim. – José sussurrou em meu ouvido.
- E você, quando for se masturbar sozinho
hoje à noite, pense em mim e em tudo que vou estar fazendo com um qualquer,
enquanto poderia estar fazendo com você. – Respondi assim que me recuperei do
que José havia dito.
Ficamos parados, com os corpos colados, por
mais tempo do que o necessário. Sem pensar, deixei meu nariz percorrer seu
pescoço e senti quando José estremeceu. Era hora de ir embora de vez ou de me
agarrar aquele homem. Virei meu rosto em sua direção e esperei. Ele me olhou de
volta. Ficamos nos encarando, até que movidos por magnetismo sexual, nossos
lábios começaram a se aproximar um do outro. Fechei meus olhos no último
instante e não vi quando José desviou seus lábios e plantou um beijo casto no
canto da minha boca.
Fiquei parada e de olhos fechados por uma
eternidade, até que senti uma brisa leve roçar minha barriga e percebi que José
tinha se afastado. Estávamos ofegantes e irritados. Eu por um desejo não
satisfeito e ele por quase ter perdido o controle. Não falei mais nada.
Com passos decididos e completamente furiosa,
marchei até meu carro rezando para que eu não encontrasse nenhuma blitz, fui
embora cantando pneu e acima da velocidade permitida.
Naquela mesma noite, enquanto eu estava nos
braços de um qualquer que encontrei na balada, me recriminei por não conseguir
tirar um certo grisalho da cabeça. Então resolvi fechar os olhos e imaginar que
era com ele que eu estava no motel, mas as mãos suaves e que tocavam com
delicadeza não combinavam em nada com José. José seria firme e duro na medida
certa. José iria me pegar com vontade e desejo, sem medo de que fosse me
machucar ou quebrar. José me pegaria como um homem de verdade pega uma mulher.
Esse qualquer, que apesar de bonito, não era José, ele tentou. Fez tudo o que
pode e deu o melhor de si. Porém no final da noite, quando cheguei sozinha ao
meu apartamento, me senti duplamente frustrada. José não só me rejeitou, como
se infiltrou em meus pensamentos e me impediu de gozar. Eu precisava resolver
essa situação, ou estaria louca em pouco tempo.
*~*~*
Algumas semanas depois, Anne marcou um jantar
em sua casa e me convidou. Na verdade, quando nos falamos por telefone, ela
deixou claro que era fundamental minha presença. Como sou curiosa demais para
não ir, acabei indo.
José assava a carne do churrasco. Anne, Deb e
eu cuidávamos da arrumação da mesa e do preparo de outras comidas, enquanto
Diego e Tiago cuidavam das bebidas. Passei a maior parte do tempo apenas
olhando José de longe. Não nos falamos.
Vi algumas vezes a forma como me olhava e a
careta que fazia quando desviava os olhos do meu mini vestido vermelho. Ele
parecia se recriminar por me olhar. Quem sabe até me desejar. Quando nos
encarávamos, eu me perdia em seus olhos. Meus sentimentos eram confusos. Um
misto de desejo e raiva.
O jantar seguiu como o esperado. Todos
comemos, bebemos e conversamos. Tudo estava muito bom, mas algo estava me
incomodando. Eu não conseguia me sentir completamente feliz. Quando eu via Anne
e Tiago juntos, tão apaixonados, algo se remexia no meu estomago. Eu sabia que
o que eu estava sentindo era vontade de ter aquele tipo de amor que os dois
tinham. Eu queria ser amada como Tiago amava a Anne. Queria que um homem
olhasse pra mim com aquela admiração e devoção. Ao desviar meus olhos de Tiago
e Anne, olhei para Diego e Deb. Gemi baixinho.
- Está se arrependendo de ter se separado do
Tiago? – José perguntou atrás de mim.
- Nem por um minuto. Desejo que ele seja
muito feliz e sei que ao lado da Anne, ele vai ser. – Respondi com sinceridade.
Lutando com todas as minhas forças, me
afastei de José e caminhei para dentro da casa dele. Não queria que ele visse o
quão solitária eu me sentia naquele momento.
Caminhei até o banheiro e ao chegar lá,
entrei e tranquei a porta. Eu precisava de algum tempo para me recompor e
colocar todos os meus sentimentos no lugar. Assim que abri a porta para sair,
vi José parado na parede em frente a porta do banheiro.
- Veio fugir dos sentimentos? – Ele me
perguntou.
- Vim usar o banheiro e mesmo que tivesse
vindo para qualquer outra coisa, acho que não seria da sua conta. – Respondi
irritada por ele poder ler tão claramente os meus sentimentos.
Minha irritação atiçou algo em José e antes
que eu pudesse entender o que ele estava fazendo, José me pegou pelo braço e
praticamente me arrastou para dentro do banheiro, trancou a porta e me prensou
contra a parede.
- Se você sente alguma coisa por ele, eu vou
te pedir educadamente para que suma daqui e nunca mais volte.
- Por ele? Ele quem? – Perguntei sem
entender.
- Como quem? O Tiago. Se sente alguma coisa
por ele, guarde para você. Não interfira na felicidade dele com a Anne.
Olhei para ele ainda incrédula.
- José, eu não gosto do Tiago dessa forma.
Nunca gostei. Você realmente acredita que eu estaria aqui ou que eu teria
assinado o divórcio se amasse ele?
- Eu só não quero ver a minha filha sofrer
novamente. Ela está tão feliz.
- E o meu amigo
também está muito feliz. Eu também não quero que nada de mal aconteça com os
dois. – Respondi dando ênfase a palavra amigo.
- É que eu vi a forma como você olhou para os
dois. Eu vi como você ficou triste...
- Você já amou daquele jeito José? –
Perguntei olhando em seus olhos. Sem esperar uma resposta, continuei a falar. –
Eu nunca amei ou fui amada daquela forma. Isso responde o que você viu quando
me olhou?
Assim que terminei de falar, abri a porta do
banheiro e sai. Não queria ouvir mais nenhuma palavra dele, muito menos se ela
viesse carregada de pena.
Um dia eu amei, sim. Um dia eu sorria como
uma boba só de pensar no meu amor, mas agora, olhando para o amor de Anne e
Tiago, não tenho tanta certeza de que o amor que eu sentia era o tipo de amor
certo. Que ele não era amor para durar uma vida inteira, disso eu tinha
certeza. O que eu não sabia e nem nunca tinha experimentado, era outro tipo de
amor. Um amor forte o suficiente, capaz de superar todos os obstáculos.
Horas depois, tive que passar por uma nova
provação. Eu estava percebendo que estar rodeada por pessoas apaixonadas era
uma prova de fogo para meu controle emocional.
Assim que terminamos de jantar e de arrumar a
bagunça, Tiago nos surpreendeu ao pedir Anne em casamento de joelhos. Ele
entregou a ela um anel e um colar onde tinham cinco bonequinhos como pingente.
Um casal e três filhos, duas meninas e um menino. Foi então que Anne anunciou
que estava grávida de gêmeos e contou sobre a sua primeira filha que faleceu
quando ainda era pequena, vítima de um acidente de carro.
Até aquele momento eu consegui controlar
minhas emoções, mas quando Anne me convidou para ser madrinha de um dos bebês,
eu quase desmoronei.
- Anne e eu escolhemos você Beca e meu sogro favorito como
padrinhos de um dos gêmeos. – Tiago falou sorrindo.
– Jura? Eu? – Perguntei a beira das lágrimas. – Vocês não
acham que é um pouco estranho a ex-mulher do Tiago ser madrinha de um filho
dele?
– Você nunca foi minha mulher. Você sempre foi minha amiga e
nada mais justo do que escolher uma amiga para madrinha do meu filho. – Ao me
responder, Tiago me deu um abraço forte.
Olhei para Anne e assim como eu, ela estava com lágrima nos
olhos.
– Beca, não existe maneira melhor de te agradecer pelo que
fez por nós, do que te dar um filho meu para que você batize. Ser madrinha é
ser a segunda mãe. Sem a sua intervenção, uma hora dessas eu estaria sozinha e
sem o meu Ti. – Anne me falou, quando a abracei.
– Filha. – José estava atrás de mim chamando a Anne. – Eu me
sinto emocionado por ser escolhido para ser padrinho, mas sou obrigado a
recusar. Já sou avô e isso é muito mais do que qualquer outra coisa. Escolha
outra pessoa para também fazer parte da vida do bebê. Eu já estarei presente
sempre, sem ter a necessidade de ser padrinho.
– Pai... – Anne ainda tentou argumentar, mas foi em vão
– Está resolvido. – José foi firme.
– Está bem. – Anne respondeu e abraçou seu pai com carinho.
Para dar espaço para pai e filha conversarem, caminhei e
parei ao lado da Deb.
– Droga, já podia me ver na igreja com o José. – Disse.
Tentando fazer graça e esconder o quanto estava nervosa. – Eu adoraria ficar de
braço dado com ele na igreja. Eu adoraria ficar com ele e ponto.
Deb sorri.
– Você está dando em cima do Seu José a noite toda ou é
impressão minha?
– Estou tentando, mas o homem é mais escorregadio que
sabonete na banheira. – Sorri e na mesma hora imaginei José comigo em uma
banheira.
– Você já parou para pensar que ele pode não querer se
envolver com uma mulher mais nova?
Eu já tinha pensado em mil desculpas diferentes, mas nenhuma
delas era forte o suficiente para que ele se mantivesse afastado de mim.
– Já pensei e mesmo assim não vou desistir.
– Só me resta te desejar boa sorte, mas já te aviso que Seu
José é mais cabeça dura que a Anne.
– Seu José... – Sorri com a forma como Deb o chamou. – Quem
dera ele fosse meu.
Ambas rimos e continuamos a conversa.
– O que minhas comadres tanto conversam e riem? – Anne se
aproximou e perguntou.
– Estamos falando de tudo um pouco. – Deb respondeu
rapidamente e vi que ficou um pouco nervosa.
Eu sabia que podia estar estragando aquela noite ao contar do
meu interesse por José, mas eu queria ser honesta com Anne desde o início.
Afinal, ela logo, logo seria minha comadre. Se meus planos dessem certo, dentro
de pouco tempo ela seria também minha enteada. Esse pensamento me fez sorrir.
– Estamos falando de tudo um pouco e falando muito do gelo
que seu pai está me dando.
– Se quiser alguma coisa com aquele teimoso, vai ter que ser
muito insistente. – Anne respondeu sorrindo e me deu uma piscadinha. Aquele era
todo o aval que precisava.
– Insistente e persistente são minhas melhores qualidades,
além de um par de seios, uma bunda empinada e meus lindos olhos azuis. - Caímos
na gargalhada.
Mais tarde naquela noite, já em meu
apartamento, relembrei tudo o que ocorreu. Tiago pedindo Anne em casamento. Os
dois anunciando que irão ter gêmeos. José me puxando para o banheiro. Anne, Deb
e eu marcando de ir ao shopping. Tudo isso foi muito bom, mas nada se compara
ao que senti por ser convidada para ser madrinha de uma criança. Eu seria parte
da vida de uma criança. Eu seria como uma segunda mãe. Saber disso era o
suficiente para me fazer dormir com um sorriso nos lábios.
*~*~*
Continua na próxima quarta...
Beijos,
Carol & Sheila


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