Anos antes do Casamento
Beca
Minha vida sempre foi movida por impulsos, muitos erros e alguns acertos. Começando pelo fato de que sou fruto de um flashback entre meus pais. Pelo que eu soube, meus pais estavam separados quando em um dia de chuva, brigaram tanto que acabaram na cama e nove meses depois nasci. Um impulso, que era um erro, acertou em cheio ao gerar uma nova criança.
Eu quebrei meu braço aos dez anos quando, por impulso. Aceitei uma aposta de pular de um balaço em movimento. Errei ao cair e apoiar a mão no chão, mas acertei ao não deixar minha cara se esfregar na areia, ou poderia ter quebrado o pescoço.
O que estou querendo dizer é que não faço nada calculado. Tudo na minha vida é a consequência de uma atitude tomada, na maioria das vezes, sem pensar.
Minha relação com meu pai por exemplo, sempre foi péssima devido a minha impulsividade. Nunca concordei com a maneira como ele comandava a família e isso só piorou quando perdi minha mãe aos quatorze anos.
Minha irmã Jéssica, que tinha dezessete anos na época, tentou me consolar e me ajudar a passar pela perda da nossa mãe, mas tudo o que eu queria era me vingar do meu pai por trabalhar tanto e não estar lá quando minha mãe morreu afogada em nossa piscina.
Aos dezesseis anos descobri a liberdade, as festas e os garotos. Perdi minha virgindade nesse mesmo ano, com Luiz, um garoto dois anos mais velho. Minha primeira vez não teve nada de especial, nós fomos a uma festa, eu bebi um pouco de vinho a mais e ele me beijou o suficiente para que eu pedisse pra ele não parar. Fomos para um carro e no banco de trás eu perdi minha virgindade. Tive que ouvir resmungos por possivelmente ter manchado o banco de sangue.
Realmente, minha primeira vez não teve nada demais. Não doeu tanto quanto eu achei que doeria, mas também não me deu tanto prazer quanto eu achei que daria. Foi só uma inauguração do meu corpo de mulher.
Eu só fui saber o que era um orgasmo depois de algum tempo, quando conheci Luca. Meu primeiro e único namorado. O único que eu levei até a minha casa e apresentei ao meu pai. Antes não tivesse feito isso, mas fiz, pois achava que Luca era o homem da minha vida.
No dia em que o convidei para ir a minha casa, Luca ficou relutante, dizendo que não iria se sentir bem, que seu nível social era outro, que meu pai poderia não gostar de ver a filhinha dele namorando um pé-rapado e mais mil desculpas. Insisti. Nessa época nós já namorávamos há vários meses e eu estava para fazer dezoito anos.
Como Luca previu, meu pai não nos dispensou nem um olhar sequer durante o jantar que providenciei para apresentar meu namorado. Meu pai não trocou uma palavra sequer comigo ou com Luca, falava apenas com Jessica. Uma fúria assassina foi tomando conta de mim ao ver o quão sem jeito Luca estava ao ser visivelmente ignorado. Pouco antes de ser servida a sobremesa não aguentei e questione meu pai:
- Posso saber por que Luca e eu estamos sendo ignorados durante toda a noite?
Meu pai não se dignou nem a me olhar, muito menos a me responder. Jess vendo minha raiva, tentou intervir, chamando a atenção do nosso pai, mas ele não se deu ao trabalho de ouvi-la. Assim que as taças de sorvete foram servidas e nós dois seguíamos sendo ignorados, levantei, olhei para Luca e pedi que me acompanhasse até meu quarto. Assim que Luca levantou, vi meu pai nos olhando.
- O senhor pode continuar com sua sobremesa que nós dois vamos nos divertir no meu quarto. – Falei com raiva e num impulso, ergui a toalha da mesa, fazendo com que as taças de sorvete caíssem e sujasse tudo. – Desculpa maninha.
Me desculpei com Jess e dando a mão para Luca, corri para meu quarto, tranquei a porta e liguei o som alto o suficiente para que os vidros das janelas balançassem. Ainda sorrindo da minha peraltice, dancei um pouco com Luca no meio do meu quarto e quando meu pai começou a esmurrar a porta, fugimos pela janela e atravessando os jardins correndo, seguimos até a moto de Luca e pilotamos até sua casa.
- Por que você fez aquilo? – Luca me perguntou quando entramos em seu quarto, que ficava acima do bar de sua família.
- Pra ele aprender a nunca ignorar ninguém. Muito menos nós. – Respondi irritada, sentando em sua cama bagunçada.
- E nós precisamos da atenção dele? Você precisa da aprovação dele?
- Não, mas é falta de educação fazer o que ele fez. – Aquele assunto estava me irritando ainda mais. – Vamos mudar de assunto. Já que estamos sozinhos aqui, acho que podemos falar de coisas bem mais interessantes, você não acha?
Luca sorriu ao ouvir o meu tom e entendeu perfeitamente sobre o que eu estava falando.
- Tenho muitas coisas em mente que podemos conversar. – Ele sorriu ainda mais ao se sentar ao meu lado e puxar meu rosto pra nos beijarmos.
Sempre amei o jeito dele me beijar. Uma mão em meu pescoço e a outra nos meus cabelos, possessivo, como se tivesse segurando algo que lhe pertence.
Na manhã seguinte, quando voltei para casa, encontrei a porta do meu quarto arrombada e um bilhete do meu pai.
“Você vai se arrepender.” Era o que dizia.
Foi quase um ano depois que meu pai finalmente conseguiu me provar que era mais poderoso que eu. Ele usou de toda a sua influência e lábia, para me separar de Luca, me obrigando a casar com um estranho, logo em seguida.
Eu podia ter negado me casar. Podia ter fugido e ido morar sozinha, mas com que dinheiro se eu não trabalhava e dependia do dinheiro do meu pai? A herança que minha mãe deixou só seria efetivamente minha aos vinte e um anos, até lá eu tinha que viver à custa do meu pai. Foi por isso que aceitei me casar. Foi por isso e por medo de passar necessidade.
Para minha sorte, o noivo arranjado em questão era outro garoto sendo obrigado a se casar. Eu para evitar a miséria e ele para evitar do pai ser preso. Dois jovens apaixonados por outras pessoas e afastados dos seus amores por famílias distorcidas. Tiago e eu nos tornamos mais do que marido e mulher, nos tornamos sócios, amigos e principalmente, nos tornamos o apoio um do outro.
Mesmo Tiago sendo um cara bonito, nunca senti nenhum tipo de atração física por ele. Acredito que por tê-lo conhecido em uma fase complicada da minha vida, eu via nele mais um amigo irmão, do que um homem para estar na minha cama.
Nosso contrato de casamento já estava pronto quando descobri a traição de Luca. Tiago foi quem me apoiou e ajudou a dar a volta por cima. Quando me vinguei em grande estilo, Tiago me recriminou por ser tão impulsiva, mas mesmo assim se manteve ao meu lado.
Durante algum tempo depois do casamento, eu me mantive na minha, fingindo ser uma boa esposa. Tiago e eu tínhamos um acordo de liberdade total, desde que tudo que fosse ilegal, imoral ou que pudesse prejudicar o outro, fosse feito no mais completo sigilo. E assim foi.
Sempre que eu queria arrumar alguém, eu me disfarçava e saia em locais dos quais ninguém da classe social do meu pai pudesse me reconhecer. Frequentei os mais variados tipos de lugar. De puteiros até restaurantes em hotéis simples. Minha predileção eram os botecos. Homens rústicos, bebidas fortes e música animada. Era isso que eu buscava nesses lugares sem nenhuma classe.
Vários anos onde eu passava mais tempo viajando do que em Lisboa. Tiago e eu nos falávamos todas as semanas por telefone, mas nos víamos no máximo uma vez por mês, então cada um seguia com sua vida extraconjugal e aproveitava suas aventuras da melhor maneira que conseguia.
Dentre todas as aventuras, poucas foram as que duraram tempo o suficiente para ficar para se tornar inesquecível. De algumas aventuras guardo os rostos, outras, apenas o que foi feito de bom, outras guardo o que deu errado, e algumas simplesmente não marcaram tanto ao ponto de minha memória dar importância.
Lembro-me de um grego que tinha o maior membro que eu já vi em minha vida, mas que infelizmente não soube como usar direito e gozou assim que consegui contar até três. Outro que me recordo foi um francês, o querido François. Juro que na primeira vez que vi o François não dei muita bola para ele. Eu estava em uma mesa de uma confeitaria comendo um Pastel de Belém e ele sentou-se ao meu lado.
- Desculpa, mas posso me sentar ao seu lado? – Ele perguntou enquanto já se sentava. Levantei meus olhos e o encarei, apenas assenti concordando. Seu sorriso era imenso e rivalizava em tamanho com sua iminente calvície. – Desculpe por isso, mas você me faria um favor?
Olhei para ele de má vontade.
- Depende. – Respondi desconfiada.
Fazia poucas horas que eu estava na França, mais especificamente em Nice na Riviera Francesa. Nessas poucas horas, eu recebi uma ligação do meu pai querendo saber onde eu estava e uma ligação da minha irmã dizendo que eu não deveria brigar e xingar meu pai por telefone. Ou seja, meu humor não estava muito bom.
- Você está vendo aquela mulher parada naquele carro? – François me indicou o carro com um olhar. – Não, não olhe agora. Espere.... Pronto, pode olhar.
Eu estava de costas para onde ele apontava discretamente. Muito discretamente virei e vi uma mulher encostada no carro, meio disfarçada. Olhei para ele novamente, agora curiosa com a situação.
- Sim, estou vendo a mulher. O que tem ela? Vai me dizer que ela está te ameaçando? – Zombei dele.
Vi quando ficou vermelho e sorriu tímido.
Me encantei. É muito difícil encontrar um homem tímido. Achei fofo. Apesar de não ser do tipo bonitão, de ter seu problema de calvície, ele era de alguma maneira, engraçadinho.
Me encantei. É muito difícil encontrar um homem tímido. Achei fofo. Apesar de não ser do tipo bonitão, de ter seu problema de calvície, ele era de alguma maneira, engraçadinho.
- Na verdade, ela é minha ex-mulher e não está aceitando bem a nossa separação. Para ela sair do meu pé, disse que estava saindo com outra pessoa...
Ele me olhou e parecia esperançoso.
- E o que? Você quer que eu te faça o que? Finja que estou saindo com você? - Sorri, verdadeiramente divertida.
- Sim. Na verdade eu queria te pedir... Um beijo... – Ele baixou os olhos e esperou minha resposta sem olhar para mim.
Eu gargalhei.
- Se isso foi algum tipo de cantada, vai ganhar o beijo só pela criatividade e pela interpretação.
Vi quando ele entendeu minhas palavras e me olhou feliz.
- Jura que você vai fazer isso por mim?
- Juro.
- Nossa, nem sei o que dizer.
- Me diga, você quer um beijo apaixonado ou um beijo do tipo cheio de desejo? Porque tem diferença...
- Eu quero um beijo. Qualquer tipo. – François parecia um pouco nervoso.
- Certo. Então vamos facilitar a pergunta. Você quer que sua ex fique conformada de ter te perdido ou com ódio por você estar com outra?
- Ela que pediu o divórcio. Disse que não me amava mais e queria um tempo. Eu implorei para que ela repensasse antes de me por pra fora de casa, porque se eu saísse, não voltaria mais. Ela não quis nem me ouvir. Acho que nesse caso ela merece ficar com raiva por ter me perdido.
- Você tem certeza? Ela pode ficar com raiva e arrumar outro também. – Perguntei querendo ter certeza de que ele não iria se arrepender.
- Tenho certeza. Quero ter alguma aventura na minha vida. Sou muito novo para ficar amarrado a uma mulher amargurada como ela.
- Então você não pretende voltar com ela, mesmo?
- Não. – Ele respondeu decidido.
- Então tudo bem. Vamos fazer isso direito. Primeiro, chame o garçom e pague nossa conta. – Instrui. Enquanto François pagava a nossa conta, expliquei alguns detalhes do que iriamos fazer. Minha mente pecaminosa e perigosa, funcionando a todo vapor. – Mulher odeia quando o cara age com a outra da mesma forma como agia com ela, então pense na forma como você beijava sua mulher quando você estava com muito tesão. No jeito que deixava ela louca.
- Certo, já sei o que você está falando.
- Ok! Eu vou falando besteiras no seu ouvido até que estejamos perto do carro onde ela está. Eu gostaria que você demonstrasse que está excitado. Se é que me entende... – Falei e ergui uma sobrancelha indicando suas calças.
- Isso não será nenhum problema. É para deixar visível ou posso dar uma disfarçada aqui embaixo?
- Deixa visível até chegarmos perto do carro, ai você tenta dar uma arrumada. Isso vai chamar a atenção dela. Outra coisa, não olhe para ela nem para o carro. De maneira nenhuma, nem que ela arranque com o carro e passe por cima de você.
- Mas ela me viu olhar para ela quando cheguei aqui...
- Isso vai ser melhor. Vai mostrar que você consegue ignora-la quando está comigo.
- Tudo bem. – François parecia realmente nervoso.
- Vamos começar agora?
- Vamos. – Ele concordou e levantou do seu lugar lentamente.
Ao pegar na minha mão, senti que tremia e estava um pouco fria. Eu tinha que acalma-lo.
- Eu vou te dar um beijo daqueles e nem sei seu nome. – Sussurrei em seu ouvido. Ele sorriu
- Sou François e você? – Ele sussurrou no meu ouvido.
- Beca. – Sorri para ele lhe dei um selinho. – Agora vamos ao plano.
Ainda sorrindo, colei meu corpo no seu e deslizei minha mão pelo seu peito, antes de me aproximar de seu ouvido novamente.
- Agora preciso que você pense na sua fantasia sexual que mais te dá tesão. Está pensando François? – Ele confirmou com um balançar de cabeça. – Posso saber qual é?
- Uma certa ruiva que está falando em meu ouvido.
Não consegui resistir e gargalhei.
- Vou fingir que acredito, mas não importa. Pense nessa ruiva e em tudo que gostaria de fazer com ela. Está pensando François?
Dessa vez ele não respondeu, ele agiu. Com uma pegada que me surpreendeu, François colocou as duas mãos na minha bunda e me puxou forte, colando ainda mais nossos corpos. Senti que ele estava realmente excitado.
- Estou pensando em fazer muita coisa com essa ruiva em questão, mas como ela está me ajudando, não vou expor tudo o que estou fazendo com ela nos meus pensamentos.
- Hummm... Isso está ficando interessante. – Comentei ao sentir François cheirando meu pescoço e dando pequenos beijos. – Acho que temos que seguir o plano, não?
- Temos sim. Desculpa. É que não estou pensando com muita clareza nesse momento.
Sorri com seu comentário e baixei meus olhos para ver o tamanho da sua “distração” e meu sorriso sumiu. Era um tamanho bem interessante.
Caminhamos pela calçada contrária à onde estava o carro e quando chegamos próximos o suficiente para que pudéssemos ser vistos com clareza, segurei François pela camisa e o encostei no poste. Quando colei minha boca na sua, senti que ele ficou sem saber como agir por cerca de quinze segundos, antes que sua mão fosse para meu cabelo e me segurasse com firmeza. Senti um arrepio percorrer meu corpo.
Seus lábios eram macios e sua língua era ávida. Uma de suas mãos estava sobre minha bunda e a outra segurava meu cabelo, próximo a raiz. Quem diria que aquele homem tímido e que fugia da ex-mulher, pudesse beijar tão bem. Sua mão começou a percorrer meu corpo e senti que cada parte que ele tocava, respondia ao seu toque. Ele estava me excitando.
Depois de algum tempo, eu precisei me afastar. Precisei respirar e lembrar que aquilo ali não era de verdade, era apenas uma atuação.
- Se você pegava sua esposa dessa forma e ela quis se separar de você mesmo assim, ela não deve gostar de homem. – Comentei.
Ele riu e pegando na minha mão, seguimos caminhando. Ao dobrarmos a rua, François me pegou desprevenida e com um movimento rápido, me empurrou contra a um muro.
- Aquele beijo foi encenação. Esse é de verdade
Sem dizer mais nada, me devorou com lábios, língua e dentes. Um beijo que me acendeu e atiçou ao extremo.
- Meu hotel fica a duas quadras daqui. – Eu disse entre um beijo e outro. Era um convite claro e François não perdeu a oportunidade.
Pegando em minha mão novamente, nós dois quase corremos até meu hotel. Ao chegar no meu quarto, foi uma briga para ver quem tirava a roupa primeiro.
- Agora você pode dizer o que estava pensando em fazer com aquela ruiva.
- Agora eu não quero falar. Eu quero fazer.
Duas horas depois, estávamos os dois exaustos em cima da cama. Cada um em seu travesseiro, quando François me surpreendeu.
- Ela não era minha ex-mulher.
- Como assim não era? – Perguntei ao me apoiar nos cotovelos e olhar para ele. – Era tudo fingimento seu?
Ele gargalhou e levantou as mãos em rendição.
- Só não me bate, tá.
- Desembucha. – Falei, mas senti meus lábios querendo sorrir.
- Olhe para mim e olhe para você. Eu precisava de uma boa desculpa para que pudesse ter uma chance. Você estava toda séria e linda. Eu sabia que uma cantada simples não ia colar com você. Então foi ai que vi a mulher no carro e vi que você estava quase de costas para ela. Foi só uma questão de sorte você não ter me chutado para fora da sua mesa.
- Então você me enganou e ainda tem a cara de pau de me dizer isso agora. Você é inacreditável.
- Inacreditável foi o que fizemos nessa cama. Acho que vou ter que repetir a dose antes de você me mandar embora daqui. – François falou ao se colocar entre as minhas pernas novamente. Nesse momento meus lábios sorriram ao concordar com François.
Passei dez dias em Nice. Noventa por cento do tempo eu estive com François, que também estava tirando umas férias na cidade. Nosso sexo era incrível e as coisas em comum eram muitas. Porém quando minha estadia chegou ao fim, eu fui para um lado e François para outro. Nunca mais ouvi falar sobre ele.
François foi apenas um dos vários casos que tive durante os anos do meu casamento de fachada. Aproveitei todos por algum tempo, mas nenhum fez mais do que se aproveitar do meu corpo. Mantendo meu coração longe dos meus romances passageiros, segui minha vida.
*~*~*
Amores, por hoje é só!
Espero que vocês estejam gostando e preparem-se para conhecer a espevitada da Beca e todas as suas facetas!
Beijos e até quarta!
Carol



0 comentários:
Postar um comentário