Apesar de o Carlos insistir em nos deixar
em casa, a Deb preferiu voltar sem ele e eu como boa amiga, não iria deixá-la
sozinha nessa. Um barco e três ônibus depois, chego em casa. Vou direto para a
cozinha em busca de algo para comer. Entro e encontro meu pai sentado à mesa
comendo e assistindo a televisão que temos na cozinha.
- Olá, senhor José. – Digo nossa saudação,
ao me sentar ao seu lado.
- Olá, senhorita Anelise. – Ele me
respondeu. – Como foi o final de semana?
- Agitado, tumultuado e complexo.
- Eu imagino. Como você está? – Ele
perguntou, mas eu sabia que o nome do Tiago estava por trás dessa pergunta.
- Confusa. Eu encontrei o Tiago e agora
estou muito mexida. Muita coisa aconteceu desde que ele foi embora e vou
precisar de um tempo para por meus sentimentos no lugar.
- Sim. – Ele disse simplesmente e voltou a
comer. De repente parou de comer e me olhou. – Ele te contou?
- Porque ele foi embora? – Perguntei e meu
pai balançou a cabeça afirmando. – Sim. Contou, mas não consigo acreditar.
Meu pai, no auge dos seus 57 anos, com
seus cabelos brancos e sua barriguinha saliente, me olhou e nos poucos segundos
que nossos olhos se encontraram, pude ver a dor que essa história causava a
ele.
- Então é verdade? – Perguntei, sem
resistir e ainda sem acreditar. – A mamãe teve um caso?
- Não. Ela não teve um caso. Eu tive um
caso, ela apenas tentou me devolver na mesma moeda e acabou perdendo a melhor
amiga. No final, foi tudo minha culpa.
Olhei para ele incrédula, não era
possível. Meu pai teve um caso. Oh me Deus! Era informação demais pra mim em um
mesmo dia, mas ele parecia resolvido a me contar toda a história.
– Quando você tinha uns doze anos eu
conheci uma mulher, nós nos tornamos apenas amigos no começo, mas eu acabei me
envolvendo com ela. Para mim era apenas um caso. Parece horrível, mas era
apenas sexo e amizade. Amor eu tinha pela sua mãe. Mesmo assim, o meu caso
durou três anos. Quando sua mãe descobriu, nós brigamos e para não perdê-la eu
me comprometi a não traí-la nunca mais. Anne, você tem que entender que em
momento nenhum, nem eu ou sua mãe, achamos que tudo isso iria acontecer.
- Eu acredito pai. – Falei baixinho, sem
conseguir encará-lo.
- Você tem o mesmo temperamento da sua
mãe. Vocês duas tem o sangue quente, gostam de fazer os outros pagarem na mesma
moeda e foi isso que ela fez. Eu já te contei que conheci sua mãe na escola,
né?
- Sim, contou.
- Eu a conheci na escola. Ela e a Neide eram
amigas de classe e eu era um ano mais velho que elas. Durante uma festinha de
escola, eu e sua mãe acabamos ficando e cinco anos mais tarde, nos casamos. Porém
o que eu não sabia é que quando nós ficamos, sua mãe era apaixonada pelo
namorado da melhor amiga, o Paulo, pai do Tiago. Depois desses anos todos,
percebi que nosso erro foi ter casado tão jovem. Nem eu ou sua mãe tivemos a
oportunidade de aproveitar a juventude... Nós nos apaixonamos e casamos assim
que tivemos a primeira oportunidade e hoje eu vejo que apesar desse casamento
ter nos dado você, eu e sua mãe deveríamos ter esperado mais para casar, quem
sabe até conhecido outras pessoas, pois a curiosidade de estar com outros é que
nos levou a fazer o que fizemos. Eu fui egoísta e me envolvi com outra mulher,
traindo minha esposa. Sua mãe errou ao tentar se vingar de mim, me traindo e
traindo sua melhor amiga. Nós dois fomos os únicos culpados por tudo que
aconteceu com você e com o Tiago.
Eu estava atordoada com a sinceridade de
meu pai ao reconhecer seus erros, mas ao mesmo tempo eu estava com raiva. O
egoísmo dos dois, me fez sofrer, resolvo levantar e ir para o meu quarto tomar
um banho e descansar, preciso ficar sozinha.
- Anne, não fica com raiva de mim. Sempre
quis o melhor para você e nunca imaginei que as minhas decisões pudessem afetar
a sua vida dessa forma. Tenha certeza filha que se passasse pela minha cabeça
ou pela da sua mãe que isso poderia de alguma forma ti prejudicar, teríamos
feito tudo diferente. – Meu pai falou de forma afetada.
- Eu sei, mas, isso não faz doer menos. –
Falei baixinho com a voz embargada das lagrimas não derramadas. – Olha pai, só
preciso ficar sozinha um pouco, de ontem para hoje muita coisa aconteceu, e é muita
informação para digerir. – Dou um beijo na cabeça dele e subo para o meu
quarto. Coloco a banheira para encher e vou tirando a roupa, volto no quarto e
pego o Ipod.
Quando volto para o banheiro, tomo um
banho de chuveiro só para lavar o cabelo, termino e a banheira já está cheia,
prendo o cabelo molhado em um coque alto, coloco sais de banho, entro apoiando
o Ipod na borda e colocando os fones no ouvido. Fico ali imersa na água quente,
e tento não pensar muito, apenas me concentro na música Te vivo de Luan Santana
que toca.
Quando me sinto só
Te faço mais presente
Eu fecho os meus olhos
E enxergo a gente
Em questão de segundos
Voo pra outro mundo
Outra constelação
Não dá para explicar
Ao ver você chegando
Qual a sensação
A gente não precisa tá colado pra tá junto
Nossos corpos se conversam por horas e horas
Sem palavras tão dizendo a todo instante um pro outro
O quanto se adoram
Eu não preciso te olhar
Pra te ter em meu mundo
Porque aonde quer que eu vá
Você está em tudo
Tudo, tudo que eu preciso
Te vivo
Não adianta muita coisa pois essa música
me faz pensar no Tiago, o quanto eu queria ele ao meu lado agora, só para
sentir os braços dele me abraçar, aquele corpo quente me aquecer e aquela voz
linda me dizendo que tudo vai ficar bem. Fecho os olhos e as lagrimas que a
muito tenho tentado impedir caem, choro tudo que a muito tempo quis chorar, no
santuário da minha banheira choro sem vergonha e sem medo.
Não sei quanto tempo ou quantas músicas
passou, mas, a água já está fria e meu corpo enrugado quando levanto. Vou ao
meu quarto e coloco uma camisola e uma calcinha.
Quando estou deitando na cama ouço a voz
do meu pai me chamando, mas não entendo o que ele está falando, vou até a porta
e abro uma brecha. – Anne, o Diego está aqui querendo falar com você. – Respiro
fundo pensando que hoje realmente não é o meu dia. Mas pelo menos vou ter
algumas respostas. – Diz a ele que já estou indo, pai.
*****
Visto-me e assim que desço meu pai avisa
que está indo na casa do vizinho para jogar baralho, dá um beijo na minha testa
e fala baixinho. – Anne, estou aqui ao lado, é só me ligar. Aperto a mão dele
em sinal que entendi e ele sai da sala.
- Boa noite, Anne. – Diego diz assim que
ficamos sozinhos.
– Boa noite, Diego. – Falo tentando
disfarçar minha chateação e o meu cansaço.
- Desculpa vir, assim sem avisar, mas,
precisava devolver esse celular. Esperei que me ligasse, como não fez, tentei
te ligar e seu celular estava desligado, o Tiago me disse que você já estava em
casa assim resolvi vir aqui. – Quando ouço ele tocar, mais uma vez no nome do
Tiago o meu sangue ferve e pergunto ríspida:
- O que o Tiago tem a ver com isso? Já é a
segunda vez que você toca no nome dele como se fossem velhos amigos.
- Você é que deveria me explicar o que
quer com o Tiago. Ontem estava na minha cama e hoje já estava fazendo
programinha de casal com ele. - Ele fala e vejo que está tenso com nossa
conversa.
Nunca vi o Diego agir assim, e como não
quero dar muitas informações, acho melhor mudar de conversa.
- Eu não estava em um programinha de casal
com ele. – Respondo, tentando deixar minha irritação de lado ou vou acabar
descontando nele tudo pelo que estou passando, e isso não é justo. – Nós já
conversamos sobre isso milhões de vezes Diego. O que eu faço da minha vida não
é da conta de ninguém. Incluindo você.
- Anne, nós estamos nesse rolo a muito
tempo para não ser da minha conta. – Ele parece frustrado com o que eu disse,
mas tenta se acalmar. – Eu estou envolvido demais, para não me importar.
- Diego, não faz isso. Você sempre saiu
com quem quis e eu nunca falei nada, quantas vezes, depois das apresentações,
eu vim para casa e você saiu com alguém? Eu nunca falei nada e nem mudei com
você, até porque a nossa relação sempre foi muito clara, é só amizade. – Digo
enquanto caminho para me sentar no sofá. – Você sempre soube que o que temos é
só sexo, não misture as coisas.
- Mas isso é diferente Anne. O Tiago não é
um cara qualquer que você vai transar e pronto. Ele é um ex e foi o seu
primeiro. Eu vi como você ficou no dia da apresentação que fizemos para a
empresa dele. – Ele respondeu baixinho.
- Sinto muito, mas não vou ficar com você
e nem com ninguém. Não quero e não vou me envolver com ninguém.
Quando ele começou a caminhar pela sala,
senti que estava a ponto de explodir. Sua expressão era de quem estava
escolhendo as palavras certas para falar e dava pra ver a tensão tem todo o seu
corpo. Meu querido amigo e ex-amante, estava irritado, muito irritado.
- Anne, eu vim aqui para te devolver a
porcaria daquele celular. Não vim pra brigar. Não quero mudar nada entre a
gente. Vivemos tão bem até hoje.
Foi nesse instante que tive certeza do que
eu já vinha desconfiando a algum tempo, ele estava apegado a uma ilusão. Era o
ideal de todo homem, ter sexo quente sempre que tivesse vontade, sem cobranças
e com direito a total liberdade. Estava na hora de eu ser dura com ele e lhe
mostrar que estava na hora dele encontrar uma mulher de verdade, alguém que vai
amá-lo, casar e ter filhos com ele. Preciso fazer ele aceitar que essa mulher
não serei eu.
- Diego, você está com trinta e um anos,
até quando vai querer agir como um moleque? – Perguntei lentamente. Vi quando
seus olhos me avaliavam, tentando entender o que eu disse. - Nós estamos nos
enganando há três anos, Diego. No começo era pura curtição, mas agora virou
rotineiro. Nós ensaiamos e transamos. Nós nos apresentamos e no final da noite
eu acabo transando com você de novo.
Desculpa, mas não é isso que eu quero e não é isso que você merece.
- Você não acha que sou eu quem tem que
escolher o que quer? – Diego respondeu estranhamente calmo. – Ou você está me
dispensando porque o Tiago tem ciúmes de mim?
- Deixe o Tiago fora disso. Isso tem haver
apenas com você e eu.
- Deixar o Tiago fora? Ele é o culpado por
você ser assim. - Ele diz, exaltando-se. – Você não se envolve com ninguém por
culpa dele e você acha que vou facilitar para ele?
- O que você quer dizer com você é assim?
Como eu sou Diego? – Perguntei, levantando do sofá para ficar de frente para
ele. – Vou te dizer como eu sou. Eu sou uma mulher que está tentando dar um
chega nesse caso de maneira adulta e sem mágoas, mas pelo visto você vai ficar
ai me criticando pelas minhas escolhas ao invés de se dar conta que você e eu
não vamos mais ficar juntos. Isso é tudo Diego. Tudo que você precisa saber
sobre mim.
- Eu sei muito mais sobre você hoje, do
que eu soube durante todos esses anos. Achei que fossemos amigos, mas amigos
confiam uns nos outros e você não confiou em mim, já que obviamente não me
contou que seu ex a beijou hoje.
- Como.... Como você soube disso? –
Perguntei nervosa.
Diego não respondeu, apenas balançou o
celular que ganhei do Tiago na minha frente.
– Filho da puta, eu vou matar o Tiago.
Como ele pode fazer isso. – Voltei a me sentar, irada, magoada e com uma
vontade enorme de chorar.
- Não quer ficar comigo, mas não vai ficar
com ele também. – Ouvi Diego dizer baixinho.
- Então o seu problema é esse? Seu ego? Porque
eu não quero ficar com você, acha que não devo ficar com ninguém? – Não dou
tempo para ele responder, continuo: - Vai embora Diego. Chega dessa conversa e
chega de nós. Se você quiser desfazer a parceria também, eu vou entender e
aceitar.
- Não Anne, eu não quero desfazer nada.
Quero que tudo continue como antes. Você e eu, parceiros em tudo.
- Porra Diego. É tão difícil de entender
que eu não quero mais? Será que vou ter que dizer alguma coisa pra te magoar
para que você entenda que não quero mais transar com você? Que droga! – Eu
estou chorando e isso me deixa irada.
- Não chora, Anne. - Ele disse, soltando o
celular na mesinha de centro da sala. – Só pense no que nós temos. Somos
parceiros de dança, somos amigos e parceiros de cama. Sempre nos demos tão bem,
não vamos perder tudo isso.
- Nós já perdemos, você não está me
escutando. Quero continuar sua amiga e parceira de dança, mas se pra ser isso
eu tiver que manter esse relacionamento, então vou abrir mão de tudo. - Falei
baixo. Ele me olhou com uma expressão que parecia desespero, magoa e irritação.
– Encontre uma boa mulher, se apaixone, case e vá ser feliz Diego, porque
comigo você não terá nada disso.
- Você fala como se fosse fácil encontrar uma
mulher bacana. – Ele respondeu também baixo.
Ele pelo menos havia cogitado a
possibilidade de encontrar uma mulher, o que é um avanço. Sei que não seria
fácil para ele mudar a rotina, mas por ele saber que não seria fácil, quer
dizer que ele pensou sobre isso.
– Di, acho que você poderia ser bem mais feliz
se estivesse ao lado de uma mulher como a Deb. - Nesse momento me deu um
estalo, quem sabe eu não poderia bancar o cupido - Ela é linda, inteligente,
meiga, amorosa e acima de tudo, precisa de alguém que vá amá-la e defendê-la.
Era um tiro no escuro, mas quem sabe eu
poderia fazer meus dois melhores amigos felizes. Diego é um cara com senso de
proteção tão aguçado que a Deb com seu coração mole iria ser muito feliz. Eles
e meu pai são as pessoas que eu mais torço para que encontre alguém bacana que
os ame.
- Anne, a Deb é quase uma criança e nós
não estamos falando dela, estamos falando de nós.
- A Deb tem 25 anos, Diego. Ela deixou de
ser criança faz muito tempo e se você reparar, vai ver que com aquele corpo ela
nunca poderia ser confundida com uma criança. – Respondi, dando ênfase a beleza
da Deb, mesmo sabendo que ela era muito mais que isso. – E vamos parar com essa
conversa por aqui. Eu já disse que não haverá nada mais entre nós. Agora a
escolha é sua. Você quer permanecer meu amigo e parceiro de dança e mais nada,
ou você quer apenas o nada?
- Eu não sei se vou conseguir estar ao seu
lado e não te desejar. - Ele disse baixo e lentamente. – Mas não quero que você
saia da minha vida.
- Digu, vamos dar um tempo em tudo. Vamos
colocar nossa cabeça no lugar primeiro e depois vemos como vamos fazer com
nossa dupla.
- Não Anne. Não podemos. Temos contratos
assinados e não podemos rompê-los.
- Ok. Vamos fazer o que já está combinado,
mas não quero que você marque nada novo. Precisamos nos dar um tempo.
- Por favor Anne. – Ele disse olhando nos
meus olhos e vi que ele estava segurando as lágrimas que eu já estava
derramando.
- Eu te amo, Digu, amo como amigo. Você é
meu melhor amigo e nunca vou mentir pra você. – Eu não consegui manter meus
olhos fixos nos dele enquanto eu falava. – Eu quero manter nossa amizade, mas
nunca vou poder te amar diferente disso e você precisa de alguém que te
ame.
- Prefiro te ter como amiga, a não te ter
na minha vida.
Aquelas palavras fizeram-me arrepiar. Era
a segunda vez que eu ouvia essa frase, mas com palavras e pessoas diferentes. O
primeiro que me disse isso, me abandonou momentos depois. Eu não queria perder
o Diego também. Eu não o amava como homem, mas isso não quer dizer que eu não o
amasse como um amigo.
- Você não vai me perder, só vamos mudar
nossa relação de agora em diante.
- Não tem volta? – Ele perguntou com certa
resignação.
- Não, Digu. Não vou voltar a trás nisso.
Você precisa arrumar uma...
- Ok. Já entendi. Se um dia você mudar de
ideia, quero que me avise imediatamente, ouviu? – Ele disse, interrompendo-me e
dando um fraco sorriso. Então eu soube que no fim, tudo iria ficar bem entre eu
e ele.
- Vai ser mais fácil as vacas começarem a
cantar Mamonas Assassinas do que eu voltar a trás nisso. – Respondi dando um
sorriso tão fraco quanto o dele.
Sem dizer mais nada, ele veio até mim, se
abaixou para ficar na mesma altura que eu estava.
- Quando eu ouvir os primeiros acordes de Uma
Arlinda Mulher sendo mugido, eu estarei na sua porta no minuto seguinte. – Ele
disse, me deu um beijo na testa e virou-se para sair, mas antes ele
complementou. - Te espero quinta feira às 7h, pra ensaiar e não se atrasa.
Quando ouvi a porta batendo atrás dele,
suspirei aliviada. A conversa foi tensa, me fez ver o quanto eu gosto dele, mas
nada me fará mudar de ideia. Está na hora do Diego ser feliz e acho que agora
ele entendeu que eu não sou essa pessoa e que o que nosso caso acabou.



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