sexta-feira, 11 de abril de 2014

Capítulo 06



Apesar de o Carlos insistir em nos deixar em casa, a Deb preferiu voltar sem ele e eu como boa amiga, não iria deixá-la sozinha nessa. Um barco e três ônibus depois, chego em casa. Vou direto para a cozinha em busca de algo para comer. Entro e encontro meu pai sentado à mesa comendo e assistindo a televisão que temos na cozinha.
- Olá, senhor José. – Digo nossa saudação, ao me sentar ao seu lado.
- Olá, senhorita Anelise. – Ele me respondeu. – Como foi o final de semana?
- Agitado, tumultuado e complexo.
- Eu imagino. Como você está? – Ele perguntou, mas eu sabia que o nome do Tiago estava por trás dessa pergunta.
- Confusa. Eu encontrei o Tiago e agora estou muito mexida. Muita coisa aconteceu desde que ele foi embora e vou precisar de um tempo para por meus sentimentos no lugar.
- Sim. – Ele disse simplesmente e voltou a comer. De repente parou de comer e me olhou. – Ele te contou?
- Porque ele foi embora? – Perguntei e meu pai balançou a cabeça afirmando. – Sim. Contou, mas não consigo acreditar.
Meu pai, no auge dos seus 57 anos, com seus cabelos brancos e sua barriguinha saliente, me olhou e nos poucos segundos que nossos olhos se encontraram, pude ver a dor que essa história causava a ele.
- Então é verdade? – Perguntei, sem resistir e ainda sem acreditar. – A mamãe teve um caso?
- Não. Ela não teve um caso. Eu tive um caso, ela apenas tentou me devolver na mesma moeda e acabou perdendo a melhor amiga. No final, foi tudo minha culpa.
Olhei para ele incrédula, não era possível. Meu pai teve um caso. Oh me Deus! Era informação demais pra mim em um mesmo dia, mas ele parecia resolvido a me contar toda a história.
– Quando você tinha uns doze anos eu conheci uma mulher, nós nos tornamos apenas amigos no começo, mas eu acabei me envolvendo com ela. Para mim era apenas um caso. Parece horrível, mas era apenas sexo e amizade. Amor eu tinha pela sua mãe. Mesmo assim, o meu caso durou três anos. Quando sua mãe descobriu, nós brigamos e para não perdê-la eu me comprometi a não traí-la nunca mais. Anne, você tem que entender que em momento nenhum, nem eu ou sua mãe, achamos que tudo isso iria acontecer.
- Eu acredito pai. – Falei baixinho, sem conseguir encará-lo.
- Você tem o mesmo temperamento da sua mãe. Vocês duas tem o sangue quente, gostam de fazer os outros pagarem na mesma moeda e foi isso que ela fez. Eu já te contei que conheci sua mãe na escola, né?
- Sim, contou.
- Eu a conheci na escola. Ela e a Neide eram amigas de classe e eu era um ano mais velho que elas. Durante uma festinha de escola, eu e sua mãe acabamos ficando e cinco anos mais tarde, nos casamos. Porém o que eu não sabia é que quando nós ficamos, sua mãe era apaixonada pelo namorado da melhor amiga, o Paulo, pai do Tiago. Depois desses anos todos, percebi que nosso erro foi ter casado tão jovem. Nem eu ou sua mãe tivemos a oportunidade de aproveitar a juventude... Nós nos apaixonamos e casamos assim que tivemos a primeira oportunidade e hoje eu vejo que apesar desse casamento ter nos dado você, eu e sua mãe deveríamos ter esperado mais para casar, quem sabe até conhecido outras pessoas, pois a curiosidade de estar com outros é que nos levou a fazer o que fizemos. Eu fui egoísta e me envolvi com outra mulher, traindo minha esposa. Sua mãe errou ao tentar se vingar de mim, me traindo e traindo sua melhor amiga. Nós dois fomos os únicos culpados por tudo que aconteceu com você e com o Tiago.
Eu estava atordoada com a sinceridade de meu pai ao reconhecer seus erros, mas ao mesmo tempo eu estava com raiva. O egoísmo dos dois, me fez sofrer, resolvo levantar e ir para o meu quarto tomar um banho e descansar, preciso ficar sozinha.
- Anne, não fica com raiva de mim. Sempre quis o melhor para você e nunca imaginei que as minhas decisões pudessem afetar a sua vida dessa forma. Tenha certeza filha que se passasse pela minha cabeça ou pela da sua mãe que isso poderia de alguma forma ti prejudicar, teríamos feito tudo diferente. – Meu pai falou de forma afetada.
- Eu sei, mas, isso não faz doer menos. – Falei baixinho com a voz embargada das lagrimas não derramadas. – Olha pai, só preciso ficar sozinha um pouco, de ontem para hoje muita coisa aconteceu, e é muita informação para digerir. – Dou um beijo na cabeça dele e subo para o meu quarto. Coloco a banheira para encher e vou tirando a roupa, volto no quarto e pego o Ipod.
Quando volto para o banheiro, tomo um banho de chuveiro só para lavar o cabelo, termino e a banheira já está cheia, prendo o cabelo molhado em um coque alto, coloco sais de banho, entro apoiando o Ipod na borda e colocando os fones no ouvido. Fico ali imersa na água quente, e tento não pensar muito, apenas me concentro na música Te vivo de Luan Santana que toca.

Quando me sinto só
Te faço mais presente
Eu fecho os meus olhos
E enxergo a gente

Em questão de segundos
Voo pra outro mundo
Outra constelação
Não dá para explicar
Ao ver você chegando
Qual a sensação

A gente não precisa tá colado pra tá junto
Nossos corpos se conversam por horas e horas
Sem palavras tão dizendo a todo instante um pro outro
O quanto se adoram
Eu não preciso te olhar
Pra te ter em meu mundo
Porque aonde quer que eu vá
Você está em tudo

Tudo, tudo que eu preciso
Te vivo
Não adianta muita coisa pois essa música me faz pensar no Tiago, o quanto eu queria ele ao meu lado agora, só para sentir os braços dele me abraçar, aquele corpo quente me aquecer e aquela voz linda me dizendo que tudo vai ficar bem. Fecho os olhos e as lagrimas que a muito tenho tentado impedir caem, choro tudo que a muito tempo quis chorar, no santuário da minha banheira choro sem vergonha e sem medo.
Não sei quanto tempo ou quantas músicas passou, mas, a água já está fria e meu corpo enrugado quando levanto. Vou ao meu quarto e coloco uma camisola e uma calcinha.
Quando estou deitando na cama ouço a voz do meu pai me chamando, mas não entendo o que ele está falando, vou até a porta e abro uma brecha. – Anne, o Diego está aqui querendo falar com você. – Respiro fundo pensando que hoje realmente não é o meu dia. Mas pelo menos vou ter algumas respostas. – Diz a ele que já estou indo, pai.
           
*****

Visto-me e assim que desço meu pai avisa que está indo na casa do vizinho para jogar baralho, dá um beijo na minha testa e fala baixinho. – Anne, estou aqui ao lado, é só me ligar. Aperto a mão dele em sinal que entendi e ele sai da sala.
- Boa noite, Anne. – Diego diz assim que ficamos sozinhos.
– Boa noite, Diego. – Falo tentando disfarçar minha chateação e o meu cansaço.
- Desculpa vir, assim sem avisar, mas, precisava devolver esse celular. Esperei que me ligasse, como não fez, tentei te ligar e seu celular estava desligado, o Tiago me disse que você já estava em casa assim resolvi vir aqui. – Quando ouço ele tocar, mais uma vez no nome do Tiago o meu sangue ferve e pergunto ríspida:
- O que o Tiago tem a ver com isso? Já é a segunda vez que você toca no nome dele como se fossem velhos amigos.
- Você é que deveria me explicar o que quer com o Tiago. Ontem estava na minha cama e hoje já estava fazendo programinha de casal com ele. - Ele fala e vejo que está tenso com nossa conversa.
Nunca vi o Diego agir assim, e como não quero dar muitas informações, acho melhor mudar de conversa.
- Eu não estava em um programinha de casal com ele. – Respondo, tentando deixar minha irritação de lado ou vou acabar descontando nele tudo pelo que estou passando, e isso não é justo. – Nós já conversamos sobre isso milhões de vezes Diego. O que eu faço da minha vida não é da conta de ninguém. Incluindo você.
- Anne, nós estamos nesse rolo a muito tempo para não ser da minha conta. – Ele parece frustrado com o que eu disse, mas tenta se acalmar. – Eu estou envolvido demais, para não me importar.
- Diego, não faz isso. Você sempre saiu com quem quis e eu nunca falei nada, quantas vezes, depois das apresentações, eu vim para casa e você saiu com alguém? Eu nunca falei nada e nem mudei com você, até porque a nossa relação sempre foi muito clara, é só amizade. – Digo enquanto caminho para me sentar no sofá. – Você sempre soube que o que temos é só sexo, não misture as coisas.
- Mas isso é diferente Anne. O Tiago não é um cara qualquer que você vai transar e pronto. Ele é um ex e foi o seu primeiro. Eu vi como você ficou no dia da apresentação que fizemos para a empresa dele. – Ele respondeu baixinho.
- Sinto muito, mas não vou ficar com você e nem com ninguém. Não quero e não vou me envolver com ninguém.
Quando ele começou a caminhar pela sala, senti que estava a ponto de explodir. Sua expressão era de quem estava escolhendo as palavras certas para falar e dava pra ver a tensão tem todo o seu corpo. Meu querido amigo e ex-amante, estava irritado, muito irritado.
- Anne, eu vim aqui para te devolver a porcaria daquele celular. Não vim pra brigar. Não quero mudar nada entre a gente. Vivemos tão bem até hoje.
Foi nesse instante que tive certeza do que eu já vinha desconfiando a algum tempo, ele estava apegado a uma ilusão. Era o ideal de todo homem, ter sexo quente sempre que tivesse vontade, sem cobranças e com direito a total liberdade. Estava na hora de eu ser dura com ele e lhe mostrar que estava na hora dele encontrar uma mulher de verdade, alguém que vai amá-lo, casar e ter filhos com ele. Preciso fazer ele aceitar que essa mulher não serei eu.
- Diego, você está com trinta e um anos, até quando vai querer agir como um moleque? – Perguntei lentamente. Vi quando seus olhos me avaliavam, tentando entender o que eu disse. - Nós estamos nos enganando há três anos, Diego. No começo era pura curtição, mas agora virou rotineiro. Nós ensaiamos e transamos. Nós nos apresentamos e no final da noite eu acabo transando com você de novo.  Desculpa, mas não é isso que eu quero e não é isso que você merece.
- Você não acha que sou eu quem tem que escolher o que quer? – Diego respondeu estranhamente calmo. – Ou você está me dispensando porque o Tiago tem ciúmes de mim?
- Deixe o Tiago fora disso. Isso tem haver apenas com você e eu.
- Deixar o Tiago fora? Ele é o culpado por você ser assim. - Ele diz, exaltando-se. – Você não se envolve com ninguém por culpa dele e você acha que vou facilitar para ele?
- O que você quer dizer com você é assim? Como eu sou Diego? – Perguntei, levantando do sofá para ficar de frente para ele. – Vou te dizer como eu sou. Eu sou uma mulher que está tentando dar um chega nesse caso de maneira adulta e sem mágoas, mas pelo visto você vai ficar ai me criticando pelas minhas escolhas ao invés de se dar conta que você e eu não vamos mais ficar juntos. Isso é tudo Diego. Tudo que você precisa saber sobre mim.
- Eu sei muito mais sobre você hoje, do que eu soube durante todos esses anos. Achei que fossemos amigos, mas amigos confiam uns nos outros e você não confiou em mim, já que obviamente não me contou que seu ex a beijou hoje.
- Como.... Como você soube disso? – Perguntei nervosa.
Diego não respondeu, apenas balançou o celular que ganhei do Tiago na minha frente.
– Filho da puta, eu vou matar o Tiago. Como ele pode fazer isso. – Voltei a me sentar, irada, magoada e com uma vontade enorme de chorar.
- Não quer ficar comigo, mas não vai ficar com ele também. – Ouvi Diego dizer baixinho.
- Então o seu problema é esse? Seu ego? Porque eu não quero ficar com você, acha que não devo ficar com ninguém? – Não dou tempo para ele responder, continuo: - Vai embora Diego. Chega dessa conversa e chega de nós. Se você quiser desfazer a parceria também, eu vou entender e aceitar.
- Não Anne, eu não quero desfazer nada. Quero que tudo continue como antes. Você e eu, parceiros em tudo.
- Porra Diego. É tão difícil de entender que eu não quero mais? Será que vou ter que dizer alguma coisa pra te magoar para que você entenda que não quero mais transar com você? Que droga! – Eu estou chorando e isso me deixa irada.
- Não chora, Anne. - Ele disse, soltando o celular na mesinha de centro da sala. – Só pense no que nós temos. Somos parceiros de dança, somos amigos e parceiros de cama. Sempre nos demos tão bem, não vamos perder tudo isso.
- Nós já perdemos, você não está me escutando. Quero continuar sua amiga e parceira de dança, mas se pra ser isso eu tiver que manter esse relacionamento, então vou abrir mão de tudo. - Falei baixo. Ele me olhou com uma expressão que parecia desespero, magoa e irritação. – Encontre uma boa mulher, se apaixone, case e vá ser feliz Diego, porque comigo você não terá nada disso.
- Você fala como se fosse fácil encontrar uma mulher bacana. – Ele respondeu também baixo.
Ele pelo menos havia cogitado a possibilidade de encontrar uma mulher, o que é um avanço. Sei que não seria fácil para ele mudar a rotina, mas por ele saber que não seria fácil, quer dizer que ele pensou sobre isso.
– Di, acho que você poderia ser bem mais feliz se estivesse ao lado de uma mulher como a Deb. - Nesse momento me deu um estalo, quem sabe eu não poderia bancar o cupido - Ela é linda, inteligente, meiga, amorosa e acima de tudo, precisa de alguém que vá amá-la e defendê-la.
Era um tiro no escuro, mas quem sabe eu poderia fazer meus dois melhores amigos felizes. Diego é um cara com senso de proteção tão aguçado que a Deb com seu coração mole iria ser muito feliz. Eles e meu pai são as pessoas que eu mais torço para que encontre alguém bacana que os ame.
- Anne, a Deb é quase uma criança e nós não estamos falando dela, estamos falando de nós.
- A Deb tem 25 anos, Diego. Ela deixou de ser criança faz muito tempo e se você reparar, vai ver que com aquele corpo ela nunca poderia ser confundida com uma criança. – Respondi, dando ênfase a beleza da Deb, mesmo sabendo que ela era muito mais que isso. – E vamos parar com essa conversa por aqui. Eu já disse que não haverá nada mais entre nós. Agora a escolha é sua. Você quer permanecer meu amigo e parceiro de dança e mais nada, ou você quer apenas o nada?
- Eu não sei se vou conseguir estar ao seu lado e não te desejar. - Ele disse baixo e lentamente. – Mas não quero que você saia da minha vida.
- Digu, vamos dar um tempo em tudo. Vamos colocar nossa cabeça no lugar primeiro e depois vemos como vamos fazer com nossa dupla.
- Não Anne. Não podemos. Temos contratos assinados e não podemos rompê-los.
- Ok. Vamos fazer o que já está combinado, mas não quero que você marque nada novo. Precisamos nos dar um tempo.
- Por favor Anne. – Ele disse olhando nos meus olhos e vi que ele estava segurando as lágrimas que eu já estava derramando.
- Eu te amo, Digu, amo como amigo. Você é meu melhor amigo e nunca vou mentir pra você. – Eu não consegui manter meus olhos fixos nos dele enquanto eu falava. – Eu quero manter nossa amizade, mas nunca vou poder te amar diferente disso e você precisa de alguém que te ame. 
- Prefiro te ter como amiga, a não te ter na minha vida.
Aquelas palavras fizeram-me arrepiar. Era a segunda vez que eu ouvia essa frase, mas com palavras e pessoas diferentes. O primeiro que me disse isso, me abandonou momentos depois. Eu não queria perder o Diego também. Eu não o amava como homem, mas isso não quer dizer que eu não o amasse como um amigo.
- Você não vai me perder, só vamos mudar nossa relação de agora em diante.
- Não tem volta? – Ele perguntou com certa resignação.
- Não, Digu. Não vou voltar a trás nisso. Você precisa arrumar uma...
- Ok. Já entendi. Se um dia você mudar de ideia, quero que me avise imediatamente, ouviu? – Ele disse, interrompendo-me e dando um fraco sorriso. Então eu soube que no fim, tudo iria ficar bem entre eu e ele.
- Vai ser mais fácil as vacas começarem a cantar Mamonas Assassinas do que eu voltar a trás nisso. – Respondi dando um sorriso tão fraco quanto o dele.
Sem dizer mais nada, ele veio até mim, se abaixou para ficar na mesma altura que eu estava.
- Quando eu ouvir os primeiros acordes de Uma Arlinda Mulher sendo mugido, eu estarei na sua porta no minuto seguinte. – Ele disse, me deu um beijo na testa e virou-se para sair, mas antes ele complementou. - Te espero quinta feira às 7h, pra ensaiar e não se atrasa.
Quando ouvi a porta batendo atrás dele, suspirei aliviada. A conversa foi tensa, me fez ver o quanto eu gosto dele, mas nada me fará mudar de ideia. Está na hora do Diego ser feliz e acho que agora ele entendeu que eu não sou essa pessoa e que o que nosso caso acabou.


 Continua na Segunda Feira...






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