segunda-feira, 7 de abril de 2014

Capítulo 04

Quando cheguei em casa, estava tudo muito quieto. Era sinal que meu pai ainda estava dormindo. Olhei no relógio e vi que não eram nem nove horas da manhã ainda. Daqui a pouco ele irá acordar e provavelmente irá me encher de perguntas do porque eu não dormi em casa. Mesmo já sendo bem crescidinha, eu ainda era a garotinha do papai. Era melhor sair sem que ele me visse.
Subi correndo para o meu quarto, tomei um banho rápido e coloquei meu biquíni verde com detalhes dourados, uma bermuda jeans e uma camiseta branca. Juntei minha canga, um livro, meu Ipod, óculos, protetor solar, um creme leave in com proteção solar, um pente para pentear meus cabelos e joguei tudo para dentro de uma bolsa de praia, junto com minha carteira e o meu celular... Droga, merda... Esqueci o maldito celular do Tiago com o Diego. Assim é melhor, sem tentação durante um dia inteiro.
Quando termino de arrumar tudo, calço meus chinelos e vou para a cozinha atrás de um café da manhã. Chegando a cozinha, encho um copo com suco de laranja de caixinha e vou em busca de algo para comer, mas ouço uma buzina em frente a minha casa. Deve ser a Deb. Pego um cacho de uva que já deixei lavado na geladeira, termino meu suco e escrevo um bilhete rápido para meu pai, avisando-o que estive em casa, estou bem e que no fim do dia eu volto.
Quando abro o portão, vejo Deb com a bunda encostada na porta o carro me esperando. Um baita carro, diga-se de passagem.
- Você está atrasada. – Ela me diz, sorrindo e me dando um abraço.
- Em minha defesa, posso dizer que a culpa não foi minha. É muito difícil tirar um homem do tamanho do Diego de cima da gente, sabia? Demorei mais do que eu imaginei, até convencê-lo a me trazer pra casa. – Digo, enquanto retribuo o abraço e me abaixo para dar um oi para o Carlos, que está atrás do volante.
Vejo que o tal amigo de Carlos está no banco de trás, parece dormir com a cabeça virada para o lado contrário ao que estou entrando. Sinto um leve arrepio percorrer meu corpo quando sento ao seu lado. “Deve ser o ar condicionado do carro.” Pensei, até que meu companheiro de banco traseiro, acordou e veio me cumprimentar.
Quando seus olhos se fixaram nos meus, meio sonolento e confuso, a única coisa que eu pensei foi em fugir.
Deb vendo que nós nos encarávamos resolveu nos apresentar.
- Anne, esse é o...
- Tiago... – Eu sussurro, completando a frase dela. - O que você está fazendo aqui?
Vi o olhar dele passar de confuso, para surpreso e agora me encaravam com indisfarçada diversão, enquanto eu estava congelada por dentro e por fora.
- Anne, quanto tempo não nos vemos... – Ele disse e sorriu de uma forma que fez o frio na minha espinha aumentar e em contra partida, surgiu um calor no meu peito. Pena que não dava mais tempo de resolver não ir para a praia.
- Sim. Doze anos. – Respondi, tentando sentar mais afastada possível dele. - Doze anos e três meses... – Murmurei para mim mesma.
            - Doze anos, três meses e cinco dias... – Ele murmurou de volta, olhando pra mim.
            Pelo visto a audição dele ainda era ótima.
            - Vocês já se conhecem? - Perguntou Carlos, nos olhando pelo espelho retrovisor, enquanto dirigia.
            - Já... – Falamos os dois ao mesmo tempo.
          - Nós éramos vizinhos antes dele ir morar fora do país. - Eu respondi e me virei para o lado contrário ao que Tiago estava. Não quero olhar pra ele, não quero sentir seu perfume amadeirado e muito menos quero sentir a proximidade do seu corpo.
            Precisei de um minuto para restabelecer minha concentração e para fazer com que o escudo que coloquei em volta de meu coração se tornasse forte o suficiente para estar próxima a ele. Quando me ajeitei melhor no banco do carro, já estava recomposta e disposta a ignorá-lo pelo tempo que fosse necessário. Em último caso, eu poderia fingir uma dor de cabeça terrível e voltaria para casa de ônibus.
            “Porque fui deixar meu carro lá em Jurerê? Ah sim, deixei lá porque estava fugindo do Tiago.” Pensei amargamente.
            - Que coincidência vocês se conhecerem. – Disse Carlos, animado com a possibilidade de me empurrar nos braços do Tiago. Tadinho do inocente Carlos. – Tiago e eu trabalhamos juntos quando eu estava em Portugal. Agora que ele pediu transferência para Floripa, vamos voltar a trabalhar juntos.
            - O Carlos e o Tiago são diretores da empresa que fez o evento que te contratou para dançar, Anne. - Deb me esclareceu.
            - Sim. Legal. Agora que já estamos todos apresentados, posso saber para qual praia vamos? – Eu sei que fui rude, mas eu precisava mudar de assunto. Não queria saber mais informações sobre ele. Já basta saber que ele pediu transferência para a mesma cidade em que eu moro.
            - Estamos indo para a Costa da Lagoa. – Respondeu Carlos. – Tenho uma casa lá e podemos aproveitar tanto o mar quando a piscina. Fica a apenas vinte minutos de barco da Lagoa da Conceição.
            - Adoro a Costa da Lagoa. Meu único problema é a parte que pegamos o barco, sempre fico um pouco enjoada. – Deb respondeu, toda melosa com a mão apoiada no ombro do Carlos.
            Enquanto eles continuaram a conversar sobre a Costa da Lagoa e suas belezas, eu tento não olhar para Tiago. É inútil tentar, meus olhos são atraídos para ele, e minha curiosidade em ver mais detalhes de como ele ficou depois de tantos anos me faz dar uma conferida nele. Mesmo olhando disfarçadamente, com o canto do olho, posso ver que ele não se tornou um cara barrigudo, careca e desdentado que tanto pedi a Deus. Pelo contrário, ele se tornou mais bonito do que quando adolescente. Seu cabelo está mais escuro que naquela época e um pouco mais curto também. Como ele está sentado tão displicente, com as pernas esticadas em direção ao meio entre os bancos da frente, posso ver que ele se tornou alto também, pernas longas e bronzeadas. Seu ombro é largo, sem ser enorme como aqueles caras de academia que malham até parecer um triângulo invertido, e a barriga dele parece tão... Ai que vontade de passar minhas mãos e ver se tudo é realmente tão firme quanto parece...  Droga, droga, droga... já estou fantasiando com algo que não deveria nem estar olhando.
            - Está gostando do que está vendo? – Ele sussurrou para que apenas eu ouvisse. A diversão estampada em sua voz e no sorriso convencido que ele tem nos lábios.
            Desgraçado! Me pegou olhando e ainda faz graça. Se não estivéssemos em um carro em movimento, teria ido embora e deixado ele falando sozinho. Mas como não posso, vou responder com o máximo de desdém que eu posso.
            - Estou adorando. Você melhorou muito daquele adolescente mentiroso e enganador para o atual homem prepotente e ignóbil.
            - Minha nossa. Minha presença mexe tanto assim com você? – Ele respondeu divertido. – Você não era dada a palavras difíceis antigamente, vou ter que procurar o significado de ignóbil na internet.
            - Eu não era muita coisa, antigamente. – Respondi olhando pra ele, para que ele visse a verdade do que eu estava falando. – Eu principalmente não era inteligente. Hoje sou bem mais esperta e não caio na lábia de qualquer um.
            Nossos olhos ficaram grudados por mais tempo que o necessário. Parecia que ele estava tentando ler minha mente e descobrir até onde podia me pressionar. Pelo visto ele resolveu que era melhor me dar um tempo, pois baixou os olhos e foi mexer em seu celular.
            Que mãos enormes ele tem. Tenho um fraco por mãos grandes... Ai meu Deus.
            Enquanto seguíamos em direção a Lagoa da Conceição para pegar um barco e chegar até a Costa da Lagoa, peguei meu celular e comecei a verificar meu facebook. Várias notificações, algumas mensagens e dois pedidos de amizade. Fui primeiro nas notificações. Nada de mais, alguns comentários e curtis, mas nada que merecesse uma atenção especial. Verifiquei os pedidos de amizades. Duas pessoas que mal conheço, mas que tem amigos em comum comigo. Vou aceitar. Podem se tornar possíveis contatos de trabalho.
            Quando abro as mensagens é que as coisas ficam estranhas. Mensagem da Amanda e do meu pesadelo particular, Tiago. Vou primeiro na mensagem da Amanda.
           

Amanda Yamada                                                                                         Ontem 23:32
Oi Anne. Só pra te avisar, sabe quem está em Floripa? O Tiago. Ele veio falar comigo e pediu o número do seu celular, disse que era para um contato de trabalho. Eu dei, fiz mal?

Se ela fez mal? Se eu matar ela, eu estarei fazendo mal?

Anne Pimenta                                                                                                  Hoje 09:19
Oi Amanda, só vi sua mensagem agora. Já soube que ele está aqui. Não tem problema de ter dado, só queria que você tivesse me ligado antes, mas agora já foi né... kkkkkkkk
Tudo bem por ai? Como vão as crianças e o Arthur? Manda noticia. Bjs.

Não adianta eu brigar com ela, o estrago está feito mesmo. Ainda mais depois de tanto tempo em que passamos afastadas. Faz menos de cinco anos que voltamos a nos falar.
Quando estava para abrir a mensagem do Tiago, ouvi seu celular apitar avisando da chegada de uma mensagem, virei para olhar para ele na mesma hora que ele virou para me olhar. Ele me olhou de uma maneira estranha. Não entendi. Se bem que eu não tenho que entender nada sobre ele. Ele que se ferre, vou ver o que ele escreveu e vou bloqueá-lo. Simples.

Tiago Rebelo                                                                                                    Hoje 02:27
Já que você não responde as minhas sms, vou ter que falar com você por outro lugar. Estou na frente da sua casa esperando você chegar. Eu quero tanto falar com você. Sei que não liga para o meu desespero, mas eu já bebi o suficiente para criar coragem, ainda mais depois do que ouvi hoje à noite. Você não sabe o ódio que me deu de ouvir você gemendo e saber que você estava com outro homem.

Thiago Rebelo                                                                                                  Hoje 03:12
Cadê você? Porque você ainda não chegou? Eu vim aqui deixar você bater em mim. Você tem esse direito, mas me deixe te contar o que aconteceu? Me deixe explicar. Eu preciso te ver. Se eu mandar um pedido de amizade, você aceita ser minha amiga novamente?

Thiago Rebelo                                                                                                  Hoje 03:58
Anne, estou indo embora. Pelo visto ou você não mora aqui, ou você não vai passar a noite em casa. Não sei o que é pior para mim. Sim eu sei, é saber que você pode estar nos braços de outro enquanto eu estou aqui, com uma garrafa de whisky e querendo estar com você. Fala comigo? Por favor... Eu estou implorando...

            Estou de queixo caído. Ele ficou na frente da minha casa até as quatro da manhã e bêbado ainda por cima. Isso explica o porque dele estar dormindo quando eu entrei no carro. Ele está de ressaca. Espero que meu pai não tenha visto essa cena lamentável. Espere ai, como ele conseguiu meu endereço?

Anne Pimenta                                                                                                  Hoje 09:25
Como você conseguiu meu endereço?


Essa era a única coisa que eu precisava saber. Como ele conseguiu o meu endereço, se é que ele estava no local certo. Ele poderia estar na casa antiga onde eu morava quando éramos vizinhos. Mal sabia ele que eu não volto naquela casa a quase doze anos.
- Ignóbil: adjetivo masculino e feminino. Característica do que é baixo, vil; que infringe as leis da moral: indivíduo ignóbil, comportamento ignóbil.  Que é de uma baixeza repugnante: procedimento ignóbil. Que desrespeita o belo; que causa aversão ou nojo: atitude ignóbil. Do latim: ignobilis – Tiago começou a ler de seu celular em voz alta, me tirando das lembranças sobre a minha antiga casa e de quebra, chamando a atenção de Carlos e Deb, que estava em uma conversa paralela, como se o banco de trás não existisse.- Sinônimo de Ignóbil: abjeto, asqueroso, baixo, desprezível, imundo, infame, nojento, repelente, sórdido, sujo, torpe e vil. Antônimos de Ignóbil: digno e nobre.
 - Quem é ignóbil, Tiago? – Deb perguntou, virando-se para olhar para nós dois.
- Eu... – Ele me olhou, antes de completar a frase. – Eu só achei a palavra diferente. Recebi uma mensagem onde havia essa palavra e achei ela bem peculiar. Quem usa essa palavra nos dias de hoje, né?
- Deve ter sido um velho. Só os idosos usam essa palavra. – Ela brincou e riu antes de olhar pra mim, levantando a sobrancelha, como quem diz ‘o que tem de errado com você?’
- Ou alguém que te conhece muito bem, ao ponto de te dar um adjetivo desse. – Juro que tentei não dizer isso, mas minha língua foi mais rápida.
- Conhecia. Essa pessoa me conhecia muito bem, mas as pessoas mudam. Quem sabe essa pessoa volte a conhecer, basta ela querer.
- Vai sonhando. – resmunguei e virei para a janela. Já estávamos chegando ao mirante da Lagoa.
- Olhe Tiago, é o mirante da Lagoa. Faz tempo que você não vem aqui, né?. – Carlos disse animado.
Eu não precisei virar, para saber o que ele ia fazer. Era óbvio que ele iria se jogar em cima de mim com a desculpa de ver o mirante, já que eu estava do melhor lado para aquela maravilhosa vista. E foi o que ele fez.
- Com licença. – Ele disse com o rosto colado ao vidro e a menos de trinta centímetros do meu.
Eu não queria sentir seu perfume, mas era impossível. Dessa distancia, seu cheiro amadeirado invadiu minhas narinas e me fez perder os sentidos. Fitei seu rosto e fiquei encantada com o que vi ali, um nariz levemente arrebitado, boca suculenta, cílios longos e suas pequenas sardas. Um rosto tão lindo que me ouvi sussurrando “lindo”. Minhas mãos que estavam até agora no meu colo, segurando meu celular, resolveram ganhar vida e foram em direção a sua barriga que estava mais próximo a minha mão. Quando toquei sua barriga, no mesmo instante ele contraiu os músculos e olhou para mim. Me perdi naqueles dois lagos verdes. Nada seria igual a esse tom de verde com leves pontos de dourado. Vi quando ele entreabriu os lábios e olhou em direção a minha boca. Ele vai me beijar. Tiago vai me beijar.
Não! Parem o mundo. Eu não posso fazer isso comigo mesma. Não posso deixá-lo me beijar. Ele estava se aproximando cada vez mais de mim. Eu precisava fazer alguma coisa para afastá-lo. Aproveitei que minha mão ainda estava em sua barriga, dei mais uma alisada para sentir o quão dura era e dei-lhe um beliscão. Peguei apenas um pequeno pedacinho de pele, com as unhas do polegar e do indicador, e apertei. Foi instantâneo, ele deu um pulo para trás. Sua mão foi imediatamente massagear o local onde belisquei.
- Desculpa, acho que te arranhei. – Falei em um tom tão dissimulado que quase ri. 
- Gatas têm unhas afiadas. – Disse ele, tentando me bajular enquanto sentava-se novamente no seu lugar e erguia a camisa para ver o tamanho do estrago que fiz. – E as suas unhas são realmente afiadas.
- Desculpa, foi sem querer. – Falei olhando para a marca super vermelha e como não sou boba, aproveitei para dar uma olhada no restante da barriga que ficou à mostra.
É malhada, com certeza. Lisa, mas quando chega ao umbigo começam a aparecer alguns pelos que descem até... Até... Misericórdia, que volume é esse? Não posso ficar olhando.
Viro meu rosto para o lado contrário e espero que chegue logo o mar, para que eu possa dar um mergulho, esfriar minha cabeça e se eu não parar de pensar nele, aproveito para tentar me afogar. No mar e não nele, claro.


***

Chegando a lagoa, deixamos o carro do Carlos, que eu descobri se tratar de um C4 pallas, em um estacionamento no centrinho da Lagoa e fomos em direção ao trapiche de onde partem os barcos em direção a Costa da Lagoa.
A Costa da Lagoa é um lugar tão ermo que parte dela só se chega de barco. Graças a uma cooperativa de barcos, os moradores possuem um meio de transporte com horários regulares, e é em um barco da cooperativa que vamos até a casa do Carlos.
O barco não é muito grande, devem caber no máximo vinte pessoas. Ele tem os bancos encostados nas paredes do barco e outra fileira de bancos de frente, bem no centro do barco. Assim os passageiros ficam de frente uns para os outros. Quando entramos, resolvi me sentar encostada na parede do barco, assim teria uma visão melhor e poderia, com muita sorte, por a mão na água. Deb sentou-se ao meu lado, Carlos e Tiago sentaram-se a nossa frente. Além de ter os joelhos dele roçando nos meus, o que me causava certa instabilidade emocional, eu tive outro contratempo durante o percurso de barco.
Eu não sabia era que durante o nosso trajeto, quando passava um barco ao nosso lado, criava-se uma marola que fazia o barco balançar de forma muito desconfortável para o meu estômago e eu acabava me inclinando perigosamente perto da água. Com medo que meu suco e as poucas uvas que comi resolvessem voltar por onde entraram, me obriguei a mudar de banco e tive que me sentar ao lado do Tiago.
- Você está pálida. – Disse ele parecendo preocupado.
- Bebi demais ontem, dormi pouco, comi menos ainda e adicione também o estresse causado por você e vai saber porque estou assim. – Respondi sem olhar para ele.
- Eu não queria te causar estresse nenhum. Se você me desse algum tempo para conversarmos, eu poderia ...
- Não Tiago. Nada do que você falar vai apagar o que aconteceu. - O interrompi e suspirei. Como poderia explicar que a simples presença dele já me trazia lembranças tão dolorosas que me faziam querer voltar para minha cama, me encolher e chorar mais. Ele não entende que as consequência daquela noite refletem na minha vida até hoje e vão refletir até o fim da minha vida. Ele não entende, porque ele não sabe e ele nunca saberá, porque jurei não tocar neste assunto novamente. Permito-me apenas lembrar, orar para meu anjo da guarda e continuar a viver.
Ele me abandonou, não me deu noticias e por isso não tem o direito de voltar agora e agir como se nada tivesse acontecido. Muita coisa aconteceu e ele não esteve ao meu lado. Não preciso mais dele.
- Tiago, entenda de uma vez por todas. – Disse em voz baixa para que ninguém nos ouvisse, olhando diretamente nos olhos dele. – Durante muito tempo eu rezei, implorei à Deus que você me desse uma noticia. Muita coisa aconteceu comigo depois daquela noite e você não esteve ao meu lado. Eu precisei de você e não pude contar contigo. Então não faça de conta que nada aconteceu. Aconteceu muita coisa, eu sofri muito, perdi pessoas... – Nesse momento tive que desviar meu olhar, mesmo vendo que o que eu estava dizendo o estava machucando. – Eu passei por muita coisa, Tiago. Não me culpe por não deixar você se aproximar de mim. Foi uma escolha sua o que aconteceu conosco. Aguente as consequências.
Que irônico. Eu usando uma frase que eu ouvia da minha mãe. “Agora agüente as consequências, Anne”. Ouvi isso durante boa parte da minha adolescência. Até o dia que ela morreu nos meus braços, então seu último pedido foi o oposto do que ela sempre dizia. “Anne, me prometa que vai lutar pela sua felicidade e sem se importar com conseqüências. Apenas seja feliz”. Depois de dizer isso, ela morreu. Naquele dia eu perdi duas das pessoas mais importantes na minha vida e implorei por morrer também.
- Anne, olhe pra mim. – Ele me pediu ao mesmo tempo em que segurava meu queixo e virava meu rosto. – Tem tanta coisa que você não sabe sobre o porque eu não voltei. Deixe-me explicar e se você não quiser mais me ver depois disso eu vou entender e vou te deixar em paz. Eu sei que o que eu fiz foi errado e que não estar ao seu lado quando sua mãe morreu foi imperdoável, mas me de alguns minutos a sós com você e eu vou te explicar. Por favor.
Da forma como ele estava me olhando, me fez lembrar o Tiago que conheci na infância. Tão sincero e atencioso que senti um aperto no peito de reconhecimento.
- Chegamos pessoal. Nosso trapiche é o próximo. – Disse Carlos, atrapalhando nosso momento e me fazendo dar um pulo quando percebi que Tiago e eu estávamos tão colados, que mais um pouco eu estaria sentado no seu colo.
Depois de descermos do barco no trapiche, seguimos Carlos em direção a casa dele. Era uma casa simples, mas muito bonita. Era evidente que o foco de quem construiu a casa não era ter muita gente ali dentro, pois tendo dois quartos um banheiro e uma sala e cozinha conjugadas, a casa comportaria no máximo cinco pessoas. A melhor parte da casa não estava dentro dela, e sim do lado de fora. A casa era construída na parte mais alta do terreno, que tinha um desnível bem íngreme, mas eles conseguiram colocar uma piscina com direito a um deck de onde se teria um pôr do sol incrível. O restante do terreno era de grama e terminava na parte mais baixa, onde tinha o trapiche e uma pequena praia. Se não fosse pelos barcos que passavam a todo momento em frente, aquele lugar seria totalmente privativo ao ponto de se poder tomar banho pelado, tanto na piscina, quanto na água salgada da lagoa.
- O que rolou entre vocês dois? – Deb me perguntou, quando conseguiu me pegar sozinha, apoiada no segura-corpo do deck, olhando para a lagoa. – Nem adianta negar. Dá pra sentir o clima entre vocês, isso sem falar na forma como vocês se olham. Sai faíscas.
- É complicado demais. Só o que posso dizer é que eu conheci o Tiago praticamente desde que nasci e certo dia ele disse que me amava, eu acreditei e no dia seguinte ele me abandonou e só voltei a vê-lo hoje. Ficou muita mágoa e muita coisa por ser dita. – Eu respondi, tentando ser o mais honesta possível com minha melhor amiga.
- Entendi. E vocês não poderiam conversar? Quem sabe se você por pra fora suas mágoas e ele tentasse te explicasse os motivos dele, vocês poderia voltar a serem amigos, pelo menos.
- Quem sabe, mas não hoje. Hoje eu vim aqui para aproveitar um belo dia de sol e pegar um bronzeado. – Disse, mudando de assunto. Deb apenas concordou e não falou mais nada.
Voltei para dentro da casa indo atrás de algo para comer. Deb disse que a casa ficava abastecida com alimentos não perecíveis, então eles precisaram trazer apenas algumas poucas coisas, tipo um peixe que Carlos iria assar na churrasqueira, algumas frutas, verduras e legumes, coisas para tomarmos café da tarde, refrigerantes e algumas cervejas que pelo visto ninguém iria beber, já que Carlos iria dirigir, a Deb não gosta muito de cerveja, eu estou de ressaca de tequila e o Tiago disse que não tava afim. Aposto que é por culpa da ressaca dele também.
Depois de tentar ajudar Deb e Carlos a arrumar as compras na pequena cozinha, o que não deu muito certo, pois eles me expulsaram de lá depois que derrubei todos os tomates e cebolas pelo chão. Não tenho culpa que fizeram um buraco na sacola e não me avisaram. Peguei uma maça, minha bolsa e fui me sentar em uma cadeira de praia que estava no deck.
De onde eu estava podia ver que Tiago estava no trapiche, parecia tão perdido em seus pensamentos. Vendo ele parado lá, em pé e olhando para a água, mas sem realmente vê-la, senti vontade de ir lá conversar com ele e ao mesmo tempo senti uma vontade irresistível de ir lá e empurrá-lo na água.
Minha cabeça dizia que eu precisava me afastar dele e meu coração dizia que eu precisava fazer alguma coisa pra extravasar essa angustia no meu peito, alguma coisa do tipo, me divertir às custas dele.
Não pensei duas vezes e caminhei o mais silenciosamente possível até onde ele estava. Pena que o trapiche, por ser feito de madeira, não me ajudou. Quando eu estava a apenas dois passos dele, a madeira abaixo de mim rangeu e ele se virou imediatamente. Eu precisava do fator surpresa para conseguir empurrá-lo, então quando percebi que ele tava se virando, me jogue em cima dele empurrando-o com toda a minha força. Eu só não contava que ele iria segurar no meu braço, me puxando junto com ele na queda.
Nos cinco segundos que precedeu o meu encontro com a água, passaram-se dois pensamentos pela minha cabeça.
‘Não foi isso que eu imaginei’ e ‘Droga, eu não sei nadar’.
Quando senti a água salgada me envolver por completo, entrei em pânico. Agarrei-me ao corpo do Tiago como se ele fosse o ultimo colete salva vidas do Titanic. Eu tentava encontrar a superfície e o usava como uma escada, empurrando ele e me impulsionando para cima. Água salgada entrava na minha boca e nariz. Quando eu tentava encontrar o fundo do mar, na esperança de por os meus pés em chão firme, só sentia a água cada vez mais gelada. Havia bem mais que dois metros de profundidade, ou seja, eu precisava voltar para cima do trapiche e a única forma de fazer isso era usando Tiago.
No entanto ele conseguiu se soltar de mim e me vi afundando sozinha, sem conseguir chegar à superfície por tempo o suficiente para tomar fôlego, entendi que iria morrer afogada. Sempre li que quando você fica sem ar por algum tempo você acaba desmaiando. Acho que prefiro morrer afogada enquanto tiver desmaiada e quanto mais lutar contra, mais meu pulmão vai querer ar. Tenho que relaxar e esperar a morte vir me buscar.
‘Se vou morrer, vai ser com menos sofrimento possível’ – Pensei, enquanto me entregava à morte e deixava a gravidade me puxar para o fundo do mar. Olhei para cima pela ultima vez. Eu ainda via alguma claridade, mas não via mais Tiago
Queria fazer tantas coisas antes de morrer. Queria dizer adeus ao Diego, a Deb, a todos os meus amigos. Dar um ultimo abraço em meu pai e dizer que eu o amo. . Queria poder contar tudo para o Tiago antes de morrer. Tanta coisa por fazer, por dizer e ao mesmo tempo, do outro lado, no plano imaterial e vou encontrar minha mãe e minha bebezinha. Minha filhinha linda. Minha e do Tiago. Ele merecia saber sobre ela. Só que agora não ia mais dar tempo, meus pulmões doíam e minha visão está ficando embaçada.
‘Minha pequena Clara espere que a mamãe já está chegando’ Pensei antes de ser absorvida pela escuridão completa.


***

Tiago

- Cadê você Anne? – Eu murmurei, quando finalmente consegui submergir e respirar.
Estou olhando em volta e não a vejo. Não posso me desesperar. Preciso manter a calma. Ela deve estar tentando me deixar preocupado de propósito. Deve ser isso, mas então porque ela não volta? Não posso mais esperar, preciso encontrá-la.
Mergulho em busca dela. Olho para todos os lados na esperança de encontrar ela em algum lugar. Nada.
Quanto tempo faz que caímos na água? Dois, três minutos? Com esse tempo uma pessoa já pode se afogar. Meu Deus, que não tenha acontecido nada com ela. Não pode ter acontecido nada com ela, ainda mais por minha causa. Eu não aguentar perdê-la, dessa vez para sempre.
Quando olho para baixo, a vejo. Ela está afundando rápido. Deve estar inconsciente. Vou até a superfície, tomo mais fôlego e mergulho para salvá-la. A garota que assombrou meus sonhos e me fez lutar para ser o homem que sou hoje. Foi por ela que eu fiz tudo o que fiz e faço. Foi por ela que voltei. Não posso perdê-la justamente quando nos reencontramos. Não posso.
Alcanço seu corpo, circulo sua pequena cintura com meus braços e coloco toda a minha força e fôlego para tirá-la daqui. Quando alcanço a superfície e coloco sua cabeça para fora d’água, seu pescoço pende para o lado. Olho em volta para me localizar e vejo que Carlos está vindo correndo para me ajudar a tirá-la da água.
Não sabia que era ela que estava vindo para me empurrar. Ela estava tão focada em me ignorar enquanto eu estava dentro da casa. Não aguentei toda sua indiferença e vim para o trapiche, tentar me acalmar e por meus sentimentos em ordem para dar a ela o espaço que ela queria. Quando ouvi o estralo da madeira e percebi que tinha alguém vindo sorrateiramente atrás de mim, achei que fosse o Carlos, na intenção de me jogar na água de roupa e tudo. Foi instintivo, me virei e tentei segurá-lo, mas quando vi que era ela quem estava me empurrando, tentei empurrá-la de volta para que não caísse, mas já era tarde.
Enquanto caímos, percebi que ela me segurou com mais força do que acharia normal e que me puxava para baixo. Como cai de mal jeito na água, perdi o fôlego e precisava subir para respirar, mas ela estava me puxando para baixo. Tive que me soltar.
Agora ela está aqui, deitada no trapiche, provavelmente com o pulmão cheio d’água e tudo por minha culpa. Porque eu a soltei.
- Vamos lá Anne. Coloca essa água pra fora. Vamos meu amor. – Eu murmurava para ela, enquanto fazia os procedimentos de reanimação cardiorrespiratória.
 Um, dois, três, quatro... quinze... vinte sete, vinte oito, vinte nove, trinta... assopra, assopra... um, dois, três...
- Vamos lá Anne. Você é forte. Vamos, amor. – Eu já estava começando a me desesperar...
Cof, cof, cof...
Ela respondeu a massagem e começou a cuspir a água que havia engolido.
- Graças a Deus. – Eu disse a abraçando, feliz e aliviado por ver que ela estava viva.
Seus olhos castanhos ainda estavam um pouco nublados pelo tempo que ela ficou desacordada. Eu precisava colocá-la em um local confortável e precisava levá-la a um hospital. Sem esperar, a peguei no colo e rumei em direção a casa.
- Deb, arrume toalhas e um local confortável para ela deitar até que eu possa trocar de roupa. Vou levá-la para tomar um banho quente e depois vamos levá-la para o hospital. – Disse para Deb, que estava tão branca quanto Anne. Ela demorou algum tempo até perceber que eu falava com ela, mas quando entendeu, subiu os degraus que levam a casa correndo na minha frente. Carlos foi correndo junto com ela para ajudá-la a encontrar o que precisava.
Enquanto eles corriam, eu andava rápido, porem com todo o cuidado possível. Não podia deixar que mais nada acontecesse. Em meus braços estava a pessoa mais importante da minha vida. E ela está precisando de mim.

- Eu estou aqui, Anne. Não vou a lugar nenhum sem você. – Eu sussurrei em seu ouvido.



Continua Quarta Feira...



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