segunda-feira, 21 de abril de 2014

Capítulo 09

Fiquei paralisada no lugar, sem conseguir nem ao menos ir embora.
- Anne... - Ele parou de falar quando olhei pra ele. – O que aconteceu, você está pálida.
Não consegui responder. Vendo-o ali fez meu corpo voltar a ter movimento e agora era hora de ir embora.
- Não aconteceu nada. – Menti e ele percebeu.
- Onde você vai?
- Tenho que voltar ao trabalho, já estou atrasada e você tem um reunião também. – Ao ouvir isso, seu rosto se contraiu visivelmente.
- Anne, espere. – Ele segurou meu braço quando passei por ele para ir até o tapete pegar a chave da porta. – Nós realmente precisamos conversar.
- Eu sei Tiago, mas agora eu tenho realmente que trabalhar e você têm uma reunião com sua mulher. – Dei ênfase na palavra mulher e vi seu rosto se retorcer.
- Anne, não é o que você está pensando... – Ele calou-se quando olhei pra ele. – Deixa eu explicar, por favor.
Seu tom era de tristeza, mas eu evitei olhá-lo enquanto pegava a chave e me dirigia até a porta.
- Outro dia. Hoje eu preciso ir.
Não consegui chegar até a porta, ele se colocou na minha frente.
- Amor, não vai assim. Meu casamento é só no papel e essa reunião é para acertar o divorcio. - Sua urgência em me explicar sobre seu casamento me deixa com uma sensação estranha. Sinto que ele não está mentindo, mas tenho a sensação que tem mais coisas por trás do que ele está dizendo.
- Eu acredito em você, Tiago. De verdade. – Eu disse, tentando tranquilizá-lo. – Mas eu preciso digerir essa informação. Nós acabamos de transar e então eu descubro que você é casado. Eu não esperava por isso, mas eu sei que fui eu que não te deixei falar quando você pediu.
- Nós não transamos Anne, nós fizemos amor. Entre eu e você é amor e não sexo. 
- Tiago, não..
- Não o que? Não posso dizer o que eu vi naquele tapete? Eu vi amor e você não pode negar. - Ele deu um passo pra frente e eu dei um passo pra trás, encostando-me na parede. – Olhe nos meus olhos e diga que foi apenas sexo Anne. Diga que o que aconteceu naquele tapete e naquela cadeira, foi apenas uma transa sem importância.
Quando fixei meus olhos nos dele, fiquei com medo que ele visse minha alma e todos os meus sentimentos. Porque no final das contas, eu não podia negar que o que ocorreu nessa sala era mais que apenas uma transa. Eu me entreguei de corpo, alma e coração. Me permiti sentir mais que desejo. Me permiti ser amada novamente. Com ele não era sexo duro e rápido, com ele teve mais sentimento do que eu imaginei e agora, descobrir que ele era casado, que dividia a cama com outra mulher e podia ter filhos com ela, me deixou fraca. Não dou santa, mas se tem uma coisa que eu não faço é me envolver com homens que possuem família. Família é sagrada e é por isso que preciso me afastar dele.
- Não foi só uma transa. Foi um tira-teima. Eu precisava saber o que sentiria. – Eu disse, olhando para qualquer lugar, menos para seus olhos. – Agora já sei e preciso ir.
- Para de mentir Anne. Você está falando comigo, lembra? – Ele disse, segurando meu rosto com as duas mãos e me fazendo olhar em seus olhos. – Porque você sempre dá um jeito de fugir?
- Porque sou covarde demais para te contar coisas que você já deveria saber muito tempo. - Eu disse, sem pensar enquanto as primeiras lágrimas caiam.
- Você quer que eu te amarre aqui até que você me conte?
- Você não entende... – Eu disse retirando suas mãos de meu rosto e caminhando pra longe dele. – Eu não consigo te falar porque simplesmente dói demais falar sobre isso.
- Você não pode fugir dessa conversa e de mim por muito tempo. Nós precisamos...
- Eu sei do que precisamos. Precisamos é esquecer isso e seguir nossa vida. Você com sua mulher e eu com meu trabalho.
- Não. - Ele gritou, passando as mãos nos cabelos. Visivelmente irritado. – Chega de fugir Anne, eu não quero ter que ficar correndo atrás de você a vida toda.
- Então não corra. – Eu gritei de volta, também irritada. - Não estou te pedindo isso.
- Você está me pedindo para abrir mão de você novamente e isso eu não vou fazer. Não é o que eu quero e não é o que você quer. Por mais que você negue.
- Não fale por mim. Você não sabe nada sobre mim.
- Eu sei tudo sobre você. – Ele disse olhando nos meus olhos.
- Você conheceu a Annelise idiota e mimada. Você não sabe nada sobre o que eu me tornei e muito menos sobre como eu me transformei no que sou hoje.
- Você acha que não sei sobre o quanto você sofreu com a perda da sua mãe? Eu sei tudo sobre isso, eu soube que você passou meses fazendo tratamento contra depressão, que você abandonou a faculdade, os amigos, que se isolou do mundo até que foi parar no hospital por ter tentado se matar, tomando um frasco de remédio pra dormir... - Ele disse tudo isso caminhando em minha direção e parando bem na minha frente.
Ouvir que ele sabia sobre tudo isso, não me irritou tanto quando o fato dele não ter mencionado a nossa filha. Se ele sabia sobre todas essas coisas, era impossível ele não saber sobre a Clara e não tocar no nome dela foi o que me deixou fora de mim.
- Você não está esquecendo de nada? – Perguntei em um tom baixo, olhando diretamente em seus olhos. - Seus informantes devem ter dito que além da minha mãe, eu perdi ... Eu perdi a nossa filha naquele maldito acidente. – Eu disse, agora berrando.
Quando ele não se moveu e ficou mudo, olhando para mim com cara de susto, percebi que ele não sabia sobre essa parte da história.
- Falaram sobre uma criança, mas eu não... – Ele ficou pálido e cambaleou até sentar na parede novamente. – Era nossa....
- Sim, nossa filha. – Falei baixinho. - Ela se chamava Clara.
- Como... Porque você não me contou? – Ele gaguejou.
- Eu tentei, mas não tinha nenhum contato seu. Não sabia nem ao menos em que cidade de Portugal procurar. Durante meses depois que você foi embora, eu tentei te encontrar pra te contar, mas nunca consegui nem sequer um telefone para que pudesse deixar um recado para que você entrasse em contato. Quando a Clara nasceu, minha mãe e meu pai me apoiaram e me ajudaram a cuidar dela. Eu comecei a trabalhar em meio período para ajudar nas despesas dela e consegui a muito custo terminar a escola. - Relembrar tudo o que passei sempre me fazia chorar, e agora não era diferente, por isso eu me sentei no sofá e continuei a contar para ele sobre a nossa filha. – Quando aconteceu o acidente, ela estava com três anos. Nós estávamos voltando de uma festa de aniversário de uma amiguinha de creche da Clara. Minha mãe estava dirigindo e a Clara estava na cadeirinha atrás do banco dela, para que eu pudesse olhá-la. Eu e minha mãe estávamos discutindo por algum motivo que não lembro, quando o um caminhão cruzou o semáforo vermelho e pegou em cheio no nosso carro.
Minhas lágrimas embaçavam minha visão, mas pude ver quando Tiago deixou seu corpo cair e sentou no chão, encostando sua cabeça na parede, de olhos fechados. Quando eu continuei a contar sobre o acidente, minha voz estava grossa pelas lágrimas e soluços.
- Eu vi o caminhão batendo contra o nosso carro. Vi a lataria se amassando e ferindo as duas pessoas que eu mais amava na vida. Eu ouvi o grito da Clara misturado com o meu e o da minha mãe quando o caminhão vinha se aproximava. Isso está gravado aqui, na minha cabeça, e não sai. Não importa o quanto de remédio eu tome e de quanta terapia eu faça, simplesmente não sai, e quando estou sozinha eu ainda posso ver e ouvir tudo isso. Noite após noite, ano após ano. É uma cena que não se apaga e não esmaece. Não sei como, mas eu soltei meu cinto e fui tentar ajudar minha mãe a se soltar e sair do carro, mas ela tinha as pernas presas pelas ferragens e tinha uma perfuração feia na barriga. Ela só teve tempo de me dizer para salvar a Clara e que nos amava e que queria que fossemos felizes, sem pensar nas consequências e então morreu. Quando virei para tirar a Clara da cadeirinha, eu vi... vi seu corpinho... eu vi....
Não consegui terminar. Eu não conseguia lembrar daquela cena. Durante alguns instantes eu chorei compulsivamente, até que senti os braços do Tiago a minha volta. Ele também chorava.
Nós não falamos por algum tempo, quando já consegui controlar meus soluços e meu choro, tentei me levantar. Eu precisava de espaço, mas espaço era o que o Tiago não queria me dar. Ele se agarrou a mim com ainda mais firmeza.
- Me perdoa. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Me perdoa por não estar aqui com você. Eu só... Só pensei... Que estava fazendo o melhor para nós dois. Eu nunca...
- Isso é passado. – Respondi, secamente. – Durante meses depois do teu aniversário de dezoito anos, eu esperei você voltar. Quando aconteceu o acidente, eu rezei e implorei a Deus que você viesse ficar ao meu lado, mas nunca fui atendida no meu pedido. Eu precisei passar por tudo isso para entender que a única pessoa com quem podemos contar e com nós mesmos. Quando tentei me matar, eu realmente acreditei que era mais fácil morrer do que conviver todos os dias com as pessoas me olhando com cara de pena e durante as noites, ter pesadelos e acordar gritando e chorando. Comecei a não dormir para não ter que ver aquelas cenas. Quando não conseguia ficar acordada, eu bebia até não ter consciência do que estava fazendo. Bebia tanto que em meio um porre eu resolvi acabar de uma vez por todas com o meu sofrimento, com a minha solidão. Eu não pensei na minha vida, não pensei na dor do meu pai e não pensei em mais nada, eu só queria parar de sofrer tanto. Eu tomei um frasco inteiro do calmante que o psiquiatra me deu. Toda aquela medicação misturada com bebida alcoólica me deixou em coma por uma semana. Quando acordei, a primeira coisa que vi foi meu pai em um estado deplorável. Ele estava chorando ao lado da minha cama, dizendo que não agüentaria viver se me perdesse também, porque não sobraria mais ninguém na vida dele.
Eu não sei dizer se eu tinha voltado a chorar ou se minhas lágrimas simplesmente não pararam de cair desde o momento em que comecei a contar sobre o acidente para o Tiago. Ele ouvia tudo em um silêncio sepulcral.
- Quando sai do coma e fui para o quarto, uma das enfermeiras me contou que meu pai passou mal várias vezes durante o tempo que fiquei na UTI, mas se recusou a sair do meu lado, foi nessa hora que percebi que não podia fazer isso com ele. Ele precisava de mim. Ele era a minha família. Era o que restava da minha família. A partir daquele dia eu passei a fazer tudo para que meu pai me visse bem, feliz e realizada. No inicio não foi fácil, porém foi preciso.
- Quando isso aconteceu? – Tiago perguntou baixinho.
- 17 de dezembro de 2004. - Respondi.
- 17 de dezembro? – Ele perguntou estranhamente.
- Sim. Porquê? - Perguntei olhando pra ele.
Ele não me respondeu imediatamente. Levantou-se e começou a caminhar pela sala sem me olhar. Quando ele parou, com as duas mãos apoiadas na sua mesa e a cabeça tombada para frente, tive certeza que não iria gostar de ouvir o que ele ia me dizer, mas não pude evitar.
- O que aconteceu no dia 17 de dezembro, Tiago? – Perguntei, agora me levantando, com minha bolsa em uma mão e a chave da porta em outra.
- Meu casamento. Me casei no dia 17 de dezembro de 2004. – Ele disse baixinho.
- Seu... Casamento? – Eu não acreditei imediatamente, mas então a ficha caiu. -  Você se casou há quase 10 anos atrás?
- Anne...
- Nada de Anne. Você vai fazer 10 anos de casado? Foi por isso que você não voltou. Claro. – Eu explodi. Gritava em fúria. Como ele podia estar casando no mesmo dia em que nossa filha morria. Não era justo. – Você casando e eu querendo ter morrido no lugar da Clara. Quer saber de uma coisa, Tiago. Foi muito bom ter essa conversa com você. Foi bom exorcizar esse fantasma da minha vida. Agora sim, posso por uma pedra em cima do que você um dia representou pra mim, do que um dia eu senti por você.
Sem dar tempo dele falar absolutamente nada, marchei em direção a porta e a destranquei, quando a abri, uma bela mulher estava com o braço levantado para bater.
- Oh, desculpe. Eu ia bater, já que o Tiago não responde aos recados da Brenda e ele me deixou plantada na nossa reunião. – Ela disse, me olhando de cima a baixo e parando seus olhos azuis em meu rosto.
Eu, sem lhe dispensar nem um olhar, respondi.
- Não precisa se dar ao trabalho de bater, eu já estou de saída. Ele é todo seu.
- Anne, por favor. Não vá, eu ainda tenho muitas coisas pra conversar com você. – Tiago disse de onde ele estava.
Eu virei para dar um ultimo olhar para ele e encontrei seu olhar quando ele virou-se em direção a porta. Vi tristeza, desespero e dor em seus olhos, mas isso não me comoveu.
- Como eu te disse, isso é passado e acabei de colocar uma pedra sobre todo o meu passado. Adeus Tiago.
- Então você é a famosa Anne. Prazer, sou a Rebeca. – Ela disse com um sorriso.
- Prazer Rebeca. Sou a Anne, amiga do Tiago, você deve ser a esposa dele. Certo?
- Legalmente falando, sim, mas... – Ela começou a falar, mas eu a interrompi.
- Então Rebeca. Que bom que você chegou para fazer companhia a ele, porque eu estou de partida. – Eu disse antes de me virar e sair, porém olhei novamente para ela e não pude deixar de acrescentar. – É uma pena que seja uma reunião de divorcio, um casamento de dez anos não se joga fora assim. Se eu fosse você pensaria melhor antes de se divorciar.
Virei-me novamente e segui a passos largos para a porta. Quando cheguei lá, a prestativa Brenda já estava me aguardando com a porta aberta. Não me dei nem ao trabalho de responder seu ‘até breve’.

Segui até meu carro, o mais rápido que consegui sem precisar correr, entrei, encostei minha cabeça no volante e chorei. Chorei até sentir que meus ombros balançavam com meus soluços. Depois de derramar todas as lágrimas ao ponto de ficar exausta, liguei meu carro e engatei a marcha ré para sair do estacionamento, mas cometi o erro de dar uma ultima olhada para o prédio do Tiago e o vi, parado na janela, me olhando. Nossos olhos se encontraram. Senti meu coração sangrar mais um pouco quando sua boca se moveu e pude ver com clareza as palavras que eu não queria ver e muito menos ouvir. Mesmo de longe eu soube que ele estava dizendo, eu te amo. 


Continua na Quarta-Feira....




0 comentários:

Postar um comentário