Existem
momentos na vida de um homem que ele precisa escolher entre a coisa certa a
fazer ou a sua felicidade. Muitas vezes essas duas coisas são as mesmas. O que
não é o caso neste momento. Esse é o momento em que estou tendo que escolher
entre a coisa certa a fazer ou a minha felicidade. Estou parado em frente ao um
juiz de paz pronto para me casar e a única coisa em que eu consigo pensar é na
minha Anne.
Meu
coração está apertado e sinto um embrulho no estomago. Se bem que esse embrulho
no estomago pode ser por conta da ressaca, já que ontem eu bebi tudo o que
encontrei pela frente e tive uma verdadeira despedida de solteiro com alguns
colegas de faculdade. Eu queria beber tanto que tivesse entrado em coma e assim
estaria internado em um hospital e não aqui, esperando a Rebeca entrar pela
porta do cartório com a mesma vontade de se casar que eu.
Ambos
estamos casando por motivos que em nada tem a ver com amor. Eu estou casando
por dois motivos, e nenhum deles é amor, paixão ou desejo.
Meu
amor ficou no Brasil. Meu amor e meu coração ficaram com a única garota que
amei. Annelise Pimenta. Nesse momento sou apenas a casca de um homem. Apenas
uma marionete sendo controlada por cordas invisíveis, mas muito fortes. Estou
casando para salvar meu pai de ser preso.
Quando
viemos do Brasil para Portugal, meu pai conseguiu um cargo de médico no
Hospital Pediátrico de Coimbra. Em pouco tempo, foi ganhando responsabilidades
e notoriedade entre a diretoria do hospital. Não se passou mais de seis meses
até que ele conseguisse um cargo de chefia dentro do hospital. Passou de um
mero pediatra para diretor do departamento de neuropediatria do hospital. Junto
com o cargo, veio a ganância que se juntou ao mal caratismo que eu não sabia
que ele tinha. Cerca de dois meses após ser nomeado diretor, meu pai já havia
trocado de carro, comprado uma casa e mudado radicalmente o estilo de vida,
passando a gastar mais e comprar coisas que até então não teríamos condições de
ter se ele fosse um diretor comum. Meu pai estava roubando o hospital.
Como a
parte de licitações do setor neuropediatrico era de sua responsabilidade, ele
passou a receber propina para que escolhesse uma determinada empresa, recebia
uma porcentagem do valor total da compra por superfaturar os produtos
comprados, cobrava do governo por atendimentos feitos a pacientes que tinham
plano de saúde, então nesse caso ele recebia dos planos de saúde e do governo.
Resumindo, ele deu um desfalque de milhões de euros no hospital. É obvio que
dentro de pouco tempo, foi descoberto. Quando faltava cerca de três meses para
eu completar dezoito anos, a bomba explodiu.
Muitas
lágrimas da minha mãe, desespero do meu pai e reuniões intermináveis depois,
meu pai conseguiu um acordo com o diretor geral do hospital, o doutor Luis
Henrique Mota, pai da Rebeca.
Numa
noite, assim que voltei do emprego de officeboy que havia arrumado em uma
pequena imobiliária, meu pai e minha mãe estava me aguardando na sala. Eles não
se olhavam, mas dava para sentir a tensão no ar.
-
Tiago, por favor sente-se. Precisamos conversar com você. – Meu pai disse de
maneira formal.
Não
questionei, estava escrito na cara deles que a conversa era séria. Quando me
sentei, meu pai começou a me contar tudo o que havia acontecido e tudo o que
ele havia feito, desde puxar o tapete de colegas para ser promovido, até a
parte da roubalheira. Ouvi tudo calado. Depois de alguns minutos que ficamos em
silêncio, repassei na minha mente tudo o que ouvi, tentando assimilar o quando
isso iria mudar na minha vida e simplesmente não consegui imaginar o que iria
acontecer a partir dali. Porém meu pai deixou para o final a parte que me
cabia.
- Meu
filho, você não vai dizer nada? – Ele perguntou tenso.
-
Quanto tempo você tem até ser preso? – Perguntei encarando-o. Não era isso que
eu queria dizer, queria dizer que sentia vergonha de ser seu filho, que tinha
nojo do homem que ele era e que não ligava a mínima para o que iria acontecer
com ele, mas ver minha mãe as lágrimas me impediu de agredi-lo com palavras
como eu gostaria.
- Na
verdade... – Ele disse lentamente e deu uma olhada rápida para minha mãe. –
Existe uma forma de eu não ser preso.
- Você
está pensando em fugir? – Perguntei me exaltando.
- Não.
Nada disso. – Ele baixou os olhos antes de acrescentar. – Eu preciso que você
se case com a filha do doutor Luis, assim ele vai acobertar o meu desfalque.
- Você
quer o que? – Perguntei incrédulo. Eu só podia ter ouvido errado.
-
Tiago, entenda. O doutor Luis possui uma filha que está dando muito trabalho e
ele acha que casá-la pode ser a solução dos problemas dele, então como ele sabe
que eu tenho um filho solteiro e com a mesma idade da filha dele... Ele propôs
perdoar o desfalque em troca do casamento de vocês.
- Você
só pode estar ficando maluco se acha que vou me casar com uma garota que nem
conheço apenas para salvar a sua pele. – Explodi. – Estou contando os dias para
voltar para o Brasil e casar com quem eu realmente amo e você acha que vou
abrir mão disso pra salvar a sua pele? Você não quis ganhar dinheiro na mão
grande? Então aguente as consequências. Enfrente os seus problemas sozinho. Já
que na hora de roubar você fez sem perguntar a minha opinião, não serei eu a
socorrê-lo agora. Seja preso e pague pelo seu crime.
-
Tiago... – Minha mãe gritou comigo para que eu parasse de falar.
Depois
de cuspir tudo na cara do meu pai, vi seu rosto ficar pálido e lentamente ele
cair desmaiado. Horas mais tarde eu estava sentado em um corredor de hospital,
esperando alguma notícia sobre o cateterismo que meu pai teve que fazer as
pressas. Uma mistura de culpa e ressentimento me corroía. Após o procedimento,
o médico aconselhou a minha mãe e eu, que evitássemos ao máximo deixar meu pai
passar por estresse ou qualquer tipo de preocupação que pudesse elevar a
pressão arterial dele.
Depois
das recomendações médicas, minha mãe implorou para que eu aceitasse casar com a
tal filha do doutor Luis. Ela estava tão desesperada para que eu aceitasse, que
me propôs casar e depois de algum tempo separar e ai eu teria toda a sua benção
para procurar a Anne. O que ela não entendia era que eu havia prometido a Anne
que voltaria quando completasse dezoito anos. Eu sentia que precisava voltar o
quanto antes, mas ao mesmo tempo em que eu pensava em voltar, eu tinha medo de
voltar e encontrar a Anne com outro. Isso seria demais pra mim.
Porém
como eu poderia voltar para o Brasil e largar minha mãe e meu pai a própria
sorte? Que tipo de pessoa eu seria se não ficasse ao lado da minha mãe, pelo
menos? Ela já havia sofrido muito com o motivo que nos trouxe para Portugal, eu
não suportaria vê-la sofrer ainda mais. Mesmo a contra gosto, aceitei
participar daquela farsa, mas seria nos meus termos.
Dias
depois, consegui marcar um encontro com a tal filha problemática em um café
perto do hospital. Ela chegou com quase meia hora de atraso. Quando entrou no
café, seu rosto não precisava de legenda, estava claro que ela não gostava
daquela situação tanto quanto eu. Sendo assim preferi ser franco com ela, já
logo de início.
- Oi.
Eu sou o Tiago. – Disse ao estender a mão para cumprimentá-la.
-
Rebeca. – Ela disse simplesmente.
Ninguém
poderia acusá-la de ser simpática.
-
Rebeca, sente-se por favor. Vamos conversar sobre essa palhaçada de casamento
de modo civilizado e entre nós dois. Sem interferências.
A
mudança na sua postura foi automática.
- Uau,
pelo visto não sou a única aqui que está sendo empurrada para um casamento. –
Ela comentou sorrindo e sentando-se mais relaxadamente.
- Você
deve saber por que estou sendo obrigado a casar. – Ela balançou a cabeça
concordando. – Agora quero saber onde estou me metendo. Porque você está sendo
obrigada a casar?
-
Porque ou eu caso, ou serei deserdada. – Ela respondeu sem me olhar.
- Você
vai casar para não ser deserdada? Por dinheiro? – Perguntei chocado.
- Não é
só por isso. - Ela pareceu ofendida. – Meu pai está ameaçando a pessoa que eu
amo...
-
Entendo... – Depois de algum tempo de constrangimento entre nós dois, consegui
acrescentar. – Você acha que podemos fazer um acordo entre nós?
- Estou
torcendo por isso...
Aquela
foi a primeira de muitas conversas francas que tive com a Rebeca. Depois desse
dia, nós decidimos que iríamos nos casar e passar algum tempo casados e logo
que possível iríamos nos separar. O que eu não esperava era que meu futuro
sogro fosse mais filho da puta do que eu imaginasse. Ele me fez assinar um
contrato completamente sem fundamento, onde continham todas as cláusulas que
regeria o meu ‘relacionamento’ com Rebeca. Deveria haver pelo menos dois anos
entre o namoro e o casamento, mais três anos de casados antes que quaisquer um
dos dois pudessem pedir o divorcio e se a Rebeca engravidasse, poderia ser
abatido um ano a menos no tempo obrigatório após o casamento. Em troca ele se
propunha em camuflar o desfalque feito por meu pai, porém iria guardar provas
que me seriam entregues depois do prazo mínimo do casamento. Era uma loucura
total, mas eu já havia aceito e não poderia voltar atrás. Havia apenas algumas
questões a serem esclarecidas e uma delas era muito importante. Tanto que em um
dos nossos encontros, Rebeca engoliu a vergonha e trouxe à tona um assunto que
a algum tempo me perturbava.
-
Tiago, precisamos conversar sobre isso. – Rebeca começou a falar um pouco
hesitante. – Não me entenda mal, mas quero deixar uma coisa bem clara. Sexo não
está no nosso acordo, certo? Assim... Como cada um de nós é apaixonado por
outras pessoas, acho que não teria sentido...
- Eu te
entendo e concordo, Rebeca. Você é linda, mas te vejo apenas como minha amiga.
Por mim, podemos deixar claro que no nosso acordo, não haverá relação sexual e
acho que seu pai não precisa saber disso, né?
- Claro
que não. – Ela concordou feliz. - Provavelmente teremos que trocar selinhos e
tudo o que os casais fazem na frente dos outros, mas nada além
disso. Combinado?
-
Combinado. – Sorri de volta, mais aliviado de ter esclarecido isso, porém restou
uma dúvida que eu precisava esclarecer. – Rebeca, nós não teremos sexo entre
nós, mas isso quer dizer que vamos nos manter castos por quase cinco anos?
Ela
gaguejou antes de conseguir me responder.
- Acho
que podemos tomar cuidado para não sermos pegos e o outro ficar como corno. –
Ela falou olhando para todos os lados, menos pra mim.
- Você
está me avisando que vai me trair? É isso? – Falei brincando
- Mais
ou menos isso. – Ela sorriu. – Você acha que somos loucos?
- Acho
que somos loucos por termos sidos criados por pessoas sem caráter. – Respondi
honestamente, mas me arrependi quando vi que Rebeca havia ficado triste.
- Se
minha mãe estivesse viva, ela jamais deixaria que isso acontecesse. Aquele
tirano ainda me paga...
Com o
tempo, Rebeca e eu nos tornamos grandes amigos que iriam se casar. Contei a ela
sobre o meu desejo de voltar para o Brasil e meu medo de que a Anne tivesse me
esquecido. Ela me contou sobre suas aventuras amorosas e todos os transtornos
que causou de propósito ao seu pai. Encontrei nela uma verdadeira companheira,
mas minha mente, meu coração e meu desejo tinham outro nome.
Agora
que estou ao lado da Rebeca e à beira de assinar o documento que me tornará
legalmente o marido dela, a coisa que a Rebeca quer é que acabe de uma vez, sei
disso por seu bufar e revirar de olhos a cada frase que o juiz de paz
pronuncia. E posso garantir que ela percebe que sinto o mesmo. Minha vontade de
fugir daqui é quase insuportável, mas não posso. Estou preso por no mínimo mais
dois anos em um casamento de fachada.
Continua na Segunda Feira....



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