sexta-feira, 18 de abril de 2014

Capítulo Especial - Casamento do Tiago


Existem momentos na vida de um homem que ele precisa escolher entre a coisa certa a fazer ou a sua felicidade. Muitas vezes essas duas coisas são as mesmas. O que não é o caso neste momento. Esse é o momento em que estou tendo que escolher entre a coisa certa a fazer ou a minha felicidade. Estou parado em frente ao um juiz de paz pronto para me casar e a única coisa em que eu consigo pensar é na minha Anne.
Meu coração está apertado e sinto um embrulho no estomago. Se bem que esse embrulho no estomago pode ser por conta da ressaca, já que ontem eu bebi tudo o que encontrei pela frente e tive uma verdadeira despedida de solteiro com alguns colegas de faculdade. Eu queria beber tanto que tivesse entrado em coma e assim estaria internado em um hospital e não aqui, esperando a Rebeca entrar pela porta do cartório com a mesma vontade de se casar que eu.
Ambos estamos casando por motivos que em nada tem a ver com amor. Eu estou casando por dois motivos, e nenhum deles é amor, paixão ou desejo.
Meu amor ficou no Brasil. Meu amor e meu coração ficaram com a única garota que amei. Annelise Pimenta. Nesse momento sou apenas a casca de um homem. Apenas uma marionete sendo controlada por cordas invisíveis, mas muito fortes. Estou casando para salvar meu pai de ser preso.
Quando viemos do Brasil para Portugal, meu pai conseguiu um cargo de médico no Hospital Pediátrico de Coimbra. Em pouco tempo, foi ganhando responsabilidades e notoriedade entre a diretoria do hospital. Não se passou mais de seis meses até que ele conseguisse um cargo de chefia dentro do hospital. Passou de um mero pediatra para diretor do departamento de neuropediatria do hospital. Junto com o cargo, veio a ganância que se juntou ao mal caratismo que eu não sabia que ele tinha. Cerca de dois meses após ser nomeado diretor, meu pai já havia trocado de carro, comprado uma casa e mudado radicalmente o estilo de vida, passando a gastar mais e comprar coisas que até então não teríamos condições de ter se ele fosse um diretor comum. Meu pai estava roubando o hospital.
Como a parte de licitações do setor neuropediatrico era de sua responsabilidade, ele passou a receber propina para que escolhesse uma determinada empresa, recebia uma porcentagem do valor total da compra por superfaturar os produtos comprados, cobrava do governo por atendimentos feitos a pacientes que tinham plano de saúde, então nesse caso ele recebia dos planos de saúde e do governo. Resumindo, ele deu um desfalque de milhões de euros no hospital. É obvio que dentro de pouco tempo, foi descoberto. Quando faltava cerca de três meses para eu completar dezoito anos, a bomba explodiu.
Muitas lágrimas da minha mãe, desespero do meu pai e reuniões intermináveis depois, meu pai conseguiu um acordo com o diretor geral do hospital, o doutor Luis Henrique Mota, pai da Rebeca.
Numa noite, assim que voltei do emprego de officeboy que havia arrumado em uma pequena imobiliária, meu pai e minha mãe estava me aguardando na sala. Eles não se olhavam, mas dava para sentir a tensão no ar.
- Tiago, por favor sente-se. Precisamos conversar com você. – Meu pai disse de maneira formal.
Não questionei, estava escrito na cara deles que a conversa era séria. Quando me sentei, meu pai começou a me contar tudo o que havia acontecido e tudo o que ele havia feito, desde puxar o tapete de colegas para ser promovido, até a parte da roubalheira. Ouvi tudo calado. Depois de alguns minutos que ficamos em silêncio, repassei na minha mente tudo o que ouvi, tentando assimilar o quando isso iria mudar na minha vida e simplesmente não consegui imaginar o que iria acontecer a partir dali. Porém meu pai deixou para o final a parte que me cabia.
- Meu filho, você não vai dizer nada? – Ele perguntou tenso.
- Quanto tempo você tem até ser preso? – Perguntei encarando-o. Não era isso que eu queria dizer, queria dizer que sentia vergonha de ser seu filho, que tinha nojo do homem que ele era e que não ligava a mínima para o que iria acontecer com ele, mas ver minha mãe as lágrimas me impediu de agredi-lo com palavras como eu gostaria.
- Na verdade... – Ele disse lentamente e deu uma olhada rápida para minha mãe. – Existe uma forma de eu não ser preso.
- Você está pensando em fugir? – Perguntei me exaltando.
- Não. Nada disso. – Ele baixou os olhos antes de acrescentar. – Eu preciso que você se case com a filha do doutor Luis, assim ele vai acobertar o meu desfalque.
- Você quer o que? – Perguntei incrédulo. Eu só podia ter ouvido errado.
- Tiago, entenda. O doutor Luis possui uma filha que está dando muito trabalho e ele acha que casá-la pode ser a solução dos problemas dele, então como ele sabe que eu tenho um filho solteiro e com a mesma idade da filha dele... Ele propôs perdoar o desfalque em troca do casamento de vocês.
- Você só pode estar ficando maluco se acha que vou me casar com uma garota que nem conheço apenas para salvar a sua pele. – Explodi. – Estou contando os dias para voltar para o Brasil e casar com quem eu realmente amo e você acha que vou abrir mão disso pra salvar a sua pele? Você não quis ganhar dinheiro na mão grande? Então aguente as consequências. Enfrente os seus problemas sozinho. Já que na hora de roubar você fez sem perguntar a minha opinião, não serei eu a socorrê-lo agora. Seja preso e pague pelo seu crime.
- Tiago... – Minha mãe gritou comigo para que eu parasse de falar.
Depois de cuspir tudo na cara do meu pai, vi seu rosto ficar pálido e lentamente ele cair desmaiado. Horas mais tarde eu estava sentado em um corredor de hospital, esperando alguma notícia sobre o cateterismo que meu pai teve que fazer as pressas. Uma mistura de culpa e ressentimento me corroía. Após o procedimento, o médico aconselhou a minha mãe e eu, que evitássemos ao máximo deixar meu pai passar por estresse ou qualquer tipo de preocupação que pudesse elevar a pressão arterial dele.
Depois das recomendações médicas, minha mãe implorou para que eu aceitasse casar com a tal filha do doutor Luis. Ela estava tão desesperada para que eu aceitasse, que me propôs casar e depois de algum tempo separar e ai eu teria toda a sua benção para procurar a Anne. O que ela não entendia era que eu havia prometido a Anne que voltaria quando completasse dezoito anos. Eu sentia que precisava voltar o quanto antes, mas ao mesmo tempo em que eu pensava em voltar, eu tinha medo de voltar e encontrar a Anne com outro. Isso seria demais pra mim.
Porém como eu poderia voltar para o Brasil e largar minha mãe e meu pai a própria sorte? Que tipo de pessoa eu seria se não ficasse ao lado da minha mãe, pelo menos? Ela já havia sofrido muito com o motivo que nos trouxe para Portugal, eu não suportaria vê-la sofrer ainda mais. Mesmo a contra gosto, aceitei participar daquela farsa, mas seria nos meus termos.
Dias depois, consegui marcar um encontro com a tal filha problemática em um café perto do hospital. Ela chegou com quase meia hora de atraso. Quando entrou no café, seu rosto não precisava de legenda, estava claro que ela não gostava daquela situação tanto quanto eu. Sendo assim preferi ser franco com ela, já logo de início.
- Oi. Eu sou o Tiago. – Disse ao estender a mão para cumprimentá-la.
- Rebeca. – Ela disse simplesmente.
Ninguém poderia acusá-la de ser simpática.
- Rebeca, sente-se por favor. Vamos conversar sobre essa palhaçada de casamento de modo civilizado e entre nós dois. Sem interferências.
A mudança na sua postura foi automática.
- Uau, pelo visto não sou a única aqui que está sendo empurrada para um casamento. – Ela comentou sorrindo e sentando-se mais relaxadamente.
- Você deve saber por que estou sendo obrigado a casar. – Ela balançou a cabeça concordando. – Agora quero saber onde estou me metendo. Porque você está sendo obrigada a casar?
- Porque ou eu caso, ou serei deserdada. – Ela respondeu sem me olhar.
- Você vai casar para não ser deserdada? Por dinheiro? – Perguntei chocado.
- Não é só por isso. - Ela pareceu ofendida. – Meu pai está ameaçando a pessoa que eu amo...
- Entendo... – Depois de algum tempo de constrangimento entre nós dois, consegui acrescentar. – Você acha que podemos fazer um acordo entre nós?
- Estou torcendo por isso...
Aquela foi a primeira de muitas conversas francas que tive com a Rebeca. Depois desse dia, nós decidimos que iríamos nos casar e passar algum tempo casados e logo que possível iríamos nos separar. O que eu não esperava era que meu futuro sogro fosse mais filho da puta do que eu imaginasse. Ele me fez assinar um contrato completamente sem fundamento, onde continham todas as cláusulas que regeria o meu ‘relacionamento’ com Rebeca. Deveria haver pelo menos dois anos entre o namoro e o casamento, mais três anos de casados antes que quaisquer um dos dois pudessem pedir o divorcio e se a Rebeca engravidasse, poderia ser abatido um ano a menos no tempo obrigatório após o casamento. Em troca ele se propunha em camuflar o desfalque feito por meu pai, porém iria guardar provas que me seriam entregues depois do prazo mínimo do casamento. Era uma loucura total, mas eu já havia aceito e não poderia voltar atrás. Havia apenas algumas questões a serem esclarecidas e uma delas era muito importante. Tanto que em um dos nossos encontros, Rebeca engoliu a vergonha e trouxe à tona um assunto que a algum tempo me perturbava.
- Tiago, precisamos conversar sobre isso. – Rebeca começou a falar um pouco hesitante. – Não me entenda mal, mas quero deixar uma coisa bem clara. Sexo não está no nosso acordo, certo? Assim... Como cada um de nós é apaixonado por outras pessoas, acho que não teria sentido...
- Eu te entendo e concordo, Rebeca. Você é linda, mas te vejo apenas como minha amiga. Por mim, podemos deixar claro que no nosso acordo, não haverá relação sexual e acho que seu pai não precisa saber disso, né?
- Claro que não. – Ela concordou feliz. - Provavelmente teremos que trocar selinhos e tudo o que os casais fazem na frente dos outros, mas nada além disso. Combinado?
- Combinado. – Sorri de volta, mais aliviado de ter esclarecido isso, porém restou uma dúvida que eu precisava esclarecer. – Rebeca, nós não teremos sexo entre nós, mas isso quer dizer que vamos nos manter castos por quase cinco anos?
Ela gaguejou antes de conseguir me responder.
- Acho que podemos tomar cuidado para não sermos pegos e o outro ficar como corno. – Ela falou olhando para todos os lados, menos pra mim.
- Você está me avisando que vai me trair? É isso? – Falei brincando
- Mais ou menos isso. – Ela sorriu. – Você acha que somos loucos?
- Acho que somos loucos por termos sidos criados por pessoas sem caráter. – Respondi honestamente, mas me arrependi quando vi que Rebeca havia ficado triste.
- Se minha mãe estivesse viva, ela jamais deixaria que isso acontecesse. Aquele tirano ainda me paga...
Com o tempo, Rebeca e eu nos tornamos grandes amigos que iriam se casar. Contei a ela sobre o meu desejo de voltar para o Brasil e meu medo de que a Anne tivesse me esquecido. Ela me contou sobre suas aventuras amorosas e todos os transtornos que causou de propósito ao seu pai. Encontrei nela uma verdadeira companheira, mas minha mente, meu coração e meu desejo tinham outro nome.

Agora que estou ao lado da Rebeca e à beira de assinar o documento que me tornará legalmente o marido dela, a coisa que a Rebeca quer é que acabe de uma vez, sei disso por seu bufar e revirar de olhos a cada frase que o juiz de paz pronuncia. E posso garantir que ela percebe que sinto o mesmo. Minha vontade de fugir daqui é quase insuportável, mas não posso. Estou preso por no mínimo mais dois anos em um casamento de fachada.



Continua na Segunda Feira....




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