Seis meses depois
Hoje é a Forma e Corpo Fest, uma festa que o dono da academia
criou para promover a confraternização entre alunos e colaboradores e de
quebra, angariar verbas para a reforma da academia. Com a venda das camisetas a
quinze reais, com direito a duas bebidas, Buffet livre, muita música, dança e
diversão.
A festa acontecerá no salão da academia e pelo que o seu
Ângelo falou as vendas das camisetas foram muito boas. Estou animada, porém
receosa de como a festa vai rolar. Principalmente com as apresentações de dança
da Anne e do Diego. Anne é minha melhor amiga e está grávida do Tiago seu amigo
de infância, amor de adolescência. Este morre de ciúmes do Diego que é o
Partner dela e de algum tempo pra cá ele também é professor de dança da
academia. Essa entrada dele para o corpo docente da academia fez com que ficássemos
mais próximos, posso dizer que nos tornamos amigos.
Anne e ele tiveram um caso durante anos além de serem
parceiros de dança, mas pelo que soube pela Anne, o caso acabou e ficou apenas
a parceria e a amizade. Acho que o Tiago ainda não sabe da gravidez, mas tenho
certeza que ele não vai gostar nada de ver a Anne e o Diego juntos. Sei que
eles estão brigados, mas Tiago, que se tornou meu aluno de pilates para ficar
perto dela, já me confirmou que também estará na festa. Torço muito pela minha
amiga e espero que ela consiga ser feliz com o amor de sua vida.
Sou uma romântica incurável, vivo tentando encontrar um amor
verdadeiro e “eterno”, mas estou começando a me convencer que esse tipo de
coisa não é para mim. Só escolho os homens errados, até quando tento fazer sexo
casual eu me ferro. A única vez que tentei fazer sexo casual, o cara era
casado, só que esqueceu de me avisar desse “pequeno” detalhe. Até hoje fico com
raiva de mim mesma quando lembro desse fato, sofro um pouco por ter um dedo tão
podre para homens. Agora quero me dedicar a mim, afinal um homem solteiro,
bonito e fiel está difícil de encontrar e estou decidida a parar de procurar.
- Terra chamando De-bo-rah. – Anne fala estalando os dedos
em minha frente e me dando um belo susto.
Coloco as duas mãos no coração e digo: - Ai, Anne, você
quase me mata. Isso não se faz mulher.
- Você que estava sonhando acordada. Tenho certeza que
estava pensando em algum homem lindo. Eu entrei e o meu salto até fez barulho
no chão, mas você nem percebeu.
- Estava pensando na festa de hoje e que eu vou aproveitar
muito. Não quero ficar com ninguém, mas quero beber e dançar bastante. – Digo,
enquanto tranco a porta do meu armário, de onde tirei a minha bolsa que fico
segurando em uma mão e minha chave na outra mão.
- Vai pra casa ou vai trocar de roupa aqui? – Anne pergunta
tirando as sandálias de salto. Meus pés doem só de olhar para os dela.
- Vou pra casa, moro tão pertinho. Vamos lá pra casa, dá
tempo são 18h. A festa só começa 20h. Dá tempo de sobra para um banho e comer
algo. – Falo sentando na cadeira, para esperar a resposta dela.
- Só vou se você me prometer fazer uma daquelas massagens
que você faz no pé. Juro que nem quero comida. Só a massagem, um banho e eu vou
ficar feliz da vida.
- Desde que você não me peça para te dar banho também,
estamos combinadas. E a senhora vai comer sim, não quero um sobrinho ou
sobrinha magrelo. – Nós duas caímos na risada e levantamos para ir embora. –
Deixa o carro ai, são só duas quadras.
- Hoje meus pés estão doendo e ainda tenho apresentação com
os meus alunos daqui a pouco. – Ela diz e continua andando para o
estacionamento.
- O Tiago tá morrendo de ciúmes de você e do Diego. Tadinho
Anne. Se ele realmente te traiu ele sabe fingir muito bem, pois ele parece
estar sofrendo horrores com essa separação. Já contou a ele da gravidez? –
Pergunto quando chegamos próximas ao carro dela.
Ela destrava as portas, entra no carro e só depois que
coloca o cinto responde: - Tá com pena? Leva para casa.
- Olha! Não oferece que eu levo e não devolvo mais. – Falo
dando uma piscadela e quando ela faz menção de dizer mais alguma coisa
completo. – Para de oferecer o que você não está preparada para dar. Eu não
quero, mas vai que você oferece a uma que queira? Depois fique ai chupando
dedo.
- Quanto ao Diego estamos mantendo o profissionalismo e a
amizade, afinal, dançamos juntos há algum tempo e nunca o enganei. Sempre
deixei claro que a coisa entre nós era só sexo e dança. A princípio ele ficou
com o ego ferido, mas já passou. Ele até me disse que está à procura de uma
namorada, alguém para um relacionamento de verdade, o qual ele só teve na
adolescência. Por trás daquele macho durão, existe um romântico a moda antiga.
Até falei pra ele que vocês deviam ficar juntos. São dois românticos. – Ela falou
mudando de assunto, sei que ela não quer ficar falando muito do Tiago. Mesmo
assim preciso tentar ajudar ela a ver o quanto eles se gostam.
- Eu não, sou muito ciumenta para ficar com um cara que eu
sei que é apaixonado por outra. Até que durante esse tempo que você esteve em
Madrid nos aproximamos bastante. Mas é só amizade ele nunca demonstrou nada
além disso.
- Ele não é apaixonado por mim, apenas confundiu tesão com
amor. Sempre fomos muito amigos e ele achou que bastava amizade e tesão para
que se amasse outra pessoa. Hoje eu o vejo mais como um irmão do que como um
homem com quem eu queira transar. – Fiquei calada, não sabia o que responder.
Nunca tinha pensando nas coisas entre eles dessa forma. Afinal, são mais ou
menos 4 anos nesse rolo. Seguimos o restante do caminho até a minha casa
conversando coisas do cotidiano.
***
- Vai tomar banho, Anne. Vou colocar água no fogo para fazer
um banho relaxante para o seu pé. – Vou falando e seguindo em direção a
cozinha.
- Adoro esses chás que você faz para os pés. Outro dia fiz
um em casa, mas não teve o mesmo efeito. – Quando eu ia responder ela já tinha
entrado no banheiro. Coloquei a chaleira grande no fogo bem baixinho e fui
tomar um banho rápido no banheiro do meu quarto.
Moro sozinha em um apartamento com dois quartos, sendo um
deles suíte, uma sala com a cozinha conjugada e um pequeno banheiro para
visitas. Fica no centro de Florianópolis.
Eu sou de Pomerode, uma cidadezinha do interior de Santa
Catarina há aproximadamente 160km da capital, mas já estou há oito anos aqui.
Vim assim que terminei o segundo grau, pois passei no vestibular na UFSC para
cursar Educação Física. Vim morar na casa de uma amiga, Evellin, somos amigas
desde que nascemos.
A família dela mudou para cá quando ela tinha 8 anos e ela
ficou lá no interior morando com os avôs. Só veio quando passamos no
vestibular. Meus pais mandavam dinheiro para ajudar nas despesas, só que Dona
Goret e seu Lineu não aceitavam de jeito nenhum. Com pouco tempo comecei a
trabalhar em uma clínica de estética e no meio do segundo semestre passei a
estagiar em uma academia e continuava na clínica sempre que podia, depois de
dois anos já tinha juntado um dinheirinho bom. Dei entrada no meu cantinho e
financiei o resto. É pequeno, mas bem localizado e o melhor de tudo, é meu.
Depois de formada, fiz cursos de especialização em pilates e como sou
apaixonada por reflexilogia, podologia e tudo relacionado à massagem, acabei
fazendo alguns cursos sobre esses assuntos. Estou bem tentada a fazer uma
segunda faculdade, mas agora voltada para a fisioterapia. Porém isso são planos
apenas.
Termino meu banho, coloco um conjunto de lingerie de renda
creme e um vestido indiano por cima, só para não ficar nua e nem sujar de óleo
de massagem, a roupa que vou sair. Já deixo separado o que vou vestir e calçar.
Uma mini saia preta com a camisa da festa, que mandei em uma costureira para
deixá-la em estilo baby look com alguns detalhes nas costas, que não mostra a
pele e uma sandália preta de salto alto, porém confortável. Pois quero
aproveitar e dançar muito.
Entro na sala e nem sinal de Anne. Bato na porta do banheiro
e aviso que tem um roupão pendurado na maçaneta para ela vestir. Depois volto
para a sala, conecto o Ipad na caixinha e coloco a playlist de músicas
instrumentais.
Vou para a cozinha e vejo a temperatura da água. Está no
ponto, por isso já pego a chaleira em uma mão e na outra o balde no estilo
ofurô, que ganhei de presente da minha madrinha. Ela comprou em uma cidade no
interior da Bahia, quando foi para lá em uma excursão da igreja. Eu adorei,
claro. O material dele parece madeira e ele é comprido chegando à altura da
panturrilha. Coloco o balde em frente ao sofá onde Anne vai sentar, despejo as
bolas de gude que estavam em cima da mesinha de centro dentro de um pote de
vidro sem tampa, por cima despejo a água quente e vou pegar um pouco de água
fria, deixo a temperatura um pouco mais quente do que o aceitável, mas que eu
sei que não vai queimá-la. Duas gotas de essência de arruda que é ótima para
ativar a circulação e duas de menta que, combatem o cansaço e livram as pernas
da sensação de peso.
- O segredo está na temperatura da água e na fragrância que
você usa. – Explico quando Anne senta no sofá. – Vou pegar um suco e uns
sanduíches para comermos antes de eu colocar as mãos nos seus pés. Além do café
você enjoou mais alguma coisa? – Ela balança a cabeça dizendo que não e depois
fala.
- Hmmm, a água está muito mais quente do que eu deixei. O
que é isso aqui em baixo?
- Bola de gude, elas ajudam a relaxar. – Respondo abrindo a
geladeira.
- Você e suas mandingas. Não sei com quem aprende essas
coisas.
Nem respondo já estou acostumada com ela falando isso. E ela
bem que gosta das minhas “mandingas”.
Quando volto pra sala ela está recostada na poltrona de
olhos fechados e passando os pés nas bolas. – Isso é bom. – Ela geme.
- Anne. – Ela abre o olho e pega o prato e o copo da minha
mão. Comemos em um silencio confortável e quando terminamos coloco os pratos na
pia, pego a toalha e o óleo que deixei no balcão e volto pra sentar na mesinha
de centro.
Tiro um pé dela da água enxugo, coloco um pouco de óleo na
mão e esfrego uma na outra, depois massageio primeiro a panturrilha e vou
descendo para o pé, vou colocando a pressão necessária, mas sem demorar, para
que ela não pegue no sono. Quando termino apoio o pé dela na mesa. Repito o
mesmo procedimento no outro.
- Melhor? – Pergunto pegando as coisas para colocar no
lugar.
– Muito melhor, só as bolinhas e a água já tinham ajudado e
muito. A massagem quase me fez dormir. Um pouco mais e tenho certeza que pegava
no sono. – Dei uma risadinha e uma piscadela para ela por cima do ombro. –
Sabia que tinha sido proposital. – Disse ela indo se arrumar.
- Eu nem falei nada. – Respondo com cara de quem não fez
nada demais. Ela agradece e entra no quarto.
***
Quando chegamos à academia nós nos separamos. Anne foi
encontrar seus alunos para se organizar para apresentação e eu vou direto ao
bar. Preciso mesmo de algo para beber.
Peço um drink e sento no banquinho enquanto espero. Cumprimento
algumas pessoas que passam. Minha bebida chega, pego entrego a ficha e dou um
bom gole.
- Oi, Deb! – Tiago, ex/atual da Anne, me cumprimenta,
parando na minha frente.
- Oi, Tiago! – Respondo saboreando o meu drink.
- Não vou fazer rodeios, você sabe onde a Anne está? – Ele
pergunta enquanto faz sinal para o barman.
- Ela foi se preparar para a apresentação. – Quando eu
respondo, ele resmunga alguma coisa que não entendo e quando pergunto o que ele
disse, ele só diz que é melhor que eu não tenha entendido.
Depois de um tempo começam as apresentações. Todas as turmas
de dança de salão se apresentam. Diego e Anne dividiram as turmas em quatro
grupos, todos dançando samba de gafieira. Um grupo se apresenta com a música Mulheres na voz de Martinho da Vila, outro grupo se apresenta ao som de Deixa Eu Te Amar na voz de Diogo Nogueira, logo em seguida vem Anne
e o Diego ao som de Alcione cantando Meu Ébano. Adoro ver eles dois dançando
juntos, é algo tão natural que fico boquiaberta olhando para eles. Acho que
essa música foi escrita, inspirada no Diego. O cara é muito lindo e capaz de
deixar qualquer mulher de quatro por ele e pra ele. A Anne deve ter algum
problema sério ou ter um amor verdadeiro pelo Tiago, porque não se apaixonar
pelo charme e pelo jeito do Diego, só amando muito outro alguém.
Depois mais dois grupos apresentam um ao som de Revelação
com Deixa acontecer, o outro ao som de
Beth Carvalho com O coisinha tão
bonitinha do pai e por fim mais uma apresentação da Anne e do Diego dessa
vez com uma dança Flamenca com ao de Armik
com a música Dancing Shadows.
As apresentações acabam, a pista de dança é liberada e a
banda começa a tocar variados estilos de música. Danço com alguns alunos, com
alguns desconhecidos e lá pela sexta ou sétima musica ouço uma voz profunda no
meu ouvido.
– Agora é a minha vez. – Viro o rosto em direção a voz e dou
de cara com a boca do Diego que está na altura dos meus olhos. Respiro fundo e
subo os olhos pelo rosto lindo e másculo dele até encontrar seus olhos felinos.
Continua na Terça Feira....



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