terça-feira, 10 de junho de 2014

Capítulo 02

Diego e eu não éramos amigos até a Anne viajar e ele assumir as aulas dela. Conversávamos sempre e algumas vezes ele me deu carona até em casa, apesar de não ser muito necessário, já que moro a poucas quadras daqui.
- Não danço tão bem quanto a Anne. – Respondi sem filtrar a resposta.
- Eu não vim até você pra dançar com a Anne. – Ele fala olhando nos meus olhos, a voz firme e chateada.
- Desculpa não foi isso que eu quis dizer. – Falo rapidamente meio que sussurrado, na verdade não tenho certeza se foi isso que quis dizer ou não.
- Obrigada pela dança, Deborah. – Alan, que é um dos alunos da Anne, fala quebrando aquele clima desconfortável entre Diego e eu.
 – De nada, Alan. E pode me chamar de Deb, todos me chamam assim. – Alan assenti e entrega minha mão a Diego, que pega e me puxa para junto dele. Está tocando um samba e dançamos com fluidez, é muito fácil dançar com ele. Ele tem uma condução tão perfeita que é quase impossível não fazer alguma coisa sob seu comando. Ele gosta de dançar olhando nos olhos e faço o possível para não desviar.
A música vai mudando de ritmo, vai ficando lenta e quando me dou conta já estou com os braços enlaçando o pescoço dele e ele com as duas mãos na minha cintura. Isso está ficando muito intenso. Quando a música termina digo a ele que preciso ir ao banheiro, mas ele segura minha mão e sai da pista de dança comigo, me levando até porta do banheiro. Agradeço e solto a mão dele.
Dentro do banheiro respiro fundo. Que loucura! Conheço o Diego a alguns anos e nunca rolou clima entre nós dois. Mesmo nesse período que a Anne viajou, nunca deu em cima de mim ou me tratou de maneira diferente. Não posso deixar de pensar que isso pode ser a forma que ele encontrou de sarar a dor de cotovelo pela Anne estar grávida de outro. Tudo bem eu sei que sou bonita e atraente, mas esse interesse dele por mim parece repentino demais. Sempre achei que ele fosse apaixonado pela Anne e de repente... “Aff, Deborah Christina, você pensa demais. Para de ser tão racional um pouco e simplesmente viva. ”
Lavo o rosto, retoco a maquiagem e saio do banheiro direto para o bar. Peço uma cerveja e mais um coquetel. Bebo a cerveja toda em três longos goles. E quando o coquetel chega entrego a latinha vazia ao barman.
– Estava com sede em, Deb? - Diz o garçom, que eu sei trabalha na academia, só não consigo lembrar o nome dele.
- Dancei muito, fiquei com sede e calor. – Ele balançou a cabeça com um sorrisinho de quem entendia e seguiu para atender outra pessoa.
Permaneci por um tempo apoiada no bar. Alan veio e ficamos conversando, ele é um cara magro, alto, cabelos negros espetadinhos e olhos castanhos. Descobrir que ele tem 35 anos, é separado a mais ou menos um ano e tem dois filhos. Achei graça quando ele disse que sempre têm recaídas quando encontra a ex e, que está à procura de uma mulher para ver se isso acaba. Ri alto e ele ficou sem graça, pedi desculpa, mas no fim até ele deu risada. Ele pediu um coquetel para mim e uma cerveja para ele. Ficamos conversando por um tempo, até Alan me chamar para dançar. Dançamos uma sequência de forro pé de serra. Adoro dançar forro, apesar de não ser muito boa nisso.
– Deb, se importa se eu quiser trocar de parceira? – Alan perguntou de uma forma estranha, não entendi o que estava acontecendo.
– Não me importo, inclusive posso ir para junto da Anne. – Falei olhando pra onde Anne estava parada próxima a pista de dança.
- Não, tem que ser troca, Diego tirou a Verônica para dançar, ele é um safado galanteador, não o quero com as mãos na minha mulher. – Acho que ele nem percebeu o que tinha acabado de falar.
- Podemos trocar sim. – Ele foi me girando e dançando até nos aproximarmos do Diego e uma mulher baixinha, branquinha, com o cabelo liso e negro na altura dos ombros, ela e Diego era um contraste enorme.  Ficamos lado a lado, Alan observou quando o Diego girou ela e nesse momento ele me girou e seguiu para pegar sua presa.
- É a esposa dele. – Expliquei quando percebi que Diego olhava para mim de uma maneira estranha, não consegui identificar se isso nos olhos dele é diversão ou chateação. – Mas se não quiser dançar comigo não tem problema, estou mesmo querendo dar uma parada e ir ao bar tomar alguma coisa. – Me apressei em falar quando vi que a expressão no rosto dele não mudou.
Virei para sair da pista de dança mas o Diego não me soltou, ele colou mais meu corpo ao dele e baixou seu rosto para que ficássemos da mesma altura. Olhos nos olhos. Nos encaramos e eu prendi a respiração. Lentamente seu rosto se aproximou do meu, nossos olhos fixos um no outro, ele como que a espera de uma reação contrária ao que ele estava fazendo e eu como esperando que ele desistisse e se desculpasse. Ele vai realmente me beija? Quando faltavam apenas alguns centímetros nos separando, ele parou e esperou. Senti sua respiração ofegante acariciando meus lábios. Oh, meu Deus! Que delícia! Ele esperava pacientemente que eu desse o passo inicial. Estava em minhas mãos terminar com essa misera distância entre nós ou me afastar e quebrar o clima. Sua mão passou pelas minhas costas parando na parte de baixo da minha coluna, colando seu corpo ao meu.
- Deb... – Ele sussurrou com a voz grave e rouca. Não era apenas meu nome saindo daqueles lábios magníficos, era uma pergunta, quase um gemido.
Assentir com a cabeça e ele fechou a distância entre nossas bocas colando a dele a minha. Primeiro nossos lábios ficaram colados um no outro sem nenhum dos dois mover, depois ele deu vários selinhos nos meus lábios e por fim a língua dele já estava implorando para que eu deixasse ela entrar. O homem beija como dança. Firme, forte e é impossível não segui seu ritmo. Nossas línguas se enrolavam juntas numa dança frenética que me encheu de tesão. Ele tem gosto de tequila. Sinto como se ele estivesse fazendo amor com a minha boca. Ele beija sem pressa mais com vontade, como quem está morrendo de fome e encontrou o manjar dos deuses, e não quer comer tudo de uma vez para que não acabe logo. Então ele come com paciência, como quem tem todo o tempo do mundo. Isso não pode ser chamado de beijo, de jeito nenhum.



Aperto os ombros dele para me apoiar, minhas pernas estão bambas acho que os três coquetéis e a cerveja junto com a tequila dos lábios dele me deixaram bêbada. A minha mente está em branco. Ele vai diminuindo o ritmo e quando nossas bocas se descolam ele respira fundo e encosta minha cabeça em seu peito. Tento controlar a minha respiração e percebo que ele também está tentando controlar a dele. Nossos corações estão disparados. Abraço sua cintura e esfrego uma mão em suas costas, a outra ele segura, mantendo em cima do seu coração. Não dançamos apenas nos abraçamos. Meus olhos voltam a ficar na altura dos lábios dele. Observo que eles estão ainda mais volumosos do que são normalmente. E acabei deixando a marca do meu dente no lábio inferior dele, ele percebe que estou olhando e passa vagarosamente a língua gostosa, no lábio.
- Está doendo? – Pergunto ainda encarando o lábio dele.
- Está falando comigo ou só com a minha boca? – Ele pergunta com um sorrisinho divertido.
- Ainda não sei bem com qual dos dois. – Respondo com um sorriso, desviando relutantemente os olhos daquela boca e fitando os olhos dele.
- Ainda tem dúvidas que eu quero dançar com você? – Ele pergunta com um sorrisinho de lado e não responde o que perguntei.
- Você fez de propósito? - Pergunto sem acreditar. – Você sabia que aquela é a mulher do Alan?
- Ex-mulher, mas sim, sabia. Ela faz aula de dança com ele, percebi que o Alan morre de ciúmes dela, quando vi ele de charminho para você resolvi convidar a Verônica para dançar. - Ele ri e me beija novamente. Decido armazenar essa informação para pensar nela mais tarde. Continuamos a dançar mais um pouco até eu ficar cansada e com sede. Ele pega na minha mão, quando eu digo que preciso beber algo e seguimos de mãos dadas para o bar.
- O que vai querer?
- Uma água. – Ele suspende a sobrancelha como quem pergunta: “sério?”, e me apresso em explicar. – Já bebi o bastante, preciso de uma água antes de tomar mais alguma coisa alcoólica.
Ele faz os nossos pedidos com um sorrisinho no canto da boca. Assim que o garçom que agora lembrei, se chama Breno coloca nossas bebidas no balcão dou uma grande golada na água e falo ao Diego:
 - Vou ali à mesa ver o que tem de gostoso. - Dou uma piscadela pra ele e sigo para a mesa.
Pego um prato e coloco algumas fatias de queijo, presunto, salame, uns pãezinhos de queijo, um cacho de uva e alguns morangos. Quando volto para o local que estávamos Diego aponta para segui-lo em direção a uma mesa.
Sentamos um ao lado do outro e percebo que inconscientemente ou conscientemente estamos com as nossas mãos esquerdas apoiadas uma na outra. Comemos, bebemos e conversamos trivialidades. A conversa flui naturalmente e falamos sobre tantas coisas. Eu digo a ele que não sou de Florianópolis e que vim para cá estudar.
- E você não sente falta de lá? – Ele pergunta e pega um pãozinho. Vejo ele abrir a boca e fechá-la ao redor do pão. Os lábios dele são de uma cor única, um marrom avermelhado que eu nunca vir antes. E ele tem um sinal no lábio inferior do lado esquerdo. É um sinal bem pretinho, parece feito com lápis de olho. Ele começa a mastigar e eu respiro fundo me forçando a desviar o olhar daquela boca linda. Como eu nunca tinha prestado a atenção em tamanha perfeição da natureza?
- Vai responder ou seu interesse é só nos meus lábios? – Pergunta com falsa chateação.
- Desculpa, mas essa sua boca... Devia ser ilegal ter lábios tão lindos. – Não sei qual o problema do meu cérebro hoje. Parece que meu filtro foi desligado.
- Ainda lembra o que eu perguntei, Deborah? – Ele fala meu nome de um jeito diferente, como se soletrasse cada silaba.
- Sinto falta porque foi lá que cresci, deixei meus amigos e minha família. Hoje não sinto mais tanta falta, já tenho amigos e construir minha vida aqui. Mas confesso que os dois primeiros anos foram os mais complicados, principalmente por causa das minhas crianças. – Falo pensando em meus sobrinhos e afilhado.
- Suas crianças? Quantos anos você tinha quando chegou aqui? – Ele pergunta com as sobrancelhas levantadas. Sorrio.
– Minhas crianças são meus sobrinhos e um afilhado que é muito apegado a mim. Tinha 17 anos. – Ele dá um sorrisinho, belisco a mão dele.
Ele me disse que é da Bahia e que veio pra cá junto com a família, quando ainda era criança. O pai dele é engenheiro elétrico e veio trabalhar aqui.
– Minha mãe foi bem clara com ele, se não trouxesse ela, quando voltasse iria encontrar a casa vazia. Ele não teve escolha e trouxe todo mundo. – Diego explica e acho graça.
Conversamos mais um pouco.
– Diego, vou ao banheiro. – Levanto da cadeira e tento soltar minha mão da dele.
– Não é só assim, não. – Franzo a testa em confusão, mas antes que eu possa perguntar o que ele quis dizer com isso, ele me beija, é um beijo simples e rápido mas ainda assim um beijo bom.
Saiu sorrindo feito boba.
Decido que não vou mais beber, não quero fazer nada que possa me arrepender depois. Esse lance com o Diego está gostoso mais como o Alan falou, o Diego é um grande conquistador. Preciso ter cuidado para não acabar saindo machucada, novamente.
Quando volto do banheiro quem estar sentado à mesa onde deixei o Diego, é o Tiago, sozinho. Ele não parece nada feliz. Isso não é bom sinal.
- Olá, cadê a Anne. – Resolvo fazer uma abordagem menos direta. Alguma coisa me diz que, se eu achar ela, encontro o Diego.
– Dançando com o cara do banheiro. – Eu não entendo o que ele quer dizer. E não sei por que, tenho a impressão de que não vou gostar dessa informação. Sigo o olhar dele e não gosto nada do que vejo. Anne está aninhada nos braços de Diego, com a boca no ouvido dele ele está com as duas mãos cruzadas atrás das costas dela e ela com os braços em volta do pescoço dele.
Mas para falar à verdade o que eu esperava? Que depois de tanto tempo juntos eles não sentissem nada um pelo outro? Que com aproximadamente seis meses de “separação”, ele deletasse ela da mente e me conectasse no lugar? Nem tem como algo entre nós dois dar certo. É melhor que acabe antes mesmo de começar. Respiro fundo e desvio o olhar de onde eles estão, mas não antes de Diego ver que eu vi. Balanço a cabeça e sento em frente a Tiago. Tento fazer de conta que aquela cena não mexeu comigo.
- De quem é essa garrafa com água? – Pergunto para Tiago. Ele pisca várias vezes antes de responder.
– Pode bebe, eu tomei um pouco, mas coloquei no copo. – Ele me entrega um copo limpo e eu bebo com vontade.
Diego e Anne voltam sorrindo e olho para Tiago a tempo de ver a sua carranca aumentar. Finjo indiferença aquela cena, mas percebo que ele não estava segurando a mão dela como fez comigo. Anne tenta beijar Tiago e ele vira, ela olha para mim como se eu tivesse a resposta que ela procura. Dou de ombros e balanço de leve a cabeça para que ela saiba que eu não sei.
- E ai, vamos para um barzinho? – Diego pergunta beijando o canto do meu lábio.
– Não, estou cansada. Vou pra casa descansar minhas pernas e dormir. – Não consigo esconder que estou chateada. Antes que eu levante da cadeira ele fala.
- Então, vou levar você. – Como não quero mesmo ir sozinha, aceito.
Nos despedimos do casal que parece começar uma briga séria e seguimos em direção a saída. Vejo Alan com a ex/futura esposa e ele sorri para mim. Sorriu de volta. Não sei o que levou a essa separação, mas sei que isso não vai continuar. Diego pega a nossa troca de sorrisos e franze a testa.
- Você veio de que? – Diego pergunta quando estamos descendo as escadas. Estamos de mãos dadas, ele segurou minha mão no momento que fiquei de pé para sair e, não soltou mais. Eu gosto disso, apesar de ter medo por gostar. Ele desperta em mim sentimentos contraditórios.
- Vim de carro com Anne. – Olho para nossas mãos entrelaçadas. - Eu realmente gosto disso. – Acabo pensando em voz alta.
- Gosta de que? – Diego pergunta parando na recepção vazia.
– Das nossas mãos juntas. Desse seu habito de segurar na mão.
- Não tenho o habito de segurar na mão exceto para dançar. Mas gosto de pegar na sua. Gosto do contraste das nossas mãos juntas, a minha grande e escura, a sua clara e pequena. E gosto principalmente do fato de você não se opor a isso. – Ele fala olhando nos meus olhos. Não sei como responder a isso. Quebro o contato visual e ele fala:
- Vamos andando. A noite está fresca a lua está linda. – Ele fala isso enquanto caminha para sair do prédio. – Lá eu pego um táxi para ir pra casa.
Seguimos andando e conversando. Quando chegamos perto do meu prédio ele fala:
– Gostei de ficar com você, Deb. Quero muito repetir isso. Quem sabe sair para dançar, ir ao cinema, não sei bem o que, mas quero muito ter a oportunidade de ficar com você novamente.
- Também gostei... Porém, acho que isso não é uma boa ideia. Você até pouco tempo era apaixonado pela Anne, eu não sou Dorflex, Diego. – Falei soando mais dura do que pretendia. E tentei rir para amenizar, mas não adiantou de nada.
- Não estou com dor, Deborah. Apenas quero ter a oportunidade de ter algo com você, sair, conversar, namorar como dois adultos normais. Sobre os meus sentimentos pela Anne nem eu sei te dizer se realmente estava apaixonado por ela. Entre a gente sempre foi sexual. Saímos muitas vezes, mas sempre com a finalidade de dançar, o sexo acontecia ou não. Mas não é isso que eu quero com você. – Ele falou com um pouco de irritação na voz.
- Então o que você está me propondo é um namoro a moda antiga? Sem sexo? – Pergunto parando em frente ao meu prédio.
- Quero te conhecer melhor, sair mais vezes contigo. Apesar de nos conhecermos a um bom tempo, só a pouco nos aproximamos de fato e começamos algo que podemos chamar de amizade. Quero ser seu amigo que beija sua boca quando sentir vontade, que vai ao cinema, ao bar, que te liga quando sente sua falta. Eu sou solteiro, você também, então vamos ver aonde isso nos leva. Venho te observando durantes estes meses que estamos mais próximos e eu realmente me sinto atraído por você.
Não sei o que responder. Estou com medo de me machucar mais uma vez. E tenho certeza que se eu sair machucada dessa história vai ser difícil curar essa ferida, mas com diz o ditado: “Quem não arrisca, não petisca.”
– Tudo bem, vamos ficando e ver onde isso vai dar. Certo. – Falo, mas soa como uma pergunta. Solto a mão dele e o abraço.
- Certo. Vou te ligar para marcamos alguma coisa essa semana. E se você sentir vontade, me ligue. Só não atendo quando estou trabalhando, mas sempre retorno. – Ele fala e alisa minha cintura, sobe fazendo carinho em minhas costas, passa pelas ondas loiras do meu cabelo e pára no meu pescoço. Alisa minha nuca e abaixa para apoiar sua testa na minha. Passo as mãos no pescoço dele e depois no cabelo que está cortado bem baixinho.  Nos olhamos pelo que parece ser uma eternidade, até ele me beijar com carinho. Parando antes que o beijo esquente.
- Eu prometi e vou cumprir. – Ele diz parecendo falar com ele mesmo. E se afasta de mim. – Tchau, Deb. Boa noite.

– Tchau, Diego. Boa noite. - Trocamos um selinho, eu abro o portão e entro, quando chego na portaria olho para trás, ele ainda está lá. Acho lindo o fato de ele ter ficado parado me esperando entrar. Solto um beijo, dou uma piscadela e sigo para dentro do prédio.




Continua na quinta feira...




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