quinta-feira, 12 de junho de 2014

Capítulo 03

Subi as escadas pensando na loucura dessa noite de hoje. Eu beijei o Diego, o mesmo que tantas vezes vi com a Anne. Deus, como estou confusa. Também com tudo que bebi e com os beijos que troquei, não tem como não estar com a cabeça bagunçada. É melhor parar de pensar ou vou ficar com o juízo fervendo. Vou esperar ele me ligar, e ver onde isso nos leva. Se ele não ligar tudo bem, faço de conta que a noite de hoje não aconteceu.
Chego em casa passo direto para o meu quarto, tiro a roupa e vou tomar um banho. Nada melhor que um bom banho de chuveiro, para aliviar o cansaço e os pensamentos sem sentido. Saio do banheiro, visto um conjunto de baby-doll que é três peças, calcinha, short e camiseta. Vou a cozinha, pego uma garrafa de água e volto para o quarto. Coloco a garrafa em cima do criado mudo e pego meu celular dentro do bolso da minha saia.
Entro no Facebook para ver o que tem de novo. Algumas notificações e só. Dou uma rápida olhada nós amigos online e percebo que o Diego está entre eles. Penso em puxar conversa, mas depois acho melhor não, saio do face, acendo a lâmpada de leitura que fica no meu criado mudo e aproveito que o sono ainda não chegou para tentar terminar de ler, A Redenção de Gabriel.
Estou totalmente absorta na leitura pensando na delicadeza do amor dos personagens e imaginando como seria ter um amor assim, quando meu telefone apita em sinal de mensagem. Fico surpresa quando vejo que é de Diego, afinal são duas horas da manhã.

Diego – Está acordada?
Deb – Estou. Também está tendo dificuldade para dormir?  
Respondo imediatamente.
Diego – Sim. Você me tirou o sono. Só penso em você.
Não pensei em receber uma resposta tão direta. Que fofo, mas não sei o que responder.
Deb – O que tá fazendo?
Diego – Assistindo filme. E vc?
Deb – Lendo.
Diego – Quer vim assistir filme comigo?
Deb – Melhor não.
Diego – Mais tarde, pode ser?
Deb – Mais tarde que horas?
Diego – 18h? A gente pede uma pizza e assiste um filme. O que acha?
Deb – Combinado. Boa noite Di, te vejo mais tarde.
Diego – Bom dia Deb. Dorme bem.

Continuei lendo e pensando no Di. Já passava das quatro quando consegui dormir.
 Acordo às nove e quarenta e resolvo ligar para o Johnny ver se ele consegui me encaixar em um horário para fazer um dia de beleza. Ligo direto para o celular e ele atende no terceiro toque.
– Johnny amor, tem um tempinho para mim hoje? – Digo bem melosa para ver se cola.
- Oi Mona, não tenho, minha agenda pra hoje está lotada. – Ele sempre diz isso, mas eu sei que ele sempre tem um tempinho livre.
– Poxa Johnny, preciso tanto de você, hoje tenho um encontro com um negão mara e preciso está prontinha pra ele. Minhas pernas estão um horror, minhas unhas nem se fala. Se eu perder o Di, será tudo culpa sua. – Choramingo.
- Negão? Bofe novo, colega? – Ele diz todo interessado.
– Sim, um negão lindo e gostoso, que me convidou para ver filme com ele, mas que pelo visto não vou poder ir, já que o meu amigo não pode me ajudar. – Digo com uma voz bem triste.
- Ai mulher chega de chorar, eu aceito te ajudar, mas... – Ele faz uma pausa para dar o efeito. - ...você tem que me apresentar um bofe no nível do teu.
- Um negão vai ser difícil, mas posso te apresentar um bom bofe que gosta da tua fruta. Que horas eu posso ir, Jojo? - Digo isso bem animada.
- Deb, você é a única que me chama assim e não leva umas bifas. – Diz ele com um tom de falsa chateação.
– Você sabe que digo isso com todo amor. – Respondo com todo o carinho que tenho por ele.
– Te espero às quatorze horas, linda. Não se atrase. Beijos.
- Ok. Beijos. – E desligamos.
Percebo que é melhor levantar e começar a minha faxina semanal, já que hoje é o único dia que tenho livre para fazer isso. Amanhã começa uma nova semana de trabalho e é sempre assim: acordar cedo, passar o dia na academia, a noite revezar entre as minhas clientes de massagem e por fim cama. Então, tenho que por tudo em ordem hoje e antes das quatorze horas.
Começo com um banho, depois troco a roupa de cama, ligo o som. Adoro fazer as coisas ouvindo música. Hoje seleciono a minha playlist de rock nacional e os acordes inicias da música A Sua Maneira de Capital Inicial, me fazem suspirar. Vou na cozinha como uma fruta e volto organizando por cômodo, primeiro meu quarto, depois o de visitas, sala, cozinha e por fim coloco a roupa na máquina. Minha sorte é que o apartamento é pequeno e como moro sozinha e não sou muito bagunceira, não tem muito o que fazer.
Quando termino tomo um banho rápido, calço uma rasteirinha, já que vou andar três quadras e fazer as unhas. Visto uma saia jeans e uma camiseta preta com um coletinho branco. Almoço uma comidinha leve, organizo tudo na cozinha, pego a bolsa, o celular e vou para o salão.
Johnny é um amigo lindo e totalmente gay. Johnny não é o nome real, o verdadeiro nome dele é Jovelino, mas quando resolveu sair do armário ele se autonomeou, Johnny. É claro que pouquíssimas pessoas sabem disso, pois quando ele abriu o salão, estava vindo de Içara, uma pequena cidade no interior do estado e vinha para poder se assumir definitivamente. Segundo ele, um gay chamado Jovelino não era muito atraente aos olhos de outros gays.
            Como fui uma de suas primeiras e mais fieis clientes quando ele abriu o salão, nos tornamos amigos. Nós contávamos as nossas aventuras e desventuras amorosas para o outro e durante uma dessas conversas, quando estávamos a sós, ele me contou que sua mãe tinha lhe dado esse nome em homenagem ao avô dele e que quando ele assumiu que era gay, sua família surtou. Por isso ele decidiu vir morar na capital e tentar a sorte.
Eu em contra partida, contava todas as minhas desilusões amorosas e casos que sempre davam errado, ao que ele dizia que eu era uma romântica que entregava o meu coração muito rápido a qualquer um. Coisa que eu nunca pude desmenti-lo.
Hoje em dia, o salão do Johnny tem certo prestigio no centro, ainda não é um sucesso retumbante, mas pelo que ele me conta, já está sobrando dinheiro o suficiente para ele fazer melhorias e contratar mais pessoal para atender os clientes. Quando ele começou, era apenas ele e a Sandra, manicure. Agora ele tem três manicures, uma esteticista e mais uma cabeleireira.
Faltando cinco minutos para as duas da tarde eu chego ao salão. Como sempre, comprimento todas as meninas, dou um beijo em Johnny e um ‘boa tarde’ para as clientes que não conheço.
- Querida, já para a lavação. – Johnny falou, me mandando sentar na cadeira com o lavatório, onde ele começou a lavar meu cabelo. – Laís, você pode fazer o pé e a mão da minha amiga aqui? – Perguntou ele para uma das manicures. – Ela é nova, mas muito boa.
Eu apenas assenti, enquanto a menina, que não devia ter mais de 18 anos, trazia sua pequena cadeira especial para manicures e um outro carrinho com uma infinidade de esmaltes de todas as cores.
- Oi, tudo bem? – Ela me perguntou timidamente. – Que cor você gostaria de pintar?
- Na verdade eu não sei, mas queria algo não muito chamativo. – Eu disse.
- Bom, posso pintar suas unhas com um esmalte com um tom bem claro de rosa e fazer uma pequena flor na unha do seu polegar, assim vai ficar bonito e ao mesmo tempo discreto.
- Deb, ela é especialista em decoração de unhas, aproveita. – Johnny me incentivou.
- Ok, mas ao invés do tom de rosa por baixo, faz uma francesinha na e um desenho apenas na unha do polegar. E Johnnyzinho do meu coração, faz aquela massagem capilar que só você sabe, faz? – Eu pedi, fazendo cara de coitadinha e dando uma piscadinha pra ele.
- O que eu não faço por você? – Ele disse fingindo uma seriedade que eu sei que não era de verdade. – Mas em troca...
- Johnny, você não faz nada de graça? Você sempre pede algo em troca.
- Calma, linda. Eu só ia pedir pra você me falar sobre o seu bofe novo. – Ele falou delicadamente
- Ok, desculpe. É que estou uma pilha de nervos. Vai ser oficialmente nosso primeiro encontro, mas nós nos conhecemos há algum tempo já e trocamos alguns beijos ontem na festa da academia.
- Humm, agora está explicado o porquê você me implorou por um horário. É um bofe que você está querendo há muito tempo e quer impressionar. Ele é gato?
- Não estava esperando ele. – Respondi rapidamente, mas não queria dizer que era porque ele tinha um caso com minha melhor amiga. – Só não tinha surgido clima, mas ontem a gente dançou e do nada, estávamos nos beijando e hoje vamos assistir um filme na casa dele. Pronto, essa é toda a história.
- Não lindinha, você não contou a parte mais importante. Ele é gato?
- Não. – Eu falei séria, tentando conter o riso. – Ele está mais pra uma pantera negra. Predador. Incrível. Terrivelmente gostoso. Baiano, negro, alto, malhado, cabelo raspadinho, braços fortes... É, você pode dizer que ele é gato. - Suspirei, só de pensar no corpo do Diego.
- Querida, se não rolar química entre vocês, passa meu telefone pra ele. Ok? – Disse Johnny.
- Johnny, meu bem. Só não vai rolar química se você deixar o meu cabelo parecendo uma vassoura. Então, capricha e me deixa linda.
- Amorzinho, isso aqui é um salão de beleza, você vai sair daqui mais linda do que já é. O que não posso dizer para outras clientes que me pedem pra ficar lindas. Algumas eu mando para a igreja, rezar e pedir um milagre e outras eu mando para o circo à procura de um mágico, porque nem com todos os produtos de beleza do mundo posso deixar algumas delas linda como você. – Brincou Johnny.
Dei uma gargalhada, mas parei no mesmo momento, quando Johnny começou a massagear meu coro cabeludo como só ele é capaz de fazer. Fechei meus olhos e aproveitei. Johnny fazendo massagem na minha cabeça e a Taís passando creme nos meus pés, é tudo o que eu podia pedir para um dia de beleza. Relaxei ao máximo e curtir.
Aqui no salão não há televisão, como em muitos salões que já fui. Aqui eles são movidos a música. Tem sempre uma tocando e é bem eclética a escolha da playlist do dia. Hoje por exemplo, estava tocando Gustavo Lima e quando acabou, começou a tocar Meu Ébano de Alcione, não posso deixar de pensar no Diego e no estrago que ele pode fazer com o meu coração. E que não é só os lábios que ele tem de mel, aqueles olhos dourados me deixam mole.

É, você é um negão de tirar o chapéu
Não posso dar mole senão você... créu
Me ganha na manhã e babau
Leva meu coração

É, você é um ébano, lábios de mel
Um príncipe negro, feito a pincel
É só melanina cheirando a paixão

É, será que eu caí na sua rede, e ainda não sei
Sei não, mas tô achando que já dancei
Na tentação da sua cor

Pois é, me pego toda hora querendo te ver
Olhando pras estrelas pensando em você
Negão, eu tô com medo que isso seja amor

Moleque levado, sabor de pecado, menino danado
Fiquei balançada, confesso, quase perco a fala
Com o seu jeito de me cortejar
Que nem mestre - sala

Meu preto retinto, malandro distinto
Será que é instinto
Mas quando te vejo enfeito meu beijo, retoco o batom
A sensualidade da raça é um dom
É você, meu ébano, é tudo de bom!



É como se essa musica estivesse me perseguindo e começo a lembrar dele dançando com a Anne e depois a forma que ele dançou comigo. Cantarolo a música e penso no Diego enquanto Johnny segue massageando meu cabelo, lavando, passando um creme e depois ele enrola, prende e coloca uma touca para a hidratação profunda. Quando termina de colocar a touca. Continuo nas mãos de Taís, que terminou de fazer as unhas do meu pé e está fazendo as unhas da minha mão. Cerca de trinta minutos depois ela termina e Johnny chama a Isa e pede para ela me levar para fazer a depilação e tomar cuidado com o cabelo que ainda está enrolado e preso dentro da touca.
Isa já é minha depiladora há alguns meses, desde que ela começou aqui no salão. Ela conhece de perto partes do meu corpo que eu mal consigo ver pelo espelho. Então intimidade é quase que parte do pacote, na hora da depilação.
- Ouvi você comentar com o Johnny que tem um encontro hoje. – Isa comenta enquanto seguimos até a sala da depilação, que nada mais é que uma mini saleta com uma mesinha de canto, uma maca e uma cadeira.
- Na verdade, é apenas um filme na casa dele. – Eu respondo.
- Então não te recomendo fazer virilha completa. Porque a pele vai estar muito sensível e na hora do bem bom vai ser doloroso. – Ela fala como se eu nunca tivesse feito depilação na vida.

“Querida, eu passo por isso uma vez por mês, esqueceu?” Pensei

- Mesmo assim, hoje será só um filmezinho e no máximo uns amassos no sofá, nada além disso. Será até bom que eu esteja dolorida, assim não corro o risco de cair em tentação. – Digo dando uma pequena risada, mas no fundo estou me perguntando se vai rolar ou não hoje com Diego.
Não quero ir pra cama logo de cara, mas sei que se ele resolver me envolver, me beijar, acariciar e me tentar, eu vou ceder. Quem em sã consciência resiste a um homem daquele?
- E o que você quer fazer hoje? Cavada completa, Meia perna, perna inteira, buço, axila... Pacote completo?
- Vamos fazer virilha, mas não completa, apenas depila a lateral. Faz também a axila. – Disse, e já tentei me preparar psicologicamente para as dores. Mesmo fazendo todos os meses, eu sou super sensível para dor.
- Ok, Então tire a roupa e deita na maca. Vou começar com suas axilas.
Enquanto eu tirava a roupa e deitava na maca, Isa foi esquentando a cera e preparando o material necessário para começar a tortura. Eu sempre faço a depilação apenas com cera, sem aquele plástico para puxar, pois como meus pelos, apesar de crescerem muito rápido, eles são muito finos, com a cera no plástico não retira todos.
Eu já me posicionei com as mãos atrás da cabeça e esperei, quando ela espalhou a cera, ela estava bem quente, mas não a ponto de queimar. Isa dá algumas batidinhas para testar a cera e sem nenhum aviso, puxa. Eu mordo o lábio para não gritar.
- Deb, seus pelos estão curtinhos, então vou ter que repassar a cera para tirar tudo, ok?

“O que eu poderia responder? Não, pelo amor de Deus?”

Eu apenas balancei a cabeça, fechei os olhos e esperei.
Uma hora mais tarde, com a depilação em dia, com o corpo quase todo besuntado de óleo de amêndoas, toda dolorida e com o lábio inchado de tanto mordê-lo para não gritar, eu saio da salinha de tortura e volto para a parte da frente do salão para finalizar a hidratação que Johnny estava fazendo no meu cabelo.
- E ai, tudo bem? – Johnny me pergunta com um sorrisinho nos lábios. Recuso-me a responder e apenas lanço um olhar zangado para ele. – Vamos tirar o creme do teu cabelo, belezinha.
Ao me sentar no lavatório, sinto o desconforto da depilação na virilha, mas sento-me com o máximo de classe possível e relaxo enquanto Johnny lava e faz uma nova massagem na minha cabeça. Depois de retirar todo o produto, ele passa outro com um aroma de frutas e me leva até a cadeira em frente ao espelho para secar meus cabelos com o secador.
Quando ele termina, estou com as unhas dos pés e das mãos feitas impecavelmente, a depilação em dia e os meus longos cabelos loiros, lindos, brilhosos, sedosos e cheirosos. Meu dia de beleza está completo, me despeço de todos e vou pra casa.

No caminho, enquanto tento andar sem que o cós da calcinha fique roçando na região que foi depilada e está sensível, a única coisa que eu consigo pensar é que essa vida de mulher é muito dura. Tudo isso para sair com um cara e nem ao menos vou para a cama com ele. Ser mulher é muito, mais muito difícil.



Continua na terça feira.... ops... vamos por uma promoçãozinha no ar... 

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