Subi as escadas pensando na loucura dessa noite de hoje. Eu
beijei o Diego, o mesmo que tantas vezes vi com a Anne. Deus, como estou
confusa. Também com tudo que bebi e com os beijos que troquei, não tem como não
estar com a cabeça bagunçada. É melhor parar de pensar ou vou ficar com o juízo
fervendo. Vou esperar ele me ligar, e ver onde isso nos leva. Se ele não ligar
tudo bem, faço de conta que a noite de hoje não aconteceu.
Chego em casa passo direto para o meu quarto, tiro a roupa e
vou tomar um banho. Nada melhor que um bom banho de chuveiro, para aliviar o
cansaço e os pensamentos sem sentido. Saio do banheiro, visto um conjunto de
baby-doll que é três peças, calcinha, short e camiseta. Vou a cozinha, pego uma
garrafa de água e volto para o quarto. Coloco a garrafa em cima do criado mudo
e pego meu celular dentro do bolso da minha saia.
Entro no Facebook para ver o que tem de novo. Algumas
notificações e só. Dou uma rápida olhada nós amigos online e percebo que o
Diego está entre eles. Penso em puxar conversa, mas depois acho melhor não,
saio do face, acendo a lâmpada de leitura que fica no meu criado mudo e
aproveito que o sono ainda não chegou para tentar terminar de ler, A Redenção
de Gabriel.
Estou totalmente absorta na leitura pensando na delicadeza
do amor dos personagens e imaginando como seria ter um amor assim, quando meu telefone
apita em sinal de mensagem. Fico surpresa quando vejo que é de Diego, afinal
são duas horas da manhã.
Diego – Está acordada?
Deb – Estou. Também está tendo dificuldade para dormir?
Respondo imediatamente.
Diego – Sim. Você me tirou o sono. Só penso em você.
Não pensei em receber uma resposta tão direta. Que fofo, mas
não sei o que responder.
Deb – O que tá fazendo?
Diego – Assistindo filme. E vc?
Deb – Lendo.
Diego – Quer vim assistir filme comigo?
Deb – Melhor não.
Diego – Mais tarde, pode ser?
Deb – Mais tarde que horas?
Diego – 18h? A gente pede uma pizza e assiste um filme. O que acha?
Deb – Combinado. Boa noite Di, te vejo mais tarde.
Diego – Bom dia Deb. Dorme bem.
Continuei lendo e pensando no Di. Já passava das quatro
quando consegui dormir.
Acordo às nove e
quarenta e resolvo ligar para o Johnny ver se ele consegui me encaixar em um
horário para fazer um dia de beleza. Ligo direto para o celular e ele atende no
terceiro toque.
– Johnny amor, tem um tempinho para mim hoje? – Digo bem
melosa para ver se cola.
- Oi Mona, não tenho, minha agenda pra hoje está lotada. –
Ele sempre diz isso, mas eu sei que ele sempre tem um tempinho livre.
– Poxa Johnny, preciso tanto de você, hoje tenho um encontro
com um negão mara e preciso está
prontinha pra ele. Minhas pernas estão um horror, minhas unhas nem se fala. Se
eu perder o Di, será tudo culpa sua. – Choramingo.
- Negão? Bofe novo, colega? – Ele diz todo interessado.
– Sim, um negão lindo e gostoso, que me convidou para ver
filme com ele, mas que pelo visto não vou poder ir, já que o meu amigo não pode
me ajudar. – Digo com uma voz bem triste.
- Ai mulher chega de chorar, eu aceito te ajudar, mas... –
Ele faz uma pausa para dar o efeito. - ...você tem que me apresentar um bofe no
nível do teu.
- Um negão vai ser difícil, mas posso te apresentar um bom
bofe que gosta da tua fruta. Que horas eu posso ir, Jojo? - Digo isso bem
animada.
- Deb, você é a única que me chama assim e não leva umas bifas. – Diz ele com um tom de falsa
chateação.
– Você sabe que digo isso com todo amor. – Respondo com todo
o carinho que tenho por ele.
– Te espero às quatorze horas, linda. Não se atrase. Beijos.
- Ok. Beijos. – E desligamos.
Percebo que é melhor levantar e começar a minha faxina
semanal, já que hoje é o único dia que tenho livre para fazer isso. Amanhã
começa uma nova semana de trabalho e é sempre assim: acordar cedo, passar o dia
na academia, a noite revezar entre as minhas clientes de massagem e por fim
cama. Então, tenho que por tudo em ordem hoje e antes das quatorze horas.
Começo com um banho, depois troco a roupa de cama, ligo o
som. Adoro fazer as coisas ouvindo música. Hoje seleciono a minha playlist de
rock nacional e os acordes inicias da música A Sua Maneira de Capital
Inicial, me fazem suspirar. Vou na cozinha como uma fruta e volto
organizando por cômodo, primeiro meu quarto, depois o de visitas, sala, cozinha
e por fim coloco a roupa na máquina. Minha sorte é que o apartamento é pequeno
e como moro sozinha e não sou muito bagunceira, não tem muito o que fazer.
Quando termino tomo um banho rápido, calço uma rasteirinha,
já que vou andar três quadras e fazer as unhas. Visto uma saia jeans e uma
camiseta preta com um coletinho branco. Almoço uma comidinha leve, organizo tudo na cozinha, pego a
bolsa, o celular e vou para o salão.
Johnny é um amigo lindo e totalmente gay. Johnny não é o
nome real, o verdadeiro nome dele é Jovelino, mas quando resolveu sair do
armário ele se autonomeou, Johnny. É claro que pouquíssimas pessoas sabem
disso, pois quando ele abriu o salão, estava vindo de Içara, uma pequena cidade
no interior do estado e vinha para poder se assumir definitivamente. Segundo
ele, um gay chamado Jovelino não era muito atraente aos olhos de outros gays.
Como fui
uma de suas primeiras e mais fieis clientes quando ele abriu o salão, nos
tornamos amigos. Nós contávamos as nossas aventuras e desventuras amorosas para
o outro e durante uma dessas conversas, quando estávamos a sós, ele me contou
que sua mãe tinha lhe dado esse nome em homenagem ao avô dele e que quando ele
assumiu que era gay, sua família surtou. Por isso ele decidiu vir morar na
capital e tentar a sorte.
Eu em contra partida, contava todas as minhas desilusões
amorosas e casos que sempre davam errado, ao que ele dizia que eu era uma
romântica que entregava o meu coração muito rápido a qualquer um. Coisa que eu
nunca pude desmenti-lo.
Hoje em dia, o salão do Johnny tem certo prestigio no
centro, ainda não é um sucesso retumbante, mas pelo que ele me conta, já está
sobrando dinheiro o suficiente para ele fazer melhorias e contratar mais
pessoal para atender os clientes. Quando ele começou, era apenas ele e a
Sandra, manicure. Agora ele tem três manicures, uma esteticista e mais uma
cabeleireira.
Faltando cinco minutos para as duas da tarde eu chego ao
salão. Como sempre, comprimento todas as meninas, dou um beijo em Johnny e um
‘boa tarde’ para as clientes que não conheço.
- Querida, já para a lavação. – Johnny falou, me mandando
sentar na cadeira com o lavatório, onde ele começou a lavar meu cabelo. – Laís,
você pode fazer o pé e a mão da minha amiga aqui? – Perguntou ele para uma das
manicures. – Ela é nova, mas muito boa.
Eu apenas assenti, enquanto a menina, que não devia ter mais
de 18 anos, trazia sua pequena cadeira especial para manicures e um outro
carrinho com uma infinidade de esmaltes de todas as cores.
- Oi, tudo bem? – Ela me perguntou timidamente. – Que cor
você gostaria de pintar?
- Na verdade eu não sei, mas queria algo não muito
chamativo. – Eu disse.
- Bom, posso pintar suas unhas com um esmalte com um tom bem
claro de rosa e fazer uma pequena flor na unha do seu polegar, assim vai ficar
bonito e ao mesmo tempo discreto.
- Deb, ela é especialista em decoração de unhas, aproveita.
– Johnny me incentivou.
- Ok, mas ao invés do tom de rosa por baixo, faz uma
francesinha na e um desenho apenas na unha do polegar. E Johnnyzinho do meu
coração, faz aquela massagem capilar que só você sabe, faz? – Eu pedi, fazendo
cara de coitadinha e dando uma piscadinha pra ele.
- O que eu não faço por você? – Ele disse fingindo uma
seriedade que eu sei que não era de verdade. – Mas em troca...
- Johnny, você não faz nada de graça? Você sempre pede algo
em troca.
- Calma, linda. Eu só ia pedir pra você me falar sobre o seu
bofe novo. – Ele falou delicadamente
- Ok, desculpe. É que estou uma pilha de nervos. Vai ser
oficialmente nosso primeiro encontro, mas nós nos conhecemos há algum tempo já
e trocamos alguns beijos ontem na festa da academia.
- Humm, agora está explicado o porquê você me implorou por
um horário. É um bofe que você está querendo há muito tempo e quer
impressionar. Ele é gato?
- Não estava esperando ele. – Respondi rapidamente, mas não
queria dizer que era porque ele tinha um caso com minha melhor amiga. – Só não
tinha surgido clima, mas ontem a gente dançou e do nada, estávamos nos beijando
e hoje vamos assistir um filme na casa dele. Pronto, essa é toda a história.
- Não lindinha, você não contou a parte mais importante. Ele
é gato?
- Não. – Eu falei séria, tentando conter o riso. – Ele está
mais pra uma pantera negra. Predador. Incrível. Terrivelmente gostoso. Baiano,
negro, alto, malhado, cabelo raspadinho, braços fortes... É, você pode dizer
que ele é gato. - Suspirei, só de pensar no corpo do Diego.
- Querida, se não rolar química entre vocês, passa meu
telefone pra ele. Ok? – Disse Johnny.
- Johnny, meu bem. Só não vai rolar química se você deixar o
meu cabelo parecendo uma vassoura. Então, capricha e me deixa linda.
- Amorzinho, isso aqui é um salão de beleza, você vai sair
daqui mais linda do que já é. O que não posso dizer para outras clientes que me
pedem pra ficar lindas. Algumas eu mando para a igreja, rezar e pedir um
milagre e outras eu mando para o circo à procura de um mágico, porque nem com
todos os produtos de beleza do mundo posso deixar algumas delas linda como
você. – Brincou Johnny.
Dei uma gargalhada, mas parei no mesmo momento, quando
Johnny começou a massagear meu coro cabeludo como só ele é capaz de fazer.
Fechei meus olhos e aproveitei. Johnny fazendo massagem na minha cabeça e a
Taís passando creme nos meus pés, é tudo o que eu podia pedir para um dia de
beleza. Relaxei ao máximo e curtir.
Aqui no salão não há televisão, como em muitos salões que já
fui. Aqui eles são movidos a música. Tem sempre uma tocando e é bem eclética a
escolha da playlist do dia. Hoje por exemplo, estava tocando Gustavo Lima e
quando acabou, começou a tocar Meu Ébano
de Alcione, não posso deixar de pensar no Diego e no estrago que ele pode
fazer com o meu coração. E que não é só os lábios que ele tem de mel, aqueles
olhos dourados me deixam mole.
É, você é um negão de tirar o chapéu
Não posso dar mole senão você... créu
Me ganha na manhã e babau
Leva meu coração
É, você é um ébano, lábios de mel
Um príncipe negro, feito a pincel
É só melanina cheirando a paixão
É, será que eu caí na sua rede, e ainda não
sei
Sei não, mas tô achando que já dancei
Na tentação da sua cor
Pois é, me pego toda hora querendo te ver
Olhando pras estrelas pensando em você
Negão, eu tô com medo que isso seja amor
Moleque levado, sabor de pecado, menino
danado
Fiquei balançada, confesso, quase perco a
fala
Com o seu jeito de me cortejar
Que nem mestre - sala
Meu preto retinto, malandro distinto
Será que é instinto
Mas quando te vejo enfeito meu beijo, retoco
o batom
A sensualidade da raça é um dom
É você, meu ébano, é tudo de bom!
É como se essa musica estivesse me perseguindo e começo a
lembrar dele dançando com a Anne e depois a forma que ele dançou comigo.
Cantarolo a música e penso no Diego enquanto Johnny segue massageando meu
cabelo, lavando, passando um creme e depois ele enrola, prende e coloca uma
touca para a hidratação profunda. Quando termina de colocar a touca. Continuo
nas mãos de Taís, que terminou de fazer as unhas do meu pé e está fazendo as
unhas da minha mão. Cerca de trinta minutos depois ela termina e Johnny chama a
Isa e pede para ela me levar para fazer a depilação e tomar cuidado com o
cabelo que ainda está enrolado e preso dentro da touca.
Isa já é minha depiladora há alguns meses, desde que ela
começou aqui no salão. Ela conhece de perto partes do meu corpo que eu mal
consigo ver pelo espelho. Então intimidade é quase que parte do pacote, na hora
da depilação.
- Ouvi você comentar com o Johnny que tem um encontro hoje.
– Isa comenta enquanto seguimos até a sala da depilação, que nada mais é que
uma mini saleta com uma mesinha de canto, uma maca e uma cadeira.
- Na verdade, é apenas um filme na casa dele. – Eu respondo.
- Então não te recomendo fazer virilha completa. Porque a
pele vai estar muito sensível e na hora do bem bom vai ser doloroso. – Ela fala
como se eu nunca tivesse feito depilação na vida.
“Querida, eu passo por isso uma vez
por mês, esqueceu?”
Pensei
- Mesmo assim, hoje será só um filmezinho e no máximo uns
amassos no sofá, nada além disso. Será até bom que eu esteja dolorida, assim
não corro o risco de cair em tentação. – Digo dando uma pequena risada, mas no
fundo estou me perguntando se vai rolar ou não hoje com Diego.
Não quero ir pra cama logo de cara, mas sei que se ele
resolver me envolver, me beijar, acariciar e me tentar, eu vou ceder. Quem em
sã consciência resiste a um homem daquele?
- E o que você quer fazer hoje? Cavada completa, Meia perna,
perna inteira, buço, axila... Pacote completo?
- Vamos fazer virilha, mas não completa, apenas depila a
lateral. Faz também a axila. – Disse, e já tentei me preparar psicologicamente
para as dores. Mesmo fazendo todos os meses, eu sou super sensível para dor.
- Ok, Então tire a roupa e deita na maca. Vou começar com
suas axilas.
Enquanto eu tirava a roupa e deitava na maca, Isa foi
esquentando a cera e preparando o material necessário para começar a tortura.
Eu sempre faço a depilação apenas com cera, sem aquele plástico para puxar,
pois como meus pelos, apesar de crescerem muito rápido, eles são muito finos,
com a cera no plástico não retira todos.
Eu já me posicionei com as mãos atrás da cabeça e esperei,
quando ela espalhou a cera, ela estava bem quente, mas não a ponto de queimar.
Isa dá algumas batidinhas para testar a cera e sem nenhum aviso, puxa. Eu mordo
o lábio para não gritar.
- Deb, seus pelos estão curtinhos, então vou ter que
repassar a cera para tirar tudo, ok?
“O que eu poderia responder? Não,
pelo amor de Deus?”
Eu apenas balancei a cabeça, fechei os olhos e esperei.
Uma hora mais tarde, com a depilação em dia, com o corpo
quase todo besuntado de óleo de amêndoas, toda dolorida e com o lábio inchado
de tanto mordê-lo para não gritar, eu saio da salinha de tortura e volto para a
parte da frente do salão para finalizar a hidratação que Johnny estava fazendo
no meu cabelo.
- E ai, tudo bem? – Johnny me pergunta com um sorrisinho nos
lábios. Recuso-me a responder e apenas lanço um olhar zangado para ele. – Vamos
tirar o creme do teu cabelo, belezinha.
Ao me sentar no lavatório, sinto o desconforto da depilação
na virilha, mas sento-me com o máximo de classe possível e relaxo enquanto
Johnny lava e faz uma nova massagem na minha cabeça. Depois de retirar todo o
produto, ele passa outro com um aroma de frutas e me leva até a cadeira em
frente ao espelho para secar meus cabelos com o secador.
Quando ele termina, estou com as unhas dos pés e das mãos
feitas impecavelmente, a depilação em dia e os meus longos cabelos loiros,
lindos, brilhosos, sedosos e cheirosos. Meu dia de beleza está completo, me
despeço de todos e vou pra casa.
No caminho, enquanto tento andar sem que o cós da calcinha
fique roçando na região que foi depilada e está sensível, a única coisa que eu
consigo pensar é que essa vida de mulher é muito dura. Tudo isso para sair com
um cara e nem ao menos vou para a cama com ele. Ser mulher é muito, mais muito
difícil.
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