quarta-feira, 9 de abril de 2014

Capítulo 05

“não vou a lugar nenhum sem você”

Eu estava ouvindo a voz do Tiago, mas não consigo entender o que ele diz. Minha garganta arde, Meu peito e minha cabeça doem. Não consigo manter meus olhos abertos e sinto meu corpo mole. Achei de verdade que fosse morrer lá em baixo, mas pelo visto não era minha hora.
Mesmo estando completamente grogue, percebo que estou sendo carregada. Tiago tem as mãos firmemente colocadas no meu corpo, de modo que me carrega bem colada ao seu peito. A sensação é maravilhosa. Sensação de proteção.
Encostei minha cabeça em seu peito e me deixei levar pelo seu batimento cardíaco. Tum, Tum, Tum, Tum... Tão rápido. Tão bom. Tão seguro.
- Anne, meu bem. Você consegue ficar em pé? – Tiago perguntou com voz baixa próxima ao meu ouvido. – Preciso tirar sua roupa e te dar um banho quente.
- Eu não sei... – Respondi. Não queria que ele tirasse minha roupa, mas não tinha condições de discutir com ele.
- Tiago, se você quiser posso fazer isso. - Ouvi Deb falando, me virei e vi ela parada na porta do banheiro, com Carlos logo atrás. Ambos pareciam preocupados.
- Não Deb, foi minha culpa e vou cuidar dela. Não vou deixá-la novamente. – Tiago respondeu, enquanto me colocava delicadamente sobre o balcão da pia e retirava minha camiseta. – Carlos, me faz um favor. Pega meu celular dentro da minha mochila e liga para o meu pai. Explica o que aconteceu e pergunta o que é o melhor a fazermos com ela agora.
- Ok, pode deixar. – Carlos disse, indo em direção ao quarto.
- Eu estou bem, só estou com a garganta ardendo e o corpo dolorido. – Respondi.
- Nada disso, você engoliu muita água e depois de te dar um banho, vou te levar para o hospital. Só pedi para o Carlos ligar para o meu pai, porque como ele é pediatra, vai me dizer como proceder até chegar lá.
- Hospital não... - Me desesperei. – Não vou para hospital nenhum... Cof, Cof, Cof.
- Calma, amor. – Tiago disse, me abraçando para que eu não caísse enquanto tossia. – Nós só precisamos saber se não tem água no seu pulmão. Eu vou estar com você.
- Você... vai? – Foi uma mistura de pergunta com concordância.
- Sim, eu vou.
Depois de alguns minutos falando com seu pai ao telefone, ele desligou e voltou-se para mim.
- Vamos tomar um banho morno e vamos para o hospital.
Não foi uma sugestão, seu tom era de ordem. Porém ele não esperava que eu fosse mais teimosa que criança birrenta.
- Eu já disse que não entro em um hospital enquanto estiver lúcida. Então ou você terá que me dopar ao ponto de eu perder a consciência ou nós não vamos à hospital nenhum. – Eu disse encarando-o.
- Ok. Então vamos ter que deixá-la inconsciente. – Ele me respondeu e depois virou-se para Deb que ainda estava parada na porta. – Deb, você pode arrumar as coisas da Anne e se tiver alguma roupa seca para emprestar pra ela eu agradeceria.
- Claro. Eu sempre trago coisas demais, incluindo roupas.
- Obrigado. Quando sair, feche a porta, por favor.
Sem dizer mais nada, Deb saiu e fechou a porta.
Tiago ligou o chuveiro e me ajudou a descer do balcão da pia do banheiro para poder retirar minha bermuda. Quando eu estava apenas de biquíni, tentei caminhar para o chuveiro, mas não consegui dar dois passos antes que Tiago me pegasse no colo e me acomodasse em seu peito. Só agora percebi que ele estava sem camisa.
- Não preciso disso, pode me soltar – Digo.
- Precisa sim. Você ainda está fraca. – Ele fala, enquanto me coloca abaixo do jato de água quente. O calor do jato d’água nas minhas costas mais o calor do corpo dele colado ao meu, faz com que as forças e a minha clareza mental retorne.
Estou só de biquíni no colo do Tiago, que está só de bermudão. Isso não vai prestar.
- Pode me soltar. – Eu insisto. Ele só me olha, etão acrescento. – Confesse, está fazendo isso só para me apalpar.
Ele sorri.
- Estou fazendo isso por vingança. Quem mandou tentar me matar. Que ideia foi aquela de me jogar na água?
- Eu vi a oportunidade e não quis desperdiçar. Só não esperava que você me puxasse junto e que fosse tão fundo.
- Já percebi que você se tornou uma pessoa que adora correr riscos. – Ele disse amargamente.
Eu sabia do que ele estava falando. Ele se referia a ele ter me ouvido transando com o Diego no banheiro.
- Me tornei uma pessoa que não tem medo de ser feliz e aproveitar a vida. Sou maior de idade, vacinada, responsável, trabalho para pagar minhas contas e não vejo problema nenhum em fazer tudo o que se tem vontade. Ser feliz em primeiro lugar, porque eu mais do que ninguém sei que as coisas mudam de um dia para o outro.
- Você se tornou uma mulher tão segura...
- Você não me parece ser um cara inseguro. Acho que no final das contas, esses doze anos nos fez bem. – Eu não pude olhar para ele enquanto falava isso, não queria que ele visse o quanto eu mentia.
- Você sempre foi uma péssima mentirosa. – Ele disse. – Fico feliz de pelo menos isso não ter mudado em você.
- Continuo uma péssima mentirosa e desastrada na cozinha, mas é só o que resta daquela garota tola que você conheceu. – Estava na hora dele perceber que sua aproximação não daria em nada. Eu não era mais aquela Anne. – Tiago, me solte para que eu possa conversar de verdade com você. Por favor.
Ele me soltou lentamente. Parecia nervoso.
- Anne, antes de termos essa conversa, que pelo visto vai ser definitiva, me deixe levá-la ao hospital.
- Não, nada de hospitais. – Eu não entro em hospitais há vários anos e isso não vai mudar agora.
- Me deixe levá-la a um médico, apenas para alguns exames e depois teremos nossa conversa e te deixarei em paz. Eu prometo.
- E eu achando que era teimosa. Pobre de mim. Você me superou. – Resignei-me. Não adianta teimar com ele. – Mas nada de hospitais. Posto de saúde ou clinica médica. Hospital não.
- Tudo bem, nada de hospitais. – Ele sorriu e seu sorriso teve efeitos em minha barriga. – Vamos sair do banho? Depois de nos vestirmos, vou levá-la ao médico mais próximo, assim podemos deixar a nossos amigos sozinhos por algum tempo para que eles possam relaxar a tensão do seu quase afogamento.
Eu estraguei o programinha relax da Deb, precisava retribuir de alguma forma, como por exemplo, deixando a casa inteira para eles pelo resto da tarde.
- Coitados, eu estraguei o domingo deles. Vou ter que dar um belo presente para Deb, como pedido de desculpas...
Eu estava falando e começando a secar meus cabelos, quando me abaixei para secar as pernas, senti uma tontura muito forte e me desequilibrei. A minha sorte é que Tiago estava observando meus movimentos e conseguiu me segurar antes que eu caísse.
- Anne, você está bem? – Ele estava preocupado novamente. – Você está pálida.
- Não foi nada. Apenas uma tontura.
Ele não me respondeu, apenas me pegou no colo e saiu do banheiro em direção ao quarto, deixando um rastro d’água pelo caminho, já que ele não tinha começado a se enxugar.
-Debbbbbb... – ele gritou. Ela apareceu em segundos. – Jogue algumas toalhas na cama, por favor. Não quero molhar todo o colchão.
-Você está bem Anne? – Ela me perguntou preocupada. – Está parecendo uma vela de tão branca.
- Ela teve uma tontura forte enquanto se secava no banheiro e quase caiu.
- Tiago, não seja exagerado. Eu apenas me desequilibrei, o que não é nenhuma novidade para mim. Se você soubesse quantos tombos eu tomei na vida por ser estabanada. – Falei em tom de brincadeira, para aliviar o clima. Não gosto das pessoas com pena de mim.
- Pronto, coloquei três toalhas para garantir que não molhe o colchão. – Disse Deb. – E Anne, segundo o pai do Tiago, tontura depois de um afogamento é normal, mas não pode ser menosprezado.
- Obrigada querida enfermeira. – Resmunguei para ela. – Enfermeira eu adoraria tomar um copo de algo bem gelado. Qualquer coisa, desde que esteja bem gelado.
- Tá. Vou buscar para você.
Quando ela saiu e fechou a porta, eu me virei para o Tiago e o encarei.
- Agora você já pode me por na cama e sair para que eu possa me trocar. Prometo que não vou me enforcar com a camiseta da Deb.
- Nem pensar. – Ele estava franzindo a testa e fazendo beicinho, como fazia quando era pequeno e estava contrariado. - Já disse que não vou a lugar algum.  Vou te secar e você vai por a roupa da Deb por cima do biquíni. A não ser que queria tirá-lo enquanto eu te seco, garanto que eu não iria me opor.
- Hahaha. Muito engraçadinho. Poucas são as pessoas que tem o privilégio de ver meu corpo nu, e você não é uma delas.
Ele riu. Pensei ter o ouvido dizer ‘por enquanto’, mas quando fui discutir com ele, acabei me distraindo com o contato do nosso corpo na hora dele me por na cama. Ele me colocou deitada em cima das toalhas e se sentou ao meu lado para secar meus pés. O contato das mãos deles por cima da toalha, massageando meu pé enquanto me secava surtiu efeitos contrários ao relaxamento que ele queria que eu sentisse.
Ele estava me tratando como se eu fosse um bebê e após secar meus pés ele começou a secar minha panturrilha. Quando chegou ao joelho e subia em direção a minha coxa eu suspirei e segurei sua mão. Sentando-me na cama, o encarei e vi seus olhos ardendo de desejo.
- Não faz isso Tiago. Isso não nos levará a lugar nenhum. – Tentei parecer o mais convicta possível, mas minha voz estava tremula e aposto como meus olhos também refletiam o mesmo desejo que ele estava sentindo.
- Você tem razão. Eu não posso. – Ele disse, ao mesmo tempo em que continuava a secar minhas coxas, subia e secava minha barriga.
Mesmo tendo a tolha entre a mão dele e minha pele, a sensação de ser tocada e acariciada por ele veio forte demais e me assustei com a reação que meu corpo estava tendo. Quando sua mão começou a subir em direção ao vale entre meus seios, segurei novamente sua mão.
- Tiago, eu estou adorando ser mimada, mas posso fazer isso sozinha.
- Eu sei que você pode, mas estou adorando conhecer as curvas do seu corpo. – Quando ele disse isso, um arrepio percorreu todo meu corpo. Seus olhos se fixaram nos meus e aos poucos ele começou a se aproximar – Aos dezesseis anos você já era linda, mas hoje você está maravilhosa. É tentação demais pra mim. Ta muito difícil de resistir e não fazer isso...
No instante que seus lábios tocaram os meus, todos os pensamentos coerentes, como o fato dele ser quem era, dele ter me abandonado, dele ter voltado apenas agora, de eu ter muita coisa que precisava contar à ele, tudo desapareceu da minha mente. A única coisa que eu fazia, era sentir. Sentir a textura dos seus lábios, sua língua, sentir seu cheiro, sentir sua mão na minha nuca me puxando para mais perto, sentir a forma como ele estava me beijando, tão, tão... Tão Tiago... Nada descreve esse beijo. Delicado e agressivo, amoroso e raivoso, tudo em um único beijo.
Enquanto nos beijamos com sofreguidão, ele tem uma mão em minha nuca e a outra está passeando pelas curvas do meu corpo enquanto as minhas próprias mãos estão divididas entre puxá-lo pelas costas ou segurar em seu cabelo. Sinto meu corpo voltando para a posição deitada que estava até momentos atrás, mas agora eu tenho o corpo do Tiago acima do meu.
Pena que nosso momento quente é interrompido quando Deb entra no quarto com um copo de suco.
- Desculpa a demora, mas fui espremer as laran... Desculpe, continuem. Eu não estive aqui. – Ela saiu na mesma rapidez com que entrou, mas levou com ela o clima que havia antes da sua chegada.
Tiago não esperou nem a portar terminar de fechar e já estava do lado oposto do quarto, como se eu fosse um bicho feroz que iria devorá-lo. Sem camisa, de costas pra mim e com as mãos na cabeça, todos os músculos das costas tensionados... Meu Deus... Essa visão me deixou febril. Sim, eu tenho uma tara por costas masculinas e as costas dele são maravilhosas.
- Já que você disse que consegue se vestir sozinha. – Ele começou a dizer, ainda de costas para mim. – Você pode terminar de se vestir e vamos sair daqui no próximo barco para a Lagoa.
Dito isso, ele saiu e fechou a porta, me deixando atônica com o que um simples amasso com ele fez com meus sentidos. Eu estou excitada, frustrada e irada comigo mesma. Isso não vai ficar assim. Não vai mesmo.
Dez minutos depois eu estava pronta. A garganta ainda estava ardendo, mas a tontura, a dor na barriga e no peito diminuíram.
Peguei minha bolsa e verifiquei meu celular. Havia uma mensagem do Diego.
Oi linda. KD você?
Achei estranha a mensagem. Diego nunca é de me perguntar onde eu estou, ele sempre me manda mensagens para sairmos, ou para ligar pra ele ou sobre as apresentações. Respondi.
Oi querido. Na Costa da Lagoa com a Deb. Pq?
Cinco segundos depois ele me responde.
Só vocês duas?
Agora eu entendi menos ainda. Qual o problema dele?
Não. Vai me dizer o pq de tantas perguntas?
Era só o que me faltava. Diego com uma crise de ciúmes.
Por nada, mas de qualquer forma, manda um abraço para o Tiago e diz que ele acertou.
Oi? Abraço para o Tiago? Ele acertou? O quê? Como ele sabe que estou aqui com o Tiago? Eu preciso de mais informações.
Explique-se, por favor.
Eu esperava qualquer resposta dele, menos essa.
Me liga quando voltarem do passeio romântico de casais, que conversamos.
Estou prevendo tempestades à frente. Senhor, daí-me força e paciência.

***

Vinte minutos depois eu estava com Tiago no posto de saúde da Costa da Lagoa. Ele insistiu em me levar a um médico particular, mas eu bati o pé que não era preciso e que não iria gastar dinheiro com uma consulta uma vez que eu já estava me sentindo bem e só estava indo ao médico para que ele parasse de torrar minha paciência.
Minutos depois fui atendida por uma médica muito simpática que me examinou e constatou o que eu já vinha dizendo ao Tiago: Eu estava bem. Preciso apenas ficar atenta se os enjôos persistirem ou se eu voltar a sentir tonturas. No mais, eu estava bem e aparentemente sem água nos meus pulmões, o que era o medo do Tiago.
Quando saímos do posto de saúde, caminhamos lado a lado até o ponto para esperar o barco que nos levaria de volta para a casa do Carlos. A presença dele ao meu lado aumenta o calor que estou sentindo, com a diferença que enquanto o sol queima minha pele, a presença do Tiago me aquece por dentro e me deixa nervosa.
Após chegarmos ao trapiche que servia de parada para o barco, sentei no pequeno banco de madeira que há no trapiche, enquanto Tiago caminhou até a beirada do trapiche e sentou-se, colocando os pés na água. Mesmo sabendo que devia manter a distancia dele, não resisti a me aproximar e sentar ao seu lado. Ele era como um imã que me atraia para perto dele, mesmo contra a minha vontade.
- Sente-se lá Anne, não quero ver você assim tão perto da água novamente. – Ele disse olhando pra mim e logo voltando a olhar para o mar. Dava para perceber que ele estava tenso, eu só queria saber porque.
- Você sabe que sou bem grandinha, né? – Eu disse brincando, dando um leve empurrão com meu ombro no ombro dele. – Tiago, você quer que eu te peça desculpa por você ter me puxado com você para a água e por eu ter me afogado?
- Não Anne, eu só quero ter a certeza que você não vai se matar. O que você estava pensando para me empurrar na água?
- Eu estava frustrada com você e pensei que você precisava dar um mergulho. - Neste momento ele virou para me olhar, agora que ele estava prestando atenção, eu podia falar algumas coisas. – Tiago, desde sempre você foi um imã pra mim, eu não posso estar no mesmo lugar que você, sem querer estar ao seu lado. Só que agora, depois que você voltou, as coisas não podem ser como eram antes. Eu preciso seguir minha vida e você a sua...
- Você acha que eu não sei disso, Anne? Você acha que eu não gostaria de sair da sua vida definitivamente e deixar você ser feliz? – Sua voz era séria como eu nunca tinha ouvido antes e pelos gestos dele, passando a mão pelos cabelos, eu podia dizer que ele estava se controlando para não explodir. – Você sabe o que eu senti quando te ouvi transando com outro cara? Eu queria entrar naquele banheiro e matar ele, mesmo depois de doze anos, eu ainda sinto ciúmes de você. Isso não é normal. Sei que você tem um relacionamento com o Diego, mas eu não posso me controlar quando estou ao seu lado. Eu sinto que você é minha e isso está me levando à loucura, porque você está com ele e eu... Eu só não posso ficar com você.
Ao ouvir ele dizer que não pode ficar comigo, meu coração parou e acelerou ao mesmo tempo. Na hora que nos beijamos, ele disse também disse que não podia. Será que o Tiago é comprometido?
- Você está comprometido? – Perguntei quase sussurrando, olhando pra ele e rezando para que ele falasse que não.
- É complicado, Anne. - Ele disse, se levantando e começando a caminhar pelo trapiche.
- É complicado? Como assim complicado? Ou você está ou você não está. Não existe complicação nisso. – Falei, levantando e ficando frente a frente com ele.
- E você? Está comprometida? - Ele perguntou, nitidamente mudando de assunto.
- Não. Não estou. Diego é só um amigo com benefícios.
- Amigo com benefícios? – Ele riu amargamente - Isso só se for para você, porque pra ele, você é mais do que isso.
- Que bom que você tocou no nome dele, ele pediu para te dizer que você estava certo. – Tiago tentou conter um sorriso, mas foi inútil. – O que diabos ele quis dizer sobre com isso?
Ele me olhou, mas não me respondeu. Me deu as costas e fitou o horizonte, parecia pensar. Meu Deus. Era muito assunto pela metade.
- Tiago. Vamos fazer assim. – Eu comecei a falar antes que ele me respondesse, fazendo- o virar-se novamente para mim. – Vamos por partes. Está ficando muita conversa inacabada porque você simplesmente muda de assunto.
- Eu sabia que você não ia deixar o assunto pra depois. – Ele disse balançando a cabeça. – Posso começar a falar do inicio então? Posso te contar o porque eu fui embora naquele dia? – Ele falou melosamente enquanto acarinhava meu rosto.
- Você está tentando me amolecer como você fazia quando éramos pequenos. – Disse, lembrando das várias vezes que ele me entregava uma flor antes de me dizer alguma coisa que eu não ia gostar.
- Pena que uma flor não será o suficiente pra te amolecer dessa vez. – Ele soou triste quando disse isso e meu coração se apertou ao som de sua voz.
- Ok, Tiago. Comece pelo nosso fim. – Eu disse, me sentando novamente na beirada do trapiche e colocando meus pés na água.
- Não sei como começar, mas vou tentar te contar tudo sem resumir nada. - Ele disse, voltando a se sentar ao meu lado. - Naquela noite, eu te disse que quando tivemos aquela briga era porque eu estava de cabeça quente e tinha visto meus pais brigando, mas eu não te contei o porque eles estavam brigando e hoje, olhando o que aconteceu, acho que eu deveria ter te contado. Bem ou mal, você faz parte disso tudo e não é justo você ficar sem saber de nada. Eu falei com seu pai esses dias...
- Calma, não estou entendendo nada. Vamos por partes. Eu faço parte do motivo que te fez ir para Portugal? Como? E quando você falou com meu pai? - Eu estava completamente confusa.
- Falei com seu pai ontem, enquanto te esperava e você não vinha. – Ele falou com amargor na voz. – Mas isso não tem importância agora, acho que você precisa saber de tudo.
- Então desembucha, fala de uma vez porque agora estou curiosa. – Falei olhando para ele, mas ele estava olhando para frente, como se não conseguisse me olhar enquanto falava o que eu precisava saber.
- Você lembra que disse que meu pai e minha mãe estavam brigando? Então, minha mãe descobriu que meu pai a estava traindo e para piorar tudo, ele traia ela com a sua mãe, Anne.
- O que? – Eu só posso estar com água no ouvido e não ter ouvido direito. – Não, imagina. Minha mãe nunca faria isso.
- Mas fez, Anne. Minha mãe encontrou os dois juntos na nossa casa. Depois disso minha mãe quis se separar do meu pai, brigou feio com sua mãe e resolveu que nós dois iríamos embora. Quando nossas coisas estavam todas arrumadas, eu disse que não iria com ela, que queria morar com meu pai naquela casa, porque eu estava apaixonado por você. - Ele parou de falar e me deu um breve olhar, como se para conferir se eu ainda estava ouvindo. Sim eu estava ouvindo tudo. – Você pode imaginar como minha mãe ficou, o marido tendo um caso com a melhor amiga dela e o filho apaixonado pela filha da melhor amiga traidora. Ela chorou, gritou e conversou com meu pai, ele jurou que não aconteceu nada demais entre ele e sua mãe, que foi apenas um beijo e minha mãe acreditou, mas em troca do seu perdão ela exigiu que nós nos mudássemos para bem longe dali. Foi nessa hora que eu sai de casa, porque meu pai aceitou essa proposta. Os dois estavam decidindo minha vida sem se importar com a minha opinião. O que eu não soube naquele dia, porque sai de casa antes, é que meus pais conversaram e fizeram um acordo, a partir daquele momento o casamento deles seria apenas de fachada. Minha mãe era dona de casa e não tinha como se sustentar e meu pai era um médico que iria precisar passar a impressão de família feliz se quisesse se dar bem no hospital de Portugal para onde ele foi convidado a trabalhar meses antes e que só aceitou por tudo o que aconteceu naquela noite.
Quando te encontrei, descontei tudo em cima de você, mas no fundo eu estava implorando para que você percebesse que eu estava sofrendo pelo tanto que eu te amava e estava sendo obrigado a te deixar.
Depois que brigamos, voltei para casa e conversei com meu pai, implorei, chorei, ameacei e nada adiantou. O máximo que consegui foi um acordo. Eles esperariam até a festa da Amanda, assim eu poderia me despedir de todos os meus amigos antes de ir embora. Porém minha ideia era falar com você, contar pra você tudo. E foi isso que eu fiz, contei tudo o que eu sabia.
- E porque você foi embora? - Perguntei quase que em um sussurro.
- Porque minha mãe ligou no meu celular e eu não atendi, ai ela ligou para o telefone fixo da casa de praia da Amanda. Eram quase seis da manhã quando o pai da Amanda entrou no quarto em que estávamos, me acordou e disse que minha mãe estava na sala me esperando furiosa. Só o que sei é que ela ligou no meio da festa me procurando e alguém disse que eu estava no quarto transando com você e ela ficou fora de si. Meu pai tentou acalmá-la, fazê-la esperar que eu chegasse em casa, mas não adiantou e ela foi me buscar. Quando eu desci, ela estava louca de raiva, dizendo que nós estávamos indo para o aeroporto imediatamente e que eu não deveria ter me envolvido com você, e blá blá blá. Eu não queria que ela descontasse em você a raiva que sentia da sua mãe, por isso voltei para o quarto para pegar minhas coisas enquanto o pai da Amanda conversava com minha mãe.
- Eu queria ter tido tempo de tirar uma foto sua antes de ir, mas mal tive tempo de te escrever aquele bilhete, te dar um beijo e ir embora da tua vida. – Ele me olhou nos olhos antes de completar. - Fechar aquela porta foi a coisa mais difícil que eu fiz na minha vida, mas eu precisava deixar você ser feliz.
- Me deixar ser feliz? – Perguntei, ficando totalmente enfurecida com tudo o que ele estava falando. – Você acha que fui feliz depois que você foi embora? Você não sabe por tudo que passei por sua causa. – Berrei
- Não. Eu não sei. – Ele disse, se inclinando para ficar mais próximo de mim. – Me conta Anne. Me diz o que aconteceu depois que eu fui embora. Eu quero saber.
- Agora é tarde, Tiago. Você não vai poder fazer o tempo voltar. – Eu respondi, me inclinado para trás enquanto ele inclinava-se mais para frente.
- Pare Anne, antes que você caia na água novamente.
- Então pare de se aproximar. – Eu disse, encarando-o
- Porque você foge de mim assim? – Ele me pergunta, devolvendo o meu olhar.
- Não sou a pessoa que costuma fugir, aqui.
- Você nunca vai me perdoar? - Ele parecia realmente arrependido.
- Eu já te perdoei, mas não vou esquecer nunca. Por mais que eu tente. – Ele não pareceu acreditar em mim, mas respeitou minha resposta e não argumentou mais.
Eu precisava me afastar dele nesse momento. Os olhos verdes dele eram idênticos aos da nossa filha. Só ele que não sabia disso, mas eu não estava em condições de falar com ele sobre a Clara agora. Essa seria mais uma conversa que ficaria para outro momento.
Alguns minutos depois, minutos nos quais ficamos em completo silêncio, um barco surgiu para nos levar de volta para a casa do Carlos.
Ao chegar lá, encontrei Deb com as suas coisas arrumadas, parada no trapiche a espera de um barco. Quando descemos, ela me abraçou e soluçou baixinho.
- Porque eu tinha que nascer com esse dedo podre, Anne? - Ela choramingou no meu ombro.
Fiz um gesto com a cabeça indicando para o Tiago nos deixar sozinhas.
- O que aconteceu, Deb? – Perguntei a ela, enquanto acariciava suas costas e tentava acalmá-la.
- Ai, Anne. – Ela gemeu e se afastou de mim.- Eu cheguei a conclusão que não tenho apenas o dedo podre para escolher um cara, eu tenho a mão inteira.
Era nesses momentos que meus três anos a mais que a Deb e todas as minhas experiências ruins ajudavam. Desde que eu a conheço, ela sempre fez escolhas ruins de namorados. Ela sempre se envolvia com caras que estavam interessados 100% em sexo e 0% em um relacionamento sério, e meu sexto sentido estava me dizendo que o Carlos não era muito diferente dos caras anteriores.
- O que o Carlos fez, querida? – Falei com uma voz baixa. – Me conte para que eu possa ir lá e quebrar a cara dele. Você sabe que eu faço isso, né? Lembra do Denis?
Ela sorriu levemente.
- Claro que lembro. Você bateu nele por ter me ofendido enquanto eu estava no banheiro. Você nunca me disse o que ele falou para que você jogasse o copo de bebida e depois dar aquela joelhada nele.
É, eu nunca falei pra ela o que aquele babaca tinha dito dela para os amigos.
Estávamos em uma balada e a Deb estava saindo a alguns dias com esse tal de Denis. Pelo que ela me contou, eles ainda não tinham ido pra cama, apenas ido ao cinema e à praia, mas o tal já estava tentando avançar o sinal e ela ainda não estava preparada.
Quando voltei do bar onde tinha ido buscar uma bebida, ela havia ido ao banheiro e o Denis estava conversando com dois amigos, falando que a Deb era uma gostosa e que de hoje não iria passar para levá-la pra cama, nem que pra isso tivesse que dar um ‘boa noite cinderela’ nela. “Uma vadiazinha dessa não pode ficar fazendo doce por tanto tempo”, foi a ultima coisa que ele falou antes de sentir minha bebida escorrer pela cabeça dele. Quando ele e os amigos se viraram para ver quem havia feito aquela loucura e ele me viu, percebi que ficou com raiva, mas que não queria discutir com a melhor amiga da garota que ele queria levar pra cama. O que ele não esperava era o meu ataque de fúria.
Sou uma pessoa calma, mas nunca mecha com as pessoas de quem eu gosto, porque eu me transformo. E o Denis descobriu isso quando enfiei o dedo no peito dele e comecei a gritar a plenos pulmões que ele era um babaca estúpido e de outros adjetivos nada lisonjeiros. Porém a coisa ficou realmente feia, quando ele segurou meu braço e me chamou de putinha louca. Nessa hora eu me acalmei o suficiente para chegar bem perto dele, que ainda segurava meu braço e responder:
- Em primeiro lugar, nunca segure meu braço. – Disse e logo fiz com que ele soltasse o meu braço usando um movimento que aprendi na aula de defesa pessoal. Colocando-me atrás dele com o braço dele contra suas costas – Em segundo lugar, putinha louca deve ser a sua irmã. – Disse, erguendo o braço dele mais um pouco e fazendo ele gemer. - E em terceiro e ultimo lugar, nunca mais se aproxime de mim ou da Deb, seu porco imundo. – Finalizei, empurrando-o e largando seu braço.
Eu tinha me virado para sair e ir ao encontro da Deb, quando ele segurou meu cabelo e me puxou de volta, eu não pensei duas vezes, virei e acertei uma joelhada com toda a minha força bem no meio das pernas dele. Foi instantâneo. Ele soltou meu cabelo e caiu no chão, com as mãos entre as pernas. No instante em que ele começou a se levantar, os seguranças do local chegaram perguntando se havia algum problema. Olhei bem na cara do Denis e respondi “Esse verme tentou abusar de mim e se deu mal. Todo mundo viu.” Não precisei falar duas vezes, os seguranças os convidaram a se retirar.
Só nesse instante que vi a Deb, parada a poucos metros me observando, ela tinha visto toda a cena. Corri pra ela e disse o que tinha acontecido, apenas não dei muitos detalhes do que tinha ouvido. Não queria ver minha amiga chorando e sofrendo por um idiota que não merece nem lamber o chão por onde ela passa.

- Não contei e não vou contar, já não importa mais. – Eu disse para Deb. Era hora de resolver o problema do agora. O que já passou, não volta mais e isso devia servir para mim também. – Agora me conte o que aconteceu.
- Não sei por onde começar, mas pra resumir... O Carlos é comprometido. – Ela falou rápido.
- Comprometido?
- Sim. No dia da festa, quando saímos e estávamos indo aproveitar a noite, ele recebeu uma ligação e me deixou em casa dizendo que era uma emergência. Eu não me importei, é claro. Emergências acontecem. Só que hoje, quando vocês saíram, a coisa começou a esquentar e quando estávamos no quanto dele, eu estava só de calcinha em cima da cama, ele recebeu uma mensagem e simplesmente me deixou sozinha no quarto, e sem dizer nada veio dar um mergulho na piscina. Eu fiquei mega irritada e vim tirar satisfação com ele. Ai o calhorda me contou que é casado e que a esposa está morando em Portugal, onde ele morava.
- Filha da mãe. Desgraçado. – Falei baixinho.
- Ele veio com um papinho que por mais que amasse a esposa, fazia seis meses que estava aqui sem vê-la e que ele é homem e tem necessidades.
- E resolveu sanar essas necessidades com você? – Eu estava ficando furiosa. – Onde ele está?
- Lá dentro, arrumando as coisas dele. – Ela respondeu, secando as lágrimas que teimavam em cair.
- Deb, me diz que essas lágrimas não são por ele? – Perguntei. A Deb é como uma irmã mais nova que nunca tive, por isso me dói tanto vê-la sofrer.
- Não. É por mim. Pelas minhas escolhas ruins. – Ela me olhou nos olhos antes de continuar a falar. – Porque eu não consigo arrumar um cara descente? Um cara que queira um compromisso e não um casinho? Por quê?
- Eu não sei, meu bem. – Respondi sinceramente, enquanto a puxava para um abraço. - Me dá dez minutos e vou juntar minhas coisas para ir embora contigo.

Ela apenas assentiu e eu corri em direção a casa. Iria levar mais que dez minutos, pois antes eu tinha que falar umas verdades para certo filho da mãe. Quando cheguei próximo a porta, ouvi a voz do Tiago. Parei para ouvir o que ele estava falando.
- Eu não acredito que ela não sabia, Carlos. Porra – Ele esbravejava.
- Eu não contei. Achei que ela era daquele tipo de mulher que só quer se divertir, não importa com quem. – Ele tentou argumentar.
- É só você olhar pra ela e ver que ela não é uma vadia.
- Porra Tiago. Você não viu como ela estava na festa. Vestida pra matar e toda fogosa. Hoje foi a primeira vez que vi como ela realmente é. Por isso que não trepei com ela. Ela é legal e não queria magoá-la.
- Você já pensou se a Jessica fica sabendo? – Tiago perguntou, agora um pouco mais calmo.
- Como minha mulher ia ficar sabendo? Ela está em Portugal e eu aqui.
- Esqueceu que a Rebeca estava na festa? Se ela te viu se agarrando com outra, ela vai contar para a Jessica, afinal elas são irmãs.
- Droga. Você bem que poderia conversar com a Rebeca quando chegar em casa e sondar se ela viu alguma coisa né?!
- Vou ver o que posso fazer, mas em troca você vai lá no trapiche e vai se desculpar direito com a Deb. Ela não merece ser tratada dessa forma.
- Eu sei cara. Eu sei. – Carlos disse.
Estava na hora de eu entrar em cena. No momento em que ele estava virando-se para sair e ir atrás da Deb, eu entrei pela porta.
- Antes de você chegar perto dela, vai ter que me explicar direitinho quem você acha que é para magoar minha amiga. – Falei. Ao fundo pude ouvir o Tiago resmungar um ‘fudeu’.
- Anne, escute. Eu preciso ir me desculpar com ela. Eu sei que fui um babaca, mas acredite que eu nunca quis magoá-la. Eu apenas... Apenas achei que ela fosse outro tipo de mulher e quando percebi que ela era uma boa garota, eu pulei fora antes de fazer uma merda ainda maior.
- Anne, deixe ele ir falar com a Deb. Eles precisam.... – Tiago começou a falar, mas eu o interrompi.
- Você... – Eu disse, apontando um dedo para Tiago. – Fique fora disso se não quiser que sobre pra você. Até porque, você sabia de tudo e não disse nada.
Ele não falou nada, apenas me olhou.
- Se ela derramar mais meia lágrima por causa do que aconteceu, eu juro que te caço e faço você se arrepender do dia que nasceu. – Eu disse, agora apontando meu dedo para o peito do Carlos. – Ela está lá se culpando pelas péssimas escolhas que faz, e sou obrigada a concordar com ela. Então vá lá e a faça entender que a culpa é toda sua, porque você não passa de um babaca traidor.
Carlos assentiu, passando por mim e indo em direção a Deb. Eu segui em direção ao quarto para pegar minhas coisas e ir embora no primeiro barco que passasse.
- Anne... – Tiago sussurrou quando passei por ele.
- Não Tiago. Agora não. Vou embora com minha amiga e não quero falar com você agora.
- Então me procure quando você quiser conversar, pode ser? – Ele perguntou, ainda de costas um para o outro. – Você pode me ligar, ou ir lá no empreendimento onde teve o evento. Meu escritório provisório é lá.
- Está bem. Ficamos combinados assim. Quando eu quiser conversar, eu te procuro. – Eu respondi indo em direção ao quarto.
- Anne, vou te dar dois dias, se nesses dois dias você não me procurar, eu vou atrás de você. – Eu não respondi, então ele continuou. – Ah, Anne... Eu consegui seu endereço com um amigo policial rodoviário, através da placa do seu carro.
Dito isso, ele saiu e foi em direção ao deck da piscina e eu fui arrumar minhas coisas. Estava na hora de voltar pra casa e analisar tudo o que tinha acontecido e sido dito aqui.

Continua Sexta Feira....





2 comentários:

Marcella Ferreira disse...

Ok, estou sem fôlego agora! É uma história tranquila de ler, do jeito que eu gosto, e estou adorando! Ansiosa pelos próximos capitulos :3

Unknown disse...

Obrigada por acompanhar Marcella. Sinta-se a vontade para comentar sempre que quiser. Beijos. :*

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