“não
vou a lugar nenhum sem você”
Eu estava ouvindo a voz do Tiago, mas não
consigo entender o que ele diz. Minha garganta arde, Meu peito e minha cabeça
doem. Não consigo manter meus olhos abertos e sinto meu corpo mole. Achei de
verdade que fosse morrer lá em baixo, mas pelo visto não era minha hora.
Mesmo estando completamente grogue,
percebo que estou sendo carregada. Tiago tem as mãos firmemente colocadas no
meu corpo, de modo que me carrega bem colada ao seu peito. A sensação é
maravilhosa. Sensação de proteção.
Encostei minha cabeça em seu peito e me
deixei levar pelo seu batimento cardíaco. Tum,
Tum, Tum, Tum... Tão rápido. Tão bom. Tão seguro.
- Anne, meu bem. Você consegue ficar em
pé? – Tiago perguntou com voz baixa próxima ao meu ouvido. – Preciso tirar sua
roupa e te dar um banho quente.
- Eu não sei... – Respondi. Não queria que
ele tirasse minha roupa, mas não tinha condições de discutir com ele.
- Tiago, se você quiser posso fazer isso.
- Ouvi Deb falando, me virei e vi ela parada na porta do banheiro, com Carlos
logo atrás. Ambos pareciam preocupados.
- Não Deb, foi minha culpa e vou cuidar
dela. Não vou deixá-la novamente. – Tiago respondeu, enquanto me colocava
delicadamente sobre o balcão da pia e retirava minha camiseta. – Carlos, me faz
um favor. Pega meu celular dentro da minha mochila e liga para o meu pai.
Explica o que aconteceu e pergunta o que é o melhor a fazermos com ela agora.
- Ok, pode deixar. – Carlos disse, indo em
direção ao quarto.
- Eu estou bem, só estou com a garganta
ardendo e o corpo dolorido. – Respondi.
- Nada disso, você engoliu muita água e
depois de te dar um banho, vou te levar para o hospital. Só pedi para o Carlos
ligar para o meu pai, porque como ele é pediatra, vai me dizer como proceder
até chegar lá.
- Hospital não... - Me desesperei. – Não
vou para hospital nenhum... Cof, Cof,
Cof.
- Calma, amor. – Tiago disse, me abraçando
para que eu não caísse enquanto tossia. – Nós só precisamos saber se não tem
água no seu pulmão. Eu vou estar com você.
- Você... vai? – Foi uma mistura de
pergunta com concordância.
- Sim, eu vou.
Depois de alguns minutos falando com seu
pai ao telefone, ele desligou e voltou-se para mim.
- Vamos tomar um banho morno e vamos para
o hospital.
Não foi uma sugestão, seu tom era de
ordem. Porém ele não esperava que eu fosse mais teimosa que criança birrenta.
- Eu já disse que não entro em um hospital
enquanto estiver lúcida. Então ou você terá que me dopar ao ponto de eu perder
a consciência ou nós não vamos à hospital nenhum. – Eu disse encarando-o.
- Ok. Então vamos ter que deixá-la
inconsciente. – Ele me respondeu e depois virou-se para Deb que ainda estava
parada na porta. – Deb, você pode arrumar as coisas da Anne e se tiver alguma
roupa seca para emprestar pra ela eu agradeceria.
- Claro. Eu sempre trago coisas demais,
incluindo roupas.
- Obrigado. Quando sair, feche a porta,
por favor.
Sem dizer mais nada, Deb saiu e fechou a
porta.
Tiago ligou o chuveiro e me ajudou a
descer do balcão da pia do banheiro para poder retirar minha bermuda. Quando eu
estava apenas de biquíni, tentei caminhar para o chuveiro, mas não consegui dar
dois passos antes que Tiago me pegasse no colo e me acomodasse em seu peito. Só
agora percebi que ele estava sem camisa.
- Não preciso disso, pode me soltar –
Digo.
- Precisa sim. Você ainda está fraca. –
Ele fala, enquanto me coloca abaixo do jato de água quente. O calor do jato
d’água nas minhas costas mais o calor do corpo dele colado ao meu, faz com que
as forças e a minha clareza mental retorne.
Estou só de biquíni no colo do Tiago, que
está só de bermudão. Isso não vai prestar.
- Pode me soltar. – Eu insisto. Ele só me olha, etão acrescento. –
Confesse, está fazendo isso só para me apalpar.
Ele sorri.
- Estou fazendo isso por vingança. Quem
mandou tentar me matar. Que ideia foi aquela de me jogar na água?
- Eu vi a oportunidade e não quis
desperdiçar. Só não esperava que você me puxasse junto e que fosse tão fundo.
- Já percebi que você se tornou uma pessoa
que adora correr riscos. – Ele disse amargamente.
Eu sabia do que ele estava falando. Ele se
referia a ele ter me ouvido transando com o Diego no banheiro.
- Me tornei uma pessoa que não tem medo de
ser feliz e aproveitar a vida. Sou maior de idade, vacinada, responsável,
trabalho para pagar minhas contas e não vejo problema nenhum em fazer tudo o
que se tem vontade. Ser feliz em primeiro lugar, porque eu mais do que ninguém
sei que as coisas mudam de um dia para o outro.
- Você se tornou uma mulher tão segura...
- Você não me parece ser um cara inseguro.
Acho que no final das contas, esses doze anos nos fez bem. – Eu não pude olhar
para ele enquanto falava isso, não queria que ele visse o quanto eu mentia.
- Você sempre foi uma péssima mentirosa. –
Ele disse. – Fico feliz de pelo menos isso não ter mudado em você.
- Continuo uma péssima mentirosa e
desastrada na cozinha, mas é só o que resta daquela garota tola que você
conheceu. – Estava na hora dele perceber que sua aproximação não daria em nada.
Eu não era mais aquela Anne. – Tiago, me solte para que eu possa conversar de
verdade com você. Por favor.
Ele me soltou lentamente. Parecia nervoso.
- Anne, antes de termos essa conversa, que
pelo visto vai ser definitiva, me deixe levá-la ao hospital.
- Não, nada de hospitais. – Eu não entro
em hospitais há vários anos e isso não vai mudar agora.
- Me deixe levá-la a um médico, apenas
para alguns exames e depois teremos nossa conversa e te deixarei em paz. Eu
prometo.
- E eu achando que era teimosa. Pobre de
mim. Você me superou. – Resignei-me. Não adianta teimar com ele. – Mas nada de
hospitais. Posto de saúde ou clinica médica. Hospital não.
- Tudo bem, nada de hospitais. – Ele
sorriu e seu sorriso teve efeitos em minha barriga. – Vamos sair do banho?
Depois de nos vestirmos, vou levá-la ao médico mais próximo, assim podemos
deixar a nossos amigos sozinhos por algum tempo para que eles possam relaxar a
tensão do seu quase afogamento.
Eu estraguei o programinha relax da Deb,
precisava retribuir de alguma forma, como por exemplo, deixando a casa inteira
para eles pelo resto da tarde.
- Coitados, eu estraguei o domingo deles.
Vou ter que dar um belo presente para Deb, como pedido de desculpas...
Eu estava falando e começando a secar meus
cabelos, quando me abaixei para secar as pernas, senti uma tontura muito forte
e me desequilibrei. A minha sorte é que Tiago estava observando meus movimentos
e conseguiu me segurar antes que eu caísse.
- Anne, você está bem? – Ele estava
preocupado novamente. – Você está pálida.
- Não foi nada. Apenas uma tontura.
Ele não me respondeu, apenas me pegou no
colo e saiu do banheiro em direção ao quarto, deixando um rastro d’água pelo
caminho, já que ele não tinha começado a se enxugar.
-Debbbbbb... – ele gritou. Ela apareceu em
segundos. – Jogue algumas toalhas na cama, por favor. Não quero molhar todo o
colchão.
-Você está bem Anne? – Ela me perguntou
preocupada. – Está parecendo uma vela de tão branca.
- Ela teve uma tontura forte enquanto se
secava no banheiro e quase caiu.
- Tiago, não seja exagerado. Eu apenas me
desequilibrei, o que não é nenhuma novidade para mim. Se você soubesse quantos
tombos eu tomei na vida por ser estabanada. – Falei em tom de brincadeira, para
aliviar o clima. Não gosto das pessoas com pena de mim.
- Pronto, coloquei três toalhas para
garantir que não molhe o colchão. – Disse Deb. – E Anne, segundo o pai do
Tiago, tontura depois de um afogamento é normal, mas não pode ser menosprezado.
- Obrigada querida enfermeira. –
Resmunguei para ela. – Enfermeira eu adoraria tomar um copo de algo bem gelado.
Qualquer coisa, desde que esteja bem gelado.
- Tá. Vou buscar para você.
Quando ela saiu e fechou a porta, eu me
virei para o Tiago e o encarei.
- Agora você já pode me por na cama e sair
para que eu possa me trocar. Prometo que não vou me enforcar com a camiseta da
Deb.
- Nem pensar. – Ele estava franzindo a
testa e fazendo beicinho, como fazia quando era pequeno e estava contrariado. -
Já disse que não vou a lugar algum. Vou
te secar e você vai por a roupa da Deb por cima do biquíni. A não ser que
queria tirá-lo enquanto eu te seco, garanto que eu não iria me opor.
- Hahaha. Muito engraçadinho. Poucas são
as pessoas que tem o privilégio de ver meu corpo nu, e você não é uma delas.
Ele riu. Pensei ter o ouvido dizer ‘por
enquanto’, mas quando fui discutir com ele, acabei me distraindo com o contato
do nosso corpo na hora dele me por na cama. Ele me colocou deitada em cima das
toalhas e se sentou ao meu lado para secar meus pés. O contato das mãos deles
por cima da toalha, massageando meu pé enquanto me secava surtiu efeitos
contrários ao relaxamento que ele queria que eu sentisse.
Ele estava me tratando como se eu fosse um
bebê e após secar meus pés ele começou a secar minha panturrilha. Quando chegou
ao joelho e subia em direção a minha coxa eu suspirei e segurei sua mão.
Sentando-me na cama, o encarei e vi seus olhos ardendo de desejo.
- Não faz isso Tiago. Isso não nos levará
a lugar nenhum. – Tentei parecer o mais convicta possível, mas minha voz estava
tremula e aposto como meus olhos também refletiam o mesmo desejo que ele estava
sentindo.
- Você tem razão. Eu não posso. – Ele
disse, ao mesmo tempo em que continuava a secar minhas coxas, subia e secava
minha barriga.
Mesmo tendo a tolha entre a mão dele e
minha pele, a sensação de ser tocada e acariciada por ele veio forte demais e
me assustei com a reação que meu corpo estava tendo. Quando sua mão começou a
subir em direção ao vale entre meus seios, segurei novamente sua mão.
- Tiago, eu estou adorando ser mimada, mas
posso fazer isso sozinha.
- Eu sei que você pode, mas estou adorando
conhecer as curvas do seu corpo. – Quando ele disse isso, um arrepio percorreu
todo meu corpo. Seus olhos se fixaram nos meus e aos poucos ele começou a se
aproximar – Aos dezesseis anos você já era linda, mas hoje você está maravilhosa.
É tentação demais pra mim. Ta muito difícil de resistir e não fazer isso...
No instante que seus lábios tocaram os
meus, todos os pensamentos coerentes, como o fato dele ser quem era, dele ter
me abandonado, dele ter voltado apenas agora, de eu ter muita coisa que
precisava contar à ele, tudo desapareceu da minha mente. A única coisa que eu
fazia, era sentir. Sentir a textura dos seus lábios, sua língua, sentir seu
cheiro, sentir sua mão na minha nuca me puxando para mais perto, sentir a forma
como ele estava me beijando, tão, tão... Tão Tiago... Nada descreve esse beijo.
Delicado e agressivo, amoroso e raivoso, tudo em um único beijo.
Enquanto nos beijamos com sofreguidão, ele
tem uma mão em minha nuca e a outra está passeando pelas curvas do meu corpo
enquanto as minhas próprias mãos estão divididas entre puxá-lo pelas costas ou
segurar em seu cabelo. Sinto meu corpo voltando para a posição deitada que
estava até momentos atrás, mas agora eu tenho o corpo do Tiago acima do meu.
Pena que nosso momento quente é
interrompido quando Deb entra no quarto com um copo de suco.
- Desculpa a demora, mas fui espremer as
laran... Desculpe, continuem. Eu não estive aqui. – Ela saiu na mesma rapidez
com que entrou, mas levou com ela o clima que havia antes da sua chegada.
Tiago não esperou nem a portar terminar de
fechar e já estava do lado oposto do quarto, como se eu fosse um bicho feroz
que iria devorá-lo. Sem camisa, de costas pra mim e com as mãos na cabeça,
todos os músculos das costas tensionados... Meu Deus... Essa visão me deixou
febril. Sim, eu tenho uma tara por costas masculinas e as costas dele são
maravilhosas.
- Já que você disse que consegue se vestir
sozinha. – Ele começou a dizer, ainda de costas para mim. – Você pode terminar
de se vestir e vamos sair daqui no próximo barco para a Lagoa.
Dito isso, ele saiu e fechou a porta, me
deixando atônica com o que um simples amasso com ele fez com meus sentidos. Eu
estou excitada, frustrada e irada comigo mesma. Isso não vai ficar assim. Não
vai mesmo.
Dez minutos depois eu estava pronta. A
garganta ainda estava ardendo, mas a tontura, a dor na barriga e no peito
diminuíram.
Peguei minha bolsa e verifiquei meu
celular. Havia uma mensagem do Diego.
Oi
linda. KD você?
Achei estranha a mensagem. Diego nunca é
de me perguntar onde eu estou, ele sempre me manda mensagens para sairmos, ou
para ligar pra ele ou sobre as apresentações. Respondi.
Oi
querido. Na Costa da Lagoa com a Deb. Pq?
Cinco segundos depois ele me responde.
Só
vocês duas?
Agora eu entendi menos ainda. Qual o
problema dele?
Não.
Vai me dizer o pq de tantas perguntas?
Era só o que me faltava. Diego com uma
crise de ciúmes.
Por
nada, mas de qualquer forma, manda um abraço para o Tiago e diz que ele
acertou.
Oi? Abraço para o Tiago? Ele acertou? O
quê? Como ele sabe que estou aqui com o Tiago? Eu preciso de mais informações.
Explique-se,
por favor.
Eu esperava qualquer resposta dele, menos
essa.
Me
liga quando voltarem do passeio romântico de casais, que conversamos.
Estou prevendo tempestades à frente.
Senhor, daí-me força e paciência.
***
Vinte minutos depois eu estava com Tiago
no posto de saúde da Costa da Lagoa. Ele insistiu em me levar a um médico
particular, mas eu bati o pé que não era preciso e que não iria gastar dinheiro
com uma consulta uma vez que eu já estava me sentindo bem e só estava indo ao
médico para que ele parasse de torrar minha paciência.
Minutos depois fui atendida por uma médica
muito simpática que me examinou e constatou o que eu já vinha dizendo ao Tiago:
Eu estava bem. Preciso apenas ficar atenta se os enjôos persistirem ou se eu
voltar a sentir tonturas. No mais, eu estava bem e aparentemente sem água nos
meus pulmões, o que era o medo do Tiago.
Quando saímos do posto de saúde,
caminhamos lado a lado até o ponto para esperar o barco que nos levaria de
volta para a casa do Carlos. A presença dele ao meu lado aumenta o calor que
estou sentindo, com a diferença que enquanto o sol queima minha pele, a
presença do Tiago me aquece por dentro e me deixa nervosa.
Após chegarmos ao trapiche que servia de
parada para o barco, sentei no pequeno banco de madeira que há no trapiche,
enquanto Tiago caminhou até a beirada do trapiche e sentou-se, colocando os pés
na água. Mesmo sabendo que devia manter a distancia dele, não resisti a me
aproximar e sentar ao seu lado. Ele era como um imã que me atraia para perto
dele, mesmo contra a minha vontade.
- Sente-se lá Anne, não quero ver você
assim tão perto da água novamente. – Ele disse olhando pra mim e logo voltando
a olhar para o mar. Dava para perceber que ele estava tenso, eu só queria saber
porque.
- Você sabe que sou bem grandinha, né? –
Eu disse brincando, dando um leve empurrão com meu ombro no ombro dele. –
Tiago, você quer que eu te peça desculpa por você ter me puxado com você para a
água e por eu ter me afogado?
- Não Anne, eu só quero ter a certeza que
você não vai se matar. O que você estava pensando para me empurrar na água?
- Eu estava frustrada com você e pensei
que você precisava dar um mergulho. - Neste momento ele virou para me olhar,
agora que ele estava prestando atenção, eu podia falar algumas coisas. – Tiago,
desde sempre você foi um imã pra mim, eu não posso estar no mesmo lugar que
você, sem querer estar ao seu lado. Só que agora, depois que você voltou, as coisas
não podem ser como eram antes. Eu preciso seguir minha vida e você a sua...
- Você acha que eu não sei disso, Anne?
Você acha que eu não gostaria de sair da sua vida definitivamente e deixar você
ser feliz? – Sua voz era séria como eu nunca tinha ouvido antes e pelos gestos
dele, passando a mão pelos cabelos, eu podia dizer que ele estava se
controlando para não explodir. – Você sabe o que eu senti quando te ouvi
transando com outro cara? Eu queria entrar naquele banheiro e matar ele, mesmo
depois de doze anos, eu ainda sinto ciúmes de você. Isso não é normal. Sei que
você tem um relacionamento com o Diego, mas eu não posso me controlar quando
estou ao seu lado. Eu sinto que você é minha e isso está me levando à loucura,
porque você está com ele e eu... Eu só não posso ficar com você.
Ao ouvir ele dizer que não pode ficar
comigo, meu coração parou e acelerou ao mesmo tempo. Na hora que nos beijamos,
ele disse também disse que não podia. Será
que o Tiago é comprometido?
- Você está comprometido? – Perguntei
quase sussurrando, olhando pra ele e rezando para que ele falasse que não.
- É complicado, Anne. - Ele disse, se
levantando e começando a caminhar pelo trapiche.
- É complicado? Como assim complicado? Ou
você está ou você não está. Não existe complicação nisso. – Falei, levantando e
ficando frente a frente com ele.
- E você? Está comprometida? - Ele
perguntou, nitidamente mudando de assunto.
- Não. Não estou. Diego é só um amigo com
benefícios.
- Amigo com benefícios? – Ele riu
amargamente - Isso só se for para você, porque pra ele, você é mais do que isso.
- Que bom que você tocou no nome dele, ele
pediu para te dizer que você estava certo. – Tiago tentou conter um sorriso,
mas foi inútil. – O que diabos ele quis dizer sobre com isso?
Ele me olhou, mas não me respondeu. Me deu
as costas e fitou o horizonte, parecia pensar. Meu Deus. Era muito assunto pela
metade.
- Tiago. Vamos fazer assim. – Eu comecei a
falar antes que ele me respondesse, fazendo- o virar-se novamente para mim. –
Vamos por partes. Está ficando muita conversa inacabada porque você
simplesmente muda de assunto.
- Eu sabia que você não ia deixar o
assunto pra depois. – Ele disse balançando a cabeça. – Posso começar a falar do
inicio então? Posso te contar o porque eu fui embora naquele dia? – Ele falou
melosamente enquanto acarinhava meu rosto.
- Você está tentando me amolecer como você
fazia quando éramos pequenos. – Disse, lembrando das várias vezes que ele me
entregava uma flor antes de me dizer alguma coisa que eu não ia gostar.
- Pena que uma flor não será o suficiente
pra te amolecer dessa vez. – Ele soou triste quando disse isso e meu coração se
apertou ao som de sua voz.
- Ok, Tiago. Comece pelo nosso fim. – Eu
disse, me sentando novamente na beirada do trapiche e colocando meus pés na
água.
- Não sei como começar, mas vou tentar te
contar tudo sem resumir nada. - Ele disse, voltando a se sentar ao meu lado. -
Naquela noite, eu te disse que quando tivemos aquela briga era porque eu estava
de cabeça quente e tinha visto meus pais brigando, mas eu não te contei o
porque eles estavam brigando e hoje, olhando o que aconteceu, acho que eu
deveria ter te contado. Bem ou mal, você faz parte disso tudo e não é justo
você ficar sem saber de nada. Eu falei com seu pai esses dias...
- Calma, não estou entendendo nada. Vamos
por partes. Eu faço parte do motivo que te fez ir para Portugal? Como? E quando
você falou com meu pai? - Eu estava completamente confusa.
- Falei com seu pai ontem, enquanto te
esperava e você não vinha. – Ele falou com amargor na voz. – Mas isso não tem
importância agora, acho que você precisa saber de tudo.
- Então desembucha, fala de uma vez porque
agora estou curiosa. – Falei olhando para ele, mas ele estava olhando para
frente, como se não conseguisse me olhar enquanto falava o que eu precisava
saber.
- Você lembra que disse que meu pai e
minha mãe estavam brigando? Então, minha mãe descobriu que meu pai a estava
traindo e para piorar tudo, ele traia ela com a sua mãe, Anne.
- O que? – Eu só posso estar com água no
ouvido e não ter ouvido direito. – Não, imagina. Minha mãe nunca faria isso.
- Mas fez, Anne. Minha mãe encontrou os
dois juntos na nossa casa. Depois disso minha mãe quis se separar do meu pai,
brigou feio com sua mãe e resolveu que nós dois iríamos embora. Quando nossas
coisas estavam todas arrumadas, eu disse que não iria com ela, que queria morar
com meu pai naquela casa, porque eu estava apaixonado por você. - Ele parou de
falar e me deu um breve olhar, como se para conferir se eu ainda estava
ouvindo. Sim eu estava ouvindo tudo. – Você pode imaginar como minha mãe ficou,
o marido tendo um caso com a melhor amiga dela e o filho apaixonado pela filha
da melhor amiga traidora. Ela chorou, gritou e conversou com meu pai, ele jurou
que não aconteceu nada demais entre ele e sua mãe, que foi apenas um beijo e
minha mãe acreditou, mas em troca do seu perdão ela exigiu que nós nos
mudássemos para bem longe dali. Foi nessa hora que eu sai de casa, porque meu
pai aceitou essa proposta. Os dois estavam decidindo minha vida sem se importar
com a minha opinião. O que eu não soube naquele dia, porque sai de casa antes,
é que meus pais conversaram e fizeram um acordo, a partir daquele momento o
casamento deles seria apenas de fachada. Minha mãe era dona de casa e não tinha
como se sustentar e meu pai era um médico que iria precisar passar a impressão
de família feliz se quisesse se dar bem no hospital de Portugal para onde ele
foi convidado a trabalhar meses antes e que só aceitou por tudo o que aconteceu
naquela noite.
Quando te encontrei, descontei tudo em
cima de você, mas no fundo eu estava implorando para que você percebesse que eu
estava sofrendo pelo tanto que eu te amava e estava sendo obrigado a te deixar.
Depois que brigamos, voltei para casa e
conversei com meu pai, implorei, chorei, ameacei e nada adiantou. O máximo que
consegui foi um acordo. Eles esperariam até a festa da Amanda, assim eu poderia
me despedir de todos os meus amigos antes de ir embora. Porém minha ideia era
falar com você, contar pra você tudo. E foi isso que eu fiz, contei tudo o que
eu sabia.
- E porque você foi embora? - Perguntei
quase que em um sussurro.
- Porque minha mãe ligou no meu celular e
eu não atendi, ai ela ligou para o telefone fixo da casa de praia da Amanda.
Eram quase seis da manhã quando o pai da Amanda entrou no quarto em que
estávamos, me acordou e disse que minha mãe estava na sala me esperando
furiosa. Só o que sei é que ela ligou no meio da festa me procurando e alguém
disse que eu estava no quarto transando com você e ela ficou fora de si. Meu
pai tentou acalmá-la, fazê-la esperar que eu chegasse em casa, mas não adiantou
e ela foi me buscar. Quando eu desci, ela estava louca de raiva, dizendo que
nós estávamos indo para o aeroporto imediatamente e que eu não deveria ter me
envolvido com você, e blá blá blá. Eu não queria que ela descontasse em você a
raiva que sentia da sua mãe, por isso voltei para o quarto para pegar minhas
coisas enquanto o pai da Amanda conversava com minha mãe.
- Eu queria ter tido tempo de tirar uma
foto sua antes de ir, mas mal tive tempo de te escrever aquele bilhete, te dar
um beijo e ir embora da tua vida. – Ele me olhou nos olhos antes de completar.
- Fechar aquela porta foi a coisa mais difícil que eu fiz na minha vida, mas eu
precisava deixar você ser feliz.
- Me deixar ser feliz? – Perguntei,
ficando totalmente enfurecida com tudo o que ele estava falando. – Você acha
que fui feliz depois que você foi embora? Você não sabe por tudo que passei por
sua causa. – Berrei
- Não. Eu não sei. – Ele disse, se
inclinando para ficar mais próximo de mim. – Me conta Anne. Me diz o que
aconteceu depois que eu fui embora. Eu quero saber.
- Agora é tarde, Tiago. Você não vai poder
fazer o tempo voltar. – Eu respondi, me inclinado para trás enquanto ele inclinava-se
mais para frente.
- Pare Anne, antes que você caia na água
novamente.
- Então pare de se aproximar. – Eu disse,
encarando-o
- Porque você foge de mim assim? – Ele me
pergunta, devolvendo o meu olhar.
- Não sou a pessoa que costuma fugir,
aqui.
- Você nunca vai me perdoar? - Ele parecia
realmente arrependido.
- Eu já te perdoei, mas não vou esquecer
nunca. Por mais que eu tente. – Ele não pareceu acreditar em mim, mas respeitou
minha resposta e não argumentou mais.
Eu precisava me afastar dele nesse
momento. Os olhos verdes dele eram idênticos aos da nossa filha. Só ele que não
sabia disso, mas eu não estava em condições de falar com ele sobre a Clara
agora. Essa seria mais uma conversa que ficaria para outro momento.
Alguns minutos depois, minutos nos quais
ficamos em completo silêncio, um barco surgiu para nos levar de volta para a
casa do Carlos.
Ao chegar lá, encontrei Deb com as suas
coisas arrumadas, parada no trapiche a espera de um barco. Quando descemos, ela
me abraçou e soluçou baixinho.
- Porque eu tinha que nascer com esse dedo
podre, Anne? - Ela choramingou no meu ombro.
Fiz um gesto com a cabeça indicando para o
Tiago nos deixar sozinhas.
- O que aconteceu, Deb? – Perguntei a ela,
enquanto acariciava suas costas e tentava acalmá-la.
- Ai, Anne. – Ela gemeu e se afastou de
mim.- Eu cheguei a conclusão que não tenho apenas o dedo podre para escolher um
cara, eu tenho a mão inteira.
Era nesses momentos que meus três anos a
mais que a Deb e todas as minhas experiências ruins ajudavam. Desde que eu a
conheço, ela sempre fez escolhas ruins de namorados. Ela sempre se envolvia com
caras que estavam interessados 100% em sexo e 0% em um relacionamento sério, e
meu sexto sentido estava me dizendo que o Carlos não era muito diferente dos
caras anteriores.
- O que o Carlos fez, querida? – Falei com
uma voz baixa. – Me conte para que eu possa ir lá e quebrar a cara dele. Você
sabe que eu faço isso, né? Lembra do Denis?
Ela sorriu levemente.
- Claro que lembro. Você bateu nele por
ter me ofendido enquanto eu estava no banheiro. Você nunca me disse o que ele
falou para que você jogasse o copo de bebida e depois dar aquela joelhada nele.
É, eu nunca falei pra ela o que aquele
babaca tinha dito dela para os amigos.
Estávamos em uma balada e a Deb estava saindo
a alguns dias com esse tal de Denis. Pelo que ela me contou, eles ainda não
tinham ido pra cama, apenas ido ao cinema e à praia, mas o tal já estava
tentando avançar o sinal e ela ainda não estava preparada.
Quando voltei do bar onde tinha ido buscar
uma bebida, ela havia ido ao banheiro e o Denis estava conversando com dois
amigos, falando que a Deb era uma gostosa e que de hoje não iria passar para
levá-la pra cama, nem que pra isso tivesse que dar um ‘boa noite cinderela’
nela. “Uma vadiazinha dessa não pode ficar fazendo doce por tanto tempo”, foi a
ultima coisa que ele falou antes de sentir minha bebida escorrer pela cabeça
dele. Quando ele e os amigos se viraram para ver quem havia feito aquela
loucura e ele me viu, percebi que ficou com raiva, mas que não queria discutir
com a melhor amiga da garota que ele queria levar pra cama. O que ele não
esperava era o meu ataque de fúria.
Sou uma pessoa calma, mas nunca mecha com
as pessoas de quem eu gosto, porque eu me transformo. E o Denis descobriu isso
quando enfiei o dedo no peito dele e comecei a gritar a plenos pulmões que ele
era um babaca estúpido e de outros adjetivos nada lisonjeiros. Porém a coisa
ficou realmente feia, quando ele segurou meu braço e me chamou de putinha
louca. Nessa hora eu me acalmei o suficiente para chegar bem perto dele, que
ainda segurava meu braço e responder:
- Em primeiro lugar, nunca segure meu
braço. – Disse e logo fiz com que ele soltasse o meu braço usando um movimento
que aprendi na aula de defesa pessoal. Colocando-me atrás dele com o braço dele
contra suas costas – Em segundo lugar, putinha louca deve ser a sua irmã. –
Disse, erguendo o braço dele mais um pouco e fazendo ele gemer. - E em terceiro
e ultimo lugar, nunca mais se aproxime de mim ou da Deb, seu porco imundo. –
Finalizei, empurrando-o e largando seu braço.
Eu tinha me virado para sair e ir ao
encontro da Deb, quando ele segurou meu cabelo e me puxou de volta, eu não
pensei duas vezes, virei e acertei uma joelhada com toda a minha força bem no
meio das pernas dele. Foi instantâneo. Ele soltou meu cabelo e caiu no chão,
com as mãos entre as pernas. No instante em que ele começou a se levantar, os
seguranças do local chegaram perguntando se havia algum problema. Olhei bem na
cara do Denis e respondi “Esse verme tentou abusar de mim e se deu mal. Todo
mundo viu.” Não precisei falar duas vezes, os seguranças os convidaram a se
retirar.
Só nesse instante que vi a Deb, parada a
poucos metros me observando, ela tinha visto toda a cena. Corri pra ela e disse
o que tinha acontecido, apenas não dei muitos detalhes do que tinha ouvido. Não
queria ver minha amiga chorando e sofrendo por um idiota que não merece nem
lamber o chão por onde ela passa.
- Não contei e não vou contar, já não
importa mais. – Eu disse para Deb. Era hora de resolver o problema do agora. O
que já passou, não volta mais e isso devia servir para mim também. – Agora me
conte o que aconteceu.
- Não sei por onde começar, mas pra
resumir... O Carlos é comprometido. – Ela falou rápido.
- Comprometido?
- Sim. No dia da festa, quando saímos e
estávamos indo aproveitar a noite, ele recebeu uma ligação e me deixou em casa
dizendo que era uma emergência. Eu não me importei, é claro. Emergências
acontecem. Só que hoje, quando vocês saíram, a coisa começou a esquentar e
quando estávamos no quanto dele, eu estava só de calcinha em cima da cama, ele
recebeu uma mensagem e simplesmente me deixou sozinha no quarto, e sem dizer
nada veio dar um mergulho na piscina. Eu fiquei mega irritada e vim tirar
satisfação com ele. Ai o calhorda me contou que é casado e que a esposa está
morando em Portugal, onde ele morava.
- Filha da mãe. Desgraçado. – Falei
baixinho.
- Ele veio com um papinho que por mais que
amasse a esposa, fazia seis meses que estava aqui sem vê-la e que ele é homem e
tem necessidades.
- E resolveu sanar essas necessidades com
você? – Eu estava ficando furiosa. – Onde ele está?
- Lá dentro, arrumando as coisas dele. –
Ela respondeu, secando as lágrimas que teimavam em cair.
- Deb, me diz que essas lágrimas não são
por ele? – Perguntei. A Deb é como uma irmã mais nova que nunca tive, por isso
me dói tanto vê-la sofrer.
- Não. É por mim. Pelas minhas escolhas
ruins. – Ela me olhou nos olhos antes de continuar a falar. – Porque eu não
consigo arrumar um cara descente? Um cara que queira um compromisso e não um
casinho? Por quê?
- Eu não sei, meu bem. – Respondi
sinceramente, enquanto a puxava para um abraço. - Me dá dez minutos e vou
juntar minhas coisas para ir embora contigo.
Ela apenas assentiu e eu corri em direção
a casa. Iria levar mais que dez minutos, pois antes eu tinha que falar umas
verdades para certo filho da mãe. Quando cheguei próximo a porta, ouvi a voz do
Tiago. Parei para ouvir o que ele estava falando.
- Eu não acredito que ela não sabia, Carlos.
Porra – Ele esbravejava.
- Eu não contei. Achei que ela era daquele
tipo de mulher que só quer se divertir, não importa com quem. – Ele tentou
argumentar.
- É só você olhar pra ela e ver que ela
não é uma vadia.
- Porra Tiago. Você não viu como ela
estava na festa. Vestida pra matar e toda fogosa. Hoje foi a primeira vez que
vi como ela realmente é. Por isso que não trepei com ela. Ela é legal e não
queria magoá-la.
- Você já pensou se a Jessica fica
sabendo? – Tiago perguntou, agora um pouco mais calmo.
- Como minha mulher ia ficar sabendo? Ela
está em Portugal e eu aqui.
- Esqueceu que a Rebeca estava na festa?
Se ela te viu se agarrando com outra, ela vai contar para a Jessica, afinal
elas são irmãs.
- Droga. Você bem que poderia conversar
com a Rebeca quando chegar em casa e sondar se ela viu alguma coisa né?!
- Vou ver o que posso fazer, mas em troca
você vai lá no trapiche e vai se desculpar direito com a Deb. Ela não merece
ser tratada dessa forma.
- Eu sei cara. Eu sei. – Carlos disse.
Estava na hora de eu entrar em cena. No
momento em que ele estava virando-se para sair e ir atrás da Deb, eu entrei
pela porta.
- Antes de você chegar perto dela, vai ter
que me explicar direitinho quem você acha que é para magoar minha amiga. –
Falei. Ao fundo pude ouvir o Tiago resmungar um ‘fudeu’.
- Anne, escute. Eu preciso ir me desculpar
com ela. Eu sei que fui um babaca, mas acredite que eu nunca quis magoá-la. Eu
apenas... Apenas achei que ela fosse outro tipo de mulher e quando percebi que
ela era uma boa garota, eu pulei fora antes de fazer uma merda ainda maior.
- Anne, deixe ele ir falar com a Deb. Eles
precisam.... – Tiago começou a falar, mas eu o interrompi.
- Você... – Eu disse, apontando um dedo
para Tiago. – Fique fora disso se não quiser que sobre pra você. Até porque,
você sabia de tudo e não disse nada.
Ele não falou nada, apenas me olhou.
- Se ela derramar mais meia lágrima por
causa do que aconteceu, eu juro que te caço e faço você se arrepender do dia
que nasceu. – Eu disse, agora apontando meu dedo para o peito do Carlos. – Ela
está lá se culpando pelas péssimas escolhas que faz, e sou obrigada a concordar
com ela. Então vá lá e a faça entender que a culpa é toda sua, porque você não
passa de um babaca traidor.
Carlos assentiu, passando por mim e indo
em direção a Deb. Eu segui em direção ao quarto para pegar minhas coisas e ir
embora no primeiro barco que passasse.
- Anne... – Tiago sussurrou quando passei
por ele.
- Não Tiago. Agora não. Vou embora com
minha amiga e não quero falar com você agora.
- Então me procure quando você quiser
conversar, pode ser? – Ele perguntou, ainda de costas um para o outro. – Você
pode me ligar, ou ir lá no empreendimento onde teve o evento. Meu escritório
provisório é lá.
- Está bem. Ficamos combinados assim.
Quando eu quiser conversar, eu te procuro. – Eu respondi indo em direção ao
quarto.
- Anne, vou te dar dois dias, se nesses
dois dias você não me procurar, eu vou atrás de você. – Eu não respondi, então
ele continuou. – Ah, Anne... Eu consegui seu endereço com um amigo policial
rodoviário, através da placa do seu carro.
Dito isso, ele saiu e foi em direção ao
deck da piscina e eu fui arrumar minhas coisas. Estava na hora de voltar pra
casa e analisar tudo o que tinha acontecido e sido dito aqui.
Continua Sexta Feira....



2 comentários:
Ok, estou sem fôlego agora! É uma história tranquila de ler, do jeito que eu gosto, e estou adorando! Ansiosa pelos próximos capitulos :3
Obrigada por acompanhar Marcella. Sinta-se a vontade para comentar sempre que quiser. Beijos. :*
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